Noiva por Herança
5 Capítulo 5
Empresa McCarty
02 de maio de 2005
06h45min
Eu não tinha mais nenhuma noção do que estava fazendo. Olhei para os lados daquela sala cheia de janelas que corroía qualquer desejo de privacidade. Meus olhos se fecharam instantaneamente respirando aquele novo ar de papeis e tinta para caneta e carimbos. Não era um escritório comum de New York que transmitia o ar dos anos 40, aquele escritório era moderno. As janelas percorriam toda a altura das paredes, os moveis variavam entre preto e branco e detalhes verdes davam um ar natural ao lugar. Minha mão vagou por uma folha de alguma planta no canto da sala, poderia jurar que era de plástico, pois não continha nenhuma folha murchando ou já murcha, mas era de verdade, sedosa, natural. Pude observar mais algumas peças naturais e ecológicas naquele ambiente. Aproximei-me da prateleira com livros e pastas, todos encapados em um preto intenso, e intercalado com os livros alguns potes trançados em palha redondos que estavam servindo como vasos para pequenas plantas, não eram muitas, três ou quatro, simetricamente posicionadas.
Naquele momento eu já não tinha mais ideia de quem era o meu novo chefe. Não tinha nenhuma noção. Mas algumas certezas eu tinha, como, por exemplo, o ambiente não me remeter um estereótipo inglês ou de mais idade, parecia alguém novo, metódico, organizado. Talvez uma mulher, uma mulher poderosa! Por mais rara pudesse ser as chances, pois no meio de tanta organização um cheiro masculino ainda planava pelo ar. O cheiro amadeirado de algum perfume caro. Fechei os olhos sentindo aquele cheiro delicioso. Poderia permanecer assim horas. Aquele ambiente em si me trazia calma, paz interior.
Havia pessoas que me olhavam. Eu tinha noção disso, mesmo estando de olhos fechados. Havia curiosos para saber o porquê de estar ali, como se não fosse obvio. O porteiro até aquele momento foi o único que me passou confiança, soube me localizar e senti estabilidade quando ele me desejou sorte. Sabia que precisaria para manter meu emprego. O agente de empregos havia me avisado que nos últimos dois meses mais de 10 candidatas haviam sido demitidas. Isso não me deu nenhuma segurança, mas estava lá, pronta para vencer, pois não me deixaria ser vencida por nada até conseguir o que realmente precisava!
Olhei ao meu relógio para saber se ainda faltava muito para conhecer meu chefe. Esperava que ele fizesse jus ao ambiente onde trabalha. Eu só tinha que agrada-lo, não poderia ser tão difícil assim. Sei que tem pessoas que não vão com a cara de outras, algumas mais que outras, ou se apaixonam logo de primeira, e eu esperava, desesperadamente que fosse esse o meu caso. Minhas expectativas eram altas, mesmo sabendo que o dono daquele escritório tinha expectativas bem maiores que as minhas. E eu estava disposta a cumpri-las de bom grado.
Dei a volta na mesa e então pude ver algo que até então não havia percebido fazer parte do ambiente. Havia um porta-retratos do lado esquerdo do computador, pelo o outro lado seria impossível avistar que havia um objeto em tal posição. Parecia um tesouro precioso que deveria ser mantido fora dos olhares alheios. Avistei uma mulher gravida. Seus cabelos eram de um negro intendo e seus olhos estavam fechados, ela carregava um sorriso nos lábios, um sorriso doce e sereno, suas mãos seguravam sobre a barriga a mão de seu provável marido. Ele também sorria. Alto e loiro, dono de um sorriso imensamente feliz. Eu sorri. Um dos dois era meu chefe, e pela foto sabia que poderia esperar algo bom!
A imagem era um pouco antiga, talvez tivesse uns 20 anos, mas aquele casal não deveria ter mudado tanto. Talvez o pai seja um homem que comande as coisas em rédea curta, ou a mulher seja bastante exigente... Sabia que não estava ali para brincar, nem fantasiar sobre meu patrão, mas ele ainda não havia chegado e minha cabeça se contorcia de curiosidade. A cada passo que dava em alguma direção mais curiosa eu ficava sobre a pessoa misteriosa.
Passei o dedo sobre a mesa apenas para constatar o que eu já sabia: devidamente limpa. Subi meu indicador até a altura do olho e além do meu dedo eu vi uma silhueta negra se formar. Abaixei imediatamente o dedo e olhei para baixo sem ver a face da pessoa a minha frente, consertei meu terno e olhei meus sapatos confirmando se eram os mesmos. Estendi a mão para a pessoa enquanto subia o olhar para o rosto da mesma e congelei no meio do meu nome ao ver quem era. Seu sorriso de covinhas me fez sorrir.
- Rosalie... – ele disse apertando minha mão para não me deixar no vácuo – Mundo pequeno!
- Bem pequeno... – concordei com a cabeça e sorri. Não queria soltar sua mão, mesmo sabendo que deveria fazê-lo, e fiz mesmo relutante. – Então, trabalha aqui?
