North Wind

14 capítulo 14- Little Wolf


Jon ainda havia ficado um pouco mais ao lado de Sansa, após ela ter dormido. Brincava com algumas mechas de seu cabelo, que o fazia lembrar-se do pôr do sol. Saber que ela não havia se magoado com o tempo que passaram sem se ver direito, acalmara o coração do Snow. Jon passou a mão pelo rosto de Sansa antes de sair devagar do quarto, sem fazer o menor ruído.

Os corredores de Winterfell pareciam mais frios que o normal, Jon olhou para uma janela e viu que a chuva havia cessado, dando lugar a neve que agora caia sem piedade alguma. Seus olhos também encontraram Bran, sentado em uma cadeira olhando a neve cair com Tormund ao seu lado, o garoto tinha um olhar melancólico em direção a torre da qual caíra. Jon então foi em direção ao jovem Stark.

Bran via a neve cair e lembrava-se de quando ele e Rickon brincavam no pátio ou quando Jon e Robb tentavam ensina-lo a atirar com um arco. Mas, agora não tinha mais o uso de suas pernas. Não podia mais correr e de que adiantava um aleijado? Seu olhar tornou-se ainda mais triste:

—Sabe que olhar para o nada e ficar triste não adianta bosta nenhuma, não é garoto? _Questionou Tormund

—Não estou triste. _Retrucou Bran

—Ah, você está pequeno Stark. Olha para a neve como um filhote que perdeu a mãe, mas tenho uma novidade para você: o mundo não vai poupá-lo só porque é uma criança. _Tormund olhou para o garoto e colocou a mão sobre seu ombro. _Ouvi sobre suas habilidades garoto, são incríveis! Então, pare com essa cara de merda e pense que você está vivo.

Bran encarava o selvagem ao seu lado, realmente ele não fora poupado por ser uma criança. E agora, com a guerra se aproximando, ele não podia simplesmente ficar se lamentando por tudo. Talvez não fosse capaz de fazer muito, mas o pouco que poderia fazer ajudaria. O jovem Stark sorriu para Tormund e teve seu cabelos bagunçados, o selvagem ruivo parecia um pouco com Osha.

O garoto Stark percebeu que Tormund ainda encarava Brienne, a protetora de sua irmã, que tentava ensinar Podrick a como empunhar uma espada. E Bran achava estranhamente bizarra a forma como Tormund olhava para Brienne.

O selvagem desviou os olhos de sua musa para ver Jon Snow se aproximando. O "lobo branco" sempre aparecia com um sorriso idiota na cara após falar com Sansa Stark. Tormund reparou, que se olhasse atentamente, ele já havia o visto sorrir daquele jeito há um certo tempo. Quando estava com Ygritte:

—O que tanto olha em Jon? _Questionou Bran arrancando Tormund de seus devaneios

—Jon Snow fica sempre com essa cara de imbecil quando fala com sua irmã. Não suspeita de nada, pequeno lobo?

—Agora que comentou, Jon e Sansa andam bastante próximos e se bem me lembro eles quase nunca se falaram, talvez apenas em casos extremos. _Comentou Bran vendo a cara de bobo que Jon estava. _Tem certeza que essa não é apenas a cara normal dele?

—Claro que tenho, garoto! _Exclamou Tormund. _Lembro de ter visto essa cara quando ele...

—O que tanto me olham? _Questionou Jon se aproximando e bagunçando o cabelo de Bran

Bran e Tormund arregalaram os olhos um para o outro, sabiam que precisavam de alguma desculpa e depressa:

—Estava contando para o garoto como você lutou contra Ramsay. _Disse Tormund com um sorriso forçado

—Está bem... _Disse Jon desviando o olhar para Bran. _Tudo bem?

—Ah, sim! Tormund me deu uma "grande lição de moral".

—Tormund é bom em dar "lições de moral". _Riu Jon

Bran sorriu para Jon, pensava agora no que Tormund havia acabado de dizer, será que Jon e Sansa realmente... Não! Eles nunca se falaram quando mais novos, por que raios agora teriam um relacionamento?

Jon começava a sentira-se levemente embaraçado com Bran e Tormund o analisando, pareciam querer ler seus pensamentos. Quando os olhos azuis de Bran desviaram para a neve mais uma vez, Jon conseguiu respirar aliviado, mesmo que Tormund ainda encarasse, os olhos de Bran ainda eram mais incômodos por lembrar os de Sansa, coisa que deixava o Snow levemente tenso.

O rosto de Jon havia se tornado teso, coisa que não passara despercebida por Tormund. Algo acontecia com Jon Snow, mas antes de qualquer hipótese que o selvagem pudesse levantar foi ouvido o baque de Podrick indo ao chão e, mais uma vez, seus olhos encontraram Brienne. Havia algo naquela mulher que o atraía como Jon Snow atraía desgraça:

—Vai mesmo ficar a encarando sem dizer nada? _Questionou Jon

—É assim que funciona, Jon, que-não-entende-nada-de-mulheres, Snow. Eu jogo meu charme e espero ela vir, como um urso atrás de sua presa.

