Era de noite, no meio de uma densa floresta. Alguns vultos passavam rapidamente, sons distantes e assustadores podiam ser escutados. A floresta à noite era um lugar perigoso a qualquer alma viva. Nunca se sabe quando você pode virar a próxima refeição de algumas criaturas por ali. O sobrenatural se tornou natural nessa mata, os espíritos rondavam livremente, sempre buscando a próxima vítima e sobreviver. Vamos a uma parte mais segura da mata, onde ficam os espíritos mais bonzinhos e os mais fracos. Ficaremos seguros por aqui, sem ninguém tentando nos devorar.

Uma pequena moita à beira da trilha tremeu um pouco antes de um pequeno espírito saltar dela. Este tinha uma pelagem branca, suja de folhas e terra, olhos negros e opacos, como se portasse dois céus escuros sem estrelas. Andava a passos trôpegos, assustado com qualquer som ao seu redor. Devia ter alguns dias de existência, no máximo. Suas entranhas doíam de fome, mal se alimentara ou bebera. Tudo que pode encontrar foi algumas poucas frutas há dias atrás. Um filhote de Kitsune Youkai abandonado, sozinho nesse mundo dificilmente viveria uma semana.

Continuou caminhando devagar, procurando algo para comer ou beber, sempre a sombra, temendo que algum predador fosse atraído pela luz da lua refletida no seu pelo. Sua visão estava embaçada, seus músculos fadigados, porém forçava um passo atrás do outro. Tropeçou em si mesmo, caindo no chão. Aquilo doeu. Não queria mais levantar, não tinha mais forças para isso. Começou a chorar baixinho, sentia frio, fome, sede, medo e, o pior deles, sozinho. Todos que encontrara até então tentaram devorá-lo. Mesmo assim, retomou a caminhada, não queria morrer assim.

.....................................................................................................................................

Quando o pequeno Kitsune parou para olhar ao seu redor, estava numa parte escura da mata. As árvores envoltas da clareira formavam um semicírculo. Do outro lado, as raízes de uma árvore milenar havia uma toca, bem grande até. As marcas de garras e arranhões nos troncos perto da entrada da clareira eram um claro sinal de aviso. Assim que o filhote deu um passo para dentro, viu duas esferas douradas faiscantes surgiram na escuridão da toca. Uma névoa começou a sair do local. O de olhos negros queira sai correndo, mas suas pernas tremiam demais para obedecê-lo.

—Quem ousa invadir meu território?

A voz da criatura não estava nem um pouco feliz, tava mais pra irritada.

—E-eu... Não... Queria...

—Saia daqui! Agora!

—M-mas... E-eu...

—Agora!

—Você pode me dar algo pra comer?

O filhote tampou a boca com as patas, o que acabara de dizer? Iria ser morto desse jeito, porém suas entranhas doíam tanto que nem se importava.

—Como ousa invadir meu território e ainda pedir coisas? Volte para sua mãe e peça para ela, seu ser inútil!

As lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.

—E-eu não tenho mãe. Eu não tenho ninguém pra voltar ou pedir. Me ajuda, por favor.

—Pare de chorar! Odeio ouvir bebês chorões como você!

O filhote tampou a boca com as patas novamente, no entanto as lágrimas rolavam soltas por seu rosto, os fortes soluços faziam seu peito ficar pulando.

—Se eu te der comida, você vai dar o fora daqui.

O de pelo alvo arregalou os olhos, não esperava que isso acontecesse.

—S-sim...

—Não foi uma pergunta, foi uma ordem.

Lentamente, a criatura saiu de sua toca. Parecia uma raposa bem grande, semelhante a um kitsune um pouco mais velho. Um huliging para ser mais exato. Seu pelo era negro como o lado escuro da lua, os olhos, dourados como as estrelas. Sua pose era de imponência e poder, as duas longas caudas negras mexiam-se calmamente. A névoa parecia sair dele ou seu corpo se dissolvia nela, não conseguia definir. Um olhar frio, de desprezo resumia sua expressão fácil.Deixou cair no chão a metade de um peixe mordido.

—Vamos, pegue de uma vez. Não tenho a noite inteira.

