Nora Fulkert - Um conto de amor na Terra Média
32 Thakurli
Notas iniciais
A hora do parto se aproximava, isso Nimarie sabia. Já fazia algum tempo que ela estava armando um plano de fuga, e ela não esperaria os filhos nascerem. Saruman nunca permitiu que ela se afastasse da torre, nos primeiros meses ela sempre trazia uma corrente de ferro amarrada em um dos tornozelos, mas assim que o mago passou a acreditar que a ela colaboraria de bom grado libertou-a da corda de ferro e permitiu o seu acesso a outros lugares da fortaleza. Ele sempre repetia a para Nimarie que ela era uma hospede e não uma prisioneira. Quanto as crianças ele sempre afirmava que ali eles seriam tratados como seus próprios netos, quando ele falava isso fingia uma docilidade e amorosidade que a moça sentia-se desmotivada com o seu plano de fuga.
Mas aos poucos a palavra mágica de Saruman não a enganava mais. Conforme foi conhecendo o mago, Nimarie, esperta, conhecia também as suas táticas, e seus pontos fracos como a demasiada confiança em si mesmo, que bastariam para a moça fugir de suas garras.
Thakurli erauma das serviçais do mago a qual Nimarie mais tinha afinidade, afinidade talvez não seja a palavra certa, Thakurli, era a serviçal com quem ela mais convivia. E mesmo que a moça nunca pronunciasse uma palavra se quer, elas se entendiam através das expressões e gestos que a morena fazia. Inicialmente a meia, meia elfa, mantinha uma certa distância, e um ar de superioridade, mas a solidão a aproximou de Thakurli, que sempre ouvia com atenção e compaixão os lamentos de Nimarie. Os criados do mago branco não haviam feito voto de silêncio, mas sofriam um encantamento lançado por Saruman. Eles poderiam falar somente quando ele permitisse, mas a sua permissão não era comum.
Certo dia enquanto Nimarie coordenava alguns afazeres do palácio, ela foi surpreendida por Thakurli que chegou correndo no recinto. Isso não era normal e todos se alarmaram, seus olhos eram de desespero e ela gesticulava loucamente enquanto puxava a grávida pelo braço, tirando-a da sala onde os alimentos eram preparados. Um pouco mais calma, fez entender-se por Nimarie que logo percebeu que a notícia que a amiga trazia não era nada boa: Saruman, desconfiado de sua falsa colaboração, tinha planos de prendê-la novamente nos subterrâneos do castelo.
Ao mesmo tempo que a moça entendia o que a amiga estava tentando dizer, soldados entraram no recinto causando um certo alvoroço e barulho. Eles procuravam por Nimarie, que puxada por Thakurli recém havia saído do local. Ela precisava sair da fortaleza, mas como? Enquanto ela rapidamente juntava algumas coisas em seu quarto, pensava em seu plano de fuga, porém, o cenário agora era outro. Soldados furiosos estavam a sua procura, e logo bateriam em seu quarto, ela não tinha tempo, mas Thakurli parecia ter planejado tudo. Arrastou novamente Nimarie por corredores do castelo, guiando-a em sua fuga. Inicialmente Nimarie desconfiou dos caminhos escolhidos pela criada, ora! ela havia pensado em caminho opostos para fugir do castelo, e ela nunca havia passado antes por aqueles lugares... Mas quanto mais seguia Thakurli percebia que mais se aproximava da saída. Quando por fim chegaram a um dos portões de saída, Nimarie desanimou-se. Como elas lutariam? O portão estava cerrado e guardado por um guarda da mesma raça de Thakurli que sério as encarava. Nimarie não desistiu, ela tinha planos de lutar e preparou-se para isso, quando viu que a amiga caminhava em direção do guarda. Trocaram um gesto de carinho, dando-se as mãos e o guarda, que mais tarde Nimarie veio a saber que era irmão de Thakurli, abriu a pesada porta de madeira negra que as separava do mundo lá fora.
A emoção de estar a um passo da liberdade invadiu Nimarie, ainda mais quando viu que guardas amigos de Thakurli, simpatizantes a fuga, haviam preparado dois cavalos para que elas pudessem fugir das garras de Saruman. Antes de partir sobre seu cavalo, ela não pode deixar de dispensar um olhar de gratidão e emoção para aquelas pessoas que haviam lhe surpreendido tanto, lhe auxiliando na fuga, pois com certeza eles pagariam caro por isso. As duas amigas galopavam rapidamente afastando-se do palácio do mago, mas ele não desistiria fácil da sua falsa aliada. Assim que deixaram o portal do castelo Nimarie sentiu que Saruman tentava invadir a sua mente.
Palavras do mago vinham gritantes em sua mente: _ Não sejas tola criança! Volte enquanto ainda posso te perdoar... — Apesar da forte dor que sentia na cabeça, ao ter a mente invadida, ela ignorou a ordem, deixando Saruman irritado, que no topo da torre fez com que sua voz fosse ouvida por todas as criaturas da redondeza: _ Subestimaste o meu poder Nimarie! — O mago continuou o seu discurso em uma língua desconhecida por ela, cheio de palavras mágicas e encantamentos que imediatamente fizeram pedras rolarem em seus caminhos, ao mesmo tempo que uma tempestade violenta formou-se assustando os cavalos, que com muito custo a meia elfa acalmava, pronunciando palavras mágicas usadas pelo seu povo. A tempestade durou segundos e logo a paisagem foi coberta por uma densa neblina, que não as deixava enxergar um palmo a sua frente, um vento gélido as fazia tremer de frio. Os caminhos eram confusos, e o cenário estava difícil para as duas, ainda mais porque orcs foram enviados para capturá-las. Thakurli pela primeira vez mostrou-se amedrontada, as duas não conseguiam seguir a diante pois estavam perdidas dentro da neblina e haviam perdido o senso de direção. Nimarie precisava fazer alguma coisa, precisava ao menos tentar, por gratidão a Thakurli, e por amor aos seus filhos ela não desistiria. Fechou os olhos e concentrou-se e sua vontade foi tão forte, que algo que ela não saberia explicar aconteceu, em transe, palavras mágicas saíram da sua boca fazendo a ventania gelada acalmar-se subitamente. Os caminhos também foram descobertos pela neblina que desceu ao solo, surpreendendo Saruman no alto do palácio e a própria Thakurli que estava ao seu lado.
