Noiva Indomável
50 Em Busca de Ajuda
Notas iniciais
— Muito bem — falou o barão Bennet naquela sua voz pastosa, saindo do meio das sombras, um sorriso malvado iluminando as feições inchadas pela bebida. — Esses não são modos de dar as boas-vindas ao seu carinhoso pai.
— Eu... eu não entendo.
— Você pensou que seu querido marido estaria aqui? — A mão pesada a atingiu violentamente no rosto antes de segurá-la pelos cabelos com força até obrigá-la a fitá-lo. — Sua idiota! Tão crédula.
— Por favor, pare com isso.
— Ótimo! Implore! Suplique minha piedade! — ele falou, torcendo-lhe os cabelos até deixá-la à beira das lágrimas. — Seu marido não chegará a tempo de salvá-la desta vez.
— O que está querendo dizer com isso?
O barão riu, o hálito recendendo a álcool.
— George Wickham o destruirá.
— Como? — Lizzy indagou, esquecendo o próprio medo. — Como George irá destruir Darcy?
— O duque foi enfrentá-lo sozinho. George tem um esconderijo sob a ponte, no lado oeste da cidade. — Bennet tornou a rir. — Logo seu precioso duque não passará de um homem aleijado e morto.
No mesmo instante Lizzy desvencilhou-se dos braços que a prendiam e correu para a porta. Trancada, claro. O barão não tinha a menor intenção de deixá-la escapar.
— E lady Kitty? — perguntou, esforçando-se para falar com voz firme. — O que ela tem a ganhar com tudo isso?
As risadas bêbadas de Bennet soavam ainda mais malignas.
— A nobre e poderosa lady Kitty acredita que acontecerá apenas o que ardentemente deseja, ter você fora do caminho. Afinal, planeja casar-se com seu marido tão logo ele fique viúvo.
— Casar-se com meu marido? — Lizzy gritou. — Ela...
— Ela não sabe que agora, nesse exato momento, Fitzwilliam Wickham caminha direto para a armadilha preparada por George.
— Preciso ir em auxílio de meu marido! Você deve...
— Eu devo agir como me agradar. — Novamente Bennet a esbofeteou, fazendo-a cair no chão. — Você aprenderá a respeitar seu pai! Você e aquele seu maldito marido arruinaram Meryton! Culpa sua. Tudo culpa sua.
Lizzy apoiou-se nos joelhos, uma expressão confusa no rosto.
— Tenho que puni-los e destruí-los — o barão repetia sem parar. — Os vilões tentam me enganar o tempo inteiro. Já não existe nenhum respeito. Eles acham que não sei de nada, porém os vejo rindo às minhas costas. Rindo de mim!
As palavras iam se tornando indistintas à medida em que Bennet voltava a se aproximar, ameaçador, da enteada. Vendo o brilho perverso daquele olhar, ela soube que seria surrada com mais violência do que nunca. O padrasto sempre agia com grandes requintes de crueldade depois de passar horas bebendo.
— Pois vou mostrar-lhes! E a você também.
De pé, Lizzy analisou a situação, apesar do pavor que a consumia. Não havia sinal de armas de nenhuma espécie por perto, tampouco o barão parecia ter uma faca, ou espada, consigo. Pelo menos restava-lhe uma chance de tentar escapar.
Sabia que sua única chance seria apanhar a própria adaga para se defender. Assim, quando o padrasto tornou a esbofeteá-la, Lizzy caiu no chão e rolou para o lado, ficando imóvel. Queria fazê-lo acreditar ter sido seriamente ferida.
Com movimentos contidos, retirou a arma escondida no corpete e aguardou, sem saber como o barão agiria. Era até possível que ele quisesse matá-la a pontapés, porém o mais provável era que desejasse prolongar a punição, agredindo-a de diversas formas.
Lizzy sabia ser necessário manejar a faca com maior precisão desta vez. Nada de atacar às cegas como quando enfrentara George Wickham. Deveria estar absolutamente segura ao desferir o golpe mortal. A vida de Darcy dependia de sua fuga.
Então Bennet a obrigou a virar-se de costas e tomou-lhe a cabeça entre as mãos. Porém só teve chance de bater seu crânio no chão uma única vez, fazendo-a berrar de dor. Mas apesar de zonza, Lizzy conseguiu cravar a adaga sob as costelas do padrasto. Com a força nascida do desespero, enfiou a lâmina bem fundo, rompendo camadas de músculos. Naquele exato minuto escutou-o gritar, o sangue jorrando da ferida e ensopando-lhe o vestido.
