Noiva Indomável
13 Um homem Audacioso
Notas iniciais
[RECAPITULANDO/
Naquele momento Elizabeth entrou no salão, escoltada por um lacaio. De repente, Darcy já não ouvia mais nada do que Charles ou George diziam. A inesperada transformação de lady Bennet o deixara assombrado. Apesar de ainda manter os cabelos cobertos por um véu comprido, pela primeira vez a via trajando roupas femininas. O vestido de veludo verde era elegante em sua simplicidade, realçando o contraste da pele escura do rosto e das mãos pequeninas. Subitamente ocorreu a Darcy que Elizabeth tinha o porte de uma duquesa.
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A fala só voltou a Darcy quando se viu obrigado a apresentar Elizabeth a George. Ela limitou-se a inclinar a cabeça, num gesto carregado de realeza. Então apoiou a mão de leve no braço que o conde lhe oferecia e se deixou conduzir até a mesa principal, Charles e Darcy seguindo-os logo atrás.
Não lhe passou despercebida à maneira como Darcy a fitava, atordoado ao constatar que ela era mesmo o que se dissera ser. Uma mulher. Adulta.
— Seu encanto ilumina minha casa, lady Bennet — George a elogiou, fazendo-a sentar-se à sua direita. Embora estivessem acomodados um pouco mais adiante, Charles e Darcy podiam escutar grande parte da conversa. Elizabeth lhe parecia tão vulnerável e pequenina, o rosto e os lábios, que Darcy cerrou os punhos para conter a angústia de sabê-la o tipo de vítima preferida por George.
— Muitos meses já se passaram desde que Pemberley pudesse apreciar a beleza de uma dama com seu charme — Darcy ouviu o primo dizer.
— Nossas condolências pela perda de sua esposa.
Um dos barões ofereceu.
— Oh, sua esposa morreu recentemente? — A voz de Lizzy revelava preocupação.
— Sim. Clarisse morreu em novembro, pobre coitada.
O nome 'Clarisse' a fez ficar atenta.
O que mesmo que Vilma dissera sobre a castelã?
Darcy não foi capaz de detectar nem um traço de emoção na maneira como o conde se referia à jovem esposa morta. Qualquer homem normal teria procurado demonstrar algum sinal de tristeza pela perda ocorrida seis meses atrás. George, entretanto, se debruçava sobre Elizabeth com avidez e ainda não lhe soltara a mão.
— Que coisa terrível, meu lorde. Foi repentino?
A piedade estampada nos olhos de Elizabeth era evidente. Apesar de saber que seria impossível para ela perceber a verdadeira natureza do caráter do primo imediatamente, Darcy irritava-se ao vê-la tratá-lo quase com simpatia.
— Não. Minha esposa esteve doente durante meses. Problemas de estômago.
Notando a forma insensível como seu anfitrião abordava o assunto, parecendo mais preocupado em devorar a comida, Lizzy aborreceu-se. Embora sua experiência de vida se limitasse a Meryton, sabia que alguma expressão de pesar teria sido apropriada. Já não tinha dúvida de que o conde de Pemberley não passava de um homem frio e desprezível.
Os convidados não tardaram a perceber o exagerado interesse que George demonstrava por lady Bennet. Ninguém sabia por que a dama estava sendo levada para Londres, ou que tipo de ligação teria com o rei. Mas especulava-se que Henrique a tomara sob sua proteção e que pretendia lhe arrumar um marido. Darcy nada fez para impedir que os rumores se espalhassem, ele mesmo não sabendo por que o rei a mandara buscar. Também, se acreditasse que Elizabeth estava sob a guarda de Henrique, era bem provável que George a respeitasse e mantivesse certa distância.
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Lizzy sentia-se exausta quando o conde, finalmente, a acompanhou até a porta de seus aposentos. Não queria mais nada a não ser livrar-se daquela presença desagradável.
