Noiva Indomável
39 Um Pedido Importante
Notas iniciais

Eles estavam cavalgando há horas quando Darcy finalmente conduziu Janus para fora da estrada. Depois de ajudar Lizzy a descer, tomou-a pela mão e a conduziu por um caminho estreito, cercado de árvores. Então puseram-se a subir uma colina de densa vegetação, o barulho de água caindo cada vez mais próximo.
— Onde estamos? — ela perguntou, imaginando se iria subir até o topo.
— Em Pemberley. Quero lhe mostrar algo.
Agradava-a que o marido quisesse levá-la a um lugar especial, pois o gesto simples revelava consideração.
Embora ele nunca houvesse lhe dito uma única palavra amorosa, percebia que começava a ser aceita. De fato, quando se deitavam juntos, se o prazer de Darcy era tão grande quanto o seu, estava certa de que lhe inspirava pelo menos sentimentos ternos. Assim, cultivava a esperança de que essa relação ainda poderia ser satisfatória.
— É lindo! — Lizzy exclamou ao chegarem ao topo da colina. De lá, escondidos no meio de árvores frondosas, avistavam uma cachoeira a uns dez metros adiante e, ao norte, o castelo de Pemberley.
— Minha mãe adorava esse lugar — Darcy falou com uma pontada de melancolia. — Meus irmãos, meu pai e eu costumávamos vir aqui. A última vez em que estivemos juntos, nesse mesmo local, foi logo antes de partirmos para Bremen. Queríamos olhar Pemberley antes de nos pormos a caminho. Esta é a primeira vez que volto aqui desde que era criança. — Por um longo instante, ele ficou em silêncio, considerando o que estava para dizer. — Ouça Elizabeth, até meu primo George ser encontrado, não terei sossego. Você deve ter cuidado. Sempre sair acompanhada.
Embora a preocupação do marido a sensibilizasse, Lizzy preferia não se tornar uma carga, uma fonte de ansiedade extra.
— Você acha mesmo que ele me faria mal?
— Sem dúvida — Darcy tomou-a nos braços, os olhos cinzentos fitando-a atentamente. — Não se pode confiar em George. Você entende? Não arriscarei sua segurança.
— Mas até agora sempre consegui tomar conta de mim mesma e não...
— Você não se dá conta da extensão do perigo. Não o conhece como eu o conheço.
Percebendo a inquietação de Darcy e a determinação de convencê-la a cooperar, concordou.
— Está bem. Diga-me o que você quer que eu faça.
Uma enorme sensação de alívio inundou-o.
John Philips estava certo quando dissera haver algo de doentio na personalidade de George. Lembrava-se de incidentes acontecidos durante a infância de ambos que comprovara o fato. Tomando a esposa pela mão, Darcy a fez sentar-se à sombra de uma árvore.
— Em primeiro lugar, nunca subestime George. Trata-se de um homem traiçoeiro, violento, apesar da impressão contrária que pode ter lhe causado quando você o conheceu.
— Pois ele me pareceu frio e insensível.
— Duas de suas características menos perigosas. Torno a repetir, esposa, não sei onde meu primo está escondido, embora seja possível que Hugh já o tenha encontrado agora. Senão, quero-a atenta, vigilante. Um de meus homens a acompanhará sempre que desejar sair do castelo. Não vá cavalgar sozinha, ou tente ir à aldeia desacompanhada, informe a alguém de seu paradeiro se pretender se ausentar.
— Mas Darcy... — Lizzy protestou um tanto hesitante, em pânico diante da ideia de que o marido planejava deixar Pemberley sem levá-la consigo. — Onde você estará?
— Eu? — O sorriso dele, belo e sugestivo, a fez prender a respiração.
— Sim. Não tenho o menor desejo de permanecer em Pemberley se você não... isto é...
— Você acha mesmo que eu poderia abandoná-la outra vez? — ele indagou, fitando-a atentamente.
— Outra vez?
— Deixei-a sozinha em Londres.
— Sim, é verdade. — Lembrava-se de como se sentira desolada em Westminster, depois da partida de Darcy. Lembrava-se de haver descoberto, então, que o homem a quem queria não era William e sim o cavaleiro alto, de cabelos negros e olhos cinzentos. O cavaleiro que a rejeitara.
