Noiva Em Fuga
34 Especial 5 - Simplesmente perfeito
Notas iniciais
Se antes Izaya já achava Shizuo imprevisível, agora esse fato estava definitivamente comprovado. Estava tão surpreso que demorou alguns segundos para reagir e a sua primeira reação foi rir. Rir muito.
– Pare de rir, sua Hiena!
O rosnado irritado do loiro não poria medo em ninguém naquele momento, não quando ele estava todo coberto por algum tipo de creme rosa e tinha as bochechas um pouco coradas, aparentemente envergonhado por ter sido pego em flagrante.
~*~
Izaya soube que havia algo errado assim que acordou e não encontrou Shizuo ao seu lado na cama. Não que o loiro tivesse por hábito acordar tarde, nenhum dos dois tinha, mas ainda era cedo e Shizuo estava de folga naquele dia. Afastou as cobertas, revelando o corpo nu e cheio de marcas por conta das intensas “atividades” que haviam feito antes de dormirem e foi para o banheiro, precisava urgentemente de um longo e relaxante banho quente em sua banheira... que para a sua surpresa estava com água, ainda morna, até a metade, inúmeras pétalas de rosas e pelo perfume que preenchia todo o banheiro, haviam sais de lavanda e jasmim. Terminou de encher a banheira com água quente e entrou nela, aproveitando cada minuto naquela maravilha para relaxar até que a água ficasse fria.
Vestiu uma calça cinza escura de moletom e uma blusa branca de mangas compridas – de Shizuo – e saiu do quarto. Provavelmente Shizuo estaria jogado no sofá assistindo desenhos animados na tv enquanto o esperava para tomarem café da manhã.
Mas o loiro não estava no sofá.
Nem na cozinha ou em parte alguma do apartamento, mas havia deixado a mesa posta com um caprichado desjejum: bolo de laranja, pãezinhos de coco, torradas, geléia de morango e de pêssego, manteiga, salada de frutas, iogurte, suco de maçã, leite e café. E havia um bilhete recostado na salada de frutas.
“Vou passar aí às quatro. Esteja pronto, nós vamos sair.”
Izaya arqueou uma sobrancelha. “Nós vamos sair.” Como assim? Shizuo por acaso estava pretendendo ter um encontro?
Começou a rir ante aquela possibilidade. Se fosse mesmo isso, o loiro havia conseguido novamente surpreendê-lo. Tomou seu café da manhã com calma, arrumou a cozinha, conferiu seus e-mails e chamadas no celular, entrou no chat, arrumou o quarto, leu um pouco, preparou algo para comer e depois se sentou no sofá para assistir um pouco de tv. Fez tudo isso e ainda não havia passado de uma e quinze da tarde. Estava ansioso e simplesmente não tinha mais nada para fazer pelas próximas três horas.
Izaya não gostava de esperar, talvez, se fosse necessário poderia esperar sem problemas por cerca de quinze minutos, meia hora no máximo, mas três horas? Sem chance!
Desligou a tv e se levantou do sofá, indo tomar um novo banho, dessa vez de chuveiro e bem mais rápido do que o que havia tomado pela manhã. Levou quase meia hora para escolher as roupas que vestiria: uma calça jeans negra, camisa azul-marinho de mangas compridas e ao invés de seu casaco favorito, optou por uma jaqueta, deixando o visual mais casual e despojado. Saiu do próprio apartamento por volta das duas da tarde e pegou um táxi até o de Shizuo; normalmente iria andando, mas estava ansioso e se fosse a pé levaria o triplo do tempo que se fosse em um carro.
Entrar sem ser percebido pelo loiro foi fácil, não que estivesse tentando ser sorrateiro, mas o dono do apartamento parecia ocupado demais sujando a cozinha inteira com algum tipo de creme rosa. Ficou surpreso com aquela cena e sem reação por alguns segundos antes de começar a rir, rir muito, finalmente chamando a atenção do loiro.
– Pare de rir, sua hiena! – rosnou, mais surpreso e constrangido do que irritado. Pegou um pano de prato qualquer e limpou um pouco o rosto, tirando o excesso do creme rosado – O que está fazendo aqui? – franziu as sobrancelhas – Ainda não são quatro horas.
– Eu não tinha nada para fazer. – respondeu ainda com ar de riso – E você, o que está fazendo? Decidiu ‘redecorar’ a cozinha? O rosa caiu muito bem. – riu mais um pouco antes de adentrar a cozinha – O que está aprontando, Shizu-chan?
O loiro bufou irritado, queria que fosse surpresa, mas Izaya vivia xeretando onde não devia e provavelmente e com certeza já havia juntado as peças e só estava perguntando para provocá-lo.
– Como se você não soubesse. – disse de forma mal criada.
