North Wind
7 Capítulo 7- Son of Ice and Fire
Notas iniciais
Após ter passado praticamente o dia inteiro analisando documentos, Sansa acreditava que era mais do que digna de descansar em sua banheira.
A rainha do Norte repousava a cabeça na borda da banheira, mantinha seus olhos fechados enquanto cantarolava baixo a canção de Florian e Jonquil. Por mais que tentasse se acalmar, ela acabava pensando em Jon, que agora deveria estar no salão com o povo livre. Ainda era estranho pensar que ele tinha o sangue real dos Targaryen, o lobo branco, como haviam o chamado, era o exato ponto de encontro do fogo e do gelo.
Sansa segurou seu nariz, prendendo a respiração e submergiu. Quando voltou, passou a mão pelo rosto, jogando o cabelo que havia grudado em sua cara para trás. As gotas de água começaram a deixar seu rosto gelado. Ficou por alguns segundos olhando os joelhos através da água enquanto repassava mentalmente o que diria durante o jantar.
***
Quando Jon colocou Sansa de volta no chão, a mesma falou, de uma vez só sem pestanejar:
—Acho que deveríamos falar a verdade para todos.
Jon arregalou os olhos e riu nervosamente:
—Eu não sei, Sansa. _Começou Jon. _Não sei se estou totalmente preparado mentalmente para contar à eles.
—Tudo bem, Jon. _Disse Sansa pegando a mão de Jon. _Se não quiser, não falaremos agora.
Jon sentiu-se tão tocado com o tom de voz compreensivo de Sansa, do jeito que ela segurava sua mão, do sorriso que mantinha no rosto, que acabou deixando-se vencer:
—Vamos contar para eles.
Sansa soltou uma risada entusiasmada e abraçou Jon:
—Vamos fazer isso juntos! _Declarou a rainha do Norte.
***
Sansa deu um pequeno sorriso quando lembrou-se que Jon havia concordado que ela falasse sobre sua verdadeira descendência. O ex-bastardo também havia pedido que o discurso fosse feito por Sansa, pois além dela ser a protetora de Winterfell agora, ele não era a pessoa mais indicada para fazer um discurso.
Ao levantar-se da banheira, Sansa soltou um pesado suspiro, sentindo todo seu corpo gelar em contato com o ar frio. Pegou um pesado roupão e enrolou-se saindo de seu banheiro. Totalmente ao contrário do banheiro, seu quarto estava quente. Lembrava-se da mãe dizendo como aquele era o melhor quarto de toda Winterfell, visto que a água quente de todo castelo passava por suas paredes e o mantinham aquecido. Contudo, já não via mais tanto encantamento ali, o quarto era demasiado grande para si, o que fazia com que se sentisse apenas mais sozinha.
Sansa pegou o vestido que havia deixado sobre sua cama. Havia decidido que não teria nenhuma ama para ajudá-la, pelo menos até todas as marcas que Ramsay deixara em si desaparecessem. Vestia-se com calma, sabia que tinha tempo até o jantar e também teria mais tempo ainda para seu discurso, tinha medo de começar a engasgar com as palavras e parecer apenas uma menina encabulada e não a rainha do Norte.
Passou a mão por seu vestido azul escuro e olhou-se no espelho, se fosse algum desconhecido, pensaria que ela era Catelyn Stark. Estava a imagem de sua mãe, exceto por alguns traços que percebia agora ter puxado do pai. Sansa pegou um colar em sua caixa de jóias, era a única coisa que levara consigo, tanto de Porto Real quanto da vez que fugira de Ramsay. O pingente gelado entrara em contato com sua pele lhe causando um leve calafrio, o lobo do brasão da família Stark brilhava a medida que a luz batia nele.
Batidas foram ouvidas em sua porta e após sua permissão para entrar, lhe foi revelado Jon:
—Está pronta? Não me sinto muito a vontade indo para a mesa sozinho.
Sansa riu e sentou-se diante do espelho de sua penteadeira:
—Quase. E você chegou em boa hora. _Sansa pegou sua escova e estendeu-a para Jon. _Pode escovar meu cabelo?
Jon apenas assentiu e posicionou-se atrás de Sansa, pegando uma mecha do cabelo ruivo e passando a escova. Não sabia se tinha delicadeza o suficiente para fazer aquela tarefa, mas como Sansa não reclamara, parecia que estava tudo bem:
—Lembro da última vez que minha mãe escovou meu cabelo. _Declarou Sansa. _Foi aqui neste quarto mesmo, no dia em que o rei chegou em Winterfell.
Jon nada lhe disse, apenas soltou uma risada baixa. Lembrava-se de Sansa naquele dia, tão inocente e tão encantada com Joffrey e seus cabelos loiros. Sansa tinha um péssimo gosto para homens quando mais novo, concluiu Jon em pensamento:
—Eu a amava. Essa é a mais pura verdade. _Declarou Sansa. Logo jogou sua cabeça para trás, olhando Jon. _O que sente pela tia Lyanna agora, bem, no caso sua mãe?
