Nos Limites da Sociedade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Desde muito tempo a humanidade sempre fez os mesmos erros: querer se sentir superior discriminando os “inferiores”. O que nós, humanos, ainda não percebemos, é que isso é ridículo. Ninguém é melhor que ninguém. Grife minhas palavras antes de xingar alguém ou antes de falar mal de outra pessoa pelas costas.
Platão defendia a ideia de que as coisas são muito mais do que aparentam ser. Você não pode julgar uma pessoa como boa ou má tendo como uma base uma atitude ou uma opinião, pois é necessário conhecer os motivos que levam aquilo.
Há algum tempo atrás eu li um experimento chamado Experimento de Prisão de Stanford. Nele, foi pago 15 dólares por dia (cerca de 192 reais hoje) para alguns estudantes para simularem uma prisão durante duas semanas. Uns iam ser criminosos, outros iam ser policiais. A ordem foi escolhida aleatoriamente.
Ninguém, além deles, sabia do estudo. A cadeia era no porão, e todos eles foram presos. De início, não aconteceu nada demais. Mas o estudo teve que ser cancelado por causa das torturas gratuitas que os presos sofreram.
O objetivo dos guardas era controlar as atividades dos presos e eles foram incentivados a serem cruéis e fazerem com que os presos se sentissem impotentes, mas a violência física não era permitida.
A partir do segundo dia, os guardas começaram a torturar, confinar e caçoar dos presos, usando até humilhação sexual. Quando começou a ter uma rebelião, os voluntários se ofereciam para inclusive ficar horas extras não pagas para ajudar a conter da melhor forma "dividir e conquistar": formando celas para os "bons" e para os "maus", fazendo eles acreditarem que haviam informantes entre eles e imediatamente encerrando quaisquer tipos de revolta que poderiam haver. O método é inclusive usado por presídios verdadeiros.
Por que motivo foram os presos foram torturados? A resposta é simples, mas difícil de engolir: no momento que você começa a ver o outro não como uma pessoa, mas como um “animal”, alguém sem sentimentos ou incapaz de ser ouvida, fica fácil discriminar e torturar. Quando você ganha uma "autorização" para a violência, tudo fica mais simples.
É como um assassino em série: mortes em menos tempo e o número cada vez maior. É como a cocaína: menor tempo de intervalo entre uma inalada e outra, quantidades cada vez maiores.
Ou somos criminosos, ou somos policiais.
Convivi com meus pais durante boa parte da minha vida. Eu os via xingar transexuais, homossexuais e bissexuais. É como se houvesse um limite para eles do que era aceito: não há nenhuma forma de amor além da que Deus determina. É impossível e frescura se sentir inconfortável com a ideia de gênero que foi automaticamente colocada em cima das pessoas a partir do sexo em que nasceram. Como se tudo que fosse diferente do deles fosse julgado, pregado na parede e escrito “ANOMALIA” embaixo.
As drogas também eram alvo de preconceito. Meus pais olhavam com nojo quem fumava cigarro de tabaco, imagina maconha. Inalar cocaína, injetar heroína? Creia em Deus, meu jovem! Largue disso! Deixa de ser vagabundo e vai trabalhar!
Não posso dizer que sempre desaprovei isso. Porém, desde pequena eu me questionava o porquê de tanto estresse, principalmente o envolvido com orientação sexual. Já chamei os pais de uma garota da minha escola, aos onze anos, de “bicha”, porque eles eram gays. Eu nem sabia direito que significava bicha, mas achava que era algo muito ofensivo, pois ela chorou.
Fui encaminhada para a diretoria e chamaram meus pais no colégio. Eles me defenderam com afinco, e no final a diretora largou de mão, temendo por seu salário. Eu achei aquilo no mínimo estranho. Comecei a perguntar-me com mais afinco o porquê daquele preconceito com sexualidade.
