Nos Confins do Mundo

1 I. a cabana no fim do mundo


Notas iniciais
Eu escrevi esse capítulo ouvindo um vídeo qualquer no youtube com o barulho do mar. Mega recomendo a leitura desse capítulo com um som desses ao fundo!

Esse é uma boa: https://www.youtube.com/watch?v=AsD5u6k6dKI

A manhã chegou fria e cinzenta, como se os céus estivessem furiosos por alguma razão.

Sentado sobre a relva baixa, o homem observou as ondas do mar quebrarem contra as encostas rochosas das falésias, devorando a praia com a água escura que cobria as areias. Era uma tempestade das grandes, ele sabia. Grandes nuvens escuras espalhavam-se sobre o céu, formando um tapete sombrio sobre a terra e o mar, e o vento soprava com força, tão frio quanto pudesse estar.

Ali, de pernas cruzadas enquanto observava o horizonte, Rast puxou o manto de peles para mais perto do corpo e cruzou também os braços, buscando aquecer-se. Seu queixo tremeu e seus dentes rangeram, mas ele não se moveu muito mais que isso. Fechando os olhos e se concentrando apenas no som da tempestade, tentou pensar no que faria a partir de agora. O frio é bom para a mente. Afia os pensamentos, ele disse para si mesmo. Mas não posso simplesmente morrer de frio.

É claro que ele estaria mais seguro dentro da cabana que ficava a apenas alguns metros de onde ele estava agora. Era muito velha, feita de uma madeira escura, sem janelas, e cuja porta parecia pronta para sair voando a qualquer instante. Mesmo assim, proteger-se do frio ali seria infinitamente melhor. Pelo menos lá Rast estaria protegido do vento que gelava seus ossos. Havia também uma cama lá dentro. Tão velha quanto o casebre, é verdade, mas o colchão de algodão era confortável o suficiente. Sempre havia sido. Sempre havia servido.

Foi então que veio a chuva. Tímida de início, mas logo começou a engrossar. Rast se levantou apoiando as mãos no chão e caminhou de volta para a cabana. Por mais que achasse que o frio e a dureza do ambiente lhe ajudariam a pensar no que fazer a partir de então, não podia se dar ao luxo de ficar encharcado ou de pegar um resfriado. Tinha que continuar sua busca, e tais imprevistos só o atrasariam ainda mais.

Foi preciso empurrar a porta com força para fechá-la direito. Quando ele finalmente entrou na cabana, a tempestade pareceu diminuir, mas era só o isolamento do som. Rast podia ouvir os grossos pingos de chuva chocarem-se com violência contra o telhado de madeira e, por alguns instantes, chegou a pensar que o vento iria simplesmente arrancar as fundações da casa e leva-la penhasco abaixo, até o mar.

Através de alguns poucos buracos nas paredes e no teto, o interior da cabana era parcialmente iluminado por uma luz cinzenta. Olhando para as frestas nas junções entre o teto e as paredes, ele observou um grupo de pequenos passarinhos que se mantinham pertos dos outros, protegendo-se da chuva.

— Não podem voar debaixo dessa chuva, não é? — ele falou para os pássaros enquanto se sentava sobre o colchão encardido. — Não se preocupem. Já vi tempestades bem piores.

Os pássaros pareceram não entender. Continuavam a piar uns para os outros, como se discutissem a estratégia de retorno a seus lares. Rast admirava os pássaros; seu canto era bonito e suave. Alguns, pelo menos eram. E quando se comunicavam, um simples assobio, para ele, podia significar uma frase inteira. Parecia muito simples. Simples demais. Por outro lado, a linguagem dos humanos era muito complexa e feia. Inventamos milhares de palavras, e mesmo assim custamos a entender uns aos outros, pensou. Ele próprio tinha uma imensa dificuldade de expressar o que sentia. Muitas vezes, só as palavras não eram suficientes. Mais do que ele gostaria.

Às vezes, achava que ser um pássaro tornaria as coisas bem mais fáceis. Assim, imaginou, eu poderia voar para longe quando bem quisesse. E para onde eu quisesse.

Aquela velha cabana havia servido de abrigo para Rast uma dezena de vezes. Porém, em todas as outras, ele nunca estivera sozinho. Aquele era um lugar especial. Era o lugar onde ele e Shadan podiam ficar em paz. O lugar onde ele e o homem a quem ele amava poderiam fugir do mundo e de todas as pessoas. Era um refúgio. Um paraíso na terra, ainda que a ideia comum de paraíso estivesse longe daquilo. O paraíso deles.