O menor se aproximou cauteloso, morrendo de medo. Ficou aguardando algum movimento violento vindo do maior, porém este apenas o observou por cima.

—O-obrigado.

O kitsune mordeu o peixe pela cauda e o arrastou para fora da clareira. Parou perto da entrada desta, do lado de fora, à sombra da vegetação. Mordeu a carne e começou a comer. Suas lágrimas caíam sobre o peixe, temperando o alimento. Era bom, era boa a sensação da fome indo embora, a sede se despedindo devagar. Continuou comendo ali, chorando feliz por ter sobrevivido mais um dia, por ter recebido um ato de gentileza. Não muito longe dali, alguns pares de olhos observavam o pequeno com cuidado.

..............................................................................................................................

O estômago do pequeno espírito, apesar de estar faminto, não era muito grande. Mal pode comer um quarto do peixe que já ficou satisfeito. Exausto, adormeceu abraçado no peixe, tentando protegê-lo. Não teve sonhos distintos, apenas coisas sem formas, sombrias e assustadoras. Apertava o alimento contra seu corpo. Medo. Acordou com a sensação de ser erguido e caindo de cara no chão. Gemendo, massageou o focinho dolorido com as patas dianteiras, confuso. O que aconteceu?

— Ora, ora, o que temos por aqui?

O kitsune youkai ergueu os olhos. A sua frente, havia um espírito diferente. Parecia um humano com orelhas e caudas felinas, olhos verdes, maliciosos, trapaceiros. Em suas costas pendia uma sacola. Em suas mãos havia um pedaço de peixe meio mordido...

— Ei! Isso é meu, devolve!

— Sério? Pensei que era um pedaço de peixe jogado no chão com uma bola de pelos em cima. Ah! É você!

— Devolve! Isso é meu!

O espírito de raposa começou a rosnar ao outro. Tentava parecer ameaçador, mas recuava de leve.

— Mas, eu estou salvando esse pobre peixe. Ao invés dele ser desperdiçado alimentando um semimorto, vou usá-lo com alguém mais útil: eu.

— Mas... Mas... Ele é meu! Você não pode pegar...

— Claro que eu posso! Eu sou o espírito mais forte por aqui então eu posso fazer o que eu quiser.

— Mas... Mas... Arg! Cansei!

Uma tímida labareda surgiu em sua cauda. O espírito pulou pra cima do de olhos verdes com as presas expostas. No entanto, seu movimento parou no meio do ar. As garras do outro agarravam seu pescoço, apertando-o. O menor se debatia, tentando se soltar enquanto emitia um engasgo seco.

— Você é bem corajoso pra alguém tão pequeno e idiota. Tentando me atacar desse jeito. Aqui vai uma lição de graça pra você: vocês, espíritos pequenos e miseráveis, existem só pra serem pisados por nós, o topo da cadeia alimentar. Agora, suma da minha frente.

O com orelhas felinas arremessou o kitsune youkai contra uma árvore. Gemendo de dor, o filhote caiu no chão e tentou inutilmente se mover. Tudo que pode fazer foi murmurar:

— Devolve...

— Esquece logo isto. — O espírito jogou o peixe pra cima e comeu numa mordida só — Viu? Já nem tem mais pra você. A gente se vê, bola de pelos, se você sobreviver.

Rindo ruidosamente, o maior saiu andando, acenando ironicamente. O menor ficou caído ali, cada centímetro de seu pequeno corpo doía. Sua visão foi ficando embaçada, sentia tontura, a consciência se esvaindo rapidamente...

— Não! Por favor! Pare! Eu imploro!

— O que você disse mesmo? Ah sim, eu lembrei. Vocês, espíritos pequenos e miseráveis, existem só pra serem pisados por nós, o topo da cadeia alimentar.

— Não! Me perdoe! Tira isso de mim! Tira logo!

O espírito de raposa abriu os olhos. Uma densa névoa havia surgido naquela região. Gritos aterrorizantes ecoavam pela mata. O pequeno se encolheu ali, escondendo o rosto com as patas. Aquilo estava lhe dando muito medo, queria sair correndo, mas só pode ficar tremendo. Algo se aproximava. Encolheu ainda mais, numa tentativa inútil de não ser visto. Seu pelo, refletindo a luz do luar, o expunha com facilidade. Uma pisada próxima de si e algo caiu por ali. Algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto.

