North Wind

18 Capítulo 18- I promise


O dia parecia se arrastar, como se não quisesse permitir a chegada do amanhã. Sansa Stark havia se trancado em seu escritório, não saindo de lá mesmo quando o almoço fora servido. Lia atentamente os pergaminhos com as informações sobre a comida que fora estocada para o inverno, por mais que parecesse suficiente, aqueles números haviam sido feitos apenas com base nas pessoas que já estavam em Winterfell, não contando o povo livre que chegaria em breve. Sansa sabia que o estoque poderia durar em torno de dois ou três anos, mas mesmo assim a colheita de Vila de Inverno havia sido arrasada pela chuva do dia anterior. Como um estalo, a rainha do Norte lembrara-se do jardim de vidro, que não era usado há anos e ela ainda precisava ver suas condições, mas continuava a ser uma opção.

Sansa suspirou pesadamente, passando as mãos por seu rosto e afastando-se da mesa, haviam pergaminhos espalhados por todo canto e ela já não sabia há quanto tempo já estava ali, sentada. Olhou na direção da janela e viu o pátio cheio, as pessoas preparavam-se para a guerra e mesmo sabendo que poderiam morrer, alguns riam. O coração da rainha do Norte apertou-se ao ver o garoto que gritara seu nome no meio daqueles homens, ajudando-os a prepararem-se. Ele parecia tão jovem e só havia esperança em seus olhos, ele lembrava vagamente Arya com seu entusiasmo.

Os olhos de Sansa correram pelo pátio, viu Brienne conversando com Podrick enquanto checava sua armadura, Tormund ria junto de Davos e vez que outra dava um olhar furtivo para Brienne. E ela viu Jon, ele usava a capa que ela havia feito e parecia que tentava ao máximo parecer otimista na frente daquelas pessoas. Ele bagunçou os cabelos do garoto que Sansa observava há pouco e foi na direção de sor Davos. Sansa suspirou mais uma vez e ergueu os olhos, olhando para a imensidão branca que se estendia diante de si e ela não soube ao certo onde o céu terminava e a terra começava.

Jon olhara para a janela de Sansa rapidamente, apenas para vê-la olhando, perdida em pensamentos, para o horizonte. De certa forma sabia o que ela pensava, Sansa podia ter crescido e se tornado uma rainha, mas seu coração ainda era o de uma menina que não queria que a morte acontecesse, mesmo que já tivesse a presenciado diversas vezes. E Jon sabia que a misericórdia de Sansa poderia ser sua melhor qualidade e seu pior defeito.

Quando o Snow parou de olhar Sansa, voltou seus olhos para sor Davos que agora o encarava junto de Tormund:

—Se olhar arrancasse pedaço, a rainha loba já estaria desmembrada. _Disse Tormund

—Como vão os preparativos, sor Davos? _Questionou Jon ignorando Tormund

—Está tudo transcorrendo bem, lord Snow. Nos resta apenas esperar para que as casas convocadas pela rainha cheguem.

Jon apenas assentiu e olhou ao redor de si, havia pouco mais da metade de homens ali do que havia quando tomaram Winterfell de volta. Alguns haviam morrido e outros, parte dos homens do Vale, haviam ido embora. Mas, sabia que no fim teriam muito mais homens do que na Batalha dos bastardos.

"Batalha dos bastardos", pensou Jon com um sorriso de canto, ele não era um bastardo, pelo menos não de Ned Stark. Mesmo assim, não tinha certeza se continuava ou não bastardo, afinal no seu registro de nascimento seu tio havia colocado "Jon Targaryen". Mas, no final das contas, ele não se achava um Targaryen. Ele era Jon Snow.

***

Ao voltar para o mundo real, Sansa saiu de perto da janela e puxou sua cadeira para perto da lareira, colocando os pés sobre ela, abraçando as pernas e apoiando a bochecha nos joelhos enquanto olhava para a lenha sendo consumida pelo fogo. Evitava olhar para sua mesa pois sabia que enlouqueceria se olhasse para mais algum pergaminho, assim como enlouqueceria se continuasse olhando para Jon apenas imaginando se ele voltaria para ela.

