— Uraraka-chan, esse é o Shouto-kun. — o professor Takami apontou para um garoto alto, um olho de cor turquesa, o outro de cor chumbo. Ele parecia ter a mesma idade dela, mas, ao mesmo tempo, aparentava ser mais velho que o professor Takami, mesmo que isso nem fizesse sentido.

— Oh, é um praz-

— Sua postura é desleixada e seu movimento de pernas é hesitante. — ele disse sem nem se levantar da cadeira onde estava sentado — Mas seu equilíbrio e capacidade de voltar ao eixo são acima da média, e… não sei, é muito difícil não ficar empolgado te assistindo.

Ochako ficou imóvel diante da crítica mais cruel e elogio mais surpreendente que já ouvira. Ela sempre soube que não era grande coisa, estava fazendo as aulas porque o professor Takami ficou com dó de ver a garota parada lá sem fazer nada enquanto sua mãe trabalhava na faxina da escola Endeavor. Ele a pareou com o Kirishima, um garoto ruivo simpático e sorridente que só estava fazendo as aulas porque, segundo ele, sua tia estava pagando, mas que preferiria fazer aulas de muay thai, nenhum dos dois levavam as aulas muito a sério, mas se divertiam rodopiando pra lá e pra cá. Logo, foi uma surpresa receber um elogio sobre qualquer uma de suas possíveis habilidades, uma surpresa maior ainda foi ter ficado um pouco magoada com as críticas do garoto. Por que se importar em não ser boa em algo que só estava fazendo por diversão? E quem era aquele garoto para ter uma opinião que a afetasse?

— Shouto… — uma moça muito bonita a quem Ochako já havia visto algumas vezes conversando com o professor Takami repreendeu-o quietamente e se voltou para ela com um sorriso gentil — Queira nos desculpar, já faz um tempo que o Shouto não sai de casa e fala com… pessoas em geral. Mas sim, você dança muito bem, hã… Uraraka-san, certo?

— Pode dançar melhor se arranjar um parceiro que te conduza com firmeza. — ele lançou um olhar duro na direção do Kirishima — Você sabe tango?

— E-eu? Hã, um pouco do que o Takami-sensei ensinou.

— Essa é uma turma iniciante, quase intermediária, Shouto-kun. — o professor explicou — E estamos no começo do ano.

— Então eles já vão ser intermediários até o torneio distrital?

— Se tudo der certo, sim. Mas a Uraraka-chan não vai continuar, vai? — ele fez um biquinho em fingida tristeza, eles já tiveram essa conversa antes, sua mãe não a quer atrapalhando a aula já que nem gosta de dançar, então é melhor parar.

Isso foi o que ela disse para sua mãe, a verdade é que Ochako adorava cada minuto da aula, mesmo que nem fosse boa naquilo. A sensação sempre foi incrível, o jeito como o corpo se entregava às melodias, músculos se enrijecendo para criar algo que parece sublime, delicado, puro… tão pura quanto sua alegria em poder fazer aquilo por 40 minutos duas vezes por semana, mesmo que a sensação continuasse correndo seu corpo quando ela nem estava mais naquele prédio luxuoso.

— Acho que não…

— Se eu te disser que você vai ganhar o torneio distrital sub-13, você continua?

— S-Shouto, o que você…? — a moça arregalou os olhos e então começou a chorar — Você… quer mesmo...? Isso é tão… eu achei que você nunca mais ia… Ah, Shouto, isso é maravilhoso!

— Hã… não querendo atrapalhar esse momento, mas… — o sensei parecia super sem graça, ela não se lembrava de já tê-lo visto assim antes — Vocês têm que ver o que a Uraraka-chan acha, e bom… ela não é nem matriculada aqui.

— Não é? — a moça perguntou.

— Minha mãe é faxineira aqui, eu só… eu só a acompanho aqui pra irmos juntas pra casa depois que saio da escola.

— Keigo, meu pai sabe que você…?

— Eu preferia que ele não soubesse, Fuyumi-chan.

