Noites Orientais
1 1 - A mudança
Notas iniciais

O novo milênio havia chegado cheio de esperança para a humanidade, porém, Eunwoo tinha decidido acabar com tudo por não conseguir encontrar nenhuma saída para a maldição deixada sobre sua família pelo seu pai. Era noite e acima do Rio Han a ponte Mapo atravessava, enquanto o rapaz olhava para o rio com lágrimas em seus olhos, pensando se sua família iria sobreviver sem o seu apoio, pois talvez sua mãe não suportasse perder o filho daquele jeito. Só que ele não suportava mais fracassar tantas vezes e nem se refugiar no exército ele podia mais, porque todos os seus planos de vida acompanhavam os sonhos de seu pai, mas quando tudo ruiu com a crise de exportação e o golpe aplicado aos negócios de sua família... Talvez, só houvesse aquela saída.
Era uma decisão difícil, Eunwoo estava sentado no parapeito da ponte a cerca de dez minutos e ele queria muito acabar com a dor da vergonha que lhe cortava por dentro, mas ele se questionava: “O que é mais vergonhoso? Desistir da batalha ou morrer lutando?”. Eram as duas escolhas que ele tinha, pois ele poderia saltar daquele lugar e terminar aquele ciclo de dor interna causada pelo seu fracasso em guiar sua família ou ele poderia voltar para casa e fracassar novamente e novamente e novamente... Até o dia que ele não conseguisse mais suportar e voltasse para esse mesmo lugar.
Talvez fosse melhor acabar com tudo naquele momento, pois toda a desgraça da sua vida parecia ter sido programada pelo destino e ele estava cansado de praticar aquela atividade sádica de resistir contra aquele sentimento.
Talvez fosse melhor acabar com tudo de uma vez.
— Rapaz!
Eunwoo se desequilibrava no parapeito assustado com a voz masculina no meio da noite que parecia ter se aproximado dele de forma silenciosa, porém, por algum motivo desconhecido sua mão segurava forte no parapeito da ponte, impedindo a sua queda acidental, e ele ficava ofegante com o susto. Seu olhar encarava de forma receosa o rosto da pessoa que estava próxima dele, mas que não tinha lhe puxado em nenhum momento, aparentemente com medo de que aquilo fizesse com que Eunwoo se jogasse de forma prematura e desastrada. Era um jovem estrangeiro de pele clara e olhos verdes com uma aparência mais jovem que a sua, porém, mesmo com uma pronúncia perfeita do coreano, o rapaz havia cometido um erro ao tratar Eunwoo informalmente quando se dirigiu a ele sem o honorífico.
— Desculpa te assustar, mas não faça isso. – Dizia o jovem rapaz com a voz levemente tensa, mas com um tom bastante sério e usando os honoríficos de uma pessoa mais velha prestes a brigar com um garoto mais jovem por causa daquele episódio. – Eu sei que é difícil lidar com determinadas situações, mas não faça isso...
— Vai embora! Eu não quero testemunhas para isso. – Em outro momento poderia reclamar do jeito desrespeitoso que estava sendo tratado pelo estrangeiro que usava o seu idioma, mas sua voz saía embargada pelo choro e pela vergonha, não permitindo que ele se prolongasse.
O estrangeiro permanecia naquele lugar, enquanto olhava em volta e via que ninguém apareceria para ajudar ele naquele momento, então, começou a se movimentar perto de Eunwoo e não chegou a tocar o coreano, mas se pôs sentado ao lado dele no parapeito. Esse momento permitiu que Eunwoo ainda assustado com aquela pessoa conseguisse ver o rosto do estrangeiro, que tinha uma pele muito pálida e feições redondas, dando um ar de infantilidade a aparência daquele garoto muito corajoso que enfrentava a altura da ponte pra ajudar um desconhecido.
— Se você pular, eu pulo junto, garoto! – Eunwoo não sabia se surpreendia mais com o ato do garoto estrangeiro ou com o fato dele lhe tratar de um jeito tão informal e tão seguro, parecendo acreditar que era mais velho que Eunwoo.
— Isso não é piada, garoto! Desça já daqui de cima, seu mal educado. – Eunwoo era enfático com o rapaz, irritado com o jeito desrespeitoso que ele lhe tratava ao lhe dirigir a palavra, escolhendo colocá-lo em seu devido lugar em seus últimos momentos.
O estrangeiro parecia demorar a entender a irritação de Eunwoo, mas engolia a seco as próximas palavras, então, parecia tomar cuidado com o que pretendia falar, pois a voz de Eunwoo ressoou bem alto com a repreensão dada. O estrangeiro parecia ser uma pessoa estritamente fria, pois sua respiração era quase imperceptível e o seu olhar se voltava para o Rio Han por alguns momentos, antes de falar com Eunwoo com certa paciência e cordialidade.