– Se eu soubesse não teria por que estar perguntando. – retrucou arqueando uma sobrancelha e sorrindo divertido.
Shizuo estreitou os olhos, não acreditando nem um pouco no moreno. Mas não faria diferença de qualquer forma.
– Eu estava tentando fazer um bolo. – confessou.
– Por quê? – perguntou, genuinamente confuso – Você sempre compra pronto ou então pede que eu o faça.
– Seria mais especial se eu fizesse. – disse baixo, tentando ignorar o rubor que ameaçava tomar conta de suas bochechas.
Shizuo sabia muito bem cozinhar, sua mãe havia se certificado de não criar dois inúteis como filhos, mas quando o assunto eram seus preciosos doces a coisa mudava de figura, nunca conseguiu fazer um mísero bolo ficar gostoso, de uma forma ou de outra acabava solando, ou então não crescia, às vezes queimava ou ficava um pouco cru, como no caso do bolo que tentou fazer para o moreno e havia acabado de jogar no lixo quando decidiu seguir uma outra receita que levava morangos e iogurte, por isso a coloração rosada... Ele definitivamente era uma negação quando o assunto eram doces.
– Afinal, do que você está falando, Shizu-chan? – o moreno estava confuso, Shizuo não estava falando coisa com coisa.
A confusão de Izaya deixou Shizuo confuso.
– Você realmente não sabe?
– Não.
– Eu não acredito... – o informante ia retrucar, mas o loiro continuou — ... que você se esqueceu do próprio aniversário! – concluiu, num misto de diversão e surpresa.
Izaya arqueou as sobrancelhas e desviou o olhar rapidamente para o calendário pendurado ao lado da geladeira e constatou que Shizuo estava certo, havia se esquecido do próprio aniversário. Agora entendia o porquê do banho preparado, o café da manhã caprichado, a tal ‘saída’ mencionada no bilhete e o creme rosa espalhado por cada canto da cozinha. Sua expressão surpresa se suavizou e um sorriso surgiu em seus lábios. Shizuo não era romântico, mas conseguia ser extremamente fofo quando queria.
– Você estava fazendo uma surpresa pra mim? – não era bem uma pergunta, era mais uma constatação. Se aproximou do loiro com o intuito de abraçá-lo, mas ele se afastou.
– Você vai ficar todo sujo de creme se encostar em mim.
– Não me importo. – se aproximou novamente e pôs os braços ao redor do pescoço do guarda-costas, que o abraçou pela cintura, colando seus corpos e sujando completamente suas roupas – Você é incrivelmente fofo, sabia?
– Hm. – resmungou um pouco sem jeito pelo ‘elogio’, arrancando uma breve risada do informante antes de beijá-lo por longos minutos.
– Nee, Shizu-chan, você pretendia mesmo me levar para um encontro? – perguntou em tom divertido.
– Hm. Bom... – pigarreou – Nós estamos juntos há uns dois anos e vamos nos casar e ... – Shizuo estava completamente corado por estar falando desse tipo de coisa.
– E ...?
– A gente sequer pode descrever isso como um namoro e nem ao menos tivemos um encontro, sabe, casais normais fazem isso.
– Nós não somos um casal normal sob nenhum aspecto. – estava adorando ver Shizuo corado, ele ficava ainda mais fofo.
– Sei disso. Mas hoje é um dia especial. Achei que fosse gostar. – deu de ombros e coçou a nuca.
Izaya sorriu, não dava importância alguma para esse tipo de coisa “normal”, mas já que o loiro havia se dado ao trabalho, não tinha problema ser clichê por um dia.
– Ok.
– Ok?
– Sim. Vamos fazer tudo o que o Shizu-chan planejou para hoje. – respondeu animado – Então? Aonde iremos?
Shizuo sorriu e o beijou antes de responder:
– Bom... a julgar pelo estado das nossas roupas e da cozinha, eu diria tomar um banho. – fez uma careta ao olhar toda a bagunça que havia feito naquele cômodo, teria que limpar logo antes que começasse a secar.
– Vamos, eu te ajudo. – deu um beijo na bochecha do loiro e se desvencilhou dele, indo até o armário e pegando um pano limpo na última gaveta – Como você conseguiu fazer toda essa bagunça, Shizu-chan?
– Hm. – foi até o armário pegar um pano limpo também – Eu esqueci de pôr a tampa no liquidificador antes de ligar.
Izaya riu. Riu muito.
– Você é mesmo um idiota com um cérebro minúsculo, Shizu-chan!
– Calado, verme. – jogou um pano de parto em Izaya, que desviou – Menos risada e mais trabalho! – e começou a limpar.