— Ts... Olhe pra você. Está patético assim. Vergonhoso.

O kitsune ergueu a pata lentamente. O huliging de antes o encarava, seus olhos dourados exalavam desprezo. A névoa havia desaparecido. Perto de uma de suas patas negras, havia um pedaço de peixe.

— Vim devolver isto. Cuide melhor de suas coisas.

— Aquele... Aquele espírito... Onde ele...

— Aquele demônio idiota? Voltou pro inferno chorando pela mamãe. Ridículo. Pff... Ainda disse ser o mais forte daqui.

O maior deu a volta e começou a ir embora. O pequeno se levantou.

— Espere! Por que... Por que você me ajudou?

O de pelagem negra se deteve e virou a cabeça.

— Alguém está ficando exibido aqui. Eu não ataquei ele pra te ajudar. Ele invadiu meu território e não quis ir embora. Apenas defendi meu território, só isso.

O huliging voltou a caminhar e retornou à sua toca. O kitsune encarou o peixe, deu uma mordida e o trouxe para perto de si. Não o perderia novamente.

...................................................................................................................................................

Duas semanas se passaram desde então. O peixe deixado pelo huliging durou uns quatro dias. Entretanto, a sorte parecia estar finalmente ao lado do pequeno kitsune. O arbusto que usava como abrigo possuía alguns frutos comestíveis, sustentando o espírito por esse período. Todavia, o tempo mudou subitamente, uma massa de ar fria chegou na região sem aviso prévio, abaixando a temperatura drasticamente.

Naquela noite, uma chuva fria caía sobre a floresta, um vento gélido corria por entre as árvores, como uma assombração andando pelas matas. O kitsune se encolhia contra o tronco do arbusto, suas presas tilintavam com o frio. A pequena cobertura fornecida pela planta não protegia o espírito direito da chuva. Suas piscadas duravam cada vez mais. Queria dormir, mas sentia que se fizesse isso, talvez nunca mais acordasse. Pensou em andar para se manter desperto, mas o vento cortante assoprou rapidamente essa ideia. Uma pequena névoa se formava com sua respiração, cada vez mais lenta.

As pálpebras pesavam demais, seu focinho já tinha caído na grama não sei quantas vezes. Estava quase adormecendo. Sentia figuras sombrias à espreita, prontas para tomar seu espírito. Fechou os olhos. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Não queria morrer ali, sozinho, jogado num canto. A vida não podia ser apenas sofrimento e solidão. Tinha que ter algo a mais. Por favor.

Sua consciência estava quase se esvaindo quando sentiu algo quente o envolvendo. Foi levantando por detrás do pescoço e carregado. Seu corpo pendia inerte. Estava preso a este plano por um fio, e esse fio era tudo que restava. De repente, o vento e a chuva pararam, mas ainda podia ouvir eles à distância. O som de passos ecoando e gotas caindo no chão. Depois de um tempo, deixaram-no numa superfície macia e confortável. Uma coisa áspera, úmida e quente passou por seu corpo repetidas vezes. Aquilo era desconfortável, mas estava o aquecendo. Longos minutos se passaram até que o kitsune abriu os olhos novamente. Escuro. Moveu a cabeça lentamente, procurando alguma fonte de luz. Tudo que encontrou foram duas esferas douradas flutuando no ar.

—Hmpf. Ainda bem que você está vivo. Pensei que você ia desperdiçar todo o trabalho que eu tive morrendo aí.

—V-você...

Um vulto enorme se deitou ao seu redor, cercando o pequeno espírito.

—Estou entediado, então vou deixar você dormir aqui hoje. Mas é só uma noite. Amanhã de manhã você vai embora, me ouviu bem?

O kitsune só pode concordar com a cabeça. Levantou-se, deu alguns passos trôpegos e se deitou, encostado numa grande superfície macia e quente, que tremeu um pouco com o contato.

—Obrigado... — soltou num sussurro.

— Idiota.