— Perdão, senhor! Não tive a intenção de ser mal educado... Só que eu não quero que o senhor morra agora, porque mesmo sendo mais velho que eu, o senhor ainda é jovem e deve ter uma vida incrível pela frente. – O rapaz parecia procurar algo em volta de Eunwoo, quando comentava com um tom de voz sério. – Nem formou sua família ainda, como pode desistir de tudo agora? Não posso deixar que desista, senhor... Se escolher partir, eu vou partir junto com você.
Eunwoo não percebia o rapaz se aproximar o bastante para agarrar o seu braço, permanecendo ao seu lado no parapeito, pois no momento que o estrangeiro falou sobre formar família, um choque de tristeza percorreu o corpo do jovem coreano que não conseguia conter as lágrimas latentes. Tudo na vida de Eunwoo se organizou para fugir dessa possibilidade de constituir um lar longe do seu pai e da sua mãe, pois ele sabia que nunca seria feliz “formando uma família” longe deles, porque a sociedade nunca compreenderia a sua forma de amar e ela nunca aceitaria a família sonhada por Eunwoo.
O choro explodia com soluços altos, fazendo as lágrimas correrem como rios pelo rosto de Eunwoo, pois além de fracasso como “o homem da sua família’, o jovem coreano se considerava um fracasso como “homem” por não achar dentro de si forças para suportar um casamento com uma mulher. Tudo na vida cooperava para que Eunwoo se visse como uma pessoa derrotada e nem o otimismo ensinado pelo seu pai, que tinha feito o mesmo ato que o rapaz estava prestes a fazer, conseguia lhe trazer forças para enfrentar a realidade terrível imposta a sua família e a sua vida. O estrangeiro erguia a cabeça para encarar os olhos de Eunwoo, percebendo que a decisão do jovem havia sido tomada e talvez por causa de suas palavras, porque os soluços do choro de Eunwoo cessavam e ele em um último ato de responsabilidade dizia para o estrangeiro que tinha abraçado com o seu braço.
— Desça, garoto! Eu preciso fazer algo importante para o mundo agora.
Os olhos do estrangeiro estavam vidrados no rosto de Eunwoo e o garoto não parecia disposto a soltar o braço do jovem coreano, pois sua feição parecia inalterada com aquelas palavras e o rapaz voltava a mudar o seu tom de voz ao dizer:
— Não faça isso, ga... Não faça isso! Eu posso te ajudar. Não estou mentindo, eu posso te ajudar, mas eu preciso que desça daqui de cima e confie em mim, porque eu posso tentar fazer algo por você. – Os braços do rapaz em volta do braço de Eunwoo se apertavam mais, com o estrangeiro parecendo estar mesmo disposto a mergulhar daquela altura no Rio Han com Eunwoo. – Não faz isso! Se você pular, eu vou junto.
As lágrimas de Eunwoo queriam explodir e os soluços queriam tomar a sua garganta novamente, porém, o rapaz percebia como aquele garoto tentava lhe convencer a desistir a todo custo, pois nenhum adulto iria permitir que um rapaz mais jovem cometesse aquele erro com ele. Eunwoo estava disposto a amaldiçoar a sua existência, mas ele nunca faria isso com um garoto que estava tentando salvá-lo da decisão final, por isso, ele pacientemente se soltava dos braços do garoto, quando se afastava um pouco dele e dizia com tristeza:
— Perdão, garoto! – O corpo de Eunwoo se inclinou para frente e caiu sozinho.
O barulho do vento da noite contra o seu ouvido durante a queda livre era ensurdecedor, Eunwoo não chegava a se arrepender da sua decisão, escolhendo fechar os olhos enquanto via a água se aproximar do seu rosto, porém, algo atrapalhava o silêncio de sua passagem para o outro mundo.
— Eu disse que pularia junto!
Os olhos de Eunwoo abriam assustados e viam por algum motivo incomum o rosto do rapaz estrangeiro na sua frente, caindo junto com ele e fazendo o coreano se arrepender de ter tomado aquela decisão de forma amarga, enquanto os braços do estrangeiro abraçavam o corpo de Eunwoo com força. Eunwoo se debatia em vão nos braços do estrangeiro antes de seus corpos atingirem a parede líquida e extremamente dura do Rio Han depois de uma queda tão alta, sentindo muita dor enquanto o seu corpo era envolvido pela água gelada do rio, sendo empurrado para o fundo da água.
Toda a dor lhe trouxe uma certeza desagradável sobre os seus planos: Eunwoo não tinha morrido.