—Eu não sei. _Disse Jon a olhando. _Sei que ela deve ter me amado, a ponto de sacrificar a honra do próprio irmão apenas para me proteger. Mas, eu nunca soube o suficiente para ela a ponto de dizer que a amo.
—Entendo. _Disse Sansa sentando-se novamente para que Jon continuasse. _Eu já ouvi uma história de como ela era parecida com Arya, por um tempo eu pensei que se ela estivesse viva, acabaria não gostando dela. Mas, você tem um pouco de Arya ou ela tem um pouco de você. Então, iria gostar dela no final de tudo.
Jon ficou por um tempo processando aquela frase de Sansa. Afinal, ela gostava dele porquê viu um pouco de Arya nele ou ela gostaria de sua mãe por ter um pouco de Arya nele?
Sansa olhava pelo espelho a cara de bobo de Jon atrás de si, que ainda escovava uma mesma mecha. Ela sabia que ele ainda não havia entendido o que ela falara:
—Já sabe o que irá falar? _Perguntou Jon tentando tirar o foco de seus pensamentos
—Já! Embora eu esteja com muito medo de engasgar e fazer papel de boba, fico feliz que confiou em mim para fazer isso.
Jon terminou de escovar o cabelo de Sansa e colocou as mãos sobre os ombros dela:
—Confio porque sei que você jamais seria capaz de me decepcionar.
Sansa virou-se para olhar Jon e levantou-se da penteadeira, enganchou seu braço no de Jon para que então pudessem descer.
A medida que Sansa ia descendo já conseguia ver algumas pessoas se organizando nas mesas. Por mais que a protetora do Norte tivesse grande afeição pelo silêncio, todo aquele barulho ainda a deixava uma alegria boa em si.
Ao chegar em sua mesa, Sansa se preparava para sentar ao ouvir um pigarro atrás de si e deparou-se lady Lyanna acompanhada de sor Davos:
—Lady Sansa, você foi proclamada rainha do Norte, por ser filha legítima de lord Eddard Stark. _Começou Lyanna. _Contudo, ainda não é completamente uma rainha.
Todo o salão ficou em profundo silêncio, alguns mantinham os olhos arregalados para o que a pequena Mormont falava. Já outros mantinham seus olhos fixos na reação de Sansa:
—Por isso, esperamos que não se aborreça por termos feito isso sem seu consentimento. _Completou sor Davos
Quando Sansa abriu a boca para dizer algo, uma palavra sequer havia saído. Lyanna tirara as mãos de trás das costas revelando a coroa prateada incrustada com pequenas pedras brancas:
—Sansa Stark, filha de Eddard e Catelyn Stark, rainha do Norte e protetora de Winterfell. _Disse Lyanna fazendo um sinal para que Sansa se abaixasse. _Coroamos você, literalmente, nossa rainha. E a apoiaremos até o dia de sua morte.
A jovem Mormont puxou Jon e colocou a coroa em suas mãos. Então Jon colocou-a sobre os cabelos ruivos e brilhantes de Sansa.
Sansa tornou a ficar ereta e Jon olhou no fundo de seus olhos azuis dela, viu toda a emoção que aquele nobre gesto a causara.
Todos os cavaleiros do salão ajoelharam-se perante sua rainha, que pegou uma taça e bateu de leve chamando-lhes a atenção:
—Eu os agradeço, do fundo de meu coração. E perante vocês faço a promessa de proteger e governar Winterfell tão bem quanto meu pai o fez. _Gritos de alegria misturavam-se com conversas e Sansa tornou a bater em sua taça para chamar a atenção. _Mas, agora tem algo mais importante e que precisa ser falado. Por favor, sentem-se.
Enquanto todos sentavam Sansa permaneceu em pé. Sentia suas mãos começarem a suar frio e suas pernas tremiam como galhos finos ao vento:
—O que pretendo falar pode começar confuso, de certa forma, mas peço que mantenham o silêncio e me escutem. Há vinte anos atrás, quando minha tia Lyanna foi "raptada" por Rhaegar Targaryen, Robert Baratheon iniciou uma guerra para tê-la de volta. E eu mesma acreditei nessa história praticamente durante toda minha vida, pelo menos até esta manhã, quando conversei com lord Howland Reed. _Sansa e os demais desviaram seus olhares para o lord sentado em um lugar qualquer entre os cavaleiros do Vale. _Lord Reed contou-me que minha tia não havia sido raptada, muito pelo contrário, ela fugira com Rhaegar. E que na Torre da Alegria, onde ela foi encontrada por meu pai e lord Reed, ela dera a luz à uma criança.