Levaram quase uma hora para limpar toda aquela sujeira, havia respingado até no teto. Colocaram as roupas sujas para lavar e foram tomar banho. Juntos. Ou seja, banho não era exatamente a palavra certa para definir tudo o que eles fizeram no banheiro e quando terminaram o “banho”, que durou cerca de uma hora e meia, se trocaram – Izaya tinha algumas peças de roupa ali, assim como Shizuo também tinha em seu apartamento – e saíram.
Izaya não soube aonde iriam até Shizuo parar em frente ao cinema e lhe dizer que assistiriam a um filme. O informante mal se lembrava da última vez que havia ido ao cinema, mas sabia que havia sido em uma pré-estréia de algum dos filmes que Kasuka estrelaria, mas ele e Shizuo ainda não estavam juntos naquela época, havia ido apenas para provocar o loiro, pois sabia que ele estaria lá.
O filme que assistiram se chamava “Sobrenatural 2”, era de suspense – romântico, não?! Depois foram dar uma volta pelo parque, onde Izaya fez questão de andar de mãos dadas com Shizuo, rindo horrores com o constrangimento do loiro por estarem agindo como um ‘casalzinho apaixonado’ em público. O passeio durou pouco mais de meia hora, com direito a sorvete de casquinha e tudo, e então seguiram para uma confeitaria, a favorita do loiro, na qual ele era um cliente bastante assíduo.
– Aqui está, Heiwajima-san. – disse a atendente, sorrindo ao colocar os pedidos na mesa. Sorrindo até demais na opinião de Izaya.
– Nee, Shizu-chan... Acho que você arranjou uma fã. – disse em tom calmo – calmo demais, na opinião de Shizuo – enquanto deslizava a ponta do indicador por toda a borda de sua xícara de chá.
– N-Não é nada disso! – a garota corou intensamente enquanto gaguejava.
– Bom pra você. – sorriu docemente para ela – Assim te poupa de muito sofrimento por um amor não correspondido... – o sorriso se tornou sádico e um tanto ameaçador – Afinal, Shizu-chan já é meu. – deu ênfase na última palavra, vendo com extrema satisfação a garota arregalar os olhos e corar ainda mais antes de se afastar gaguejando um baixo “com licença”.
– Não precisava ter falado assim com ela. – suspirou o loiro, achando aquela cena um tanto desnecessária.
– O quê? Fiz mal em dizer aquilo? – usou um tom sarcástico – Me desculpe se atrapalhei o seu futuro romance. – tomou um gole do chá e pôs a xícara com certa força sobre o pires, claramente irritado.
Shizuo deixou uma risadinha escapar. Tudo bem que achava esse tipo de cena de ciúmes algo completamente desnecessário, mas gostava quando Izaya era possessivo e ciumento em relação a si.
– Não ria, imbecil! – os olhos castanho-avermelhados estavam estreitos e um beicinho irritado ameaçava se formar em seus lábios – A culpa é sua por ficar dando trela para qualquer uma! – olhou através da grande janela ao lado da mesa deles, não que tivesse algo interessante lá fora, mas no momento não estava com vontade de olhar para Shizuo, e justamente por não estar olhando é que se surpreendeu quando o loiro se inclinou sobre a mesa e beijou demoradamente seus lábios.
– Você é a única pessoa por quem eu tenho interesse. A única pessoa que quero que esteja ao meu lado todos os dias. A única pessoa com quem eu me casaria. – disse tudo isso olhando bem fundo nos olhos do informante – Não se esqueça disso. – e o beijou novamente antes de voltar a se sentar.
– Izaya corou ouvindo aquilo. O loiro havia falado de forma tão sincera, tão intensa, que o moreno nem soube o que dizer, apenas assentiu bobamente com a cabeça, vendo Shizuo sorrir pra si e em seguida fazer um gesto chamando algum dos atendentes, provavelmente iria pedir algum doce, já que para acompanhar o chá eles haviam comido biscoitos de coco e nata, e ele estava certo, Shizuo realmente havia pedido um bolo, mas não era exatamente o que ele havia imaginando.
– Feliz aniversário. – disse o loiro, empurrando o pequeno bolo com uma única vela encima para mais perto do moreno.
– Você encomendou um bolo? – arqueou uma sobrancelha, divertido e surpreso por Shizuo ter pensado em um plano B caso o bolo que havia tentado fazer não desse certo. O loiro deu de ombros.
– Tenho plena consciência das minhas habilidades para fazer doces. – sorriu de canto – Vamos, faça um pedido.
– Eu não tenho cinco anos, Shizu-chan.
– Não seja chato. Faça logo.
Izaya revirou os olhos antes de fechá-los por dois segundos e assoprar a vela.
– Pronto! Acabei de pedir que o seu único neurônio não cometa suicídio. – provocou. Nunca, jamais, em hipótese alguma admitiria para o loiro que havia pedido que ele também não se esquecesse do que havia lhe dito.
