Noiva Indomável
30 Confusão Das Grandes
Notas iniciais
— Alteza. — A voz de Markham atraiu a atenção de Darcy, que estivera conversando com Charles até então. — Deixe-me ser o primeiro a parabenizá-lo. Sua noiva parece ser uma mulher de personalidade marcante, além de muito bonita.
— Também quero lhe dar os parabéns, Alteza — acrescentou lorde Maguire, na companhia do filho e da nora.
— Quando será o casamento?
— Sua Majestade deseja que a cerimônia se realize dentro de três dias.
Ouvindo o movimento repentino ao seu redor, Darcy soube que o rei havia acabado de entrar no salão. Porém, ao virar-se para contemplar o casal real, teve olhos apenas para Lizzy, à esquerda de Henrique.
Ela estava simplesmente maravilhosa, vestida de branco e dourado, os cabelos ruivos, presos numa trança, evidenciando a delicadeza do rosto suave. Sim, ela era tão bela quanto se lembrava e doía-lhe pensar que a tinha perdido para William Collins.
Recordava-se das longas horas em que haviam dividido a sela de Janus, o corpo delgado colado ao seu, a pele macia, os lábios doces e inebriantes. Lizzy era tudo o que desejara no mundo, tudo o que sonhara. Talvez o rei aceitasse...
De súbito, a verdade dos fatos o atingiu, deixando-o zonzo por um momento. Lizzy ocupava a posição de honra, à esquerda de Henrique.
Pelos céus! Ela era a irmã do rei, a Elizabeth com quem deveria se casar.
Entretanto a vira chorando ainda naquela manhã, obviamente depois de receber ordens para se casar com ele, em vez de com o amado William. O rei fez sinal para que Darcy se aproximasse.
Vendo-o, Lizzy sentiu o coração disparar. Darcy era muito mais do que William, algum dia, chegaria a ser. Ele vestia uma túnica azul celeste, o que ressaltava o negro dos cabelos e o cinzento dos olhos. Se ao menos... Não, impossível.
Ainda que não estivesse noiva do duque, o que Darcy iria querer com a filha bastarda de Henrique IV?
Sabendo que ele estava a ponto de descobrir sua origem vergonhosa, Lizzy teve vontade de fugir dali e se esconder. Entretanto os cavaleiros mais próximos já o estavam cumprimentando formalmente, chamando-o de “Alteza”.
Estranho, pois Darcy era conde e apenas os duques mereciam essa forma de tratamento.
Céus! Seria Darcy um duque? Mas como? Por que tudo ao seu redor parecia girar de repente? Por que a dificuldade de respirar?
Lizzy mal ouviu o rei pronunciar a palavra Longthon antes e desmaiar.
***
Lizzy recuperou-se do desmaio minutos depois e descobriu-se a sós com Darcy, numa saleta ao lado do local onde acontecia o banquete.
Queria atirar os braços ao redor do pescoço forte, mas a expressão do rosto viril a impedia. Estava claro que ele já soubera de sua origem ilegítima e que o desagradava a perspectiva de ter uma esposa bastarda. Não podia culpá-lo por fitá-la daquela maneira hostil.
— Não espere que eu vá acreditar que esse desmaio foi real. — Os olhos cinzentos brilhavam de raiva. — Lembre-se de que já a vi enfrentar circunstâncias piores.
Estaria Darcy falando sério? Poderia pensar que o choque não passara de encenação? Ela, que nunca antes desmaiara na vida? Não, não iria permitir-lhe tratá-la como a bastarda que de fato era.
— Não existem circunstâncias piores do que essa! — exclamou, vibrante de raiva.
— Concordo. Mas estamos presos um ao outro por vontade expressado rei. E pretendo levar essa história até o fim.
— Verdade? — Lizzy estava furiosa agora. Como ousava ele comparar o casamento a uma prisão?
Ainda zonza, levantou-se, determinada a fugir dali, porém suas pernas recusavam-se a sustentá-la. Assim, tomou a sentar-se.
— Nem pense em fugir. — Estaria ela se imaginando resgatada por William Collins? — Voltaremos para o banquete tão logo você seja capaz de andar. Juntos.
— Voltarei se e quando me sentir pronta. E não na sua companhia.
— Mas sou seu noivo, embora o fato possa lhe causar asco.
