Notas iniciais
Mais um capitulo, demorou, mas apareceu.

(???????)

Talvez, apenas talvez, eu tenha feito alguma coisa errada. Eu não poderia imaginar direito o que. Talvez hoje eu tenha feito alguma besteira também, mas eu sempre pensei que "coisas erradas para um podem ser certas maravilhas à outros". Hoje pode ser esse o pensamento correto para se ter.

Estava tudo tranquilo. Silencioso.

Apenas eu e o número 14, como sempre.

Foi quando ela veio novamente, aquela voz.

"Você quer sair não é?", do mesmo jeito da primeira vez.

"Quer sair e recuperar aquilo tomado de você, coisa a qual lhe trocaram por absolutamente nada além de sombras", a voz desta vez estava mais densa, distante e velha. Estranhamente velha e direta, como a seta de uma flecha certeira em seu alvo. Mas acima de tudo, a mesma.

Era estranho o fato desta voz conseguir ser aquela mais altiva e ansiosa de apenas alguns dias atrás-- ou será que foram semanas? É realmente frustrante não saber como se passa o tempo em volta.

"Pode fazer isso e eu sei que você sabe", ela murmurou desta vez, de uma forma estranha eu podia sentir o calor de suas palavras confortáveis através do vidro grosso e transparente do número 14.

Porquê eu não podia vê-lo, nem mesmo sua sombra atrás daquele enorme vidro, ou porque ela estivesse tão estranha e tão igual à primeira vez, talvez, um desses, tenha sido o motivo de eu ter acreditado que era novamente uma peça de minha cabeça... ou talvez a falta delas.

"Ah, não acredita em mim novamente?", ela suspirou e eu pude quase ver a desaprovação em sua voz.

– É apenas meu inconsciente — falei alto suficiente para me forçar em acreditar nas palavras — isso é tudo.

"Oh...!", pude ouvir uma exclamação de surpresa. Seguiu-se um silêncio, depois um barulho rouco de uma risada inacreditável, algo como o som do crepitar seco e estalado de um fogo lambendo a madeira, apenas com a diferença deste ser mais macio e cremoso, um chocolate derretido sendo preparado, aquele qual você nunca pensou que ia provar um dia. Suspirei.

"Não devias ser tão pretensioso nas palavras, também não deverias mentir", o tom de reprovação era falso e trazia o som reprimido de um humor sobre uma coisa nova. A voz pigarreou. "Ah garoto, você é o único aqui que teme sobre o que vai acontecer depois de sair, sabia? Os outros não pensam nem mesmo uma vez antes de aceitarem minha proposta. O medo deles é contrario ao seu..." dizia, pensativa.

Percebi o quão eu ainda estava dopado pelo seu riso quando voltei a realidade de meus pensamentos abruptamente, fazendo com que eu percebesse as palavras de forma errada.

– Está me chamando de mentiroso e covarde? — perguntei, nem irritado nem satisfeito. Confuso.

"Estou apenas dizendo o que você tenta contrariar a sí mesmo", a dureza de sua voz me repreendia, desta vez séria.

Alguma coisa naquela voz parecia me alertar de não ser rude para com ela, uma sensação de que eu lhe devia respeito. Um sentimento estranho, afinal era apenas a minha mente... não é?
Eu me senti mais louco do que nunca novamente e fixei meus olhos para o número 14, era a unica coisa normal ali, grudado no vidro como se estivesse flutuando e me encarando. Guardando meus segredos para mim.

"Aos poucos eles vão conseguindo te prender ao que eles querem que você seja, mais um número para eles", a voz ressonou nas quatro paredes de vidro, as palavras me acertando como um tapa. "Te transformando aos poucos em mais um escravo, preparando-lhe para ser um fantoche".

Estreitei meus olhos, estava de pé agora, encarando o local da parede de vidro em que saia o som da voz que me atormentava em meus sonhos desde a primeira vez em que a ouvi.
"Se não era eu, quem mais poderia ser?"

– Do que você está falando? — recuperei o folego, percebi o quanto minha pouca curiosidade havia me gritado — de quem... você está falando?

Notas finais
Quem será o "eles" os quais a voz comenta? Ou melhor, quem é essa voz?