Noiva Indomável
8 Um pequeno acidente
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Por favor, minha lady. — O tom de Darcy soou debochado. — Nove de meus homens estão presentes e todos odiariam ouvi-la duvidar de suas habilidades de guerreiros.
— Nove? Você tem apenas nove homens?
— E o suficiente. Agora chega de conversa.
A maneira rude como Darcy se impunha encheu a de ressentimentos. Ele não tinha nenhum direito de lhe dar ordens.
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Mas cara feia não lhe metia medo.
Dali a algum tempo, ao penetrarem numa clareira, o pequeno cortejo parou. Os dois cavaleiros que haviam sido mandados à frente já tinham acendido uma fogueira e iniciado os preparativos para a noite.
Foi com grande alívio que Lizzy desmontou e ajudou Bridget a apear. A velha senhora estava quase morta de cansaço e embora tivesse o costume de queixar-se de suas dores e desconfortos, mostrava-se estranhamente silenciosa.
Juntas, as duas se retiraram para trás de uma fileira de árvores, onde atenderam às necessidades físicas. Nas proximidades, havia também um riacho límpido, onde puderam beber até se fartar.
— Oh, minha menina, seu olho continua inchado e o rosto sujo. Deixe-me lavá-lo.
— Não, Bridget. Prefiro continuar com a aparência imunda de um vagabundo enquanto estiver na companhia desses cavaleiros estúpidos do rei.
— Estúpidos você diz?
— Estúpidos, sim. Estúpidos e grosseiros.
— Ah, claro. Afinal, minha querida, você já esteve tantas vezes na França e está tão acostumada a frequentar a corte que saberia reconhece rum grosseirão a distância, não é mesmo?
— Não precisa ser irônica, velha amiga. Não é necessário muita experiência, nem muito cérebro, para conhecer esse homem.
— Quem? Sir Fitzwilliam? O líder?
— O que você sabe sobre ele?
— Bem, sir Clarence e sir Alfred contaram-me algumas coisas. Acho que para me manter acordada. Contaram-me algumas coisas.
— Por exemplo?
— Por exemplo — Bridget falou de má vontade, arqueando as costas —, Alfred disse que sir Fitzwilliam e o primo, sir Charles, apesar de não serem da mesma etnia são netos de um príncipe alemão.
— Bobagem.
— Embora Fitzwilliam tenha também sangue inglês — a velha serva continuou, ignorando o comentário de Lizzy. — Os dois têm sido de valor inestimável para o rei Henrique e diz-se que receberão títulos e propriedades quando retomarem a Londres.
— Posso bem imaginar quem iniciou esses rumores.
— Não é de sua natureza ser tão mordaz e desconfiada.
— E não é de sua natureza engolir tamanha asneira, Bridget. — Lizzy pôs-se a andar de volta para o acampamento. — Esses homens não passam de soldados comuns, que vieram até aqui com a incumbência de levar-me para Londres. O motivo de eu ser chamada à presença do rei é que é obscuro. O resto é perfeitamente claro.
A pobre dama de companhia limitou-se a balançar a cabeça.
— Também está claro que William jamais conseguirá me encontrar agora. E pretendo remediar a situação tão logo seja possível.
— Como você pretende fazer isso?
— Ainda não sei. Apenas me prometa que não se preocupará comigo.
A escuridão caiu lentamente sobre o acampamento. A refeição que haviam consumido resumira-se a carne seca e pão. Ao terminarem de comer, os homens se espalharam ao redor do fogo em busca de um lugar confortável para dormir.
Enrolado em sua capa, Darcy encostou-se no tronco de uma árvore e fechou os olhos. Podia ouvir o ressonar da criada e a jovem dama não se movia há séculos. Quando estava quase pegando no sono, percebeu um movimento do outro lado da fogueira.
Lady Elizabeth tinha se virado e embora permanecesse muito quieta, a posição em que se encontrava agora lhe parecia muito estranha e desconfortável para alguém que desejasse dormir. Com certeza a tola estava planejando algo. Devagar, com extremo cuidado para não perturbar ninguém, ela agachou-se. Então, rastejando, afastou-se do lugar onde todos dormiam. Ao chegar junto às árvores, ficou de pé e começou a correr.