Consternado com o poder de Nimarie, Saruman abriu a sua boca para ordenar que a neblina novamente se formasse, mas desesperou-se quando percebeu que sua voz antes potente agora mal era ouvida por ele mesmo. Isso durou alguns segundos mas foi o suficiente para deixá-lo aflito, e para que as duas conseguissem afastar-se em segurança. O mago ficou tão abalado com a possibilidade de perder a sua voz potente, que por dias pesquisou em seus livros tentando descobrir o encantamento que Nimarie havia usado para isso, porém ele não achou nada, e nem poderia achar, isso não estava nos livros, pois isso foi uma “bruxaria” que só uma mãe desesperada pode fazer. Ele acabou atribuindo isso e outras coisas, ao fato de que Nimarie ser Tanacëmníss,um ser mitológico para muitos, mas humano e cheio de defeitos para Nimarie.
Porém ele não podia deixar que Nimarie se comunicasse com o conselho e revelasse para eles os planos de Saruman. Ao seu lado ele conquistaria o poder mais facilmente, mas sem ela ele conquistaria igualmente, com talvez um pouco mais de esforço, pensava o mago, enquanto armava planos para calar a moça para sempre. A primeira coisa que ele faria, seria que alguém do conselho descobrisse sobre a morte da moça, depois ele trataria para que isso realmente se tornasse verdade.
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Mas retornamos a fuga de Nimarie e Thakurli: Após se afastarem do castelo de Saruman e terem que lutar com alguns orcs, a meia elfa começou a sentir as dores do parto. Era um momento ruim para isso pois algumas dezenas de orcs continuavam atrás delas, Thakurli calculava entorno de trinta orcs, a uma distância de quinhentos metros. Mas Nimarie não podia mais continuar sobre o cavalo, a hora havia chegado. Com auxilio de Thakurli ela desceu do animal e caminhou até um pequeno riacho que se formava próximo a entrada de uma floresta. A intenção era caminhar até a floresta e esconder-se em algum lugar seguro, mas as dores impediram Nimarie de seguir. Ajeitaram-se então de baixo de uma pequena e velha ponte de madeira, que por sorte trazia barrancos de terra formado pela baixa do rio. A moça entrou então em trabalho de parto, e Thakurli lhe auxiliou nisso. Apesar de Nimarie ter sentido muitas dores, o parto não foi difícil, a menina nasceu antes, e logo após veio o menino. Ao pegar as crianças no colo pela primeira vez Nimarie sentiu que nunca mais seria a mesma, uma imensa ternura apossou-se de sua alma, e embargada de emoção olhava encantada os rostinhos que choravam anunciando sua chegada ao mundo. Thakurli igualmente emocionada, não escondia as lágrimas que este momento sublime causava.
_ Me prometa que se algo acontecer comigo você levará eles para longe... — Nimarie falou isso com os olhos cheios de desespero que a amiga imediatamente balançou a cabeça afirmativamente.
O barulho dos orcs se aproximando fez com que as duas despertassem novamente para a realidade. O olhar de Nimarie modificou-se e vincos de preocupação formaram-se em sua face, apertou as crianças de encontro ao peito, na tentativa de acalmar os chorinhos dos recém-nascidos. Thakurli empunhava a faca, ainda suja pelo sangue do parto, seus olhares estavam voltados para cima, pois os orcs passavam em marcha sobre a ponte. Aqueles segundos pareceram horas, mas por sorte as criaturas seguiram a diante, sem ouvir o chorinho das crianças que foi abafado pelo barulho das armas e armaduras que os orcs pesados usavam. Quando o perigo passou Nimarie pode novamente cuidar das crianças. Ela sorria com lágrimas nos olhos quando falou para Thakurli:
_ Sabe Thakurli, eles se parecem o com o pai... ele sentiria muito orgulho em ver como seus filhos são lindos e fortes... — Thakurli a olhava com um sorriso alegre, quanto tempo fazia que ela não sorria? pensava. As crianças eram capazes de fazer isso, pelo simples fato de existirem... — Após Nimarie sentir-se melhor, elas saíram debaixo da pequena ponte e foram para um lugar mais aconchegante dentro da floresta. Passaram a noite ali, traçando a rota da viajem até Belfalas ao sul de Gondor, pois lá a moça sabia que estariam seguras pelo menos por um tempo. Thakurli não conhecia praticamente nada daquelas bandas, sua terra ficava do outro lado da Terra Média, e Nimarie também nunca tinha passado por lá antes. Mas havia um instinto quase mágico nos elfos que se chamava intuição. E foi essa intuição que guiou Nimarie e Thakurli, que após três meses de viajem chegaram a Belfalas.

Thakurli
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