A garota caminhava por entre areias que machucavam, pouco a pouco, seus pés descalços. Não sabia por quanto tempo caminhava e nem se, um dia, chegaria em algum lugar.
A causa das intempéries, estava cansada, vestida em farrapos e sentia febre. Não entendia o porque continuava seguindo em frente, mas sabia que alcançaria um fim. Nada era infinito, pensava.

De fato, uma hora percebeu que o clima estava um pouco diferente. O vento a fez tomar uma direção em que fazia parecer com que algo estava próximo. Pouco tempo depois, viu uma figura humana distante, parecia estar sentada. Ao se aproximar, perguntou:

-O que faz aqui?

O homem estava, realmente, sentado ao lado de uma caixa de isopor, em uma cadeira de praia na beira de um precipício. Deu um gole em uma lata de refrigerante.

-Observo o infinito.

A moça suspirou. Deixou-se cair no chão, instantes depois.

-O infinito? Bobagem. Isso não existe.

-E se eu disser que esta lata, em minha mão, tem refrigerante infinito?

-Seria mentira.

-Verdade. Mas pense bem. A cada gole dado, existiria mais um pouco de refrigerante. Cada vez que eu tentasse beber, eu sentiria o sabor. Caso isso acontecesse, o refrigerante seria infinito?

-Sim.

O homem jogou a lata fora e pegou outra no isopor, abriu.

-Quer? Pegue uma você também.

A garota, apesar da sede, negou. Estava curiosa sobre o que o moço havia para dizer.

-Bom, mas ainda não me explicou sobre o que está vendo. O que o refrigerante tem a ver?

-Olhe para a frente e diga-me o que vê.

Após alguns minutos de observação, a garota responde:

-Muitas nuvens, algumas estrelas. O sol lentamente se pondo, ali no fundo... posso ver um pouco da lua, ali, no outro canto.

-Tem certeza de que não quer uma lata de refrigerante?

A moça cedeu. A sede havia sido mais forte. Olhou para a caixa de isopor, colocou a mão lá dentro, fuçou por uns instantes, pegou a lata mais no fundo, a mais gelada. Abriu e, com um grande gole, tomou tudo o que havia ali dentro. Olhou para frente e jogou a lata longe. No mesmo momento, levou um susto.

-Percebe?

-Acho que sim...

-Me diga o que vê.

-As nuvens já não estão no mesmo lugar. A luz no céu está diferente. O sol está mais embaixo e a lua, mais acima.

-Exato. Cada vez que você olhar para o céu, irá ver um céu diferente, com cores diferentes, nuvens em posições diferentes. Nunca será a mesma coisa.

O homem sorriu, a menina estava desnorteada.

-Entendeu o que é o infinito?

-Talvez...

O homem deu um gole no refrigerante.

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