Sansa puxou o pingente de seu colar, brincando com ele distraidamente. "Um presente do seu pai no dia em que você nasceu", foram as palavras de sua mãe, pensou ela enquanto olhava para o lobo do pingente. Pensava também que em breve deveria mandar fazer estátuas de seus pais, Robb e Rickon, mesmo que apenas o corpo de seu irmão mais novo estivesse em Winterfell, eles eram Starks e o lugar deles era no Norte.

Com um leve pesar Sansa levantou-se de sua cadeira para ir até seu quarto, sentia que precisava de sua cama. Os corredores pareciam mais silenciosos que o normal, mas Sansa procurava não prestar atenção nisso, andava pensativa e apenas voltou a sua realidade quando estava diante da porta de madeira de seu quarto. Abrira a porta devagar e parecia que o cheiro de Jon estava impregnado em tudo, a rainha do Norte respirou fundo e andou em passos apressados para sua cama, jogara-se nela abraçando o travesseiro. Sentia seus olhos começarem a pesar e aos poucos rendeu-se ao sono, apertando forte seu travesseiro contra o peito, sentindo o cheiro de Jon mais próximo de si.

Enfim o dia, mesmo que arrastado, havia terminado dando lugar a noite. E Jon havia sentido falta de Sansa naquele dia, como se não houvessem se visto durante uma vida. Ela havia ficado em seu escritório o dia inteiro, assim como ele ficara vendo estratégias de guerra o dia inteiro. Vez que outra Jon fechava os olhos, procurando se concentrar mais, contudo tudo que surgia em sua mente eram imagens da noite passada. Mesmo quando o jantar fora anunciado, o Snow não encontrara Sansa no salão o esperando para sentar-se ao lado dela.

Ao fim do jantar Jon parou uma das empregadas perguntando por Sansa, mas a mulher apenas lhe disse que a rainha quisera ficar no quarto. Com um pesado suspiro Jon subiu as escadas rumando para o escritório de Sansa, contudo o encontrou-o vazio. Começou a andar em passos rápidos para o quarto dela, abrindo a porta com certo desespero e a encontrando deitada sobre a cama, caminhou até parar ao seu lado, olhando para os cabelos úmidos espalhados pela cama e os braços apertando o travesseiro contra seu corpo.

Jon passou sua mão pelo rosto de Sansa, fazendo-a virar para si com um pequeno sorriso nos lábios:

—Já me ignorou o bastante por um dia, Sansa Stark?

—Não queria atrapalha-lo. _Sorriu Sansa colocando sua mão sobre a de Jon

—Por que não desceu para o jantar? Fiquei preocupado com você. _Disse Jon sentando-se na cama

—Desculpe, eu acho que não estou bem. _Admitiu Sansa com um sorriso triste. _Essa guerra me deixa assim, eu sabia que um dia ela chegaria, mas agora que chegou... Eu estou com medo, Jon.

Jon olhou no fundo dos olhos de Sansa e ajeitou-se ao lado dela, abrindo os braços, convidando-a para eles. Pedido que foi aceito, já que a rainha do Norte aninhara-se em seus braços como uma criança que tem um pesadelo:

—Eu já perdi meus pais, já perdi Rickon, já perdi Robb e eu não posso perder você também. _Disse Sansa apertando seus braços ao redor de Jon

—Sansa, olhe para mim. _Pediu Jon sendo acatado logo em seguida. _Eu sei que perdeu muitas pessoas que foram importantes para você e eu não posso lhe afirmar que vou voltar, mas farei o possível e o impossível para voltar para você.

—Prometa-me que vai voltar. Prometa-me, Jon. _Pediu Sansa

—Eu prometo. _Jon beijou demoradamente a testa de Sansa para depois olha-la nos olhos. _Devia dormir, parece que não dorme há séculos.