— Ele não precisa saber, só chame a mãe dela para matriculá-la e dê uma bolsa pra ela. — o garoto decidiu.

— O QUÊ?! — ela perguntou, não entendendo mais nada daquela conversa — N-não, minha mãe tá… eu não posso, eu nem gosto de d-

— Não minta. — o garoto levantou e se aproximou dela — Você gosta de dançar, dá pra ver na sua cara. — algo no jeito dele vindo até ela lhe deixou com a sensação de ficar alerta e relaxada ao mesmo tempo — E se você gostar de vencer, então a gente é a dupla perfeita. — e tomou a mão dela, fazendo-a corar.

Uraraka Ochako tinha 12 anos quando Todoroki Shouto pegou em sua mão pela primeira vez, não sabendo naquele momento que aquele garoto esquisito era o filho do dono da escola de dança, que seria seu parceiro de dança dali em diante e que, ao lado dele, conquistaria inúmeros prêmios de dança de salão competitiva.

Por não saber de nada disso naquele momento, ela retraiu a mão e o olhou como se ele fosse maluco. Ochako não voltou à escola de dança por duas semanas, retornando porque sua mãe insistiu muito, dizendo que agora ela podia estudar lá de graça, já que gostava tanto de dança.

E segue gostando, essa foi a única coisa que nunca mudou.

***

— Você é minha maior rival. — Shouto disse uma vez, mantendo-se na mesma posição com as pernas esticadas para fora e a coluna jogada para frente. Ele se virou só um pouquinho, de modo que seus olhos alcançassem os dela. Ochako se viu tão presa nesse olhar que também manteve a posição, o rosto dele a poucos centímetros do dela.

— Lá vai você de novo…

— É sério. Você é minha parceira, mas é minha rival. Eu tenho que ficar o tempo todo garantindo que quem conduz sou eu.

— Jura? Eu sempre soube que é você quem conduz, seu mandão. — Ela deu um chutezinho na perna dele — Mas e então? Aonde você quer chegar com isso?

— Meu pai quer que a gente dance no casamento da minha irmã.

— Dançar tipo… tipo a dança que a gente faz aqui?

— Bom, eu adoraria ver a cara do velho se a gente fizesse algo diferente, tipo uma batalha de break dance, mas não, infelizmente é uma valsa. — Ochako não conteve a risada, já era parceira dele há quatro anos e ainda se surpreendia com a fascinante habilidade do garoto de fazer piadas com a cara mais séria do mundo, a ponto de deixá-la na dúvida se foi piada ou não.

— Entendi. Vou tentar não chamar mais atenção que você no casamento da sua irmã.

— Impossível.

— Hum? Por quê?

— Porque é você lá comigo. — ele continuou encarando-a, a chuva batendo na janela da sala espelhada de piso amadeirado. Ochako não se lembrava qual foi o momento exato em que deixou de temê-lo. Quando se tornaram parceiros, ela tinha certeza que ele a dispensaria no primeiro minuto em que cometesse a mínima falha, mas não, houve derrotas, tropeços, contusões e discussões, Shouto apenas se desculpava e dizia para começarem de novo. E era nesses momentos em que estava sozinha com ele, quando não estavam dançando, quando ele chamava o pai de “velho” e a olhava como se quisesse que ela o visse exatamente o que era: um garoto de 16 anos com suas inseguranças e medos, que a garota sentia dois lados seus batalharem, o lado que estava apaixonada, e o lado que morria de medo de aceitar aquilo. — Se você quiser ir, claro, ninguém te obrigará.

— Eu quero. — ela esticou a mão só um pouquinho, tocando seu mindinho no dele — Quero estar lá com você, Shouto.

E a chuva continuou a cair lá fora.

***

— Vocês dois são ridículos. — o Bakugou resmungou, colocando sua máscara de dormir e cruzando os braços. Ele parecia uma velha ranzinza, e Ochako teria rido alto caso não estivesse tentando fazer silêncio.

— Shhh. — ela o repreendeu.