Era por isso que, quando Shadan tinha sumido há quatro semanas atrás, a velha cabana havia sido um dos primeiros lugares em que Rast pensara em procurá-lo. Para seu desgosto e decepção, porém, seu amante não se encontrava ali quando ele chegara na noite anterior, e aquilo apenas o frustrara ainda mais. Há semanas, o homem que ele amava havia simplesmente desaparecido.

Ele ainda lembrava do dia em que, ao acordar, não encontrara Shadan ao seu lado na cama. Era o quarto dia do início do outono, quando os dias ainda não estavam tão cinzentos. Naquele tempo, Rast havia pego alguns dias de folga do trabalho no campo para que pudesse finalmente visitar Shadan. Eles moravam em vilarejos diferentes, e nem sempre podiam ver um ao outro, então, quando conseguiam se ver, aproveitavam ao máximo o tempo que tinham juntos. Comumente, Rast saía no início da noite e cavalgava até o vilarejo de Sepehr para visitá-lo. Chegava no perto do meio dia e, ao fim da tarde, quando Shadan saía do trabalho, eles costumavam alugar um quarto na pequena estalagem e passar o resto da noite acordados juntos, até que caíssem no sono perto da primeira luz da manhã. Rast sempre acordava primeiro. Porém, daquela vez, tinha sido diferente. E, por algum motivo que ninguém sabia ao certo, Shadan havia desaparecido.

Na cidade, ninguém havia visto ele partir. E Rast tinha perguntado incansavelmente a todos. Não havia nenhum rastro, nada. Shadan era um guerreiro experiente dos tsoai, e sabia esconder seus rastros, o que fazia Rast imaginar que ele havia sumido de propósito, que Shadan não queria ser encontrado. Mas por quê?

Aquela pergunta o atormentava todos os dias e todas as noites desde então, e ele não conseguia encontrar uma resposta.

Por vezes, chorava. Chorava à noite, antes de dormir, quando o pensamento de que seu amante estava em alguma outra parte do mundo, distante demais para que ele pudesse encontra-lo lhe retornava à cabeça. Chorava pouco depois de acordar, ao sentir sua falta e lembrar que não fazia a mínima ideia de onde encontrá-lo. Ou então, às vezes, chorava até mesmo durante o dia, durante atividades ordinárias, quando nem sequer estava esperando e a tristeza vinha e se abatia sobre ele, sem aviso algum.

Na primeira semana depois do desaparecimento, Rast procurou por Shadan desesperadamente. Ele não pode estar tão longe, ele pensava. Ele só está a uma noite na minha frente. Menos que isso. Contudo, ainda que a distância fosse pouca, Rast não sabia qual caminho seguir. E, se Shadan não estava na velha cabana, então ele poderia ter ido a qualquer lugar.

— Parece que essa chuva vai demorar a passar. — Rast falou mais uma vez com os passarinhos. — Fiquem confortáveis. O dia vai ser longo.

Com um bocejo, ele inclinou o corpo e se deitou sobre o colchão de algodão. Estava empoeirado, mas ainda era o colchão deles. Rast fechou os olhos, mas tentou não dormir; manteve a concentração na chuva que caía aos montes ao seu redor.

O sono veio, eventualmente, sem ser convidado, e Rast sonhou com os dias ensolarados de verão, quando todas as coisas eram melhores.

۝

Quando ele abriu os olhos novamente, a chuva havia parado. Os pássaros já haviam partido, e um enorme cansaço se abatia sobre seu corpo. Ele demorou vários minutos para se levantar, mas sabia que havia dormido demais. A luz fraca ainda iluminava um pouco a cabana, tão cinzenta quanto no dia anterior. Mas, pelo barulho do mar, Rast soube que a tempestade havia passado.

Depois de um tempo, ele se pôs de pé e fechou o manto sobre a frente do corpo. Ainda com esforço, empurrou a porta e saiu do velho casebre. O aumento súbito de iluminação fez com que ele fechasse os olhos por alguns instantes, mas assim que o incômodo passou, ele voltou a caminhar, contornando a cabana e caminhando até próximo da beira do penhasco mais uma vez.

Está de manhã novamente, ele percebeu. Eu dormi por um dia inteiro...

