Noiva Indomável
35 Jornada Para Pemberley
Notas iniciais
Fins de junho, 1421
O ferimento na coxa de Darcy já não era nada além de uma cicatriz avermelhada, porém a ferida no peito ainda exigia cuidados e precisava ser enfaixada, especialmente durante longas cavalgadas. Um pequeno exército os acompanhava na jornada até Pemberley. Nenhum dos homens leais a Darcy teria sossego enquanto George estivesse solto.
A princípio Lizzy duvidara de que o marido fosse querer levá-la consigo, depois de deixar claro que preferia manter-se distante. Assim, espantara-se quando, na véspera da viagem, Darcy lhe perguntara se já havia arrumado suas coisas. Também a mandara comprar o que necessitasse nas lojas de Londres, uma vez que em Derbyshire não encontraria tais luxos.
Dominada por sentimentos conflitantes, Lizzy se preparara para deixar Westminster. Não havia nada que quisesse das lojas de Londres, pois William já a tinha ajudado a encontrar um artesão capaz de criar o único item que desejava comprar: seu presente de casamento para Darcy. E enquanto o vira se debater, lutando contra a febre e a infecção, quase chegara a acreditar que jamais teria oportunidade de lhe entregar o precioso embrulho.
No dia da partida, ficou claro que o marido caminhava com facilidade, sem mancar, contudo mostrava algum desconforto ao mover o torso. Lizzy mandara selar a égua que trouxera de Pemberley, porém não teve chance de montá-la.
— Charles irá erguê-la, Lizzy — Darcy falou, já sobre o garanhão enorme. — Você cavalgará comigo.
— Mas seu ferimento...
— Não me incomoda o bastante para ser obrigado a diminuir o ritmo da marcha por causa de sua bela égua. — O tom de voz não era dos mais gentis. — A jornada até Pemberley levará seis dias e não pretendo sofrer nenhum atraso.
Assim, Lizzy acomodou-se entre as pernas musculosas e partiram.
Apesar de o marido quase não lhe dirigir a palavra durante todo o dia, a proximidade do corpo viril a confortava. Ansiava lhe dizer tanta coisa, no entanto não sabia como transpor o abismo que fora cavado entre os dois.
Assim, permaneceu em silêncio durante quilômetros e quilômetros, tentando se convencer de que não o desagradava tanto quanto imaginava. Talvez, com o tempo, Darcy a aceitasse. Podia elaborar um piano para atraí-lo...
A proximidade da esposa o agradava intensamente. O perfume dela, como sempre, o fazia lembrar-se de flores frescas. Lizzy era tão doce e macia. Sentia-se grato por Henrique não ter permitido que o acompanhasse a Paris.
Fora antes de casar-se que levara essa ideia ao rei, não querendo ficar junto de uma mulher que o rejeitava. Agora, entretanto, se sabia incapaz de suportar a distância. Elizabeth Bennet se tornaria sua esposa de fato tão logo chegassem a Pemberley. E era melhor que ela aceitasse o fato.
O tempo se manteve bom, o que lhespermitiu acampar ao ar livre, sem erguer tendas para protegê-los em caso de chuva, ou de vento forte. Lizzy sempre adormecia olhando para o céu estrelado, imaginando maneiras de fazer o marido notá-la. Darcy, porém, sempre dava um jeito de deitar-se apenas quando ela já havia pegado no sono e, ao acordar, tampouco o encontrava por perto. Estava claro que se tratava de uma atitude intencional.
Ao anoitecer do quarto dia de viagem, Lizzy sentia-se frustrada e desencorajada. Percebia uma aspereza no marido difícil de ser vencida. Não consegui a entender por que ele acatara a ordem do rei e a aceitara como esposa, sendo um homem que encontrava dificuldades em se curvar a vontades alheias.
Por fim, pararam numa clareira. Bastou notar a expressão abatida de Darcy para saber que o ferimento no peito o incomodava.
Tão logo desmontaram, Lizzy apanhou um balde de água fresca no riacho e o pacote de ervas medicinais que sempre carregava consigo, algumas que lhe tinham sido dadas por lorde Blackmore.
— Deixe-me trocar o curativo do machucado enquanto ainda temos luz suficiente, marido.
— Esse curativo está bom — Darcy respondeu, receando tirar a túnica e enfrentar o toque daquelas mãos delicadas. Em Westminster, a esposa tratara de seus ferimentos cuidadosamente, continuando a fazê-lo durante todos os dias da viagem. Porém, quanto mais ela o tocava, mais a desejava. E agora não era o momento, nem o lugar, de mostrar-lhe a quem pertencia.
— Esse curativo não serve — Lizzy retrucou firme. — Você está sentindo dor e eu gostaria de saber por quê.
Se estivesse de melhor humor, Darcy teria considerado cômico o modo como a esposa, quase a metade de seu tamanho, tentava arrastá-lo para perto do riacho puxando-o pelo braço.
Cedendo aos apelos afinal, ele se permitiu conduzir até um local isolado do resto do acampamento, onde havia um resto de claridade. Depois de obrigá-lo a sentar-se num tronco caído, Lizzy o mandou tirar a túnica enquanto preparava um bálsamo, misturando dois tipos de ervas diferentes.
