North Wind
23 Capítulo 23- I'm not a king
O silêncio no salão era doloroso.
Daenerys olhava Jon Snow de cima abaixo, não parecia Targaryen, não tinha os cabelos ou os olhos de sua família. Nem mesmo os traços dele eram de um Targaryen! Lembrava-se dos traços finos de Viserys e o homem a sua frente não tinha nenhum deles. Seriam os genes de sua família fracos ou ele apenas mentia para ela? Já vira alguns charlatões se passando por Targaryens, mas eles ao menos se esforçavam para parecer um. Esse Jon Snow parecia querer ser apenas um nortenho.
Jon sabia que era analisado pela mulher a sua frente. Os olhos lilases eram desconfortantes de serem encarados, não por serem intimidadores, mas não estava familiarizado com pessoas de olhos lilás. Também o deixava desconfortável o fato de outra mulher o encarando tão profundamente sem ser Sansa.
A rainha Targaryen colocou-se de pé, os braços estavam cruzados na frente do peito. Andava de um lado para o outro, como se buscasse extravasar a raiva que sentia. Tudo ali a incomodava. O frio, as roupas pesadas, a ausência de grama ou flores naquele lugar, a arquitetura dura e aquele homem que se dizia seu sobrinho!
—Sabe, não adianta me olhar feio. Isso não muda o fato que seu irmão é meu pai. _Disse Jon quebrando o silêncio e recostando-se na cadeira enquanto cruzava os braços. _Se o que a incomoda é imaginar que posso querer o trono de ferro, fique tranquila. Eu não o quero, muito menos tenho interesse no Sul. Eu não sou um rei, sou apenas um bastardo.
Tyrion deu uma risada. Lembrou-se do menino que havia conhecido anos atrás, que não suportava ser chamado de bastardo e agora ele próprio se chamava assim.
—Está falando o meu irmão simplesmente saiu deixando bastardos para trás!? _Questionou Daenerys sentindo um pouco da sua raiva ir embora
—"Bastardos" eu não sei, mas um pelo menos ele deixou. _Riu Jon se humor. _Olha, eu não quero ser legitimado por você ou ser reconhecido como Targaryen, longe de mim. Eu sou apenas um Snow, eu cresci no Norte, na família Stark e pretendo me manter assim.
—Então pode dobrar seu joelho e declarar apoio a mim na guerra pelo trono. _Disse Daenerys satisfeita que o bastardo de seu irmão não queria seu nome ou seu trono.
—Receio estar perguntando para a pessoa errada. _Sorriu Jon sarcástico. _Eu não sou rei. Sansa Stark é a rainha do Norte, escolhida pelo povo, eu estou mais para uma "mão da rainha". Se quer apoio nessa guerra é com Sansa que deve falar.
Tyrion olhou de canto de olho para Daenerys a vendo tirar o pequeno sorriso de seu rosto e tornou a olhar para Jon Snow que parecia muito satisfeito em dizer que sua prima era quem comandava o Norte. Mas... Se Jon Snow não era mais Lorde Comandante o que fazia na Muralha ou invés de estar em Winterfell sendo a mão de sua rainha?
—Perdoe minha intromissão, alteza. _Pediu Tyrion. _Mas gostaria de saber o que Lord Snow faz por aqui se já não é mais Lorde Comandante. Não deveria estar em Winterfell aproveitando o fim da sua vigília?
As palavras do Lannister entraram na cabeça de Jon o fazendo refletir. Sim, deveria estar em Winterfell aproveitando que sua vigília havia terminado, deveria estar escutando as histórias de Bran, treinando com Arya e sua agulha, devia estar com Sansa embaixo da árvore coração fazendo seus votos. "Ela é minha e eu sou dela. Ele é meu e eu sou dele" eram palavram que ecoavam na cabeça do Snow, votos de casamento que um dia ouvira alguém falar sobre. Mas não, ele estava ali se preparando para uma guerra, sem saber se estaria vivo no final:
—Lord Snow?
Jon voltou sua atenção para Tyrion que havia o chamado:
—Perdão, Lord Tyrion. Suas palavras me pegaram desprevenido. Eu realmente deveria estar em Winterfell, mas existem coisas além da Muralha que me impedem de realizar tal ato. _Jon se desencostou da cadeira, apoiando os braços na mesa olhando para o homem a sua frente. _Creio que como um homem que leu muito durante sua vida, deve conhecer a lenda do Rei da Noite e seus vagantes brancos.
