Nolram.
5 Parte 5
Nolram olha novamente o relógio, “já se passou quase uma hora”. A rua permanece silenciosa, a janela é muito longe da cama e ele não consegue se levantar. Olha para o papel em suas mãos com o endereço de sua casa, “O que aconteceu com a Lin?” Torna a pensar em Tod, em todo o barulho que escutou na rua quando ele saiu e no quanto ela ficou silenciosa nos últimos quarenta minutos. Tudo o que pode fazer é esperar. “Ele está bem, logo vai abrir a porta e sorrir como sempre.” Olha outra vez o relógio. “O que está acontecendo lá fora?” Passos ecoam anunciando a aproximação de alguém.
A porta se abre e Nolram consegue ouvir uma movimentação em um cômodo próximo. Escuta o que parecem ser móveis se arrastando, algo feito de vidro se quebra. Duas vozes começam a conversar:
— Ela está muito fraca! Acho que está desmaiando! — Disse uma mulher.
— Fique calma, tente dar algum espaço para que ela possa respirar. Ela não perdeu muito sangue, está assim devido ao choque causado pelo encontro com aquelas coisas e por ter sido atacada por uma delas. — Tod falava com firmeza, não havia dúvida em sua voz.
— Mesmo assim! Veja como está pálida. Fale comigo, Ghella! Vamos, é a sua irmã… Me responda por favor!
— Você tem que se acalmar. Por favor, vá até aquele quarto e me traga os remédios que estão sobre a mesa. Aproveite para ver se está tudo bem com o meu amigo lá dentro.
— Seu amigo? — A voz parecia assustada.
— Sim, ele também foi atacado. Pode ver se está tudo bem com ele?
— Ok.
Passos rápidos vieram em direção ao quarto. Nolram se deitou e fingiu estar dormindo. Escutou os remédios serem arrastados rapidamente da mesa para uma sacola. Uma mão leve, macia e trêmula pousou sobre sua testa, por não mais que alguns instantes. Então ela saiu correndo de volta ao outro cômodo. Nolram abriu os olhos a tempo de ver longos cabelos vermelhos saindo apressadamente do quarto.
— Aqui estão! Acho que está tudo certo com o seu amigo, não está muito quente e parecia dormir tranquilamente.
— Muito obrigado. Veja, sua irmã está bem. Deixe-a descansar um pouco para que possa se recuperar. Apesar de não ter perdido muito sangue, ela provavelmente está infectada e os sintomas devem começar em algumas horas. Não vou mentir, vai ser muito difícil daqui pra frente. Ela vai precisar da sua ajuda e eu te ensinarei a cuidar dela. Em primeiro lugar, você precisa hidratá-la muito bem…
Nolram tentou ao máximo se concentrar para ouvir o tratamento, mas seus pensamentos foram deixando seu corpo e tudo se escureceu.
Estava nu em uma floresta fechada, não sabia se era dia ou noite. Em sua mão direita estava uma lança com ponta de madeira queimada, na esquerda uma tocha. Ele corria desesperadamente tentando encontrar algo que não sabia o que era. As árvores pareciam tentar agarrá-lo com seus galhos, as sombras se retorciam em formas grotescas. Escutou um barulho em um arbusto próximo, apontou a lança e a tocha e se aproximou lentamente. A alguns passos do arbusto, uma criatura horripilante saltou em sua direção. Tentou golpeá-la, mas a lança caiu de sua mão. Desesperado, correu na direção oposta sem olhar para trás. Passou por várias árvores, sentindo a criatura em seu encalço. Tropeçou… E ao olhar para trás…
— Nolram, acorde! Você está todo suado, mas está muito frio. — Tod o observava com uma expressão muito preocupada.
— Eu… Acho que tive um pesadelo. — Bebeu toda a água que lhe foi oferecida.
— Acho que você está melhorando. Apesar de ter dormido pelas últimas doze horas, não teve mais febre. — Enchia outra vez o copo com água e colocava em sua mão.
— Doze horas… — Nolram reflete um pouco sobre aquilo. — Ontem, quando ouvimos o grito de socorro, o que aconteceu?
O rosto de Tod ficou sombrio. Ele olhou tristemente para a porta e começou a falar, havia dor em sua voz.
— Quando ouvimos o grito de socorro, eu corri até a sala, peguei meu arco e as flechas e fui o mais rápido que pude até a rua.
— Arco?
— Ah, sim. Coisa do meu pai… Me levava para caçar com ele quando criança e eu sempre tive uma mira particularmente boa. Conforme fui crescendo, percebi que na verdade eu estava machucando os pobres animais, então passei a errar de propósito e, depois de um tempo, meu pai deixou de me levar. Acho melhor deixar meu passado para outra hora, vamos voltar ao que aconteceu.