Murmurinhos começavam pelo salão e Sansa pediu por silêncio mais uma vez:
—Ela pediu à seu irmão, meu pai, que protegesse essa criança, pois ela sabia que Robert o mataria por ter o sangue Targaryen. Naquele dia meu pai sacrificou sua honra, em nome do amor que tinha por sua irmã que em um último suspiro pôde nomear seu filho. _Sansa virou-se e olhou para Jon. _O nome dessa criança era Jon. Ele foi tomado como bastardo de Ned Stark para que fosse protegido. Então, hoje eu não lhes apresento apenas Jon Snow. Eu apresento Jon Snow, o filho do gelo e do fogo, o renascido do fogo, o príncipe prometido, o Lobo Branco e o sangue do dragão.
Palmas eclodiram pelo salão enquanto Jon ainda olhava estupefato para Sansa. Ela havia falado como seu pai e então ele não viu a miniatura Catelyn parada à sua frente, nem mesmo a menininha que um dia se encantara pelo sádico e ridículo Joffrey. Ela era Sansa Stark e ele havia se apaixonado por ela, sem sequer perceber como ou quando, apenas sentia isso.
Sansa sentou-se ao lado de Jon, tinha nos lábios um sorriso que parecia não querer deixa-los:
—Eu não sinto mais minhas pernas. _Disse Sansa rindo
—Mas, você foi muito bem. _Declarou Jon
—Acho que eles também pensam isso. _Sansa direcionou o olhar para as pessoas que agora comiam e retirou sua coroa, olhando-a. _Eu jamais esperaria isso. Cada vez eu me torno mais grata a essas pessoas, assim como sou eternamente grata à você, Jon Snow. Espero que tenha gostado dos títulos que ganhou.
—Os achei interessante. Por que "renascido das chamas"?
—Porque, querendo ou não, Melisandre o trouxe de volta. _Sansa pegou a mão de Jon e olhou no fundo dos olhos. _E eu não sei o que faria sem você.
A medida que o jantar transcorria, poucas palavras foram trocadas. Apenas algumas palavras de parabéns foram ditas à Jon no final. O ex-bastardo agradeceu e logo se levantou para acompanhar Sansa. Havia descoberto recentemente que sem sua presença ou a de Fantasma, ela não conseguia dormir.
Jon acompanhou Sansa, quando a mesma entrou em seu quarto. Não se lembrava se estivera ali quando mais novo. Talvez nunca, lady Catelyn não era sua maior admiradora. Jon sentou-se em uma cadeira próxima a lareira para esperar por Sansa que se trocava, coisa que não havia demorado já que em poucos minutos ela estava atrás de si, com as mãos apoiadas em seus ombros:
—Lembra quando dissemos que nunca fomos próximos na infância? _Perguntou Sansa
—Lembro, o que tem?
—E se eu lhe contar uma história sobre como já fomos próximos? _Sansa sequer esperou a resposta de Jon para começar. _Nós estávamos brincando de cavaleiros, você e Arya eram os cavaleiros, Robb era o feiticeiro mau que me sequestrava e eu, obviamente, era a princesa que deveria ser resgatada. Eu devia ter seis ou sete anos, mas você e Robb eu lembro terem dez. Você e Arya derrotavam Robb e me salvavam.
Sansa parou por alguns segundos e prosseguiu:
—Você me pegou no colo enquanto Arya o seguia com aquela espada de madeira maior que ela. Então, minha mãe apareceu, você me colocou no chão e ela levou Arya e eu, dizendo que uma lady não brincava daquele tipo de coisa. _Jon colocou sua mão sobre a de Sansa. _E depois disso, não tenho memórias nossas juntos, creio que mamãe tenha feito de tudo para que não nos aproximássemos mais.
Jon virou para olhar Sansa. Ela não chorava, mantinha um sorriso triste em seu rosto que em nada agradara o Snow.
O ex-bastardo então, levantou-se e pegou Sansa em seus braços:
—Aparentemente, você continua a ser uma princesa, Sansa Stark. _Riu Jon olhando para Sansa.
Sansa passou a mão pelo rosto de Jon:
—Não, Jon Snow. Eu sou uma rainha. _Sansa passou seu outro braço ao redor do pescoço de Jon. _Será que seria incomum eu descer as escadas nos seus braços, usando a minha coroa e afirmando para todo o Norte que sou uma rainha?
—Seria, e você acabou de estragar um momento que tinha tudo para ser guardado na memória. _Riu Jon. _Embora nenhum lord de Winterfell tenha feito isso.
Jon parou para analisar a situação por alguns instantes e colocou Sansa na cama:
—Ei! _Exclamou ela em protesto
—Não vou descer as escadas com você em roupas de dormir. Vá dormir agora, Sansa.
—Não me trate como criança, Jon Snow! _Exclamou Sansa. _E venha deitar-se aqui, porque se eu tiver um pesadelo faço Lyanna Mormont arrombar sua porta.
Jon virou-se para Sansa e riu. Caminhou em direção a sua cama, deitando-se ao seu lado:
—Boa noite, Sansa.
—Boa noite, Jon.
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