Noiva Indomável
20 Uma Pequena História
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
— Mas deveríamos ficar no castelo até amanhã. George não suspeitará de algo?
— Não se eu disser que você está tão abalada que exige ser levada embora daqui. Se ele suspeita de seu encontro com Caroline e não mencionarmos nada, aí sim, terá motivos para se preocupar.
— Compreendo. O conde acreditará que estou escondendo alguma coisa. E quanto ao anel de sinete? A quem pertence? E esse pergaminho, que significado terá?
— Vamos sair de Pemberley — Fitzwilliam falou, conduzindo-a pela passagem secreta. — Então lhe explicarei o que for possível.
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Enquanto seus homens preparavam os cavalos para a jornada, Darcy foi à procura de George. Preferia que fosse ele quem explicasse a razão da partida repentina e não Lizzy.
— Lady Elizabeth está desolada por causa da morte da prima e aflita para seguir viagem. Como se não bastasse, foi vítima de outro choque inesperado.
— E mesmo? — O olhar do conde media o outro, ameaçador.
— Aparentemente, existe um fantasma no castelo.
— Um fantasma?
— Sim. Parece que uma velha condessa apareceu no quarto de lady Elizabeth... — Darcy deixou a frase no ar, dando ao primo oportunidade de oferecer uma explicação qualquer.
— Ah, sim, aquele fantasma.
— Então você sabia que o castelo era assombrado?
Embora muita gente acreditasse em aparições, Darcy não partilhava dessa crença. Todavia, esperava ser capaz de convencer George que tanto ele quanto Lizzy acreditavam firmemente em almas penadas.
— Já ouvi falar da existência do fantasma, porém nunca vi a tal condessa com meus próprios olhos. Dizem que ela fala...
Darcy balançou a cabeça. Não queria que o primo soubesse do que se passara de fato.
— Lady Bennet me contou que o fantasma emitiu apenas sons incompreensíveis. Aterrorizantes. O acontecido a abalou consideravelmente e, portanto, não se sente capaz de passar mais nem uma noite em Pemberley.
— Talvez eu possa persuadi-la a ficar, oferecendo-lhe outro quarto.
— Receio que não. — Tudo o que Darcy queria era manter George o mais distante possível de Elizabeth. — Já discutimos o assunto e ela se mostra irredutível, determinada a partir.
— Então só me resta despedir-me de lady Bennet. Eu gostaria muito que você aceitasse uma escolta de Pemberley. As estradas não são muito seguras.
— Obrigado, porém não será preciso. Meus homens são bastante competentes.
— Mas eu insisto.
Darcy não tinha a menor intenção de ser vigiado pelos capangas de George durante a longa jornada até Londres. Em especial quando levava consigo o anel de sinete e o documento encontrado no quarto da torre.
— O rei, em pessoa, escolheu os homens que deveriam me acompanhar. Seria um insulto à Sua Majestade aumentar a escolta sem seu consentimento.
— Como quiser, sir Darcy. — A irritação de George era evidente. E a questão só não gerou maiores debates porque ambos foram interrompidos pela chegada de Lizzy.
— Minha lady — o conde exclamou, tomando-a pela mão. — Quase não a reconheci vestindo essas roupas de viagem.
— São adequadas para enfrentar a estrada, sir.
— Espero que o tal fantasma não a tenha afastado definitivamente de Pemberley, minha querida dama.
— Claro que não. Eu poderia até ter achado a experiência fascinante, se a situação fosse diferente. Mas com a morte recente de minha prima...
— Entendo. — O conde a levou até o pátio interno, onde Darcy os aguardava, já montado em Janus. — Permita-me lhe oferecer um pequeno presente, uma amostra de minha admiração irrestrita.
Logo um cavalariço surgia, trazendo pelas rédeas a égua que Elizabeth montara horas antes.
— Meu lorde, não posso aceitar presente tão valioso.