—Sim, reconheço tal história. Aconteceu antes da conquista Targaryen, na época, os Primeiros Homens chegaram a Westeros quando o local tinha apenas os Filhos da Floresta. Tais criaturas se sentiram ameaçadas pelos homens, que chegaram tomando conta de tudo e destruindo a floresta, e buscaram uma forma de se proteger. Então um grupo de Filhos da Floresta sequestrou um homem e colocou Vidro de Dragão dentro de seu coração, criando assim aquele que conhecemos como O Rei da Noite. Na época, a ideia das criaturas era criar uma arma para derrotar os homens, mas essa força saiu do controle e se tornou um exército de mortos, que agora queria acabar com todos os seres vivos, não apenas com os Primeiros Homens. A ameaça se tornou tão grande que os Filhos da Floresta fizeram uma aliança com os homens, para que as duas raças pudessem sobreviver. Eles venceram o conflito e os Caminhantes Brancos se retiraram com seu exército para as Terras de Sempre Inverno, um local muito além da Muralha e muito longe dos Sete Reinos. Aliás, foi após essa vitória que Bran, o Construtor, com a ajuda de gigantes e dos Filhos da Floresta, construiu a famosa Muralha de Gelo para ter certeza de que o exército de mortos ficaria longe.
—Sim, você conhece. _Riu Jon. _Então dito isso, acredito que possa imaginar o porquê estou aqui. Eles não são lendas, Lord Tyrion.
Tyrion jogou-se para trás em sua cadeira. Conhecia a história, mas não fazia ideia de que coisas como essas poderia existir. Se bem que havia pensado o mesmo de dragões, mas ali estava Daenerys Targaryen e seus três dragões:
—E como se mata aquilo que já está morto? _Questionou Tyrion
—Com aço valiriano ou então fogo. _Respondeu Jon
Quase como um raio um pensamento cruzou a cabeça da Targaryen que se encontrava em silêncio e em pé durante esse diálogo. Sentou-se devagar ao lado de Tyrion e olhou para Jon Snow:
—Se precisam de fogo, ofereço meus três dragões para essa guerra. _Falou Daenerys sorrindo
Jon arregalou os olhos. Sim, ela tinha três enormes dragões que seriam de muita ajuda. Na verdade, era sua salvação. Teriam poucas ou nenhuma baixa em seu exército, a guerra seria curta e retornaria para casa. Quando abria a boca para dar uma resposta Jon fora cortado:
—Mas quero que o Norte marche ao meu lado para o Sul e me ajude a conquistar o trono que é meu por direito.
Jon suspirou.
—Já lhe disse que não sou um rei.
—Mas é um comandante! Tenho certeza que seu exército o seguiria para onde quer que fosse.
—Esse exército segue a casa Stark, não a mim. Talvez, quando eu aceitar o nome Stark eles sigam a mim. Mas por enquanto eles seguem Sansa. Todos vassalos da rainha do Norte. _Disse Jon com um pequeno sorriso. _Se puder nos ajudar, a levarei até Winterfell para que possa falar com Sansa, sei que ela será agradecida por ter me ajudado.
Um sorriso de canto surgiu nos lábios de Daenerys, havia muito carinho na forma que Jon Snow se referia a prima. Não a chamava de "prima", sempre pelo nome e gostava muito de frisar que ela era sua rainha. Ela já havia conhecido seu nome proferido daquela forma:
—Muito bem, Lord Snow. _Disse Daenerys se levantando e sendo seguida por Tyrion. _Meus dragões estão ao dispor do Norte. Mal vejo a hora conhecer sua rainha.
—O Greyjoy deve estar junto dela nesse momento, minha senhora. _Disse Tyrion
Quando a Targaryen e Tyrion cruzaram a porta, a fechando em suas costas, os olhos de Jon Snow estavam focados na porta e mente estava longe. Greyjoy... Theon estava no Norte? Ele estava lá com sua Sansa!
Seus instintos mais ciumentos queimava dentro de si. Queria subir em seu cavalo e cavalgar noite a dentro para ver Sansa e tirá-la de Winterfell. Não gostava de Theon Greyjoy.
Jon levantou-se irritado indo em direção ao seu quarto que agora dividia com Arya. Andar na neve talvez o ajudasse a esfriar a cabeça. Arya se encontrava dormindo quando Jon entrou, deu um carinho em seus cabelos castanhos, agora curtos. Sorriu ao vê-la resmungar e virar para o outro lado.
Sentou-se em sua antiga mesa, puxando um pedaço de papel e uma pena, queria responder Sansa e lhe contar sobre tudo. Pensava se o melhor não seria chama-la para a Muralha, mas conhecia a mulher que amava, sabia que ela não deixaria Winterfell.
