Noite em claro
1 Capítulo único
...
Noite. É tudo que ouço ao meu redor. Está gelada. Tudo escuro. Ouço vozes trêmulas e sombrias, nenhuma ao meu alcance. Continuo rastejando por estes cantos como um cachorro vira-lata qualquer. Não me lembro mais do motivo de ter escolhido uma vida como essa. Caminhando, caminhando e caminhando até me deitar em algum canto e não levantar mais. Foi esse o caminho que decidi trilhar. A cada floco de neve que toca minha pele esbranquiçada como a de uma boneca, sinto o peso da culpa de minha decisão.
Nem sempre foi assim. Houveram dias em que o sol mostrou seu sorriso para mim. Era um sorriso magnífico, único, e que aquecia até mesmo minha alma. Pouco a pouco, foi sendo tomado de minha pessoa. Tantos anos se passaram... Mas aquela noite ficou marcada em minha mente. Corri pelos corredores sinuoso do lugar que chamava de casa. Ouvi uma voz me dizendo as palavras “Casa de tortura” . Desespero. Medo. Terror. Vi todos esses e muito mais refletidos nos terríveis espelhos espalhados pela casa. Pouco a pouco, o tom rosado das paredes foi se tornando sangue puro. Me escondi embaixo de uma cama “ Você deveria ter morrido naquela noite, Ele se aproximou de mim. Percebi que o ódio humano não tinha limites. Poderia nos fazer cometer qualquer crime pelo que achamos certo “Mate ele. Você é a justiça“ . Depois disso, tudo se tornou um turbilhão de desespero e enganações. A vingança tomou conta de minha mente. “Vingue-se... Ele a matou... Você é a próxima“. As máscaras caíram, e eu corri. A pessoa que eu amava tornou-se a razão de meu ódio, a razão de meu pecado, a mancha vermelha em minhas mãos, e o lembrete eterno do crime que cometi.
— Você o matou... Você é uma assassina...”.
“Pare, por favor!”. A cada dia que se passa, rezo em meu canto para que essas vozes parem de me caçar. Tenho certeza de que irão até o fundo do inferno caçando a minha pessoa. A cada dia, me levanto com a esperança de que algo possa melhorar. Já se passaram 3 anos desde que fugi de casa. Tenho andado por essas ruas aleatórias desde então. Sem rumo, sem norte, sem alguém para ser. As pessoas que passam por mim me evitam. Não vejo mais o rosto das pessoas. São todos borrões sem qualquer traço de humanidade.
A bota velha que cobre meu pé direito está se desfazendo. Achei um chinelo velho para substituí-la. Ando por aí com uma toalha de mesa cobrindo a minha cabeça, lembrando uma boneca russa. Toda criança que passa por mim ri de minha ingenuidade. Eu retribuo com um sorriso falso, contaminado pelo meu crime, lembrando do fato de que quando eu era uma criança, jamais teria a malícia para cometer tal crime.
Ser uma solitária das ruas era algo que nunca pensei que me tornaria. Houve uma época em que eu era diferente. Olho para meu passado, e vejo uma garota mesquinha. Bêbada pela sua riqueza e fartura. Fui esnobe. Meu nariz empinado me fez cometer um pecado quando eu ainda tinha um nome. Lembro como se fosse hoje. Estava passeando pela rua com a minha saia de cetim rosada. Custou uma fortuna. Na sarjeta da calçada, havia uma garota negra estorvada. Suas roupas rasgadas e velhas. Com toda sua inocência, ela puxou a minha saia de seda, esperançosa de receber qualquer sinal de carinho e amor. A Ignorei e me arrependo profundamente disso até hoje. Olho para trás, e percebo que ela era como eu, uma filha da noite, andarilha do silêncio. Depois de certo tempo nas ruas, descobri que o que nos separava era algo banal como dinheiro. O mesmo nome que ela carregava com orgulho, eu também enchia meu pulmão ao declamar. Um dia, tive orgulho de meu nome. Hoje, sinto vergonha de carregar o nome de uma companheira que me deixou há muito tempo atrás.
Eu sou uma pessoa horrível. Brincava com palavras e pessoas como se brinquedos fossem. Dançando como marionetes em minhas falácias e contos inocentes. Um dia, o meu sonho foi brincar com palavras e emoções, como os grandes livros que lia quando era criança, e grandes autores que me faziam viajar pelo mundo das fantasias e reinos paradisíacos. Sonhava a cada noite com as aventuras épicas e viagens pela terra dos sentimentos turbulentos que queria criar. Bastava me dar uma lápis e uma folha de papel, e eu jorraria palavras esdrúxulas, que deveriam ser totalmente desconhecidas para uma criança. Hoje, vejo que eu era o que as pessoas chamam de prodígio.
Hoje, as vozes que me torturavam, me impedem de seguir meu sonho. “Você não sabe escrever... É uma desgraça para os escritores de verdade “. E a cada vez que eu ache um lápis qualquer, minha mão trêmula não consegue encontrar coragem para escrever qualquer letra, por mais garranchadas que fossem. Folhas de papéis que encontro pela rua, são cheias de rabiscos aleatórios e números incompreensíveis. E mesmo assim, tentava seguir meu sonho, imaginando as histórias que minha mãe me contava quando criança.