— Desculpa, não vou mais interromper.
— Ah, não foi culpa sua… Não tinha obrigação de saber isso sobre mim. Em todo caso, quando cheguei na rua, fiquei assustado. Haviam seis daquelas coisas, cada uma mais monstruosa que a outra. Na rua, haviam também três pessoas que tinham sido encurraladas, um homem, uma mulher e uma garotinha. Tirei uma flecha da aljava, retesei a corda do arco e, em instantes, uma flecha brotava de uma das criaturas, mas não foi o suficiente para matá-la. O homem tentou correr, mas foi perfurado de uma maneira horrível por quatro dos insetos. Um atravessou sua garganta e ele se engasgou com o próprio sangue. As garotas aproveitaram o momento para correr e foram em direção a uma casa próxima a elas. Eu tentei chamar, mas elas não me ouviram. Antes que conseguissem entrar, a garotinha foi atacada pelas costas e acabou caindo. Eu já estava correndo em sua direção, atirei uma flecha na criatura que estava sobre ela e isso a fez recuar. Arrastei as duas para dentro da casa e tranquei a porta. Ficamos lá dentro por algum tempo, até que pareceu seguro voltar até aqui.
— O homem morreu?
— Morreu… Não havia mais nada a ser feito por ele. O que achei estranho, foi que Mag'le, a irmã mais velha, não mencionou em nenhum momento o homem morto, tampouco pareceu se importar com o que aconteceu.
— Ela devia estar preocupada com a irmã.
— E com razão. Pobrezinha, apesar de não ter perdido muito sangue, os sintomas da doença têm sido cruéis com ela. Não sei se consigo…
Nolram olha para o papel em suas mãos.
— Lin pode te ajudar. Ela é médica e tem ótimos equipamentos em casa, ela os utiliza para tratar quem não tem condições de pagar por um hospital. Por isso nunca consegue permanecer em um emprego, eles acham que o que ela faz é loucura, mas é uma excelente médica.
A porta se abre repentinamente.
— Com licença, eu não pude deixar de escutar sua conversa. Essa Lin pode salvar minha irmãzinha? — Olhar para Mag'le era como observar o pôr-do-Sol no campo, deitado na grama sob a sombra de uma árvore. Sua pele era branca como leite. Cachos vermelhos emolduravam seu rosto delicado, as maçãs do rosto eram rosadas e o nariz salpicado de delicadas sardas vermelhas. Não era muito alta, mas sua postura a tornava imponente.
— Sim, eu acho… Quero dizer, tenho certeza que ela pode ajudá-la. Minha irmã é uma excelente médica e sua paixão é salvar as pessoas. — Nolram não conseguia parar de encarar aqueles olhos escuros.
— Onde ela está? Por favor, me diga e eu a trarei aqui imediatamente!
Tod se levantou, caminhou até a janela e a observou por algum tempo. Voltou, se serviu de água e bebeu de uma vez. Foi até a cama, pegou o papel com o endereço que Nolram havia anotado, se virou para Mag'le e disse:
— Você não pode. Sabe tão bem quanto eu o quão perigoso está lá fora. Eu irei sozinho. Tenho meu arco e posso chegar lá com a caminhonete. Por favor, fique aqui e continue cuidando da sua irmã como te ensinei. Nolram parece estar melhor, mas se puder ficar de olho nele também, eu agradeceria muito.
— Muito obrigada por tudo! Vou me esforçar ao máximo pela minha irmã e pelo seu amigo, então, por favor, traga a médica o mais rápido que puder.
Tod saiu do quarto, pegou algumas coisas e partiu em sua missão. “Minha irmã, minha doce irmã. Finalmente vou falar com ela outra vez.” Nolram se senta com alguma dificuldade, abre e fecha os dedos e sente a força voltando ao seu corpo. Mag'le enche seu copo com água e lhe entrega alguns comprimidos.
— Vou olhar como está a minha irmã. Ela estava dormindo quando saí, mas está cada vez mais fraca… Não posso perdê-la, ela é tudo o que eu tenho.
— Não se preocupe, eu também fiquei muito mal, mas estou me recuperando. Tenho certeza que a sua irmã vai ficar bem.
— Muito obrigada. Assim que eu conferir como ela está, vou trazer algo para você comer. Deve estar faminto. — Seu sorriso era muito bonito, mas ela parecia estar triste.
Nolram se deita novamente. Olha para o teto e começa a pensar em tudo o que aconteceu nos últimos dias. Se sente mal por não estar triste com a situação, era como se a vida agora fizesse mais sentido.
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