Jon arregalou os olhos e desviou-os para qualquer lugar que não fosse Tormund, foi então que deparou-se com Sansa se aproximando com Fantasma, enrolada em sua capa enquanto o vento batia fazendo seus cabelos ruivos parecerem fogo:

—Rainha loba se aproximando. _Anunciou Tormund

Sansa sorriu para Tormund:

—O que fazem aqui na rua? Está frio. _Disse Sansa apertando a capa ao redor de seus ombros

—Companhia para o pequeno lobo. _Falou Tormund bagunçando os cabelos de Bran

Sansa sorriu e desviou os olhos do irmão para Jon, coisa que atraiu a atenção de Bran e do selvagem ao seu lado:

—Conversou com sor Davos?

—Ainda não, ele foi atrás de lady Lyanna para vermos o número de homens da casa Mormont que vão nos acompanhar.

Bran e Tormund se olharam, percebendo como o tom de voz de ambos mudavam ao conversarem:

—Está tudo bem, você sabe o que faz. Já me provou isso mais de uma vez.

Sansa colocou a mão sobre o ombro de Jon, sorrindo para ele. Mas, teve sua atenção atraída por um pigarro de Tormund:

—Tem algo acontecendo aqui?

—Não! _Exclamou Sansa. _Apenas precisamos de todo apoio moral em tempos de guerra. É complicado manter o otimismo, mas é preciso tentar.

Tormund olhou para Sansa de cima a baixo. Ela era, praticamente, uma criança, que não havia vivido o bastante ainda para conhecer os horrores do inverno. "A rainha do Norte", era um título pesado demais para que ela sustentasse sozinha, mas nunca ouvira uma reclamação vinda dela. Sansa apenas aceitava e o selvagem via que nada do Sul estava na essência dela. Sansa Stark já não era mais o fino gelo que ficava sobre os lagos, ela havia se tornado o gelo da Muralha, forte e impenetrável.

Jon já havia desistido de entender o que Tormund tanto olhava, apenas pegou Bran em seus braços e avisou Sansa:

—Vou levar Bran para dentro. _Sansa apenas assentiu com um breve sorriso. _Vamos, corvo de três olhos, antes que você vire um bloco de gelo.

Quando Jon já havia se afastado o suficiente e Tormund viu-se sozinho com Sansa Stark, ele disse algo que estava preso em sua garganta:

—Vocês mentem muito mal.

—Então você já sabe. _Riu Sansa sem humor

—Quase impossível não perceber, pelo menos para mim, rainha loba. Eu só vi aquele sorriso de imbecil no rosto de Jon Snow uma vez. _Tormund colocou ambas as mãos sobre os ombros de Sansa, fazendo-a o olhar. _E mesmo assim, parece ainda mais imbecil quando direcionado para você.

Sansa riu e olhou nos olhos de Tormund:

—Eu não me lembro de ter agradecido por tudo que fez por nós, eu...

—Sansa Stark, rainha de Winterfell, você recebeu o povo livre em sua casa. Esse já é um grande agradecimento. _Tormund olhou para Brienne por um breve instante e voltou a olhar para Sansa. _E você também trouxe a beleza rara com você, então é um agradecimento maior ainda.

—Tenho fé que vai conquistá-la, Tormund. _Riu Sansa

—Eu também. Agora, o que me diz de aprender a como usar um arco e flecha, já que é um fracasso com a espada?

—Seria interessante, desde que eu não acerte alguém com uma flecha perdida.

—Criança, você está com Tormund Giantsbane, nada da errado comigo por perto.

Jon observava Sansa conversando com Tormund da janela do quarto de Bran, toda vez que a Stark sorria ele acabava sorrindo junto, mesmo sem perceber. Sansa havia, aparentemente, criado um vínculo com cada pessoa que vivia no Norte, como se não houvessem ramificações, como selvagens e nobres, eram apenas nortenhos aos olhos da rainha. Ela ria das olhadas que Tormund lançava para Brienne, assim como ria do seu fracasso para acertar o alvo. Realmente, Catelyn Stark não existia mais em Sansa.

Bran observava Jon olhando pela janela, vez que outra conseguia ver um sorriso surgir no rosto do Snow:

—Sua irmã é tão boa quanto você, no arco e flecha. _Riu Jon aproximando-se de Bran

—As vezes eu queria poder voltar para aquele dia, com você e Robb me ensinando a atirar. Pena que ainda não controlo minhas visões. _Bran sorriu brevemente para Jon. _Mas, eu vi tia Lyanna quando criança. Ela era igual a Arya. E você se parece com ela.