Um dia, ao ver os dois pais dela no Dia dos Pais, discretamente fugi da mão do meu pai e fui atrás deles para pedir sinceras desculpas. Eles foram muito legais comigo. Sorriram para mim e aceitaram, desde que eu não fizesse mais aquilo, e responderam minhas perguntas sobre anomalia e coisa e tal. Talvez pensassem que como eu era só uma criança, não tinha muita culpa daquilo. Talvez já me vissem como alguém que cresceria e se descobriria lésbica.
De qualquer forma, estavam certos.
Nunca achei que esse papo de sexualidade tivesse muito a ver comigo, até quando eu tinha catorze anos me flagrei observando uma colega minha por um tempo. O nome dela era Alexandra. Ela era linda, com lábios coberto por batom vermelho e cabelos pretos em forma de cachos escorrendo pelos seus ombros. Não era só bonita por fora mas como por dentro, pois eu conhecia-a um pouco e soube de algumas instituições de caridade que ajudou e que ela ia ao asilo uma vez ao mês alegrar os idosos.
Eu sei. Tinha exatamente tudo para ser uma garota perfeita, se não fosse seu namorado, Michael. Ele era ciumento ao extremo e protetor em relação à ela, tirando qualquer garoto que cruzasse o olhar com o dela... mas não as garotas. Afinal, são todas amigas, que mal há?
De modo que naquele mesmo ano fui numa festa do pijama em que ela também foi convidada. Eu já não sabia mais o que eu sentia, julgando-me por dentro. Como meus pais reagiriam se eu dissesse que talvez estivesse apaixonada por uma garota? Eu mesma não estava me aceitando muito bem. Já não discriminava os homossexuais tanto quanto eles, até repreendia algumas ações, e eles me estranhavam um pouco. Como uma fase que ia passar.
“Ela está querendo ser rebelde, Maria está apenas nos contradizendo por causa da puberdade.”
Claro, mamãe. Claro, papai.
Foi uma ótima noite da qual me lembro todos os detalhes. Cada hora estava registrada no meu diário: era um dia no inverno, e por causa disso fui para lá com um pijama de moletom e um cobertor. O ar era úmido, como se em breve fosse chover. Peguei carona e cheguei na festa do pijama no horário em ponto.
Já havia algumas pessoas lá, entre elas Alexandra, jogando baralho. Ela virava a cabeça um pouco para o lado, como fazia quando estava entediada. Eu deixei escapar um sorriso.
Jogamos alguns jogos, falamos bobagens. E chegou a hora de jogar Verdade ou Consequência. Fui solenemente desafiada a sair de casa para o pátio dos fundos só de pijama e gritar bem alto para todos ouvirem “EU AMO O MICHAEL!”. Só que já estava chovendo.
Vou contar uma coisa sobre mim: sou insistente. Mesmo. Saí de lá e berrei com todas as minhas forças, para o céu escurecido e triste. Mas quando fui voltar, vitoriosa, para a casa, percebi que tinham trancado a porta. Eu tentei bater ao máximo, mas ninguém atendia. Gritei, bati na janela. E tive que me acomodar perto do pequeno telhado da casa, me espremendo para a água não cair em mim.
Apoiei minha cabeça entre os joelhos para evitar sentir frio e xingando com todos os nomes as garotas que estavam rindo de mim dentro da casa. Quem elas eram para fazer isso? Eu teria minha devida vingança.
Foi quando estava planejando de modo mais escandaloso possível anunciar para Deus e o mundo que Rebecca amava Arthur e que Alicia tinha pirado por causa do seu amigo que sofreu um acidente, o Ricardo, que eu ouvi um baque surdo de uma porta se fechando repentinamente e alguém se agachando ao meu lado com meu cobertor nas mãos.
— Você está bem? — escutei uma voz melodiosa perguntar, em um legítimo tom de preocupação. Alexandra se aproximava devagar de mim, os olhos brilhantes me encarando e colocando o cobertor em volta de meus ombros frios. Balancei a cabeça afirmativamente quando ela se sentou ao meu lado na mesma posição que eu.
Ficamos um tempo ali, só olhando a chuva, no silêncio, quando ela quebrou o gelo.
— Elas não queriam que eu viesse, mas eu lembrei pra elas daquela vez que a Sandra beijou o Nathan e elas se aquietaram — soltou um riso sem som, um belo de um travesso sorriso.
