Nossa História
3 Nossa História - Ato 03
Notas iniciais
Perambulando pela cidade, Aioros encontrou um estabelecimento de comidas típicas do país. Um pequeno restaurante ao ar livre. Aproveitou e correu para dentro, desejando experimentar o melhor prato que lá tivesse. Olhando o cardápio, as opções eram carcamusas, cozido madrileno, sopa castelhana, fabada austuriana... Dentre muitas outras que faziam o estômago do grego roncar forte, lembrando-o da fome. Pediu carcamusa, uma comida preparada com carne de porco, mas que poderia ter uma variante com carne bovina. Espanhóis tinham alimentos muito interessantes na opinião dele, a mais inusitada seria Rabo de Touro. A qual nunca se atreveu a degustar, porém sempre havia uma primeira vez para tudo.
Esperando o seu almoço, Sagitário perdeu-se em lembranças. Relembrou os dias em que ele cozinhava um prato espanhol a cada quatro dias, só para agradar o pequeno Shura e que o fizesse sentir que a Grécia podia ser seu lar. Aioros fazia de tudo para agradar aquele menino tímido e especial. Desde muito novo, o menor tinha um grande senso de justiça e constantemente demonstrava isso. Defendia os mais fracos, brigava com quem destratava animais indefesos e odiava ver crianças sozinhas, principalmente. Sempre observando as ações alheias e atento à todas elas. Quando notava algo errado, dizia “Isso não é justo.” geralmente com uma voz rouca e chorosa, pois na época não tinha forças o suficiente para mudar nada.
— É, ele cresceu... Mas no fundo continua o mesmo garotinho frágil que encontrei sozinho, sentado em uma rocha desejando algo às estrelas... – Aioros suspirou e sorriu terno. – Até hoje ainda não sei o que se passava na cabeça dele naquele dia. Só sei que ele parecia muito triste...
O grego não negava que adorava Shura. Adorava até demais para um melhor amigo e por muito tempo acreditou que fosse por que o amava como um irmão. E irmãos brigam, se desentendem e falam que se odeiam. Mas em questão de minutos ou até segundos estão alí, rindo juntos outra vez. E Aioros sentia falta disso. Aiolia era muito novinho e Shura estava ao seu lado quase 24 horas por dia. Era o seu companheiro de treino e brincadeiras bobas. O que mais gostavam de fazer juntos era observar o céu. O futuro Cavaleiro de Capricórnio se fascinava pelas histórias contadas pelo mais velho. Não estava familiarizado com os mitos gregos, mas por causa do alegre sagitariano aprendeu todos. Até mesmo os costumes e o idioma. Tudo foi Aioros quem lhe ensinou.
— O que será que aconteceu? – Aioros se perguntou – Não guardo ressentimento pelo o que houve... Ele não teve culpa. Depois de tanto tempo, achei que ficaria feliz em me ver de novo. Às vezes ele age normal, outras não... Quando falo certas coisas ele se cala ou simplesmente dá um jeito de sumir.
Sagitário falava sozinho, resmungando. Para as demais pessoas no restaurante, ele parecia um louco. Mas que importância teria isso diante do que corria na cabeça do grego? Era uma grande confusão cuja solução se distanciava cada vez mais. Enfim seu almoço chegou à mesa. Por um breve instante seus pensamentos se dissiparam e seu alvo era unicamente o suntuoso e suculento prato de carcamussas. Sentiu sua barriga agradecer por tal dádiva e prontamente se serviu.
Ele nunca foi de seguir por uma linha reta, digamos. Por onde andava, sempre parava para fazer coisas que julgasse interessantes. Como provar novas comidas ou ficar horas admirando algo. Em todas as missões que executara, por mais bem sucedidas que tenham sido, Sagitário constantemente se distraía. Com o tempo ele passou a dar prioridade a sua responsabilidade, mas se não fosse por esse seu jeito moleque de ser ele não teria encontrado Shura. E assim Aioros se lembrou de tal episódio com muito carinho, como se tivesse sido no dia anterior.
Era um dia muito quente. O clima espanhol estava castigando os moradores daquela cidadezinha humilde. O contraste era bem significante. Quando não se viam lindas casas, de pinturas e decorações bonitas apesar de simplórias, eram as pequenas e rachadas que chamavam atenção dos olhares estranhos. Um pouco mais a frente se situava a área rural pertencente à cidade. As fazendas eram de criações de gado, cavalos, ovelhas, cabras, porcos ou eram somente particularizadas no cultivo de plantas medicinais. Mais tarde Aioros descobriu que eram essas fazendas as responsáveis pela maior parte do sustento da cidade.