Jon sentou-se na beirada da cama de Bran e viu o garoto levemente cabisbaixo:

—Desculpe não ter visto seu pai. _Disse Bran olhando Jon nos olhos

—Sabe que não precisa se preocupar com isso, Bran. _Jon bagunçou os cabelos do jovem Stark. _Não tenho uma grande necessidade de saber como ele era, apenas saber quem eram meus pais já é o bastante.

—Sabe que aos meus olhos ainda somos irmãos, não sabe?

—Não poderia tratar você de outro jeito. _Riu Jon para lo em seguida deixar o sorriso sumir e olhar ao redor daquele quarto. _Eu me lembro do dia em que fui embora, você estava deitado nessa mesma cama e sua mãe do seu lado. Ela ficava dia e noite com você.

—Eu nunca disse "adeus" para ela. _Disse Bran melancólico. _Nem para o papai.

—Isso porque não imaginávamos o que iria acontecer, Bran. E agora, não podemos mais nos lamentar pelo passado. Aconteceu, são acasos do destino.

—Você costumava ser mais pessimista, Jon. _Riu Bran

—Acho que a morte me fez bem. _Riu Jon junto com Bran

—A "morte" ou Sansa?

Antes que Jon abrisse a boca para responder, um grito de Sansa foi ouvido do lado de fora. E, como em um salto, Jon levantou-se e correu para a janela, deparando-se com Sansa sentada no chão enquanto Tormund ria da mesma. A rainha do Norte resmungou algo para logo em seguida começar a rir junto com o selvagem:

—O que aconteceu? _Questionou Bran preocupado

—Sansa caiu. _Riu Jon. _Acho que ela também me fez bem, Bran.

A porta do quarto de Bran fora aberta por uma mulher velha e levemente curvada, talvez não tão velha quanto a Velha Ama, mas velha de todo jeito:

—Vim para ficar com o pequeno Stark, lord Snow.

Jon assentiu e deu um beijo na testa de Bran antes de sair do quarto.

E mais uma vez, Jon viu-se vagando pelos corredores de Winterfell, rumo ao grande salão. E quanto mais andava, menos ouvia os sons que vinham da rua ou até mesmo do quarto de Bran. Era como estar sozinho naquele castelo, então, lembrava-se da história que ele e Robb haviam inventado para Sansa, Bran, Arya e Rickon. Que a cripta era assombrada pelos espíritos que ali descansavam e agora, pensando bem, ele percebia que isso incluía sua mãe. Será que Lyanna Stark era realmente como Arya Stark? Porque, se fosse, ela seria bem capaz de assombrar a cripta enquanto seus sobrinhos andavam por lá.

Jon parou no meio do grande salão, pensou por um breve momento e desviou seu caminho para a cripta. Desde que soubera quem era sua mãe, não havia ido até lá para "conversar" com ela.

Cada vez que descia até a cripta, Jon tinha plena certeza de que ela era o ponto mais frio de toda Winterfell. Passava pelos rostos de pedra que pareciam acompanha-lo com os olhos pelo seu caminho até sua mãe. E então, a encontrou, ao lado de seu avô Rickard, seu rosto esculpido em pedra parecia levemente melancólico. Como se algo ainda a magoasse:

—Desculpe não ter vindo antes. _Começou Jon passando a mão pelo gelado rosto de pedra de sua mãe. _Eu sequer sei como começar, até pouco tempo você era para mim, só mais uma Stark enterrada aqui e agora é minha mãe. Eu não sei quase nada sobre você, tudo que sei são apenas histórias, palavras ditas ao acaso, mas isso não é o mesmo que "conhecer". Sei que eles diziam que tinha uma "beleza selvagem". _Riu Jon sem humor. _Que lembrava Arya na maioria das vezes, mas isso não me faz sentir como se conhecesse você só faz com que eu imagine como você foi um dia.

Um vento frio atravessou a cripta, fazendo Jon amaldiçoar-se por ter deixado a porta aberta:

—Eu queria ter conhecido você, mas acho que não era pra ser. No entanto, família é algo que nunca me faltou, pode ter certeza disso. _Jon pousou mais uma vez sua mão sobre o rosto de sua mãe, sentindo o frio da pedra sobre seus dedos. _Quando essa guerra tiver acabado, quero trazer Sansa até você. Não como minha prima, mas como minha noiva, isso se ela realmente aceitar o meu pedido ou se eu não morrer. Se a história for realmente verdadeira, quero que eu e ela sejamos capazes de nos amar como você e meu pai.

Jon ainda ficara um bom tempo encarando o rosto de pedra de sua mãe antes de sair. Pensava que na próxima vez que fosse visitá-la devesse levar rosas de inverno, assim como seu tio, Ned Stark, fazia.

Quando saiu da cripta e rumou em direção ao castelo, Jon viu Sansa acertar o alvo com uma flecha e a viu comemorar com Tormund. O Snow permitiu-se sorrir, Sansa conseguia brilhar como o verão em meio a todo frio e toda neve do inverno.