- Acho que sim – ele brincou se sentando na cadeira atrás da mesa – esse é meu escritório.
- Seu escritório? – gaguejei ao falar.
- Meu escritório, e você deve ser minha nova assistente! – deduziu – logo te apresentarei a empresa. – me informou – quer que te explique como gosto de trabalhar?
- Por favor... – eu estava constrangida pela a situação que me vi. Não poderia trabalhar no mesmo ambiente que o homem que desejava nos últimos dias. Eu poderia falhar a qualquer momento, e então não perderia só o emprego. New York não parecia ser tão grande agora enquanto me sentava na frente de um Deus Grego.
- Bem... – ele cruzou as mãos na minha frente e inclinou a cabeça para os lados estalando seu pescoço – eu não sei como te falar isso... – pude ver que ele estava tão nervoso quanto eu quando deslizou as mãos pelo o cabelo o atrapalhando. – era mais fácil com as outras que não conhecia... – ele riu nervoso e franziu o cenho – gosto das coisas prontas rápidas e sem erros.
- Sou boa com horários... Sou um pouco controladora com o meu tempo. – falei com a voz tremula, tentei passar segurança, mas eu não estava segura do que eu estava falando.
- E terá que ser... – ele disse pausadamente – é só o que eu estou pedindo.
- Sabemos que tem mais coisa senhor, é tudo o que pede por agora.
- Me chame de Emm quando não tiver ninguém por perto... – ele cortou o que havia falado para corrigir.
- Não sei que é o mais correto senhor...
- Não é, mas não gosto de senhor... – ele se levantou da cadeira e pegou uma pilha de contratos – consegue ler em quanto tempo?
Dedilhei as folhas com cuidado, como se as contasse. Prendi a mandíbula e comprimir meus lábios um no outro pensando. Talvez 2 horas para ler, alguns minutos para escrever notas e grifar o mais importante...
- São contratos para ser enviados imediatamente ou chegaram agora para o senhor assinar ou são modelos de contratos?
- Acabaram de chegar, quero que os revise. – ele mandou
- Precisarei de folhas pautadas, uma régua e marcadores de páginas. Farei em 4 horas.
- Preciso disso para amanhã. – Olhei mais uma vez o relógio
- Depois do almoço estará em sua mesa. – avisei – O senhor almoça que horas?
- As 14. – informou e me olhou sentada, levantei nervosa e ajeitei mais uma vez meu terno – Vamos passear pela a empresa?
- Sim senhor... – concordei com a cabeça
- A McCarty é a mais renomada no país quando se trata de assuntos ligados a construções das diversas engenharias existentes, desde a civil à mecânica. Eu controlo isso com certa rigidez...
- Punho de ferro. – sorri atrás dele o acompanhando.
Eu estava sim constrangida, mas também estava muito feliz por ter encontrado ele. Fiquei com receio por não ter pedido seu telefone na época que pude para poder ligar e quem sabe marcamos de sair mais uma vez? Eu me sentia bem com ele, me sentia feliz. Era como se ele fosse o meu ponto de fuga da minha vida. Pelo menos foi naquele dia, não sei agora como patrão, mas como amigo ele era.
A empresa era gigante e ele me mostrou tudo, me apresentou as pessoas com quem teria contato, alguns funcionários que ajudariam a me situar. Bem, ele me mostrou o pessoal importante, resumindo. Mas havia também os empregados de cargos mais baixos, e com esses sim eu simpatizei. E não foram com palavras que eles me conquistaram, foram com gestos... Um sorriso aqui, um comprimento com a cabeça... Simples atos.
Quando reparei onde estava pude me ver sozinha com ele em uma sala cheia de estantes. Era uma sala de arquivos, tudo que precisaria sobre reuniões passadas e contratos estaria ali.
- Essa é a única sala que permaneceu ao estilo 1970... Então terá que aprender a andar aqui no meio – ele disse fechando algumas gavetas de documentos. – Mas redobramos a segurança daqui, já que é a sala mais importante da empresa!
- Sr. McCarty – chamei e ele se virou automaticamente.
Eu não imaginava que ele caminhava tão perto de mim, seu rosto quase se encostou ao meu e sua respiração cortou a pele de minha face fazendo meu corpo se arrepiar involuntariamente. Minha respiração se acelerou e eu fechei os olhos tentando me acalmar.
Senti seus braços me apertarem contra ele e o calor entre nossos corpos se aumentou com a aproximação. Seus lábios tocaram minha face e minha mão subiu para seus braços. Meu coração acelerou e parou, depois voltou a bater descompassado. Eu estava nervosa e a vontade de avançar em seus lábios estava mais forte do que antes.
Eu queria fazer isso mais do que tudo, mas era errado. Estava noiva, e, por mais que não gostasse de Royce, sou uma garota de princípios, sou honesta e fiel de mais (mesmo não querendo) para traí-lo. E para completar ele era o meu novo patrão.
Diabos, o porquê disso? Parecia que tudo, tudo mesmo, queria o meu mal maior. Puxei o ar e seu hálito entrou pelas minhas narinas fazendo cada átomo do meu corpo se agitar pedindo mais e mais.