O jovem se comovia olhando tudo naquele lugar. Apesar das dificuldades, todos ali sorriam. Eles eram felizes. E para um Cavaleiro recém-formado como ele, era incrível presenciar essa maneira de viver. Era por isso que ele deveria zelar: A felicidade das pessoas da terra. Mesmo sendo avoado, era detentor de um enorme coração e seria capaz de fazer tudo pelos seres vivos. Quando anoiteceu, esfriara subitamente. Uma mudança muito brusca, por sinal. Trazendo preguiça para o pequeno dourado. Porém não podia esquecer-se de sua obrigação.
Protegido pela escuridão da noite, o jovem seguiu sua busca. O frio se mostrou bem agradável e adequado. No calor do dia seria impossível e incômodo. Odiava ter que fazer coisas quando o clima estava assim. Dava a desculpa de que iria derreter, fazendo um pequeno drama. Mas era só de pirraça, afinal seu mestre também era o seu pai e o garoto não perdia oportunidade de dar trabalho para o velho (não tão velho assim). Era o seu jeito divertido e único de dizer que amava o pai e que tinha respeito por ele. E além do mais, não estava ventando antes do anoitecer. Seria insuportável para um garoto de mais ou menos dez anos de idade percorrer os arredores daquele jeito. Ele podia ser um Cavaleiro de Athena, mas ainda assim era uma criança.
E durante essas andanças noturnas, entre reclamações de seu estômago e consciência (sim, ele podia se distrair como for, mas o seu grilo falante fazia questão de lembrá-lo de seus deveres) ele encontrou um garotinho, sentado em uma rocha no meio da friagem, olhando fixamente para o céu. O que um menininho estaria fazendo naquele lugar, no frio, sozinho e tão tarde da noite? Era perigoso. E o grego arriscou ir até ele. Porém sua boa intenção foi também muito atrapalhada. Chegou por trás do garotinho e quando começou a falar, alto diga-se de passagem, o espanholzinho deu um gritou enquanto pulava, ou melhor caía da pedra e virava apavorado para ver de onde aquela voz estranha tinha surgido a medida que fugia para se esconder atrás de uma árvore próxima.
Talvez o pequeno tivesse ficado curioso ao perceber que o verde de seus olhos era o mesmo do garoto-sorriso, que por alguma razão usava uma armadura esquisita a sua frente. Pôde constatar isso pelo brilho refletido neles por causa da luz do luar e de alguns postes da estrada próxima. Contudo o mais impressionante: Ele tinha asas douradas.
— Oi, meu nome é Aioros! Qual é o seu? – O grego perguntou, esboçando um sorriso de orelha a orelha em seu rosto. Atropelando palavras em espanhol e arrastando o grego de maneira que o menino assustado demorou para entender. Mas não rebateu. – Ah... Desculpe por ter te assustado... O que faz aqui sozinho?
— ... Nada. – O menino respondeu se levantando. Seu olhar se mantinha fixo no mais alto. – De onde você veio? – Indagou, revelando sua voz fraquinha, contudo doce.
— Eu? Ah... Eu vim da Grécia! Um pouquinho longe, não é?
— Não sei, é?
— Hm, acho que sim! Mas me diga, por que você estava fazendo nada num lugar como esse?
— ... – O espanholzinho ficou calado. Desviou o olhar para os lados, como se procurasse uma brecha para fugir. Sua mãe alertava sempre para não falar com estranhos, e sua nova companhia era um estranho, definitivamente. Mas também era apenas um pouco mais velho que ele mesmo. E não parecia oferecer perigo. – Eu gosto de olhar as estrelas... – Disse.
O menino tinha cabelos negros, com um brilho meio esverdeado, bem arrepiados e bagunçados. Era franzino, de pele rosada e bem pequeno. Ele deveria ter entre 7 e 9 anos, mas aparentava ser mais novo por causa da estatura baixa para sua idade.
— Eu também gosto de observar as estrelas! Fazia muito com meu pai! Mas... Por que está sozinho aqui?
— Não tenho nenhum amigo e... Não quero incomodar meus irmãos. Estou acostumado a ficar sozinho.
— Mesmo tão tarde assim?
— Sim.
Aioros ficou quieto. Sentou-se no chão ao lado do menininho e disse-lhe “Eu te faço companhia hoje!”. De forma inevitável seu coração mole havia sido capturado pelos olhinhos inocentes e solitários do menor.
