Nossa Cura - Hiccstrid
2 A Cura
A noite já estava alta, Soluço estava sentado na ponta da plataforma de seu alojamento, ele tinha terminado de patrulhar o seu perímetro, mas a mente não conseguia nem pensar em entrar para dormir. Lembrando, especificamente, de um ponto decisivo daquele dia.
A voz de Viggo lhe preencheu os ouvidos lhe trazendo a memória:
— Isso é uma perda que eu estou disposto à aceitar. A pergunta é: E você? – dizia ele naquela maldita calma prepotente.
Os gemidos fracos de Astrid eram cada vez mais agonizantes para Soluço. Ele não tinha escolha.
— Tá bem, Viggo. Você ganhou. Leva ele, leva o dragão. Mas, dá para gente o quê viemos pegar. O antídoto do Flagelo, a saliva do Buffalord. Eu não vou sair daqui sem isso. Essa é uma perda que eu não estou disposto a aceitar.
— Não... Soluço, não faz isso por mim... – a voz dela lhe deu um solavanco no peito, mas ele não podia ouvi-la agora. A vida dela não era algo que ele estava muito disposto a negociar.
— Temos um acordo? Ou nós dois vamos sair daqui sem nada? A decisão é sua. – continuou para Viggo.
Ele podia tentar arriscar, podia deixar que Viggo levasse o dragão sabendo que o próprio Buffalord poderia dar seu jeito de voltar pra ilha e então ele teria a cura para Astrid, mas não, não iria fazer aquilo, ele não arriscaria a vida dela por nada nesse mundo.
Então, sim ele deixou nas mãos do inimigo, porque naquele momento para ele a única opção que existia era: salvar Astrid. Se Viggo lhe entregasse a cura seria mais fácil, com Astrid sã e salva ele acharia um jeito de resgatar o Buffalord se precisasse. Mas, se não entregasse, a guerra entre os dois teria seu desfecho ali, pois ele tinha certeza que sua raiva acabaria com o chefe dos caçadores. Soluço estava em vantagem e Viggo sendo um jogador experiente sabia disso e também devia saber que ele não estava blefando a determinação em seus olhos não deveria deixar dúvidas, de um jeito ou de outro Soluço teria sua cura, talvez por isso tenha aceitado o acordo do jeito mais prático.
Mas, Soluço ainda se atinha inquieto aquela noite, não sabia ao certo porquê já que tudo tinha terminado bem. Porém algo lhe dizia que tinha haver com ter estado tão perto de perdê-la. Não resistindo voou com Banguela até a plataforma superior do alojamento dela. Estava escuro, mas ele conseguia discernir, pela luz da lua, os contornos delicados do corpo dela movendo-se inquieto sobre na cama.
— Soluço, é você? – a voz dela o pegou desprevenido. Ele sentiu o rosto esquentar, e agradeceu por está escuro.
Respirou fundo tentando acalmar-se, não sabia o que sentir por ter sido pego por ela ali.
— Astrid, eu... eu só vim ver se você estava realmente bem.
— Estou bem, apenas não consigo dormir. – ela sentou-se na cama. – Vem cá.
A voz dela em seu tom natural, plenamente recuperado, aqueceu seu coração ainda aos pulos. Ele entrou no dormitório, deixando assim a luz da lua entrar totalmente com ele. Sentou-se ao lado dela.
— Tem certeza de que não está sentindo mais nada?
Ela sorriu.
— Absoluta. E você, por que ainda está acordado?
— Acabei de terminar a patrulha e também não consigo dormir. – ele olhou as próprias mãos.
— Viggo de novo?
— Não. – ele numa súbita coragem a olhou. – Você.
Viu os olhos dela arregalaram-se, surpresos.
— E-eu?
— Astrid, eu... – ele suspirou tentando encontrar as palavras. – Eu nunca me senti tão desesperado, tão... tão impotente. Eu...