—Dormi pouco noite passada, não é mesmo, Jon Snow? _Questionou Sansa dando uma breve risada

—Como se apenas eu tivesse culpa, Sansa Stark.

Sansa sorriu e recostou-se no peito de Jon, fechando os olhos enquanto ele mexia em seu cabelo.

Jon vira Sansa adormecer lentamente, observava seu rosto sereno agora, gravando-o em sua memória. Não sabia quanto tempo duraria aquela guerra, não sabia quanto tempo ficaria longe de sua rainha, apenas sabia que voltaria para ela. Aparentemente Sansa sempre seria seu lugar para retornar.

***

Quando a primeira luz do dia adentrou o quarto e despertou Sansa, ela soube que seria o dia que teria de ver Jon partir.

Olhou para a direção do Snow e viu-o dormindo, ela ainda estava em seus braços e ele parecia calmo, como se não tivesse de partir naquele dia. Sansa passou a mão pelo rosto de Jon, sentindo a pele quente sobre seus dedos gelados e logo vendo os olhos castanhos sonolentos chocarem-se contra os seus azuis melancólicos:

—Odeio ver esse olhar em você. _Murmurou Jon passando a mão pelo rosto de Sansa

—E eu odeio ver você partir.

Jon beijou a testa de Sansa, erguendo-se da cama para olhar para a janela, vendo que os homens começavam a se aprontar e as casas chamadas por Sansa já passavam pelo portão. Virou-se para Sansa e encontrou-a olhando triste para suas mãos:

—Minha rainha. _Começou Jon sentando-se na cama e segurando o queixo de Sansa para que ela o olhasse. _Não quero que chore.

—É como pedir para alguém que teve a garganta cortada para que não morra. _Sansa sorriu tristemente e passou a mão pelo rosto de Jon. _Pode receber os vassalos? Vou colocar uma roupa e desço em breve.

Jon assentiu e quando Sansa levantou-se da cama, puxou-a para seus braços:

—Como não vou poder fazer isso lá embaixo.

Jon abaixara-se um pouco para que seus lábios encontrassem os de Sansa. Sentiu os braços finos de sua rainha passarem ao redor de seu pescoço e levou suas mãos em direção a cintura dela. Jon sabia que aquilo era o mesmo que martirizar à si mesmo, já que por tempo indefinido aquele seria o último beijo que daria em Sansa. Era um beijo sôfrego e parecia que tinha toda a paixão que havia em ambos, mas precisavam daquilo como precisavam do ar para respirar, pois quando ele estivesse próximo de atravessar aquele portão tudo que teriam seria um abraço.

Sansa separou-se de Jon, ofegante e com um sorriso brincando em seus lábios:

—Minha promessa de que vou voltar para você é a de que ainda vou me casar com você, minha querida rainha. _Disse Jon dando um breve beijo nos lábios de Sansa antes de sair do quarto

A Stark sorria sozinha em seu quarto, olhando para a porta que havia acabado de se fechar. Pegou um vestido azul em seu baú e vestiu-o rapidamente, sentou-se diante de seu espelho apenas para ajeitar direito os cabelos, colocar a coroa e sair correndo de seu quarto. Foi então que parou na porta, pensou por alguns instantes e voltou para a penteadeira e pegou seu colar.

Jon conversava com Howland Reed e Lyanna Mormont, a garota desejava boa sorte para ambos nessa guerra e que voltassem vivos. Quando Wyman Manderly se aproximara apertando a mão de Jon, o Snow acreditava que havia perdido os dedos. O velho Manderly tinha dedos gordos e uma mão pesada que parecia ser capaz de arrancar a cabeça de um homem, parabenizava Jon pela batalha contra Ramsay Bolton.

