Abro lentamente os olhos e observo tudo ao meu redor, tentando memorizar cada centímetro deste quarto cheio de histórias. A cômoda, o armário, a penteadeira. O abajur, o espelho, a escova de prata; minhas jóias e maquiagens espalhadas. O teto, o lustre. As paredes, os quadros, as cortinas. A janela. Faço um esforço e ergo meu tronco. Olho para o chão em busca de meus chinelos felpudos. Levanto, visto meu penhoar por cima da camisola e caminho com dificuldade até a janela. Puxo bem as cortinas e digo bom dia ao domingo que se abre. Com as janelas bem abertas, sinto o ar gelado invadir o cômodo. Faz frio, mas está sol. Um dia lindo. Céu azul, gaivotas voando. Nada de nuvens. Nada de mágoas. Nenhum arrependimento.

Observo cuidadosamente Montmartre acordando. Fecho os olhos, respiro fundo. Jasmim, é isso. Meu quarto todo cheira a jasmim. Lentamente caminho até o espelho. Olho-me longamente e a única coisa que não mudou em mim foram os meus olhos. Continuam verdes e viçosos. Em nada se parecem com minhas mãos ou qualquer outra parte pálida e sem vida do meu corpo. Encaro o espelho bem de frente, sem medo do que vejo. Cada marca, cada ruga ou cicatriz contam um pedaço da minha história. Meu rosto é o reflexo vivo de 82 anos de uma vida bem vivida.

Hoje eu sou apenas mais uma respeitosa senhora vivendo em um bairro boêmio de Paris. Mas eu já fui a mulher mais desejada desta colina. A cortesã mais famosa e querida. A companhia perfeita de pintores, poetas, músicos... artistas e intelectuais de todos os tipos que se reuniam em cafés e saíam em busca de inspiração, conforto e prazer. Maddie, Madeleine, Madô. Eu sou uma pessoa transbordando de histórias.

Tantas aventuras, tantos desejos escancarados. Nenhum pudor, muitos livros, cigarros e bebidinhas tão coloridas quanto os espartilhos que se multiplicavam nas esquinas. Cada cinta liga guardava um segredo, uma confissão. Muitas paixões, muitas lágrimas abafadas com “profissionalismo”. Nenhum amor concretizado, ossos do ofício.

Não classifico minha vida como “feliz” ou “triste”. Não julgo tudo o que fiz como “certo” ou “errado”. Eu vivi, apenas. E agarrei com mãos ferozes as emoções que o mundo me dava. Quando o peso da idade relega mulheres como eu ao esquecimento, tudo o que temos são nossas histórias; e durante todos esses anos as lembranças me fizeram companhia.

Hoje eu sei que não precisarei mais do meu passado. Sinto a paz vir calmamente ao meu encontro. Que sensação magnífica!

Penteio com suavidade meus longos cabelos brancos. Um pouco de batom carmim, um pouco de rouge. Ponho meus delicados brincos de pérolas. Volto à janela e olho novamente para o céu. Nada de nuvens.

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