Ela sentiu os olhos marejarem e tocou a face perturbada dele. Soluço respirava com dificuldade como se estivesse sentindo o que estava tentando descrever.
— Soluço, eu... eu estou bem agora.
— Eu sei. – ele fechou os olhos diante do toque dela e suspirou.
— Eu tenho tanto que te agradecer por...
— Não me agradeça. – ele voltou a olhá-la. – Além de saber que você faria o mesmo por mim, Astrid eu...
— Você o quê? – ela aproximou o rosto do dele, a voz parecia um sussurro.
— Eu não posso deixar de sentir que eu fiz por mim também. Eu... ah, Astrid...
Ele não resistiu, não resistiu à pele restaurada ao alvo natural, aos olhos azuis intensos suplicantes e ainda mais brilhantes pela luz da lua que os iluminava, não resistiu à respiração quente e vivaz bem próximo a sua, e simplesmente não resistindo, a beijou.
Doce, bem como ele lembrava.
Ela assustou-se apenas por um momento, no segundo seguinte escorregou as mãos para a nuca dele retribuindo aquele beijo tão esperado e o puxando para mais perto de si. Era um beijo leve, calmo como se estivessem se reconhecendo, se explorando lentamente. E justamente aquela lentidão fazia os corações arremeterem com força dentro do peito. Astrid sentiu o ventre formigar, a sensação de estar viva era ainda mais maravilhosa dentro de um beijo de Soluço. Era como voar a primeira vez.
Foi intenso e por isso logo precisaram de ar, mas colaram suas testa enquanto o buscavam juntos. Era quase poético para Soluço está ali buscando o fôlego de vida no mesmo fluxo que ela, pelo mesmo motivo que ela. Um beijo.
— Eu fui sincero quando disse que não conseguia imaginar um mundo sem você. – confessou ele, e Astrid que tinhas os olhos fechado, tornou a olhá-lo.
— E você acha que eu não fui? – perguntou ela, uns segundos depois de analisá-lo. Ela ainda estava ofegante e para Soluço aquilo pareceu meio divino. – Pois acredite, eu fui. Soluço, a cada missão, a cada loucura, eu... – ela engoliu em seco, segurou o rosto dele, as testas ainda coladas, os olhos quase se tocando. – No... no dia em que você perdeu a perna, Soluço eu... – a voz dela embargou. – Eu, realmente, não consigo imaginar um mundo sem você.
Ela viu a torrente de emoções que sua confissão trouxe aos olhos dele. Astrid sabia das inseguranças dele, mas não conseguia acreditar que elas ainda existiam em relação a ela. Era tão evidente para si mesma o que sentia por ele, o quanto ele era tanto pra ela, que mesmo que não confessasse abertamente o que sentia, não achava que conseguia esconder.
O puxou para outro beijo. E que se dane o ar! Esteve tão perto de deixá-lo para sempre, e não conseguia acreditar que se morresse ele jamais saberia.
— Eu tive tanto medo. – murmurava enquanto o beijava. – Eu tentava abrir os olhos e não conseguia, eu tentava levantar e... – afundou-se nos lábios dele, sentindo as lágrimas tomarem seus olhos mesmo fechados. Soluço a abraçava cada vez mais forte. – Eu nunca me senti tão impotente — sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto enquanto beijava o de Soluço. – Mas, eu via você... eu escutava você e sabia... eu sabia que tudo ficaria bem.
As lágrimas dela molhava o rosto de ambos e ela só percebeu que estava sentada no colo dele quando suas pernas entrelaçaram-se na cintura dele. Ele tinha atacado aos beijos o seu pescoço e aquilo a desconcentrou. Fazendo todo seu corpo arrepiar-se. Viva, estava mais viva que nunca. E sentia todo seu corpo lhe gritar isso. Buscou a boca dele novamente com ímpeto. Soluço a virou nos braços e a deitou na cama, sem se desgrudar do beijo cada vez mais sedento. As pernas se entrelaçavam e as mãos se puxavam cada vez mais para perto, embora não existisse mais espaço entre eles.