O barão caiu pesadamente sobre seu corpo, imprensando-a. Lizzy o empurrou para o lado, a cabeça latejando, a visão turva. Todavia, apesar do choque, sabia ser preciso agir depressa. Aproximou-se da porta e tentou abri-la, apesar de saber que estava trancada.
Embora relutasse em olhar para Thomas Bennet e enfrentar o que lhe tinha feito, ajoelhou-se junto ao corpo caído. O barão ofegava, o rosto redondo tomado de uma palidez mortal, os olhos sem brilho indicando a morte iminente.
— Você não me deixou outra escolha! — gritou angustiada. Ele virou a cabeça para o lado oposto. — Onde está a chave? — Nenhuma resposta. — Maldito seja! Eu a encontrarei! — Ignorando o sangue que jorrava da ferida, Lizzy o revistou até descobrir a chave da porta, metida no bolso do casaco.
Quando estava para sair do quarto, lembrou-se da adaga enterrada no corpo do padrasto e voltou para apanhá-la.
A lua crescente e as estrelas iluminavam o caminho pouco familiar. Lizzy estivera na aldeia apenas uma vez e tinha a sensação de que fora anos atrás. Enquanto percorria as ruas desertas, quase cega pelas lágrimas, tentava desesperadamente lembrar-se da localização da ponte oeste.
Precisaria aproximar-se do esconderijo de George sem ser notada. Mas como salvar o marido sem que os outros dessem conta de sua presença? Como subjugar George, se descoberta?
Limpando as lágrimas com as costas da mão, esforçou-se para analisar os fatos friamente. Não poderia agir sozinha. Devia traçar um plano antes de atacar George às cegas.
Ao reconhecer um dos chalés, desmontou. Ainda havia luz no interior da casa onde Victor a levara para limpar a capa suja de lama, naquela longínqua primavera. Talvez estivesse ali a solução que buscava.
O menino atendeu a porta, surpreso ao reconhecê-la.
— Pai, venha depressa, é a duquesa.
— Gilbert — Lizzy falou ansiosa, aceitando o convite para entrar.
— O que aconteceu, milady? — Lucas indagou, assustado ao vê-la coberta de sangue.
— Preciso de sua ajuda. — A voz de Lizzy, trêmula e incerta, revelava a aflição que a consumia... — George... meu marido...
— Sente-se aqui, Alteza, e procure se acalmar.
— É possível que ele já tenha aprisionado meu marido.
— George tem o duque? Onde?
— Meu padrasto, o barão Bennet, disse que George preparou uma armadilha para pegar Darcy e o prender em algum lugar, sob a ponte oeste. Eu estava indo para lá sozinha, mas não sei se seria capaz de...
— Você agiu bem vindo me procurar, milady, pois precisará de ajuda. — Virando-se para o filho, ordenou: — Rápido, menino, vá chamar Daniel Page e Robert Abovebrook. Peça a Robert para avisar William Smith e Kenneth Gamel também.
— O que você pretende fazer, Gilbert?
— Ainda não tenho muita certeza, lady Elizabeth. Duvido de que George tenha mais do que três, ou quatro homens consigo. Quanto a mim, posso reunir tantos homens quantos forem necessários para libertar seu marido, o duque.
Lizzy levantou-se, dominada pela urgência. Qualquer atraso poderia ser fatal. Entretanto a pressa acabaria conduzindo ao fracasso.
— Você conhece o local para onde George levou meu marido?
— Não exatamente. Todavia estou certo de que seremos capazes de localizar o esconderijo.
— Será que conseguiremos fazer com que os comparsas de George saiam de lá? Somente assim teremos uma chance de libertar Darcy.
— Eu preferiria que não se envolvesse nisso, milady. Pode ser perigoso.
— Mas eu preciso participar! Não abandonarei meu marido! — Lizzy retrucou determinada. — Já matei um homem essa noite e não teria remorsos em dar cabo de George. Pretendo libertar Darcy e não me importo com os riscos que venha a correr.
Dali a instantes, dois homens entravam na sala.
— Daniel, Robert — Lucas os cumprimentou.
— Victor nos colocou a par da situação enquanto estávamos a caminho — Daniel esclareceu. — Os outros chegarão a qualquer momento.
— Ótimo — Gilbert respondeu satisfeito. — Agora, tudo de que temos necessidade é de um plano.
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