Noiva Indomável
52 Resgate
Notas iniciais
Catherine De Bourgh estava de pé num canto, retorcendo as mãos, enquanto George forçava o duque a erguer a cabeça segurando-o pelos cabelos.
— Olhe para mim! — ele gritou, jogando um copo de água no rosto de Darcy, coberto de sangue. — Quero que você me veja! Quero que tenha perfeita consciência do que acontece aqui. Não é nem um pouco divertido se você estiver desacordado.
— Meu lorde — Catherine interveio aflita. — Por que aqueles tolos estão demorando tanto?
— Provavelmente se deitando com a rapariga. Idiotas. Estúpidos.
— Não estou gostando nada disso, George. Alguém poderia vê-los.
— Não se preocupe. Você sabe perfeitamente bem que esse pequeno esconderijo já me serviu diversas vezes. E quando eu terminar, partiremos para a Irlanda. — Apanhando uma barra de ferro pontuda, George a estudou pesaroso. — É uma pena não podermos acender um fogo aqui.
Para Lizzy estava claro que George não era apenas cruel, mas louco também. Ninguém, com um pingo de consciência, teria feito a Hugh o que aquele insano fizera, cometendo as barbáries mais horrendas.
— Temos que agir depressa — William segredou-lhe ao ouvido. —Especialmente você, milady. Eu cuidarei do conde enquanto você mantém a mulher ocupada. Provavelmente ela a verá antes que o conde perceba nossa presença. Gilbert e os rapazes estarão aqui a qualquer momento. Sente-sepronta?
O brilho feroz dos olhos de Lizzy foi resposta suficiente. Juntos, invadiram o cômodo. Ela ostentando a faca, ele brandindo um porrete.
Darcy mantinha-se consciente, apesar de brutalmente espancado. Desde o princípio concluíra que sua única chance de tentar escapar seria mostrar-se incapacitado. George poderia, assim, baixar a guarda, talvez até desamarrá-lo.
Sabendo que o primo preferia lidar com uma vítima consciente, não tinha a menor intenção de cooperar. Todavia, chegara a hora de tomar uma atitude. Os comparsas de George encontravam-se lá fora, inclusive Hartford, que o atrairá para aquela armadilha. Sem dúvida os dois voltariam a qualquer minuto, diminuindo drasticamente sua margem de sucesso.
Darcy jogou o corpo para o lado e caiu da cadeira.
Era a distração que William e Lizzy esperavam para entrar no cômodo sombrio. No exato instante em que George se inclinou sobre o primo caído, Darcy o chutou selvagemente, atingindo-o no peito e fazendo-o perder o equilíbrio. Depressa, William o acertou na cabeça com o porrete, deixando-o inconsciente.
Compreendendo o que se passava, Catherine tentou escapar, porém Lizzy a derrubou no chão lamacento e sentou-se sobre ela, segurando-a comfirmeza.
— William?
— Sim, milady?— George está inconsciente?
— Sim.
— Então venha cuidar dessa mulher enquanto atendo meu marido.
Darcy continuava caído, as mãos ainda atadas, o corpo bastante ferido.
— Lizzy! — A voz profunda não passava de um sussurro.
— Sim, meu amor, vim buscá-lo — ela respondeu chorosa, ajudando-o a sentar-se e soltando-lhe os pulsos.
— Mas como?
— O barão Bennet acabou salvando-lhe a vida. Oh, Darcy, seu olho está tão inchado. E esse corte no rosto precisa de pontos.
— Não é nada.
— Como não é nada? Você sabe que entendo dessas coisas.
— Onde está Bennet? — Darcy indagou, levantando-se com dificuldade.
— Juro que o mandarei de volta para casa a pontapés.
Então Gilbert Lucas e alguns dos outros entraram, Tom entre eles.
— Tom! — Lizzy gritou ao vê-lo, ansiosa para certificar-se de que o aldeão não fora seriamente ferido.
— Milady, eu queria me desculpar.