O ar se fez necessário novamente, e eles se encararam ofegantes.
Sorriram.
— O que foi isso? – perguntou ele, um tanto enervado.
Ela sorriu ainda mais.
— Eu não sei. – disse ainda ofegante.
Ele a olhou por uma infinidade. Linda. Corada, levemente descabelada e o olhar mais vivaz e brilhante que nunca. Ele a amava, e no fundo entendeu que ela sentia algo por ele também.
— Você… — ele pigarreou, sentindo o corpo em brasa com aquela constatação. — Você precisa descansar.
— Tá com medo de mim, é? – ela o olhou um tanto maliciosa.
— Sinceramente, um pouquinho. — Eles desataram a rir. Ela se aconchegou nos braços dele. — E de mim também — ele continuou, respirando fundo, tentando aplacar as emoções. — Acho que estamos descobrindo algo por aqui. Algo…
— Especial — ela o olhou, um sorriso leve e encantador brincando em sua face. Soluço achou que a amou um pouco mais.
— Sim, muito especial.
Ela suspirou e voltou a deitar a cabeça sobre o peito dele. O silêncio foi bem vindo. Astrid nunca se sentira tão acolhida e protegida. O coração dele batia ritmado e aquilo a distraia dos pensamentos tortuosos que a afligia antes da entrada dele. Soluço a fazia bem, por si só, com a sua simples presença e ela amava saber disso.
Madrugada a dentro, estava quase pegando no sono quando o sentiu se afastar. Abraçou forte o corpo dele.
— Fica – pediu, talvez a sonolência embargando seu pudor. – Por favor, Soluço.
— Eu… — ele pensou que ela nem precisava pedir por favor.
— Não. – continuou, sem soltá-lo. – Eu não vou conseguir dormir.
Soluço sentiu o corpo dela tremer levemente.
— O que está atormentando essa cabecinha, hein? — perguntou delicadamente, enquanto acarinhava seus cabelos, voltando a se aconchegar na cama. Sentiu Astrid se encolher um pouco. — Não quer me contar? — depositou um beijo no topo de sua cabeça.
Ela suspirou, enquanto distraidamente brincava com a fivela da armadura dele.
— Todas as vezes que eu fecho os olhos — ela suspirou novamente. — A imagem daqueles homens no navio me vem à mente. — Soluço apertou os braços em volta dela. — Eu não consigo esquecer. Além do mais, sabendo agora que foi… que o Viggo fez aquilo por… — ela estremeceu novamente. — Como alguém pode ser tão cruel?
Soluço puxou o rosto dela para que o olhasse.
— Vamos detê-lo.
Ela assentiu.
— Precisamos detê-lo. Mas…
Ele viu a ponta de hesitação em seu olhar.
— Mas o quê?
— Eu estou com medo, Soluço. E se…?
— Shiii! — ele a olhou e acarinhando sua bochecha. — Você é Astrid Hofferson. Você não tem medo. Viggo Grimborn não é nada diante disso.
Os olhos de Soluço tinha tanta convicção, tanta confiança, que ela, como sempre, acreditou nele. Sorriu, meio corada.
— Você confia mesmo em mim, não é?
— Mais que em mim.
Ela sorriu novamente e voltou a se aconchegar nele.
— Só não vá embora, até eu pegar no sono. — murmurou fechando os olhos. — Na verdade, não quero que me deixe hoje.
— Sim milady. Prometo que não deixarei... — ele novamente beijou o topo de sua cabeça e a segurou forte em seus braços, querendo guardar aquelas sensações bem fundo dentro dele. Pois sabia que em momentos difíceis poderia recorrer a elas para ganhar forças. Para pensar num futuro onde eles poderiam ser eternamente assim, dois em um só. Onde eles seriam sempre a cura que precisavam. — Prometo que nunca deixarei. — sussurrou por fim.
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