E essa foi a primeira vez que ele e Shura se encontraram. Uma troca de olhares verdosos. O que começou com uma observação de estrelas, terminou com o mais novo indo para Grécia junto do jovem Cavaleiro. Era a melhor coisa que Aioros podia fazer pelo menino. Tirá-lo daquela situação desesperadora em que ele se encontrava. Inclusive os próprios pais de Shura concordaram que seria bom para ao menos um dos filhos sair daquele lugar. Eles não sabiam até quando poderiam aguentar a falta constante de dinheiro e todos eles ficavam doentes muito rápido. O grego prometeu que iria cuidar do filho deles, como se fosse da família. Um irmãozinho. E que eles não teriam com o que se preocupar. Conforme iam se distanciando da velha casa, o mais novo aspirante a Cavaleiro olhava para trás. Ele não chorava, o que Aioros achou um pouco estranho. Ele só mantinha o mesmo semblante melancólico de horas atrás.
— Está tudo bem? – Sagitário perguntou.
— Não sei...
— Você quer voltar?
— Não. Uma boca a menos para alimentar ajuda meus pais. Então o melhor que posso fazer por eles é ir embora. Mas...
— Mas?
— Não sei até quando ficarão por aqui.
— Por que diz isso?
— Meu pai comentou que algo chamado “governo” está tentando tirar as pessoas dessas terras. E ninguém sabe para onde vão... – O menino parou – Sabe, não acho justo o que fazem com a gente. Não vejo os fazendeiros vizinhos nos tratarem como iguais, eles riem de nós. Quando estou andando pela cidade, sempre vejo visitantes falando o quanto aqui é sujo e feio. Mas as pessoas daqui fazem o que podem e sempre com um sorriso no rosto, mesmo sofrendo tanto todos os dias. Não é justo... Falarem coisas assim...
Aioros parou e se ajoelhou na frente dele.
— Você quer saber o que significa ser um Cavaleiro?
— Quero...
— Um Cavaleiro de Athena é justo, nobre e forte. Somos os escolhidos para proteger a terra e as pessoas de males iminentes, que elas não sabem que existem. Também somos vistos como heróis. Heróis por que estamos sempre dispostos a ajudar os outros e a lutar pelo o que é certo. Pelo o que é justiça. Pelas pessoas que amamos, nossas famílias e amigos. E mesmo por aqueles que acabamos de conhecer ou nem mesmo conhecemos. Entendeu?
— Entendi... Puxa, você fala como um adulto. Isso é tão legal! – Finalmente ele sorriu! E que lindo sorriso! Sorriso de criança, cheio de alegria, curiosidade e admiração. – Espero poder me tornar um Cavaleiro como você algum dia.
— Tenho certeza que irá.
Ah, doces memórias! Aioros sentia saudades desse tempo. Sentia falta da cara de gatinho arisco que Shura tinha. Dos grandes e expressivos olhos, da maneira como ele segurava sua mão quando tinha medo e de quando se aconchegava sonolento em sua cama e agarrado em seu braço. Ele era uma criança tão inocente e tão... Fofinha! De fato, terem crescido mostrou-se uma grande porcaria. Não podiam fazer as mesmas coisas que faziam quando mais novos. Seria suspeito, bizarro, estúpido e alguns diriam tabu. Mas que droga! Desde quando a sociedade se tornou tão ignorante assim? Por que em alguns casos sempre viam malícia? Por que consideravam errado coisas absurdamente normais? Aioros queria ser criança de novo. Queria aprontar, sair por ai pregando peças em todos e se safar de tudo. Pensando assim, sua frustração foi aliviada um pouco. Terminado o almoço, ele saiu, deixando gorjetas aos atendentes. Sua barriga estava cheia. Tão cheia que a melhor coisa no momento seria deitar numa cama macia e dormir. Entretanto deveria continuar a busca.
Mas como não havia nenhum sinal daquele cosmo curioso, então não teria problema nenhum em fazer algo simples naquele momento (de novo). Gastou mais uma hora e meia pensando e procurando algo que o espanhol gostaria de comer naquela noite. Isso era bem típico do Aioros, pensar na próxima refeição logo após ter devorado um ou dois pratos. Mas por alguma razão não conseguia se lembrar da comida preferida do espanhol, o que o chateou bastante.
— Seria estranho demais eu perguntar o que ele quer comer? Hm... “Shu, que tipo de comida sua mãe fazia?”... Não, isso não! “Não sabia o que você gostava, então comprei isso!”... Não! Como posso ser um melhor amigo se não souber a comida preferida dele?
Aioros fez um esforço para lembrar, estava quase socando o próprio cérebro quando recordou da preferência de Shura por sopas, em especial uma sopa gelada chamada Gazpacho. Mas sabia que o mais novo gostava muito de maçãs. Maçãs assadas.
— Ah! É mesmo! Essas maçãs... Ele adora! Não sei se serve como jantar, mas vou procurar!
Comprar comida poderia ser considerado desatenção e realmente era. E Aioros era campeão nisso. Caso a cosmo energia misteriosa desse “oi” ele iria prontamente até ela. Mas como isso não acontecia, aproveitava para passear e pensar.
Fale com o autor