— Desculpar-se, Tom? Por quê?
— Porque a derrubei no chão.
Lizzy riu, aliviada.
— Tratava-se de seu papel, não é mesmo? Conseguimos enganá-los direitinho, como havíamos planejado.
— Era você? — Darcy perguntou à mulher. Ouvira ruidos lá fora, claro,porém não dera muita atenção, preocupado apenas em aproveitar a chance proporcionada pela saída dos comparsas de George.
— Não conseguimos pensar em nenhuma outra maneira de forçarmos os homens do conde a saírem daqui — Gilbert explicou. — Assim, criamos um tumulto.
— Onde estão Hartford e os outros?
— Presos, meu lorde. Mais da metade da aldeia está lá fora, esperando para ver George ser arrancado desse buraco.
Daniel Page jogou um pouco de água no rosto de George Wickham e o obrigou a ficar de pé. Recuperando a consciência, o conde pôs-se a praguejar violentamente, o ódio concentrado em Darcy. Os aldeões, entretanto, apenas riam da figura agora ridícula, coberta de lama e espumando feito um cão raivoso.
— Assuma o comando aqui, está bem, Lucas? — Darcy pediu ao saírem do buraco imundo. — Eu gostaria de levar minha esposa para casa.
— Sim, meu lorde — Lucas retrucou, satisfeito com a autoridade que o duque lhe concedera. — A propósito, John Carpenter foi à procura de lorde Charles. Imagino que ele logo estará aqui.
— Meus agradecimentos, Gilbert, por ajudar minha esposa a salvar minha vida.
Lucas apenas balançou a cabeça e afastou-se, deixando-os a sós.
— Não creio que sua Annalouise teria feito tão bem. — Lizzy não resistiu ao impulso de comentar, apesar de ter jurado a si mesma nunca mencionara outra mulher da vida de Darcy.
— Quem?
— Sei que você era noivo antes de Henrique ordenar que se casasse comigo.
Ele riu com prazer.
— Annegret? Nunca fui noivo de Annegret.
— Annalouise, Annegret, tanto faz.
— E Henrique não me mandou casar-me com você e sim com a irmã dele. Se, desde o primeiro momento, eu tivesse sabido que era você, o rei jamais teria tido chance de me dar à ordem. Eu me anteciparia.
— Tem mesmo certeza?
— Annegret representava uma aliança para meu avô. E não significava nada para mim. Não poderia haver outra mulher em minha vida, a não ser você.
Eram tantas as tochas acesas, que mais parecia dia do que o meio da noite. Como Gilbert dissera, pelo menos metade da aldeia se encontrava reunida, ansiosa para testemunhar a queda de George. Uma pequena multidão aguardava o antigo conde de Pemberley do outro lado da ponte, insultando-o e atirando tomates e ovos na criatura odiada. George gritava de volta.
Catherine apenas cobria o rosto, insegura quanto ao que o destino lhe reservaria.
Darcy e Lizzy ficaram para trás, saboreando o reencontro. As emoções das últimas horas finalmente a tinham vencido e já não era capaz de conter as lágrimas.
— Preciso levá-lo para casa e cuidar desses ferimentos, marido.
— Sim. E, pela primeira vez, conseguirei dormir em paz na nossa cama em Pemberley. Já era hora...
— O que está havendo? — Lizzy perguntou, notando um início de tumulto no meio da ponte.
Mas de súbito não se ouvia nada, a não ser a voz de George,completamente alterada. Ele estava fora de si, falando coisas sem nexo.Então um grito agudo e uma figura se atirando, do ponto mais alto, sobre as pedras que cobriam grande parte do leito do riacho. Lizzy fechou os olhos por um segundo, a cena forte chocando-a.
George. Tinha que ser George. Darcy desceu até o local onde se dera o acidente, cercado por um silêncio absoluto. Todos viram quando o duque retirou o corpo inerte do primo da água. Ninguém desejou que aquele ser cruel sobrevivesse, ou rezou pela salvação de sua alma.
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