Cortaram o bolo e se serviram de generosas fatias, além de muito bonito, ele estava realmente delicioso; era um veludo vermelho com recheio de ganache de chocolate e licor de ameixa e cobertura de cream cheese com algumas pequenas e delicadas rosas feitas de chocolate intercaladas com fatias de ameixa vermelha no topo e nas laterais. O bolo era pequeno, suficiente apenas para duas pessoas, portanto, não demorou muito para que ele acabasse e os dois deixassem a confeitaria, fazendo o mesmo caminho de antes e seguindo pelo parque.
Ainda era cedo, mal passava das oito da noite, mas o parque já estava praticamente vazio exceto por eles e um casal na outra extremidade do parque passeando com um cachorro. Estava uma noite agradável e tranqüila e como não tinha muitas árvores na parte onde eles estavam, dava para ver perfeitamente o céu escuro, quase negro, cujas estrelas pareciam brilhar de forma mais intensa que o normal. O informante gostava de observar o céu noturno desde que podia se lembrar, quando era criança costumava subir no telhado às vezes, não só pelas estrelas, mas também por que era um ótimo lugar para observar seus queridos humanos. Sorriu. Havia sido um ótimo dia, simplesmente perfeito, na opinião dele, que nunca havia dado muita importância a coisas normais como encontros e comemorações de aniversário. Havia sido, ou melhor, estava sendo, simplesmente perfeito.
– Nee, Shizu-chan... Até que foi divertido o nosso encontro. – o tom de voz parecia irônico, mas o sorriso genuíno no rosto, deixava claro que ele estava sendo sincero.
– Hm.
– O que foi, Shizu-chan? – perguntou quando o loiro parou de andar.
– ... Hm... – coçou a nuca, meio sem jeito, parecendo estar escolhendo as palavras certas – Eu comprei uma coisa. – pôs a mão num dos bolsos da calça e tirou uma pequena caixinha de lá, entregando-a ao informante.
Izaya pegou a caixinha e a abriu, vendo seu conteúdo e então olhou para o loiro com ambas as sobrancelhas erguidas, em sinal de questionamento.
– Eu... – coçou novamente a nuca e bagunçou um pouco os próprios cabelos – Não é que eu realmente me importe com esse tipo de coisa, sabe, mas... nós nunca tivemos nada antes dessa história de casamento, digo, nada sério e já que estamos fazendo coisas que os casais normalmente fazem, achei que podíamos fazer isso também. – terminou a ala, tentando ignorar o rubor em suas bochechas.
O informante piscou algumas vezes, como se ainda estivesse absorvendo o que o loiro havia dito, olhou para a caixinha em sua mão e em seguida novamente para o guarda-costas.
– Por acaso... isso é um pedido de namoro? – perguntou, ainda sem esboçar uma reação específica, o que deixou o loiro ainda mais sem jeito.
– Bom... É.
O moreno começou a rir, ou melhor, gargalhar.
Shizuo já esperava por isso, talvez ele próprio risse se fosse o contrário, e quando parasse de rir como uma hiena, Izaya provavelmente diria algo como: “Isso é ridículo” ou “Não faz o menor sentido” e então lhe devolveria a caixinha e continuaria rindo pelo resto do caminho de volta. Suspirou. As chances de Izaya gostar da idéia ou ao menos achar ‘divertido’ eram pequenas, muito pequenas, ele próprio sabia que aquilo não fazia o menor sentido já que eles se casariam dentro de um mês e meio, mas ainda assim...
– Namoro? – perguntou com ar de riso – Você sabe que isso é ridículo, não sabe? – riu mais um pouco – E não faz o menor sentido. – respirou fundo para acalmar o riso e recupera o fôlego enquanto fechava a caixinha, devolvendo-a ao loiro.
Shizuo estava prestes a guardá-la no bolso novamente quando o moreno estendeu a mão direita em sua direção. Olhou para ele meio confuso e o viu sorrir de canto.
– Eu aceito namorar com você, Shizu-chan.
O loiro piscou, ficando sem reação por uns três segundos. É claro que queria que ele aceitasse, mas sinceramente, não achou que isso fosse acontecer. Abriu a caixinha e retirou uma aliança prateada simples de dentro, logo a colocando no anelar direito de Izaya, seu noivo/namorado, que fez o mesmo com ele, colocando a aliança restante em seu anelar direito.
O informante juntou ambas as mãos direitas, entrelaçando-as e admirando brevemente o brilho prateado dos anéis juntos, ergueu os olhos para encarar o loiro e sorriu pra ele enquanto fazia uma carícia suave em seu rosto com a outra mão, logo em seguida unindo seus lábios aos de Shizuo, beijando-o lentamente, sem qualquer pressa ou vontade de parar, desejando que aquele dia perfeito demorasse, e muito, para acabar.
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