— Tsk, esse aí só vai acordar quando a gente chegar, ele tomou calmante antes da decolagem.

— Pra você ver o quanto você fala alto às vezes, supera até o efeito do calmante. — Ochako o olhou feio — Tá tentando atrapalhar o descanso dele pra prejudicar a competição, Bakugou-kun?

— Não preciso dessas merdas. Eu e a Camie vâmo bater vocês esse ano.

— Nossa, será? Vocês vão ter que parar de brigar pra conseguirem dançar direito, antes de mais nada. — ela ergueu o pescoço um pouquinho e viu a loira lendo uma revista algumas poltronas atrás deles na fileira diagonal. O Bakugou não respondeu, ou já estava dormindo, ou ficou irritado com a provocação dela — Tenho certeza que vocês vão se entender-

— Que se foda isso. Acabou.

— Eu… sinto muito, de verdade, Bakugou-kun.

— Não esquenta com isso. Prefiro que a gente só continue parceiro de dança, isso de namorar acaba virando uma confusão da porra. Você e o idiota aí só dão certo porque ele é frouxo pra caralho.

— O que isso quer dizer? Você sabe que eu e ele não namoramos, né? Eu tenho… eu tenho namorado, Bakugou-kun.

— Uhum. O cara deve achar uma beleza você pra baixo e pra cima com esse otário que te olha com essa cara de cachorro abandonado. — ele suspirou — Você não tava falando em terminar esses dias?

— Ele não… gosta muito do Shouto. — ela admitiu quietamente — Não que isso seja essencial pra ser meu namorado, mas…

— Só termina logo e pede o bobão aí em casamento.

— O quê? — ela riu — Por que eu pediria ele em casamento?

— Sei lá, pra mim vocês são casados desde que eu conheço vocês, e ele é besta demais pra pedir, então… vai você, Cara de Lua. Ele vai falar "sim", vai por mim.

— Você é ridículo.

— Sò falo o que eu vejo. — ele murmurou, nem se ligando na piadinha boba que tinha acabado de fazer, afinal, Bakugou não estava vendo nada com aquela máscara de dormir em sua cara. Depois disso, ele pegou no sono e não respondeu mais nada.

E Ochako ficou ali, tentando dormir, mas tendo dificuldade ao olhar para seu parceiro de quase dez anos ali ao seu lado. Era meio raro vê-lo dormir, ela sempre pegava no sono primeiro assim que embarcavam, ele nunca gostou muito de voos longos, devia estar bem nervoso com aquela viagem em específico e tomou calmante para relaxar.

Dormindo ali ao seu lado, ele parecia anos mais jovem, a expressão pacífica, a cabeça pendendo para o lado e expondo parte do pescoço pálido, os cabelos bagunçados… sem pensar, ela levou a mão aos fios vermelhos e os afastou dos olhos dele, apenas para ver mais daquele rosto que via todo dia, e ainda lhe causava a impressão de ser a primeira vez. Ochako nunca sentira algo assim com nenhum namorado, nem mesmo com o então atual.

Ela pensou que poderia construir esse amor. Levou anos para que se apaixonasse pelo Shouto, poderia levar anos para se apaixonar pelo namorado. Seu parceiro de dança não precisava lidar com nada daquilo, sempre esteve lá por ela, foi a base para construir a carreira que ela tinha, Ochako não queria infligir em alguém como ele seus sentimentos mesquinhos de garota deslumbrada, mesmo que fosse um deslumbre que já vinha de anos.

Mesmo que terminasse aquele namoro já em vias de se afundar, mesmo se fosse louca o bastante e aceitar a sugestão do Bakugou, mesmo que adorasse a ideia de dividir a única parte de sua vida que não era do Shouto com ele… ela sabia que tinha que separar as coisas em nome da dança.

Porque Ochako sempre amou dançar, tanto quanto o amava. Ainda ama.

***

— E se eu disser que tudo já mudou?

— Como assim?

— Você… você disse que nada precisava mudar, mas… mas tudo já mudou, Shouto, agora a gente é... Agora é diferente.