Acariciando os cabelos da mulher, Darcy puxou-a para si, beijando-a de leve na testa. Lizzy era tão imprevisível, tão diferente de tudo o que sempre imaginara desejar.
— Seus cabelos... Você nunca os deixou descobertos até chegarmos a Londres.
— Eu tinha medo — ela confessou simplesmente. — Pensei que acabaria me reconhecendo como a mulher do lago de Meryton. Afinal, quando estávamos no castelo de Maguire, e eu era apenas eu, você deixou claro que não me queria.
— Apenas porque sabia não ter nenhum direito de tomá-la para mim. Afinal, estava comprometida.
— Mas eu pensei...
— Pois pensou errado. A verdade era que eu não suportava a ideia de entregá-la a William Collins quando chegássemos a Londres. Achei que seria melhor fazê-la se zangar comigo, manter distância, me agarrar à realidade sem alimentar sonhos impossíveis.
Num impulso, Lizzy levantou-se, cruzando os braços sobre o peito. O bom senso mandava-lhe ter cautela, entretanto o coração ansiava acreditar no que acabara de ouvir. Queria crer que o marido colocara distância entre os dois apenas para se poupar da dor de vê-la nos braços de outro.
E quanto a tal da Annelise?
Darcy teria hesitado porque alimentava sentimentos ternos em relação à ex-noiva? Por um longo instante, ela manteve-se em silêncio, os olhos fixos na bela cascata de água. Deveria contar a Darcy como se desesperara em Westminster, temendo nunca mais tomar a vê-lo? Como sua vida lhe parecera tão vazia e sem sentido?
— Senti sua falta terrivelmente — ela confessou afinal, a voz apenas um murmúrio.
— Eu não fazia ideia. Pensei que você e William...
— William foi um enorme erro de minha parte. Não tardei a perceber que ele era bem diferente do que eu havia idealizado durante aqueles anos todos.
— O que você está dizendo, esposa? Por acaso não se arrepende de haver aberto mão do noivo de infância?
— De maneira alguma. E disse isso mesmo a William, embora creia que o tenha insultado. De fato, quando conversamos sobre esse assunto, eu estava bastante abalada, pois, na noite anterior, o conde de Markham havia me contado a verdade sobre minhas origens. Por obra do acaso, encontrei-me com William no jardim do palácio, mas não tive coragem de lhe falar sobre Meghan e o rei. Assim, contei sobre meu noivado com você, ou melhor, com o duque de Longthon.
O sol estava começando a se pôr e Lizzy fitou o castelo de Pemberley, a construção imponente envolvida num halo de luz avermelhada. Não tinha ideia de como Darcy aceitaria a revelação que acabara de lhe fazer. Chorara por causa de sua origem bastarda, não porque ia se casar com ele.
— Falei a William ter sempre imaginado que, um dia, iríamos nos casar. Claro que o coitado se surpreendeu quando afirmei que ele seria um péssimo marido.
— É verdade — Darcy respondeu, aproximando-se da mulher, a voz suave e sedutora. — E quanto a mim? Que tipo de marido você acha que serei?
Lizzy mergulhou nos olhos cinzentos, desejando encontrar uma resposta fácil. Não sabia como um cavaleiro, do porte e da força de Darcy, reagiria se lhe abrisse o coração. Como dizer-lhe que o considerava afetuoso e gentil, terno e atencioso, apesar de ser obrigado a suportar uma esposa que não escolhera?
Devagar, retirou um pequeno embrulho que trazia guardado no bolso da saia desde a partida de Westminster, à espera do momento certo de entregá-lo. Queria que o marido compreendesse ser essa sua resposta.
— Mandei que fosse feito para você, em Londres.
Darcy desembrulhou o presente e, ao erguer a tampa da caixinha, deparou-se com um anel de ouro.
Lizzy desejava que esse se tornasse o brasão do duque de Longthon. Dentro de um pequeno círculo, a cabeça de um lobo, em cujo peito fora gravada uma rosa. Abaixo do círculo, dois rubis de tamanho médio.
Ao erguer os olhos para fitá-la, a expressão de Darcy revelava a mais profunda compreensão. Ficando na ponta dos pés, Lizzy o beijou na boca, seduzindo-o, incitando-o a corresponder à carícia com igual ardor. E quando os dois se abraçaram, já não se sabia onde começava um e terminava o outro.
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