— Claro que sim. A égua a transportará com conforto e segurança. E espero que um dia a traga de volta a Pemberley. Muito em breve. Venha, deixe-me ajudá-la a...
No mesmo instante Darcy abaixou-se e, segurando Lizzy pela cintura, acomodou-a diante de si, na sela.
— Lady Bennet cavalgará comigo.
Notando que George pretendia argumentar, cortou-o imediatamente.
— Dessa forma iremos mais rápido. Todavia gostaria de agradecer o presente em nome do rei. Trata-se de um belo animal.
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Com as costas apoiadas no peito musculoso de Darcy, Lizzy fechou os olhos, inteiramente relaxada. A princípio pensara que teria preferido montara égua presenteada pelo conde, mas não tardara a mudar de ideia. Sentia-se bem dividindo a sela com Darcy, sentia-se segura com aqueles braços longos ao seu redor.
Algum dia experimentaria a mesma sensação de aconchego com William?
A tarde estava agradável e ensolarada, por isso Darcy cavalgava sem as luvas. Lizzy observava as mãos morenas, notando como transmitiam força e suavidade também.
— É uma longa história — ele começou. — Da qual só posso contar parte.
Era gostoso ouvir a voz profunda e intensa soando bem perto dos seus ouvidos, embalando-a docemente. Estava quase dormindo quando a saga envolvendo o misterioso anel de sinete a despertou.
— O pai de George era Clarence Wickham, irmão mais jovem de Bartholomew Wickham, conde de Pemberley. A esposa de Bartholomew chamava-se Margrethe, filha de Rudolph, príncipe alemão. Bartholomew e Margrethe tinham três filhos. — Surpreendia-o a facilidade com que falava de sua família com Elizabeth. Nunca antes contara essa história a quem quer que fosse. — O povo de Pemberley ainda tem Bartholomew Wickham em alta conta. Dizem ter sido um homem corajoso, justo, que fazia questão de se cercar de auxiliares honestos. A aldeia prosperava sob seu jugo. Os problemas eram sempre causados pelo irmão, Clarence, que parecia ter prazer em oprimir os camponeses de todas as formas possíveis. O anel que Caroline lhe deu pertencia a Bartholomew e fora roubado há mais de vinte anos. Na época, havia rumores de que Clarence, ou George, eram os responsáveis pelo furto, porém nada ficou provado.
— Por que o irmão do conde iria querer o anel? O que seria capaz de fazer com ele?
— Tenho minhas suspeitas de que Clarence e George usaram o brasão ilegalmente para implicar Bartholomew num crime capital. Traição.
— Por que você acha que Caroline me deu o anel? Que possível significado teria isso agora?
— O anel poderia ajudar a esclarecer os eventos que cercam a morte de Bartholomew e seus filhos.
— Como, exatamente?
— Ainda não sei — ele mentiu. — Mas pretendo descobrir quando chegarmos a Londres.
— Por que será que Caroline o aconselhou a procurar Tommy Tuttle, em Londres?
— Ela disse o quê?!
— Creio que me esqueci de mencionar esse detalhe, não é? Caroline afirmou que o tal de Tommy Tuttle poderia lhe explicar algumas coisas.
— Que mais que Caroline disse? Tente se lembrar de tudo, Lizzy.
— Havia algo sobre o herdeiro legítimo retornar a Pemberley para reclamar o título. Porém a mulher falava em charadas. Eu não conseguia entender nada.
Olhos cinzentos. Cabelos loiros escuro. Conde legítimo.
De repente as palavras da velha começaram a fazer mais sentido diante da história que acabara de ouvir.
Seria possível que Darcy fosse filho de Bartholomew Wickham? Mas ele não dissera que os filhos do antigo conde tinham morrido há vinte anos?
— Diga-me, Fitzwilliam, quais eram os nomes dos filhos de Bartholomew Wickham? — Elizabeth indagou, controlando a tensão da voz.
— Os mais velhos chamavam-se John e Martin. O mais novo, Fitzwilliam.
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