Sorrindo nervosamente Jon olhou na direção de Tormund e Davos que procuravam estar o mais longe possível de lord Manderly. Foi então que todos pararam para olhar Sansa que surgia agora no pátio:

—Senhores, é uma honra recebê-los em Winterfell. _Começou Sansa correndo os olhos por todos ali. _Como lhes disse nas cartas enviadas, o perigo aproxima-se de nós e como defensores do Norte é nosso dever lutar contra esse exercito de mortos que marcha em nossa direção. _Alguns burburinhos começaram e Sansa esperou-os até que se calassem. _Sei que alguns, talvez muitos, aqui não me vêem como sua rainha e jamais irei obrigá-los a ver-me como uma. Por isso venho a vocês apenas como Sansa Stark, filha de Eddard Stark, e lhes peço como uma nortenha para que ajudem a proteger o Norte. Meu pai uma vez disse: "Um senhor pode amar os homens que comanda, mas não pode ser amigo deles. Um dia pode precisar julgá-los, ou enviá-los para a morte." e preciso que mudem essas palavras, que não sejam enviados "para a morte", mas sim para a vitória!

Jon olhou orgulhoso para Sansa, ela era forte e dava esperança as pessoas quando mais precisavam. E naquele momento ele pensou há quanto tempo ela havia pego seu coração? Há quanto tempo ela havia pego sua alma?

Os homens começavam a montar em seus cavalos, os estandartes das casas levantavam-se um a um, do lobo dos Stark até o machado de batalha dos Cerwyn. Brienne parou diante de sua rainha, ajoelhando-se com a espada sobre o joelho e olhou nos olhos:

—Pelo Norte, minha rainha.

—Você é o cavaleiro mais leal que tive a honra de conhecer, Brienne de Tarth. _Sorriu Sansa. _Por favor, volte a salvo.

Brienne ergueu-se e Sansa a abraçou fortemente. A donzela de Tarth lhe deu um abraço levemente desajeitado para logo sair, dando espaço para Tormund Giantsbane falar com Sansa:

—Rainha loba, cuide de minhas crianças como cuida do Norte, por favor. _Sansa assentiu e logo sentiu os braços de Tormund ao redor de si, abraçando-a fortemente. _Obrigado por tudo, Sansa Stark de Winterfell, rainha do Norte e do povo livre. Trarei Jon Snow de volta para você.

—Obrigada, Tormund. _Disse Sansa sendo solta pelo selvagem. _Cuide-se e volte para nós, ainda preciso ouvir canções sobre você e a donzela de Tarth.

Tormund soltou uma gargalhada e apertou a mão de Sansa, sussurrando um "obrigado". Foi então que Sansa viu Jon vindo em sua direção e como no dia em que se reencontraram na Muralha, ela jogou-se nos braços do Snow, que por sua vez passou os braços ao redor de sua cintura erguendo-a.

Quando Jon colocou Sansa no chão, ela lhe lançou um sorriso triste e fez um sinal para que se abaixasse um pouco:

—Jon Snow, está é a promessa de que vai voltar para mim. _Disse Sansa colocando seu colar em Jon. _Você vai trazê-lo para mim.

—Sansa, eu não posso. Seu pai, ele lhe...

—Meu pai me deu esse colar no dia que eu nasci e você vai trazê-lo para mim. E eu não vou aceitar de ninguém mais. Você me prometeu, Jon Snow.

—Sim, eu prometi, minha rainha. _Disse Jon ajeitando-se e beijando a testa de Sansa. _Até logo, Sansa.

—Até logo, Jon.

Quando os portões se abriram e Jon partiu, ele deu uma última olhada para trás, vendo o sorriso de Sansa despedindo-se de si. E sentiu-se capaz de derrotar mil exércitos apenas para ver aquele sorriso mais uma vez.

Em paralelo, quando os portões se fecharam e Sansa virou as costas para ele, tudo que sentiu foram as lágrimas começaram a correr por seu rosto. Ela caiu de joelhos no meio do pátio, escondendo o rosto entre as mãos enquanto chorava. Tudo que desejava era que Jon e todos junto dele voltassem para a casa.

Notas finais
Quem pegou a referência do diálogo do Jon com a Sansa? Bom, gente esse foi um capítulo bem dramático, mas precisava dele para dar inicio a guerra. Espero que tenham gostado e até o próximo ♥