Em questão de segundos Darcy levantou-se. Não conseguia acreditarem tamanha asneira.
Aonde aquela criatura estúpida pensava estar indo?
Fazendo sinal para que o vigia continuasse em seu posto, foi atrás de Elizabeth. Ao escutar um baque surdo e gemidos abafados, avançou com maior rapidez. Suas ordens consistiam em levar a jovem dama para Londres em segurança, entretanto ela insistia em querer dificultar a execução de um atarefa tão simples. A escuridão quase o impediu de enxergar a pequena vala em que Elizabeth caíra, embora soubesse estar muito próximo, pois a ouvia praguejar.
— Ai! — Apesar de seus esforços para levantar-se, o tornozelo direito recusava-se a sustentar o peso do corpo, fazendo-a cair outra vez. — Maldição! Por todos os santos, primeiro meu olho, depois minha boca e agora meu tornozelo também está arruinado. Nunca poderei...
— Deixe-me ver seu tornozelo — Darcy falou, ajoelhando-se ao lado dela. Vendo-a estremecer violentamente de susto, procurou tranquiliza-la. — Calma, sou apenas eu.
— Apenas você? Justamente a última pessoa que eu gostaria de ver.
Ele sorriu diante da explosão de sinceridade. Bem diferente das mulheres da corte. Porém Elizabeth Bennet era jovem. Acabaria aprendendo a se conter.
— É provável que seja apenas uma torção. E já começou a inchar.
Lizzy gemeu baixinho, desanimada.
— O que você esperava? — Notando a irritação na voz masculina, ela não disse nada ao ser pega no colo. De fato, até estranhou a maneira gentil como as mãos fortes a seguravam. Esperara ser jogada nos ombros largos feito um saco de batatas.
— Não se pode correr a uma velocidade suicida no meio dessas árvores, na mais completa escuridão, sem esperar desastre. Especialmente uma mulher e tão inexperiente quanto você.
— Oh, é mesmo? — ela retrucou irônica, recusando-se a se deixar intimidar.
A passos largos, Darcy retomou o caminho do acampamento. Sabia estar se exibindo, mostrando quão perfeitamente era capaz de mover-se na escuridão sem que algum acidente acontecesse.
Sentindo a pressão dos dedos delicados em suas costas, um pensamento bizarro lhe ocorreu. O perfume dela era tão fresco e sedutor quanto o havia sido pela manhã, quando cavalgaram juntos.
Atônito com a própria reação diante dessa criatura com o rosto sujo e inchado, quase a deixou cair.
— Calma Fitzwilliam! — Lizzy ordenou seca. — Não tenho a menor vontade de torcer o outro tornozelo.
— Como quiser minha lady. — Oh, sim, tratava-se de uma mulher confiante demais. Altiva demais.
Ninguém disse nada quando Fitzwilliam sentou-se junto à mesma árvore de antes, as costas maciças apoiadas no tronco largo, com lady Elizabeth em seu colo. Ela bem que tentou mover-se, porém as mãos que a seguravam pelos pulsos a prendiam como algemas de ferro.
— Você passará o resto da noite ao meu lado.
— Não é possível que esteja falando sério — Lizzy murmurou surpresa, tendo o cuidado de manter a voz baixa. — É algo inteiramente impróprio.
— Não menos impróprio do que deixá-la correr por aí até cair num buraco e se matar.
Passando a capa ao redor de ambos, Darcy fez com que Lizzy apoiasse a cabeça em seu peito e acomodou-a entre as pernas abertas. Aquele corpo delgado era muito mais macio do que imaginara.
Talvez a jovem lady fosse mesmo adulta, como dissera, não uma adolescente imatura.
— Pelos céus, não vou fitar aqui! — Ela tentou levantar-se, mas Darcy puxou-a pela cintura até que estivessem face a face outra vez.
— Ficará sim.
Com deliberada atenção, analisou o rosto ferido e sujo, sentindo seios firmes pressionarem-lhe o peito. Temendo ser traído pelos impulsos da natureza masculina, obrigou-se a se concentrar nos detalhes daquele temperamento obstinado e desagradável.
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