Soltou um leve sorriso antes de adormecer. Dessa vez, não teve medo. Sentia-se seguro ali.

...................................................................................................................................................................

Ei, você está acordado?

Grunhiu em resposta, manhoso. Tava gostoso ficar ali, não gostaria de se mexer. Algo o cutucou.

— Não de diga que você morreu em cima de mim. Vamos, acorda de uma vez.

O kitsune abriu os olhos devagar,ainda cheio de sono. Bocejo. A principio, enxergou um grande mar de pelo negro. Mexeu a cabeça devagar até encontrar duas esferas douradas.

—Ah!

O espírito de raposa de um salto assustado e tentou sair correndo, mas acabou escorregando e caindo no chão.

— Por favor, não me mate.

—Vamos, é muito cedo pra tanto alvoroço.

O kitsune youkai virou-se lentamente. O huliging o encarava com uma expressão de “de novo?”. O pequeno se levantou meio envergonhado.

—B-bom dia.

—Humpf. É a terceira vez que você dorme aqui e toda manhã é a mesma história.

— D-desculpa. É só que... Eu não to acostumado com isso.

O maior pousou a cabeça por cima das patas dianteira cruzadas, soltando um longo suspiro. O espírito de pelo alvo se sentou sobre as patas traseiras e olhou para baixo. Era a terceira noite que passava na toca dele, um lugar quente, confortável e bem iluminado. O huliging até mantinha o local limpo. Mas, sentia-se como um incômodo ali. Não sabia o motivo dele ser tão gentil com ele. O com duas caudas até trouxe comida e água pro filhote.

—E-eu acho que já vou indo. O-obrigado por tudo.

Levantou-se e começou a sair, caminhando devagar.

—Ei, espere.

O kitsune parou.

—S-sim?

—O que você vai fazer lá fora?

—N-não sei. A-acho que... tentar não morrer talvez.

—Pense um pouco. Quais são as chances reais de você sobreviver sozinho? Ainda mais com o inverno chegando. Acredite, vai esfriar muito ainda. Comida e água ficarão escassos por meses.

O menor olhou para baixo. Ele tinha razão. Não conseguiria sobreviver.

—M-mas que opões eu tenho? Eu deveria ser capaz de cuidar de mim mesmo, não é?

O de pelagem alva virou a cabeça surpreso. Não estava esperando essa resposta. O maior desviou o olhar.

— Olha, eu estive pensando. E... Eu tenho uma proposta pra você.

— Proposta?

—Uma troca de favores. Sabe, estou meio entediado esses dias, então eu pensei que... Se você quiser, pode ficar e morar comigo. Eu te dou casa, comida, água e proteção e em troca, você afasta o meu tédio. O que você acha?

O kitsune arregalhou os olhos, surpreso, no mínimo. Será que ouviu bem?

—V-você está.....

— Não me faça repetir. Então, aceita ou não?

— Você vai ser meu pai?

—Não. Claro que não..... Acho que seria melhor... Como um irmão mais velho.

— Nii-san!

O filhote correu na direção do maior e tocou seu focinho no dele. Lágrimas escorriam por seu rosto. Estava tão feliz. Finalmente, tinha alguém pra ficar junto, alguém que queria ficar com o pequeno.

— Isso serve também. Vou considerar como um sim, então. Qual é o seu nome? Não vou ficar te chamando de bolas de pelo.

Essa foi a primeira vez que parou para pensar nisso. Nunca se achou importante o suficiente para ser nomeado. Tudo tinha nome, então ele devia ter também, certo? Fechou os olhos para escolher um para si e ele veio naturalmente, como o decorrer das estações.

—Kiku. Meu nome é Kiku.

—Kiku? É um bom nome. O meu é Yao e a partir de hoje eu vou ser seu irmão mais velho. Eu prometo que não vou deixar nada nem ninguém te machucar de novo. Você nunca mais estará sozinho.

O Kitsune sorriu. O huliging sorriu de volta. Era bom ter alguém com quem contar nessas noites das florestas. A vida realmente era mais do que o filhote vivenciara até então. Mas, todo aquele sofrimento valeu a pena. Agora, ele tinha finalmente uma família. E não podia estar mais feliz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.