— Não entendo porque fizeram isso, Alex — falei.
— As pessoas podem ser muito idiotas às vezes. Mas não as julgue, não se pode basear a personalidade em uma única ação.
Olhei espantada para ela.
— Com certeza — respondi, observando seus olhos. Malditos olhos castanhos que me faziam ficar perdida, como se pudesse navegar neles. Fui me aproximando lentamente.
A chuva caía depressa, os chuviscos molhando-me a mão que já estava fora do cobertor. Eu me curvava para ela, e ela para mim, para minha mais que satisfatória surpresa. Eu sentia o cheiro de menta que exalava de sua boca e nossos narizes estavam quase se encostando.
— Mas às vezes as pessoas não são idiotas — ela disse, num sussurro tão baixo que só eu pude ouvir.
Curvei-me ao mesmo tempo que ela e nos beijamos.
Aquele dia nunca saiu da minha memória, é claro. Quem diria que a garota que havia xingado os pais de uma amiga de “bicha” teria dado seu primeiro beijo com uma outra garota? Que, além do mais, não era só uma garota. Era Alexandra, minha melhor amiga, confidente e namorada... até a última semana.
Quando eu tinha 17 anos resolvi sair do armário e me assumir perante ao meu pai e minha mãe, figuras das quais sempre adorei e apoiei, assim igualmente, e por isso esperava que, apesar de todo seu preconceito, eles me aceitassem. Durante todo esse tempo escondi meu namoro com Alex. Porém, tinha quase certeza que eles não me aceitariam. Estava contando com o instinto maternal e paternal de ambos.
Já fazia um tempo que eu e Alexandra usávamos cocaína. Entramos nessa por insistência de um amigo, o qual nos persuadiu a inalar e duvidou de mim, eu que, insistente como sou, inalei a droga.
Não foi uma das minhas melhores decisões e escolhas, é claro. Mas era impossível controlar aquele meu desejo interior de provar que eu não precisava provar nada pra ninguém¹. E acho que era isso que Alex tanto amava em mim.
Briguei com esse mesmo amigo, que denunciou o fato de eu e Alex estarmos paquerando para namorado dele, o que gerou uma boa de uma briga com direito exclusivo à puxões de cabelo, socos, entre outros, e várias pessoas que nem participaram da nossa história se meteram no meio da briga, achando-se importantes.
Mas, de qualquer forma, a literalmente droga já estava feita e eu já havia viciado no tal pó. Não a tanto tempo assim, mas o suficiente para meu nariz escorrer e eu ter que viver com um pano por aí, e uma outra sensação estranha, além de, é claro, a característica euforia.
Uma das várias noites que eu consegui fugir de casa sem ser percebida foi numa festa em que fui com Alex. O ruim é que não consegui voltar para casa ninguém me notar, pois quando entrei pela janela do quarto meus pais já me esperavam ali.
Eu estava tão eufórica por causa da cocaína que nem me lembro muito bem da briga, tanto quanto lembrava da briga com o ex-namorado de Alex. As partes que me lembro são confusas, mas algumas são menos duvidosas.
Eu tenho certeza que devo ter assumido minha homossexualidade, pois recordo muito bem das caras chocadas de meus pais, de gritos e de eu lançar um vaso contra a minha mãe quando perguntou qual vagabunda que eu estava pegando.
Acho que eles se decepcionaram comigo, é claro, porém mais eu com eles. Apesar de eles já terem me agredido fisicamente como forma de correção, coisa que não aprovo e nunca aprovei, sempre os tive ao meu lado fora destas polêmicas questões.
Ter a figura que me criou aos berros por causa da minha orientação sexual chocou-me e esfriou meu coração. Deixei meu pai socorrendo minha mãe por causa do vaso e peguei a minha mochila, jogando tudo que eu via pela frente lá dentro. Esqueci, porém, do meu diário novo que eu tinha em cima da mesa, e deixei-o na minha antiga casa.