Então, Jon colocou-se a escrever.
"Minha querida rainha,
Estamos separados há tão pouco tempo, mas meu peito dói de saudade, ter você longe de mim é como não ter mais ar para respirar. E o frio na Muralha só me faz pensar em como é fácil adormecer tendo seu corpo aconchegado ao meu.
Fico muito feliz que Fantasma esteja lhe fazendo bem, acredito que deixei um pedaço meu com você. Tenho certeza que ele a quer bem, assim como eu.
Como é bom saber que não está se sentindo tão sozinha, minha Sansa. Se as filhas de Tormund forem como o pai, não precisará se preocupar com Bran, ele terá risadas e conversas até a velhice.
Não se preocupe, minha rainha, mantenho a promessa que fiz viva em minha mente a cada segundo. Eu retornarei para você, vivo e pronto para passar o resto dos meus dia ao seu lado em Winterfell.
Minha rainha, acreditaria se eu dissesse que dragões existem? Pois eu próprio não acreditava até hoje! Lord Tyrion apareceu na Muralha junto de uma mulher Targaryen, não faço ideia de como se escreve o nome dela, é complicado como todos os nomes Tagaryens. Ela não gostou de saber que meu pai era irmão dela, muito menos gostou de saber que eu era um bastardo dele, talvez tenha me visto como ameaça por ter direito ao trono como ela.
Mas, não se preocupe, já falei que não tenho o menor interesse no trono ou no nome que ela carrega. Eu sou apenas o bastardo Jon Snow que deseja apenas estar ao lado de Sansa Stark.
Talvez o que eu venha a dizer agora não a agrade, meu amor, mas espero que entenda minha decisão. Ela pediu para que eu me ajoelhasse e fizesse o Norte declarar apoio a ela, porém disse que não sou rei, se ela quiser pedir nosso apoio, que o pedisse a você. E então ela ofereceu seus três dragões para nós nessa guerra contra os vagantes brancos... Lhe peço perdão, minha rainha, mas eu aceitei. Isso facilitará tanto a guerra! Eu poderei voltar para você o quanto antes!
Eu não espero e nem quero que se ajoelhe perante ela, mas espero que me perdoe por tomar essa decisão de levá-la até o Norte. Apenas pensei no que seria melhor para o nosso povo.
Ouvi Lord Tyrion comentando... Theon Greyjoy está por aí? Mantenha os olhos atentos, Sansa, ele nunca me soou confiável.
Com essa guerra terminando não vejo a hora de tê-la de novo em meus braços, minha querida Sansa. Imagens nossas fazendo nossos votos aos pés da árvore coração povoam meus pensamentos. É impossível não pensar na vida que quero viver com você.
Meu coração clama por você.
Ele bate desesperado no peito apenas de pensar no seu nome. Da mesma forma que bateu quando leu suas últimas palavras na carta que me escreveu.
Ah minha Sansa, se soubesse como meu coração transbordou ao ler suas palavras viria até a Muralha apenas para que pudesse dizê-las olhando nos meus olhos. Você, a soberana no meu coração, é tudo que eu quero. Eu quero a mulher por baixo da coroa de rainha, eu quero você como nunca quis outro alguém na vida, Sansa.
Eu a amo, Sansa Stark. Amo tanto que meu peito se aperta em não poder estar lhe dizendo isso olhando em seus olhos tão lindos, que se os deuses quiserem nossos filhos também terão.
Eu amo você, Sansa. A cada segundo que passa estamos mais perto do fim das guerras e não haverá mais Rei da Noite, vagante branco, Petyr Baelish ou Cersei Lennister que me impeça de fazê-la minha para sempre.
Com amor,
seu Jon Snow.
Jon sorriu olhando para sua carta, havia escrito tudo que quisera, deixando de lado apenas a informação sobre Arya. Sabia que seria muito doloroso para Sansa saber que sua irmã, que ela tanto aguardava em Winterfell, estava se enfiando no meio de uma guerra.
Ao largar a pena e deixar a carta separada no canto da mesa, Jon espreguiçou-se e se direcionou para sua pequena e desconfortável cama. Tudo era desconfortável depois de sua temporada em Winterfell. Mas, estava tudo bem, a guerra além da Muralha logo terminaria e poderia retornar para casa.
Os olhos castanhos foram se fechando devagar, rendendo-se ao sono. E então as imagens de Sansa abaixo de si, nua e gemendo seu nome surgiram. Um pequeno sorriso cruzou os lábios de Jon antes de fechar completamente os olhos e entrar num mundo apenas seu e de Sansa.
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