- Isso é errado – murmurei fazendo nossos lábios roçarem e meu instinto pedir para que o beijo começasse. Tentei me desprender de seus braços.
Ele era mais forte e hábil e parecia ter urgência com esse contato. Seus braços continuaram me segurando e mais uma vez ele roçou nossos lábios me fazendo desejar mais aquilo. Foi a primeira vez que odiei ser completamente racional.
- Você iria me beijar aquele dia, Rosalie, não adianta mentir – ele falou sem se afastar fazendo todo o meu sistema descompassar, parecia que estava configurado para querer ele. – Você quer me beijar agora, eu sei.
Como ele poderia saber o que meu corpo precisava? O que ele gritava intensamente e insaciavelmente pedindo por uma aproximação maior? Mas ele pareceu apenas saber, deduzir talvez. Ou será que ele apenas chutou?
Forcei meus músculos a se moverem e se separarem dele. Eu odiava, a cada momento mais, ser racional.
- Eu não ia – garanti contra o que realmente faria – Eu não ia te beijar daquela vez – falei caminhando para mais longe, na tentativa dele não ver meus olhos marejados pelo desejo reprimido. – E não ia fazê-lo porque eu estou noiva.
- Por herança? – sua voz saiu tão baixa que mal consegui entender o que ele falava – era verdade? Você está...
- Noiva por herança? – perguntei o cortando com uma voz tão baixa quanto à dele – È, eu estou! – admiti derrotada deixando as lágrimas derramarem.
Sua mão se fechou contra meu braço me puxando para trás na sua tentativa de olhar meu rosto. O abaixei por impulso e sua outra mão o levantou tão doce e graciosamente que mal podia acreditar ser um homem tão másculo que estava o fazendo. Fechei meus olhos tentando conter mais lágrimas de caírem e senti seus dedos passarem por minhas bochechas tentando enxugar as que eu já havia derramado.
Porque ele tinha que ser assim?
Seus lábios tocaram minha testa, e seus braços me envolveram em um abraço amigável e reconfortante. Ele não falou e nem se moveu apenas ficou parado deixando que eu me acalmasse e parasse de chorar.
- Eu sei que não é tão pesado quanto o que você está passando, mas... – ele começou a falar quando me viu mais calma.
- Perder os pais antes dos 17 anos? – eu ri com desdém – acho que nada do que você falar vai superar isso.
- Só me escuta – ele pediu e eu voltei a me calar em seus braços, eu só precisava sentir seu cheiro. – Eu perdi minha mãe quando nasci, foi uma gravidez difícil e ela não agüentou quando sai de dentro de sua barriga. Eu sei, não conheci minha mãe, você deve estar pensando “nossa, então ele nem sabe o que eu estou sentindo!” – ele imitou uma voz feminina e eu sorri longe de sua visão.
- Eu não... – comecei a falar mais fui interrompida por ele.
- Só escuta – me lembrou – Mas eu imagino o que é. Antes mesmo de completar dois meses meu pai se envolveu com uma enfermeira do hospital onde ele trabalha, e eles se casaram. Ela? Ficou grávida no primeiro mês de casamento e meu pai ficou radiante, mais um filho. Ele é um médico renomado, não teria com que se preocupar, se isso tratasse do orçamento, claro. Eu cresci sabendo que Esme não é minha mãe, mas deixando bem claro que eu a considero como uma. E se eu perdesse-os eu acho que me perderia. – declarou deixando seu queixo repousar sobre o topo da minha cabeça. – Esme teve duas filhas legitimas com meu pai e quando completei 18 anos assumi os negócios de minha mãe, ou seja, essa empresa. E isso aqui é tudo que tenho tela além do sangue. Eu me considero sortudo por ter duas mães... E saber que as duas me amam e eu sei que retribuo esse amor. E tenho certeza que seus pais também te amavam! E fizeram pro seu bem!
- Meu bem? – fiquei nervosa com aquelas palavras – Royce não devia existir, isso sim seria o meu bem!
- Então o canalha chama Royce!
- Com todas as letras. – senti sua mão deslizar pelas minhas costas me acalentando. Sua presença fazia esquecer um pouco a dor. Talvez porque me concentrava em desejo!
Fechei meus olhos e me concentrei em sua mão que descia e subia em minhas costas. Um movimento lento e retilíneo me embalava em uma calma profunda, podia adormecer ali nos seus braços. Com o tempo percebi que já havia parado de chorar e estava prestigiando a doçura daquele homem que poderia até ser maior que seu tamanho. Ele subiu a mão e deslizou-a pela minha nuca. Soltei um suspiro e me arrepiei por inteira. Havia tempo que ninguém me tocava assim. Ele segurou meu rosto e me olhou nos olhos.
- Não fica assim, há males que vem para bem – ele falou sorrindo e eu sorri de volta concordando.
Se havia ou não, de tudo eu pude conhecer ele. Um amigo era o que eu precisava no momento.
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