Seu corpo era tomado por uma dor imensa, a água fria do Rio Han congelava os seus ossos e Eunwoo tinha acreditado antes que seria muito mais fácil fazer sua partida, mas algo tinha dado muito errado e ele se forçava a ficar embaixo da água para conseguir o seu objetivo a todo custo. Entretanto o seu corpo era movimentado embaixo da água, Eunwoo queria resistir a quem estava tentando lhe salvar, mas não tinha forças para lutar contra aquela dor lacerante em seu corpo, sendo levada a superfície da água contra a sua vontade e sentindo dor ao respirar de forma instintiva.
Muita dor tomava o corpo de Eunwoo.
Sentia um toque em suas costelas que lhe fazia gritar, quando ouvia um resmungo em um idioma estranho aos seus conhecimentos, seguidos da voz do estrangeiro dizendo sem ofegar por um instante:
— Preciso que aceite a minha ajuda, Eunwoo. Deixa eu te ajudar, por favor!
Como ele sabia o nome de Eunwoo? Por que ele se jogou de cima da ponte junto com Eunwoo? Como diabos ele havia sobrevivido a aquela queda com disposição o bastante para salvar Eunwoo? Eram perguntas que passavam longe na mente do jovem coreano que não gritava mais de dor, pois a água estava tão gelada que suas dores pareciam estabilizar por causa dessa temperatura tão intensa.
— Se não aceitar a minha ajuda, eu vou fazer de tudo para que seja salvo... Eu vou fazer de tudo para que sobreviva e volte para a sua família com todos os ossos quebrados para que cuidem de você. Pode ter certeza que nunca mais você vai ter uma chance de se jogar de um lugar tão alto quanto esse, garoto!
Os olhos de Eunwoo conseguiam se abrir e encarar a noite, enquanto ele escutava a voz irritada do adolescente que estava abraçado com você nas águas do Rio Han, aparentemente ileso depois da queda e obstinado em ajudar ele. Eunwoo conseguia ver os braços do estrangeiro lhe mantendo na superfície da água, enquanto pensava em tudo que ele havia dito e todas aquelas palavras o fazia cogitar em aceitar a ajuda de alguém, porém, onde ficaria o seu orgulho em meio a tudo aquilo?
— Lembre onde o orgulho levou seu pai.
Eunwoo forçava o corpo e se movia na água para olhar o rosto daquele garoto novamente, quando as lágrimas vinham aos olhos por causa da dor que lhe fazia gritar muito alto. Eunwoo queria saber de onde poderia conhecer aquele garoto, mas ele não conhecia e isso lhe trazia medo, porém, a ameaça feita pelo estrangeiro lhe trazia muito mais medo do que os motivos que levava aquele adolescente de pele clara a fazer isso. Ser um estorvo para a sua família depois de ter vários ossos quebrados em uma queda da ponte Mapo no Rio Han não era o plano de futuro que Eunwoo pretendia ter, então, o rapaz conseguia ver as sirenes da polícia se aproximar por cima da ponte, quando dizia:
— Não deixa eu voltar pra casa desse jeito, por favor. – Sua voz estava sufocada pelo frio da água e seus lábios tremiam enquanto falava, até que finalmente conseguia encarar o rosto do jovem estrangeiro, completando: – Eu aceito qualquer ajuda... – Sua voz embargava de dor e os seus olhos enchiam de lágrimas, quando completava: – Só não permita que eu volte vivo para a casa depois disso.
O rosto ingênuo e infantil do estrangeiro ganhava presas acentuadas, quando algo extremamente prazeroso tomava o corpo de Eunwoo fazendo com que aquela mistura de dor e prazer se estendesse pelo corpo do jovem coreano. O grito de dor vinha a sua garganta pela movimentação do seu corpo, mas o que saía era um gemido baixo pouco ouvido no meio da noite, enquanto ele encarava as luzes da polícia na ponte Mapo que ficavam bem mais fortes. Será que essa dor misturada com prazer era o beijo da morte? Será que o estrangeiro havia atendido ao pedido de Eunwoo e tinha finalizado a sua existência fadada ao fracasso? A dor misturada com o prazer era uma sensação extremamente confusa, mas o rapaz conseguia perceber seus sentidos se perdendo lentamente, até ouvir uma voz bem longe dizendo: “Abra a boca”. Não sabia para o que era, mas se era para acabar com aquilo de uma vez, Eunwoo abria os seus lábios e sentia algumas gotas de gosto metálico tocar a sua língua, quando sentia um entorpecimento tomar o seu corpo lentamente.
Tudo estava chegando ao fim para o rapaz.
Tudo tinha chegado ao fim.
Ou não...
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