Àquela altura, o mar não avançava mais tão violentamente sobre a encosta; agora, ele conseguia enxergar a praia lá embaixo. A areia negra resistia, espremida entre o rochedo e o oceano. O céu ainda estava nublado, mas Rast não mais ouvia os trovões, o que era bom. O silêncio imperava, não fosse o som das ondas e do vento.

Não há nada aqui, Rast pensou. E, ainda assim, quando ele e Shadan passavam o tempo ali, juntos, era como se não precisassem de mais nada. Era só dele que eu precisava. Rast cruzou os braços e olhou para trás; a cabana não estava longe, e ele já havia olhado para ela várias vezes naqueles dois dias em que estava ali. Porém, ao olhar para ela, naquele instante, as lágrimas brotaram em seu rosto. A saudade inundou seu coração mais uma vez, e Rast quis dormir por outro dia inteiro. Queria dormir até que Shadan aparecesse e o acordasse com um beijo na testa.

Ao redor da cabana, uma construção singela com algumas paredes de madeira e um telhado triangular, havia um pequeno cercado de rochas, que Rast e Shadan haviam erguido certa vez.

— Precisamos de um cercado para os animais. Um que não vá cair com a primeira ventania. — Shadan havia dito na manhã em que eles tinham começado a construir o cercado.

— Animais? Que animais? — Rast respondera, erguendo a sobrancelha.

— Os animais que criaremos, quando viermos morar aqui. Ou você acha que vamos sobreviver só do que plantarmos? — Shadan sorrira e erguera a sobrancelha de volta, tirando sarro de seu amante. — Será ótimo. Teremos carne e lã. E quem sabe, até um pouco de leite.

Rast ainda lembrava de como havia sorrido naquele dia. Àqueles tempos, Rast havia sido homem mais feliz do mundo. E havia se considerado o mais sortudo também.

— Você quer morar aqui, neste lugar? — ele perguntara.

— Uma cabana no fim do mundo, longe de tudo, mas perto de você — Shadan sorrira. — O que mais eu poderia pedir?

Lembrar de episódios como aquele apenas o deixavam mais triste. Agora, o cercado de pedras ainda se mantinha em pé, mas estava inacabado. Parecia, juntamente à cabana, um conjunto de ruínas, como se as pessoas que ali moravam houvessem resolvido sair às pressas.

Rast enxugou as lágrimas sob olhos. A passos firmes, ele caminhou na direção da cabana. Não podia ficar ali para sempre, esperando por um milagre. Sabia que tinha que continuar sua busca. Sabia que tinha que encontrar Shadan.

Assim como seu amante, Rast havia partido repentinamente de seu próprio vilarejo. Tinha avisado que estava de saída a pouquíssimas pessoas e, mesmo assim, não tinha dito para onde ia ou o que iria fazer. Aquela jornada era sua, e apenas sua.

Depois de arrumar seus pertences, Rast amarrou a trouxa de pano sobre as costas e empurrou a velha porta de madeira pela última vez, fechando-a com firmeza. Com um suspiro, ele se afastou lentamente da velha cabana e seguiu a encosta, ladeando o mar.

Quando já estava muito longe, e a cabana não passava de um pontinho marrom distante no horizonte, Rast olhou para trás e se perguntou se algum dia voltaria a ver aquela cabana novamente. Perguntou-se se, algum dia, ele e Shadan de fato criariam animais ali, no fim do mundo. Se algum dia morariam juntos e seriam felizes como sempre haviam querido.

Aquele tipo de pensamento quase o fazia sorrir, mas Rast tinha coisas mais importantes para se preocupar agora; se Shadan não estava no fim do mundo, só poderia estar em algum outro lugar. Talvez estivesse na outra extremidade, no começo. E, enquanto caminhava, Rast foi se dando conta do quão pequeno era seu conhecimento sobre o mundo.

Talvez Shadan tenha se tornado um pássaro e quis sair voando por aí, como aqueles passarinhos, ele pensou com tristeza. Eu também o faria, se pudesse. Mas até mesmo os pássaros possuem um lar, Shadan. Até mesmo eles possuem um lugar para o qual voltar.

Mas Rast não era um pássaro. Ele não podia voar sobre as planícies e as montanhas do mundo atrás do seu homem. Então, sua única alternativa era caminhar.

Notas finais
Impressões são sempre bem vindas (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.