Apenas os soldados da guarda pessoal de Henrique haviam percebido o desmaio de Elizabeth. Quando vira o sangue desaparecer do rosto delicado, Darcy se movera rapidamente, amparando-a antes que caísse e carregando-a para fora do salão. Primeiro ficara atônito ao presenciar a reação de Lizzy, depois furioso diante da rejeição experimentada.
Casar-se com um duque não era motivo de desonra para mulher alguma, todavia Lizzy dava a impressão de preferir William.
Bem, de nada adiantariam seus ataques de nervos, pois Elizabeth Bennet se tornaria duquesa de Longthon. E muito em breve. O rei ordenara que a cerimônia fosse realizada dentro de três dias.
***
— Você está mais sombrio do que nunca — Charles disse ao primo, na noite que antecedia ao casamento. — Será que prefere Annegret tanto assim? — Na verdade, ele sabia muito bem que Darcy não sentia nenhum afeto por Annegret e queria apenas provocá-lo, obrigá-lo a romper o silêncio em que se fechara desde o banquete.
Em sua opinião, Darcy deveria ter-se sentido aliviado ao descobrir a identidade da noiva, não irritado. De posse, novamente, de Pemberley e casado com Elizabeth Bennet, do quê iria se queixar?
— Annegret...
— Sei que ela seria uma esposa mais dócil.
— Pelos céus, Charles! Elizabeth prefere outro homem.
— Absurdo.
— Você a viu com William Collins, depois de ter sido informada que deveria se casar comigo.
— Você acredita que ela prefere William?
— Não. Tenho certeza que sim.
— Então ela escolheria um cavaleiro qualquer em vez de você, um duque? — Charles brincou, finalmente começando a compreender que era orgulho ferido o que corroia o primo. Estava claro que Darcy a queria. — Lizzy não é nenhuma tola.
— Não.
— Pois então é preciso convencê-la.
— Convencê-la? — Nunca antes tivera que convencer mulher alguma. Ou ela o desejava, ou não. Simples assim.
— Sim, convencê-la de que o rei escolheu o marido certo para a irmã. Demonstrar sua superioridade. Ainda não lhe ocorrera que seria capaz de conquista-la. Afinal, Lizzy estivera apaixonada por William desde criança. Como fazer para mudar isso?
Não que tivesse importância, pois sempre planejara para si um casamento de conveniência, sem envolvimento afetivo. Se Lizzy pretendia manter-se distante, faria o mesmo. Pois se ficasse perto, tinha certeza de que acabaria perdido.
***
Ela jurou não tornar a derramar uma lágrima. Todavia, enquanto Jane a ajudava a vestir-se para o casamento, após o banho, quase não foi capaz de conter o pranto. O dia, bonito e ensolarado, estava perfeito para a cerimônia, entretanto as circunstâncias não podiam ser mais dolorosas. Darcy era um noivo relutante.
Lizzy olhou-se no espelho enquanto Meg terminava de abotoar a fileira de botõezinhos às suas costas. O vestido escolhido para o casamento era num tom marfim, com corpete justo, decote acentuado e mangas compridas. Um cinto de ouro, fino e ricamente trabalhado, caía-lhe sobre os quadris, o único complemento necessário à beleza do tecido.
Sem dúvida, a roupa mais bonita que jamais possuíra. Apesar de as duas criadas servirem-na com dedicação, Lizzy desejou que Bridget pudesse estar ao seu lado naquele momento. Nunca sonhara estar tão só num dia como esse, sem amigos e a ponto de se casar com um homem que não á queria.
De repente, uma batida na porta à fez desviar o curso dos pensamentos. Um lacaio trazia nas mãos uma pequena caixa de veludo.
— Sua Majestade lhe envia esse presente, minha lady. Espera vê-la usando em suas núpcias.
— O rei estará presente? — Lizzy perguntou.
— Sim. O rei e a rainha estarão presentes na abadia. E Sua Majestade também planeja comparecer à festa logo após a cerimônia.
— Por favor, leve meus agradecimentos ao rei pelo presente.
Tão logo o homem saiu do quarto, Lizzy abriu a caixa de veludo, contendo um belo colar de ouro. Quando Meg o colocou em seu pescoço, teve vontade de chorar.
Teria preferido muito mais uma simples lembrança da parte do noivo, em vez dessa jóia maravilhosa, vinda do irmão.
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