Talvez ela esteja sendo dramática, talvez isso seja um efeito tardio da realização do que Ochako fez: casou-se com ele assim que chegou ao Japão, depois que eles venceram o torneio mundial. Sem cerimônia, foi só no civil, a mulher do cartório nem olhou na cara deles quando lhes entregou a certidão. Isso foi há duas semanas. Hoje mais cedo, a Fuyumi apareceu no apartamento dele — que agora tecnicamente é deles — e começou a pensar nos detalhes da cerimônia religiosa, ela até ofereceu o vestido que usara em seu casamento com o professor Takami. E foi só naquele momento que Ochako se deu conta do que tudo isso significava: o homem por quem é apaixonada desde adolescente lhe pediu em casamento da maneira menos romântica possível, garantiu que nada mudaria entre eles, mas era mentira!

Como não mudaria? Agora eles dormem na mesma cama, ela o vê sem camisa sempre que acorda, ele viu a calcinha dela pendurada no box do banheiro. Sendo parceiros há tanto tempo, eles conhecem seus hábitos, seus defeitos, tudo aquilo que poderia quebrar o encanto, e mesmo assim, Ochako não entende como ele pode achar que nada mudou.

— Diferente como?

— Ok… — ela respira fundo, pensando em como vai ter uma conversa tão abstrata com um homem que às vezes não entende a ironia mais simples, esse homem é seu marido, por sinal — Não é que mudou tudo, tuuuuudo, mas mudou… nos detalhes. Você- você tá sempre aqui, a gente divide o guarda-roupa, a cama, o chuveiro, a gente… agora eu sei como é seu bafo de manhã!

— Desculpa?

— O que eu quero dizer é que… não, o que eu quero saber é se você casou comigo porque tem medo de ficar sozinho e não encontrar mais ninguém. — ela finalmente assume para ele e para si mesma.

— Não. — ele diz sem titubear.

— Não o quê? Não é isso?

— Não é.

— Então o que é?

— É medo, sim, mas de te perder. Não posso mais arriscar que algum idiota te leve.

— Eu já disse que vou ser sua parceira enquanto você m-

— Não como minha parceira. Eu não quero mais te perder.

A chuva cai de mansinho lá fora, uma coisa que ela adorou no minuto em que se mudou pra cá é a iluminação natural no fim de tarde, mesmo em dias chuvosos.

— Você tá fazendo tudo de trás pra frente… — ela choraminga.

— Bom, você concordou, achei que tinha entendido. — ele pega na mão dela, não é um gesto solene de quando vão dançar, Shouto segura a mão toda, como se largá-la significasse negar tudo que foi dito — Achei que tinha entendido que te amo.

— Como eu iria entender? Você não… você nunca-

— Tava nos detalhes, Ochako. — ele puxa a mão dela, levando aos seus lábios — Desde a primeira vez que a gente se viu.

É como as batidas que marcam quando a música está para começar e eles devem entrar na pista. O tempo passa tão rápido em momentos assim que parece que tudo ao redor está se movendo devagar demais. O coração dela vem à boca e volta, e tudo que Ochako vê em momentos assim é ele.

Então lá vai ela, conduzindo pela primeira vez. A morena fica na ponta dos pés e segura o rosto dele, pousando seus lábios contra os do marido de duas semanas e parceiro de toda uma vida. É meio desengonçado como um primeiro beijo sempre acabará sendo, mas quando se separam, mantendo apenas as testas apoiadas uma na outra e sorriem, Ochako tem certeza que sim, muita coisa mudou e vai continuar mudando.

E que quer estar segurando a mão dele a cada novo detalhe que mudar.

Notas finais
E acabou! Huahushsuh Agradeço novamente à nanana-chan pela betagem e à OchakOmochi pela capa, essa fic faz parte do tema bimestral do Ochabowl Project, não deixem de segui-lo pra ver outras fics desse e de outros temas que tivemos e podemos vir a ter no futuro! Obrigada por ler, espero que tenha curtido!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!