— Um petisco tão delicioso você é — ele murmurou de repente, enlaçando-a pela cintura, o hálito nojento fazendo-a sentir náuseas.
— Meu lorde, solte-me. Agora.
— Você me agrada, jovem tentação. O que devo fazer para atraí-la?
Com um arranco, ela se desvencilhou das mãos que insistiam em agarrá-la e estava pensando em tomar uma atitude mais drástica quando sir Fitzwilliam, de súbito, apareceu no corredor, segurando um castiçal e cambaleando de leve. Ao chegar perto dos dois, perdeu o equilíbrio e esbarrou, com força, no ombro do conde. Admirava-a que o cavaleiro agisse tão desajeitadamente, quando sempre o vira mover-se com elegância e destreza.
— Desculpe-me, meu lorde — Fitzwilliam falou, a voz lenta e pastosa. — Ótimo vinho. Bela festa.
— Para trás, animal!
— Por favor — Lizzy se interpôs entre os dois, antes que o conde desembainhasse a adaga. Precisava encontrar depressa uma maneira de evitar um confronto. — Meu acompanhante apenas exagerou um pouco no consumo de seu ótimo vinho, depois de um longo dia de viagem. Permita-me ajudá-lo a chegar aos aposentos que lhe foram reservados para que não cause mais embaraços.
Tomando o castiçal da mão de Fitzwilliam, ela o segurou pelo braço, afastando-o do conde.
— Venha comigo, sir. — Uma olhadela rápida para trás, a certificou de que George não os seguia. — Idiota pomposo — murmurou aliviada. — Qual é seu quarto? — perguntou depois de alguns segundos, mal conseguindo sustentar o cavaleiro alto e musculoso.
— Esse aqui. Não, talvez seja mais adiante — ele respondeu devagar, apoiando-se com força no ombro de Lizzy. — Outra vez você tem o cheiro de rosas, garota.
Surpreendia-a que Darcy percebesse o aroma. Sempre se banhava com um sabonete perfumado, à base de extrato de rosas, porém nunca imaginara que alguém fosse notá-lo.
— Aqui. — Fitzwilliam encostou-se na porta do quarto que cedeu imediatamente ao peso do corpo atlético. Todavia, por algum milagre, os dois não caíram. Pelo contrário, ele se encarregou de sustentá-la, segurando-a firme pela cintura. Lentamente, Fitzwilliam abaixou a cabeça, os lábios de ambos quase se tocando. Como se presa de um encantamento, Lizzy entregou-se ao momento. Sabia ser loucura, mas ansiava sentir o toque daquela boca outra vez.
Um pingo de cera quente em sua mão foi o que a trouxe de volta à realidade, fazendo-a pular para trás.
— Você consegue se equilibrar sozinho agora, ou devo chamar alguém para ajudá-lo?
— Por que eu precisaria de ajuda? — Não havia mais nenhum traço de embriaguez na voz profunda.
— Por quê...? Você não está bêbado, não é? — Então o nobre cavaleiro estivera brincando com ela o tempo inteiro.
— Claro que não, garota. Nunca bebo muito. — Darcy jamais fingira estar embriagado antes, por isso procurava se convencer de que fora impelido a seguir George e Elizabeth apenas porque prometera ao rei protegê-la. Depois de observar os olhares cheios de desejo que o primo lançara a lady Bennet durante todo o jantar, achara melhor não deixá-la só, na companhia de uma criatura sem escrúpulos.
— Seu... seu mentiroso! — ela gritou, olhando ao redor na esperança de encontrar algum objeto com o qual pudesse atingi-lo. Sem ver nada por perto, saiu do quarto quase correndo. Entrando em seus aposentos afinal, Lizzy fechou a porta cuidadosamente para não acordar Bridget. Sentia o sangue latejar nas veias, mas não sabia se era de raiva, ou de medo pelo que poderia haver acontecido, caso o beijo se consumasse.
Teria sido reconhecida como a mulher do lago?
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