Nossa Amável Justiça Vingativa
10 Covardia Culpada
Notas iniciais
Aika
O ódio e o amor se misturaram nas lágrimas que derramei sobre o rosto pálido de Kori morrendo. É culpa dele, tudo isso, todo esse sofrimento... Não, na verdade é culpa minha. Por que meu coração insiste em se apaixonar e depois quebrar em trevas e dor? Por que esta alma suja e corrompida existe?
Não há respostas, não há nada pra mim, nada além da escuridão que sou.
–Por quê? – pergunta Kori fracamente caindo em aos meus pés – Por quê? Droga!
–Porque dói – respondo chorando – Porque sou fraca, porque sou covarde!
–Aika-chan! O que... O que está fazendo? – indaga Sapphire chocada – Você tem certeza de que quer matá-lo? Ele não é alguém importante pra você?
–É – afirmo – E justamente por isso que precisa morrer.
–Entendo – ela se aproxima – O amor é algo bem perigoso, principalmente se você se apaixona por um verme como ele...
Ela ergue o arco e atira mais uma flecha em Kori, viro-me arquejando, tampando os ouvidos pra não ouvir os gritos e gemidos dele. Por que isso não acaba logo? Por que eu não morro logo?
De repente, uma dor ardente e aconchegante toma conta de meu tronco e sobe imediatamente até meu coração deixando-me sem ar. Um punhal perfurou minhas costas e sangue escorre por minha boca. Mas o quê?
–Nunca deseje algo no Inferno – uma voz infantil e melodiosa pronuncia, o dono do punhal, a pessoa que está me matando.
Por algum motivo, não me movo, deixo-o me esfaquear e tolero a dor sem sequer gemer. Apenas sorrio arquejando sem fôlego à espera do suave toque da morte.
O que eu faria neste mundo afogado na catástrofe? Só o que sei, o que faço, o que sou é destruição.
Quero mais que as trevas me consumam nestes olhos verdes que brilham enquanto extraem minha vida aos poucos. Quero ver Sora e desaparecer, meu único desejo covarde, culpado de todo o resto é esse. Foi essa covardia que me tornou trevas, que matou Sora e matará Kori, a culpada de tudo.
Já está na hora de acabar, não é?
Tudo escurece, não sinto mais nada. O demônio que me matou, Kori e Sapphire, estão longe em algum lugar do Inferno. Estou morta.
–Aika! Aika, tome cuidado!
O quê? Essa voz... Não pode ser. O que ela está fazendo aqui?
Abro os olhos, por alguma razão estou correndo, correndo atrás de um coelho. Ah, isso é uma lembrança.
Oh, não...essa lembrança...Momo...
–Aika! – gritava Momo, eu lembro.
Ela era minha melhor amiga antes de Sora, mas eu...jurava que tinha excluído as memórias dela. É tão doloroso, tão triste e tudo por causa minha, eu estraguei tudo.
–Aika! – o último grito.
Tão rápido, o som do freio falho do caminhão, o encontrão com Momo que me atirou do outro lado da calçada rolando no sangue espirrado. O sangue de minha melhor amiga.
O som ensurdecedor de meus berros que ninguém ouvia, a culpa de uma covarde inútil misturada ao ódio consumidor do mundo inteiro. Não havia volta, não havia freio, não havia som, não havia vida ou morte. Só existia uma alma inocente e covarde se deteriorando sob o céu chorando na cena sangrenta.
Essas memórias presas no fundo do meu coração, não deviam ser liberadas. Isso é uma punição?
Deve ser, na verdade, mereço coisas bem piores. Mereço que o mundo, que eu sempre critiquei e odiei, cuspa sangue em meu rosto. Mas só o que acontece, é que flores crescem sem parar em minha volta. Apenas isso. Por quê?
Por que vida, se sou quase sinônimo de morte?
–“Ninguém escolhe o que ser neste mundo”, dizem – alguém pronuncia – Quem diz isso está totalmente equivocado.
–Quem é? – pergunto.
Viro-me e vejo na estrada deserta, uma mulher encapuzada com uma máscara. Parece uma sombra ou um personagem de filmes de terror. Mas não sinto medo. Não sinto medo de nada, além de mim mesma.
–Quem é você? – repito.
–A pergunta é: Quem é você? – diz ela com voz áspera e fria – Você quer ser trevas?
–Nunca pedi por isso! – protesto – Mas sou covarde...
–Você quer ser covarde?
–Mesmo se não quero, como posso impedir? É inevitável! – começo a chorar sem entender nada. Por que dói tanto? Por que estou chorando?
Onde estou? Quem é ela? O que quer? Eu morri?
Então, sou surpreendida por um tapa inesperado.
–Mas...
–Você é tão infantil – comenta a mulher – Medíocre, é sua verdadeira palavra. Não entende? Se você quer ser luz, será luz. Mas se ficar aí achando que é má, que é covarde, a culpada por tudo, então é isso o que será.
Arregalo os olhos, de repente sua face mascarada é a de Sora, palavras tão sufocantes, isso dói.
–Eu pedi pra você ser luz, Aika – fala ele gentilmente como sempre foi – Você é luz. Não destrua sua vida assim.
–Mas... É tarde demais.
–Não, não é – nega – Nunca é. Veja esse jardim crescendo ao seu redor, você é isso, pode criar isso. Pode ser a melhor pessoa do mundo.
–Não posso – discordo chorando – Não consigo.
–Cale-se – levo outro tapa e espinhos começam a roçar em minhas pernas – Este Deus que nos criou não é Kami, somos nós, Aika. Nós somos deuses, podemos ser qualquer coisa! Então pare de se lamentar e viva!
–Como Sora? Não consigo viver sem você – digo.
–Consegue, e ainda estarei aqui, guiando seus passos para a luz, acredite em si mesma.
–O mundo – soluço – é tão cruel.
–Então o conserte – propõe – Conserte-o com sua ternura, você é linda, sua alma é linda. Não a estrague com covardia.
–Ainda que eu seja uma deusa, Sora, preciso de alguém ao meu lado – choramingo – Matei o Kori! Não sei onde Hikari está. O que eu faço?
–Você é mesmo uma canceriana carente, hein – comenta ele sorrindo ao me abraçar.
–Preciso das pessoas, Sora – resmungo envergonhada – Sempre disse que as odiava, mas a verdade é que as amo, e preciso delas, só estava...com medo.
–Kori não vai morrer, nem você – conta Sora – E Hikari voltará. Não se preocupe, nunca lhe faltará ninguém. Nunca vou deixar que falte, até que chegue o fim.
Essas palavras amáveis, fico com medo de que não sejam verdadeiras, é tão bom poder estar ao lado dele de novo. E dou-lhe um último beijo que não pude cumprir quando ele desapareceu no palácio de Kami, estou decidida a matar apenas mais uma vez, matar essa covardia sombria de meu coração que se não for exterminada pode estragar todo o meu ser.
Ternura, hein.
Acho que já sei como derrotar Kami, ou melhor, ajudá-la.
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