Noiva Indomável
1 Uma tarefa nada agradável
Notas iniciais
Hertfordshire, Inglaterra. Fins de abril, 1421
Maldito tolo! Maldito barão Bennet!
Fitzwilliam Darcy embrenhou-se na floresta, em direção ao lago afastando-se de seus homens.
Como Bennet se acreditava capaz de desafiar as ordens do rei? Quem, em nome dos céus, o tal barão pensava ser?
O rei o mandara vir buscar a enteada daquele idiota e era isso o que faria! Por nada deste mundo voltaria de mãos vazias e, além de tudo, o tempo era curto. Não importava quão arduamente Bennet se esforçasse para impedir que a garota partisse. Iria levá-la para Londres a qualquer custo.
O cavaleiro de elevada estatura evitou com destreza o galho caído de uma árvore, apesar da quase total escuridão, e continuou seu caminho rumo ao lago na esperança de desfrutar de alguns momentos de paz junto às águas escuras. Já era quase meia-noite e ainda não havia conseguido dormir, tão irritado estava com a teimosia de Thomas Bennet, um bêbado vil e preguiçoso. Edith, a esposa, era tão desprezível quanto o marido, com suas maneiras pegajosas e olhares insinuantes. Na verdade, precisava admitir que toda a situação o exasperava.
Pelo senhor! O que poderia o rei Henrique V desejar com a pequena Elizabeth Bennet?, Darcy se perguntou pela enésima vez. Afinal, Henrique retomara a poucos meses da França, onde acabara de se casar com Catherine de Valois.
Assim, que importância teria essa menina de Hertfordshire? E mais, ressentia-se do fato de ter sido ele o homem designado para ir atrás de uma criança naquela parte remota do país. Afinal, não fora sempre reconhecido por sua extrema competência, sua destreza nas batalhas e imunidade a todas as bobagens supérfluas da corte? Havia tantas tarefas mais importantes a serem realizadas pelos comandados de Henrique que incomodava-o ver seus próprios talentos desperdiçados deforma banal. Só esperava não tratar-se de uma daquelas brincadeiras de mau gosto, na juventude tão apreciada pelo rei.
Entretanto, desde que herdara o trono do pai, Henrique se tornara respeitável e muito mais responsável do que antes. Não, não se tratava de nenhuma brincadeira. O único consolo era saber que agora viajava na condição de emissário do rei.
Antes de levar a garota Elizabeth para Londres, pretendia visitar o castelo de Pemberley em Derbyshire e encontrar o primo, George Wickham, atual conde de Pemberley.
Também pretendia empregar todos os seus esforços para ver aquele usurpador deposto do lugar que ocupava. Darcy não tinha dúvidas de que George fora responsável pelas mortes violentas de seu pai, o conde Bartholomew Darcy, e de seu irmão mais velho, John.
Já haviam se passado vinte anos desde que ambos tinham sido assassinados covardemente. Vinte longos anos.
Tencionava, portanto, viajar até Pemberley com o objetivo de colher as evidências necessárias para expor a traição de George. O único impedimento à perfeita execução de seu plano era lady Elizabeth.
Por causa da menina, vira-se impedido de viajar diretamente de Londres para Pemberley. Agora seria obrigado a carregá-la de um lado para o outro nas visitas que programara fazer. Por causa dos rumores de que os escoceses poderiam tentar sequestra-la, o rei a quisera segura em suas mãos.
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Ainda estava um pouco frio para nadar, mas Lizzy Bennet mergulhou nas águas geladas do lago e lavou-se rapidamente, pensando no que a coitada da Bridget diria se soubesse de seu paradeiro.
Não que não entendesse as preocupações da velha dama de companhia, porém, aos vinte anos, já havia passado da idade de necessitar de uma babá, embora Brigdet parecesse acreditar no contrário.
A boa senhora, uma prima distante que também fora babá e dama de companhia de sua mãe, era a única aliada que possuía na luta constante contra a solidão e brutalidade dos últimos quinze anos, desde que sua mãe morrera. Contudo Bridget dava a impressão de alimentar um número cada vez maior de preocupações.
Agora, por exemplo, não se cansava de se lamuriar, incomodada com a presença dos soldados do rei, acampados nos campos que cercavam a mansão de seu padrasto.
A lua pálida se derramava sobre as árvores e uma névoa espessa brotava do chão, dando à floresta uma aparência sobrenatural. O lago era o lugar perfeito para ficar só e tentar elaborar um plano de fuga. Todavia tratava-se de uma situação delicada.
Não tinha a menor vontade de obedecer às ordens do rei e partir para Londres, porém sabia não ser possível desafiá-lo abertamente. Entretanto, se acontecesse de estar longe e nunca receber a intimação real, não poderia ser acusada de ignorar o mandato.
Infelizmente, tinha certeza de que os malditos soldados dariam umjeito de desentocá-la de qualquer esconderijo. Vira o líder deles a distância,um cavaleiro musculoso, enorme, de cabelos escuros e revoltos. Não lhe parecera um homem capaz de aceitar com facilidade sua recusa em acompanhá-lo.
Talvez conseguisse mantê-lo longe. Montava a cavalo tão bem quanto qualquer soldado e sua habilidade com arco e flecha excedia à de muitos. Não havia motivo pelo qual não pudesse se esconder na floresta e evitar os homens do rei durante semanas a fio.
Mas, levando em consideração o cavaleiro moreno, precisava admitir que talvez não fosse bem-sucedida. E quanto ao padrasto? Se ele a mandasse partir e o desobedecesse...
Lizzy estremeceu. A represália seria ainda mais rápida do que a do rei. Melhor não pensar agora em quais seriam as consequências.
Lentamente Lizzy voltou para uma das margens do lago. Tão logo saiu da água, soltou os longos cabelos, ruivos e encaracolados. Como adorava sentir o ar frio acariciar seu corpo nu. Lânguida, estendeu os braços para o alto, entregando-se ao prazer primitivo de se saber unida à natureza.
Quem sabe a solução para seu dilema lhe viesse à mente enquanto dormisse?
Melhor ainda, talvez William retomasse de Londres, tendo cumprido seus deveres. Afinal, era possível, aliás,remotamente possível, que ele chegasse a tempo de salvá-la do destino que Henrique V parecia querer lhe impingir. Sendo um dos cavaleiros do rei, William poderia ser capaz de intervir e conseguir favorecê-la.
Todavia, contrariando sua natureza otimista, Lizzy precisava reconhecer que pouquíssimas coisas estavam a seu favor e melhor seria não alimentar esperanças vãs. Mais sensato contar com os próprios instintos, e sua grande capacidade de improvisar, na tentativa de salvar-se.
Afinal, fora capaz de evitar inúmeras surras do padrasto valendo-se da habilidade de tomar atitudes inesperadas.
Perguntava-se o que o barão esperava vê-la fazer agora.
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