Fui morar com Alex que tinha pais que aceitavam-na como ela era, e por isso me acolheram mais do que os meus próprios. Experimentei pela primeira vez a compreensão e o carinho que os meus sogros agora me davam, e nunca me arrependi de ter deixado minha casa.
Exceto hoje.
Porque hoje, diário, eu estou aqui em casa, no meu quarto. Eles não fecharam a janela desde que cheguei, de forma que pude facilmente pulá-la antes de bater na porta, mas nem mexeram em nada: o lugar aparenta ainda destruição que causei ao não ser aceita pelos meus pais. É quase como se zombassem de mim, mostrando para quem quiser ver “minha filha eufórica jogou todas as coisas após não perdoarmos ela por seu pecado contra a Igreja”. Cheguei aqui e pus-me a escrever caso algo acontecer comigo. Porque hoje vou pedir perdão a eles, pois Natal e Ano Novo fazem parte da época de perdoar e passar com a família.
Estou escondida aqui no meu quarto novamente. Entrei pela janela. É trinta e um de dezembro. Meu último trinta e um foi ótimo, comemorando com champanhe com meus sogros e Alex. Mas esse nunca será com Alexandra e nem as poucas horas que restam para minha vida acabar. Alexandra gritou muito comigo ontem. Disse que não aguentava mais minhas besteiras, que eu era muito insistente em tentar reviver um relacionamento já morto.
Ironicamente, ela jogou um estojo que estava ao seu lado em mim. Parecia tão eufórica quanto eu ao sair de casa, e por isso deduzi que usava cocaína. Sendo assim, tratei de sair rapidamente de lá antes que ela jogasse um vaso que não estava longe em mim. Por que as casas sempre têm vasos de decoração?
Alexandra deixou uma carta no arbusto perto da caixa de correio hoje, sabendo que eu voltaria. Lá, estava escrito as sinceras desculpas dela pelo ocorrido ontem, mas que ela não poderia mais deixar-me entrar em casa, e que tudo entre nós estava terminado. Terminava com um irônico “Boas Festas”.
Eu nunca gostei de ironia, diário. Entenda isso. Sou direta. Não enrolo muito as coisas. Só alguns casos especiais, é claro, como esconder que flertava frequentemente com uma garota comprometida dos meus pais.
A minha vida não faz mais sentido. Passei o dia mendigando para qualquer alma de boa vontade para me darem um mísero pão e vinte centavos, que é o que comi o dia inteiro. Gastei os vinte centavos comprando balas. Afinal, não tenho mais nada a perder.
Não faz mais sentido, para mim, viver. Viver é como uma linha trôpega que você não sabe quando vai cair. É como o gato dentro da caixa que estará exalando veneno ou não. Você nunca sabe o que aconteceu ou acontecerá. Tudo é muito repentino. Tudo acontece abruptamente, de uma hora para outra. O futuro molda-se várias e várias vezes, e nunca tem forma própria.
Pois hoje, diário, eu tenho uma arma que guardava secretamente atrás do armário que dividia com Alex, e algumas balas para caso de uma bala ou outra ser má direcionada. Fui rejeitada pela minha namorada de quatro anos (durante um apenas paquerávamos), duplamente rejeitada pelos meus pais de vida inteira e agora estou rejeitando continuar vivendo na imundice de sociedade de hoje em dia, rejeitando continuar vivendo sabendo que sou humana e que os seres humanos são os piores seres que podem existir. São todos policiais uns dos outros e todos criminosos uns dos outros. Percebi que não tem opção entre ser ou não ser policial ou criminoso. É algo geral, que já estava entre nós. Nem a garota que eu considerava perfeita deixa de um ser policial corrupto, muito menos eu. Nem meus pais deixam de ser criminosos “inocentes”.
E não quero viver no meio disso. Desse preconceito. Com certeza não quero. Onde minha própria família não me “perdoa” por ser quem eu sou, e onde eu não perdoo a sociedade por não me deixar viver como quero.
Então, é a última vez. Trinta e um de dezembro ou primeiro de janeiro, não interessa, pois só sei que vai ser meu último suspiro aqui na Terra.
Obrigado por me ouvir, diário.
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