— Você esteve sangrando — ela murmurou ansiosa, notando a mancha vermelha que cobria parte da bandagem. — Eu não deveria tê-lo permitido sair de Westminster tão cedo.
— Você nunca deveria ter permitido? — A voz profunda soou levemente divertida, embora Lizzy não percebesse devido à extrema preocupação com o estado de saúde do marido.
— Exatamente, Alteza. — Depressa, ela limpou o machucado, avaliando a extensão do estrago.
Felizmente apenas uma pequena área sangrara e a ferida se mantinha fechada. Aliviada, aplicou o bálsamo que deveria auxiliar na completa cicatrização.
— Uma vez que já chegamos tão longe, acho que não vale a pena voltarmos para Londres e...
Darcy riu, algo que não o via fazer há semanas. Embora o som agradável lhe aquecesse a alma, não a agradava ser motivo de chacota. É verdade que, por um capricho do rei, os dois estavam agora unidos pelo matrimônio, todavia não se sentia na obrigação de transformar-se em objeto de risos. Aliás, já estava sendo bastante difícil conviver com o conhecimento de que o marido a aceitara porque se vira obrigado, quando gostava de outra mulher.
— Creio que não tardaremos a alcançar Pemberley, portanto seria tolice...
— Sempre pensei que você tinha talento para dar ordens como uma duquesa — ele falou sorrindo.
— Não precisa rir de mim.
— Não estou rindo de você.
— Sou uma duquesa, caso tenha se esquecido disso — Lizzy respondeu baixinho, os olhos se enchendo de lágrimas.
Oh, como o incomodava vê-la sofrer tamanha agonia, Darcy pensou, o sorriso se apagando em seus lábios. Não a culpava por sentir-se assim, desesperada. Afinal, havia se casado com um homem a quem não queria e estava agora sendo arrastada para um velho e sombrio castelo, onde deveria passar o resto da vida ao lado de alguém a quem jamais teria escolhido para marido.
Maldito Henrique! Era evidente que Lizzy detestava a ideia de ser sua mulher. O rei deveria ter, pelo menos, consultado a irmã sobre o assunto antes de tomar uma decisão definitiva. Apesar de não saber o que fazer para tornar as coisas mais fáceis para Lizzy, Darcy se sentia na obrigação de tentar.
— Sim, você é uma duquesa. Mas antes, uma princesa.
— Uma princesa ilegítima, bastarda — ela respondeu, afastando-se do marido e dando-lhe as costas.
Ilegítima? Bastarda? Que importância dava ele à identidade dos pais da esposa? Nenhuma.
Todavia a questão parecia perturbá-la terrivelmente, por isso os olhos marejados de lágrimas.
Seria esse o motivo do comportamento arredio? Vergonha pelo fato de os pais não haverem se casado? Impossível.
A suposição era ridícula.
Movendo-se depressa, Darcy levantou-se e alcançou-a. Segurando-a pelo braço, obrigou-a a fitá-lo. Então, depois de hesitar apenas um instante, beijou-a de leve na boca antes de secar-lhe as lágrimas com as pontas dos dedos.
— O problema sou eu, esposa?
Vendo a incerteza estampada nos olhos cinzentos, Lizzy não soube como analisá-la. Esperara sarcasmo do marido, ou até completa rejeição. Mas não dúvidas, beijos ternos, ou carícias suaves.
— Não. Não você. Nunca você.
Foi o bastante para levá-lo à loucura. Avidamente, Darcy se apossou dos lábios carnudos como se quisesse devorá-la. Lizzy se entregou ao beijo apaixonado com igual ardor, desejando consumir-se no fogo que emanava do corpo musculoso.
Ele a queria mais do que nunca, porém não podia possuí-la ali, não no meio de seus homens, num acampamento de beira de estrada. Iria torná-la sua esposa quando chegassem ao castelo, na cama digna de uma duquesa.
— Você sabe o quanto é desejável, mulher? Mas nossa primeira vez juntos deve ser especial...
Embora relutante, Darcy se desvencilhou dos braços femininos, surpreso ao ver um desejo feroz estampado nos olhos verdes. Lizzy o queria também!
Porém ela era muito inexperiente para entender por que hesitava.
— Elizabeth, devo possuí-la de maneira apropriada — ele falou gentil. — Não aqui, não com meus homens a nossa volta.
Ela abaixou o olhar, embaraçada com a própria ousadia. O que o marido iria pensar a seu respeito? Mas nunca tinham lhe explicado como uma esposa deveria agir.
— Esperaremos até chegarmos a Pemberley. Somente então a farei minha mulher.
Havia gentileza embutida em cada uma das palavras de Darcy e foi isso que a fez compreender a razão do comportamento masculino. Ele não a estava rejeitando, apenas mostrando-lhe respeito e consideração.
Sensibilizada, Lizzy ergueu-se na ponta dos pés e beijou-o no rosto, murmurando:
— Creio que esperei toda minha vida por você, meu lorde. Dois dias a mais não farão diferença.
Quando, finalmente, Darcy deitou-se para dormir horas depois, ele estava certo de que aqueles seriam os dois dias mais compridos que já enfrentara.
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