Noite À Fora
1 One-shot
A noite crescia tempestuosa lá fora, fazendo toda a pousada gemer alto. EU olhava pela janela de meu quarto para o céu que parecia se mover como o mar quebrando na praia. Tudo parecia escuro e tenebroso como há muito tempo não ficava.
A maior parte dos hóspedes da pousada já dormia em suas camas confortáveis, mas eu permanecia desperta, não tinha nem deitado a cabeça no travesseiro ainda, com um pressentimento em meu peito que transbordava como se chovesse dentro de mim.
Um enorme clarão cortou o horizonte e eu abri os olhos para a escuridão afiada de um novo lugar. Uma nova pessoa devia chegar ao nosso Pedaço de Lua... Um novo hóspede que teria uma segunda chance graças ao nosso feitiço...
Eu pude vê-lo... Vi seu carro derrapando na estrada molhada de chuva bem diante de minha janela. Desci correndo as escadas e fui para fora, onde a chuva se tornava mais violenta.
O carro estava parado e um moreno saía do banco do motorista e conversava um pouco nervoso com Ban, que o guiava para o estacionamento da pousada.
Parado, não muito longe de mim, estava um homem alto, de cabelos claros, que colavam em sua face como a roupa estava colada em seu corpo inteiro, molhado de chuva, olhando para o alto.
— Sirius! – chamei e o loiro me olhou. – O que você pensa que está fazendo? Se a Sereny te pega transformado assim...
— Ela está me chamando, Mari-chan! – ele falou, tonando a olhar para o alto. – Você pode ouvi-la também?
Imitei-o, olhando o firmamento nebuloso e senti um arrepio na espinha se espalhando por todas as minhas terminações nervosas. Era um impulso quase irresistível.
— Posso – respondi num ofego.
— Como resistir a esse chamado? Como não atendê-lo? – ele me perguntou, exultante.
— Colocando prioridades em sua cabeça! – respondi, categórica e ele riu.
— Ela é minha maior prioridade, Mari-chan!
— Sereny vai ficar uma fera! – ameacei-o.
— Sereny vai me perdoar! Eu volto pela manhã! – ele caminhou em linha reta até desaparecer na escuridão.
Ban se aproximou com o moreno e eu me virei para encará-los. Dava uma sensação de tristeza e vazio todas as vezes que Sirius aprontava das suas...
— Onde Sirius foi? – o senhor que nos ajudava a cuidar daqueles que se machucariam em nossas estradas perguntou.
— Foi atrás dela outra vez... Volta amanhã, pela manhã, eu espero... – respondi e ele fez uma expressão séria. – Konbawa – eu sorri para o moreno que pareceu apreensivo com o teor dramático da conversa que se passava ao seu lado.
— Konbawa... – sua voz saiu hesitante, provavelmente pelo choque de seu quase acidente.
— Bem vindo à pousada Pedaço da Lua Enfeitiçado! Vamos encontrar um quarto para acomodá-lo? – perguntei, tentando deixá-lo mais confortável.
— Ah... Arigato – eu dei uma risadinha.
— Oyasumi, Ban-san – fiz uma reverência na direção do sorridente senhor.
— Oyasumi, Mari-chan!
Caminhei até o balcão para olhar qual dos para olhar qual dos quartos estava vago.
— Tenho o quarto 2028 – sorri e ele finalmente me sorriu de volta. Seu sorriso formava covinhas nos cantos de sua boca. – Você tem covinhas! Que fofo!
— Arigato! – ele ficou sem jeito e corou levemente, me fazendo achá-lo ainda mais adorável.
Indiquei as escadas e subimos para o segundo andar, onde entramos no quarto em que ele ficaria. Deixei-o avaliar todo ambiente por alguns momentos.
— Parece bom pra você? – finalmente perguntei, fazendo-o me olhar.
— Ótimo! – ele tornou a sorrir. – Arigato!
— Deseja mais alguma coisa?
— Ah... – ele ficou um momento pensativo e eu achei realmente engraçado, porque ele parecia um pouco perdido. – Acho que não... Estou bem...
— Se precisar de qualquer coisa, eu estava no quarto ao lado, está bem? Não hesite em me chamar, está bem?
— Arigato! – ele fez uma reverência na minha direção.
— Oyasumi – me dirigi pra porta.
— Oyasumi, Mari-chan – senti minhas faces corarem e sorri, deixando-o sozinho. Com um mínimo aceno de varinha, supri de toalhas seu banheiro e mais travesseiros no baú aos pés de sua cama.
Entrei em meu quarto, mas não me deitei. Tinha um pressentimento sobre aquela noite que afugentava meu sono.
Não demorou muito pra que eu ouvisse alguém batendo em minha porta.
— Uke-san – eu sorri para o moreno. – Está precisando de alguma coisa?
— Ah... Gomen por incomodá-la... Mas eu não comi nada...
— Fique aqui que eu vou lhe buscar alguma coisa pra comer lá na cozinha!
Saí de meu quarto e desci até o andar inferior da pousada rapidamente, como tinha feito um pouco mais cedo, quando Uke-san chegara. Eu retirei minha varinha de dentro das vestes e um lanche caprichado apareceu sobre uma bandeja, com a qual eu tornei a subir as escadas e fui para o meu quarto.
Uke-san olhava fixamente para minha janela, como se estivesse hipnotizado.
— Aqui está, Uke-san! – eu me anunciei e seus olhos se desviaram da noite à fora, voltando-se para mim.
— Ah... Arigato – ele disse, mais uma vez, adoravelmente sem jeito.
— Pode comer aqui, depois eu levo a bandeja de volta lá pra baixo – expliquei, fazendo-a sentar.
— Ah, não, já a incomodei demais por uma noite... – ele tentou se colocar de pé, mas eu sacudi a cabeça negativamente, sorrindo.
— Imagina se seria incomodo... Além do mais, você passou por uma experiência perigosa... Não é bom ficar sozinho... Está se sentindo bem? Eu não perguntei antes porque não queria pressioná-lo a falar sobre isso antes de sentir real vontade...
Ele não me respondeu prontamente. Deixou os olhos caírem e mordeu o lanche que eu lhe trouxera, pensativo, como se estivesse se auto avaliando ou avaliando minha pergunta. Só tornou a me olhar quando terminou de engolir a primeira dentada, me lembrando muito uma criança perdida da mãe.
— Não acredito na sorte que tive... – ele respondeu, pesaroso e eu senti o impulso de abraçá-lo. – Foi realmente uma surpresa e uma sorte ter sido perto daqui...
Eu sorri e me sentei diante dele, vendo-o comer lutando bravamente pra não afagá-lo, abraçá-lo ou confortá-lo de uma maneira íntima demais. Ele me fez uma reverência tímida antes de sair e voltou para o seu quarto quando terminou de comer, faltando em mim alguma coisa que eu não sabia nomear... Uma sensação de vazio se apoderou amargamente de mim e eu fiquei parada, olhando longamente minha porta fechada, quando ela tornou a se abrir sem que eu soubesse e Uke-san tornou a aparecer por ela.
— Eu esqueci uma coisa... – ele disse, me surpreendendo.
— O quê? Aqui no meu quarto? – olhei para os lados, procurando algo que se destacasse, mas ele não permitiu que minha confusão se prolongasse e puxou meu rosto com delicadeza para o seu, unindo nossos lábios num beijo inesperadamente delicioso que jamais seria esquecido outra vez no meu quarto...
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