Minha mãe tinha um belíssimo e longo cabelo ruivo. Sua única característica marcante além de suas histórias mirabolantes e exageradas. Herdei dela suas madeixas exageradamente encaracoladas e quentes como o fogo do Olimpo. Sempre, antes de dormir, enquanto penteava meu cabelo, ela me contava suas histórias de adolescente, de como havia conquistado seu cavaleiro de prata, e conquistado a batalha pela escola fundamental, usando espadas de plástico e pedras. Ao contrário dela, sempre sonhei com essas batalhas épicas, e de como eu participaria de uma delas, mas no final das contas, eu sempre estava isolada em uma biblioteca qualquer lendo livros antigos e grossos.
Jamais imaginei que terminaria desse jeito. Meu cabelo, única lembrança de minha mãe, tornou-se preto de graxa e sujeira. O que era magnífico e exuberante, tornou-se risório e ridículo.
Eu usava saias de seda e cetim coloridas. Parecia uma princesa de um reino distante e magnífico. Sonhava com coroas de pérolas e brinquedos caros. O único que ficou marcado em minha mente, foi uma boneca de porcelana que ganhei de minha mãe. Sempre havia ignorado meus brinquedos. Torturava os pobres coitados até que eles preferissem não existir. Mas essa boneca era diferente. Olhei para ela pasma, quando percebi que ela parecia uma criança de verdade. Foi feita para imitar uma, afinal de contas. Ela comia alimentos de verdade. Como nós, ela chorava, sorria, e gritava desesperada ao ficar horas sem comer. Essa boneca me fez sentir uma mãe. Andava carregando ela por aí o dia inteiro, sentindo como se aquela carcaça vazia realmente precisasse de mim.
Ela não era muito diferente de mim. Por vezes, eu mentia para as pessoas ao meu redor. O fato de que eu seria uma médica, como todo o resto da família, parecia ser uma certeza entre minha família. Me sentia como uma boneca. Um casco vazio, tentando parecer uma boa menina. Não tão diferente do que uma boneca era. Uma casca vazia, tentando parecer uma garota de verdade.
E eu tinha consciência disso. Sabia de minha sina. Sabia que minha família ficaria desapontada. Mas novamente, a culpada é minha mãe, que fez minha mente imaginar milhares de planos mirabolantes para fugir de casa, e ser uma escritora renegada.
Essa era mais uma das minhas decepções. Nunca tive sucesso em meu sonho. Tentei distribuir poemas para companheiros de rua, mas quando não entendiam o que estava escrito, tentavam comer as folhas de papel preparadas com tanto amor. Por vezes, me senti tentada para degusta-las. Meu estômago ronca cada vez mais alto, e, pelas minhas mãos trêmulas e pele seca cheia de cortes superficiais, talvez eu seja obrigada a fazer isso.
Não costumo reparar no horizonte. Mas hoje, a rua estava incrivelmente quieta. Neve caindo por todos os cantos. Obviamente ninguém iria sair de casa no meio de uma tempestade de neve “Somente aqueles que não tinham um lugar para viver”. Sentei-me na sarjeta para observar a paisagem tão entediante. Com olhos de lince, percebi um pedaço de papel voando por aí, e com todas as minhas forças, consegui capturá-lo , como se fosse um vaga-lume.
Assim que o peguei, olhei em todos seus cantos. Mal podia acreditar! Um papel quase em branco! Perfeito para escrever! Rapidamente, antes que a chance pudesse escapar de minhas mãos com uma rajada azarada de vento, tirei do bolso de minha bota “Um furo que chamo de bolso, na verdade” uma caneta velha, e toda cheia de manchas de tinta.
Parei por um momento. Respirei profundamente. Já fazia muito tempo desde a última vez em que havia escrito qualquer coisa. Talvez eu ainda soubesse escrever? Ao longo dos anos na rua, fui me esquecendo do formato delicado da letras, e elas foram ficando distorcidas e tenebrosas.
Tentei aproximar a caneta do papel. Algumas palavras estavam tentando invadir a minha mente. Alguns versos clássicos. Mas foram interrompidos pelas vozes novamente. Minha mão começou a tremer, e eu soube que não conseguiria superar esse trauma. Nesse meio tempo, quando voltei a realidade, o papel em minha mão já havia voado para longe.
Frustrada, levantei-me e segui meu caminho, sem saber para onde ia. Tudo que eu queria era um lugar agradável. Alguém que me entendesse. Alguém. Qualquer coisa serviria nesse momento de desespero tão íntimo e aterrador.
Percebi que o chão havia se tornado neve. Fiquei tão amedrontada com a noite, que nem vi para onde ia. Estou no meio do nada. Vejo casas ao longe, mas nada perto. Nem uma única alma viva. Olhei para os lados assustada. Teria eu corrido para tão longe assim?
Antes de perceber, eu estava no meio de uma nevasca brutal. Perdi toda a civilização de vista. Não sabia mais para onde ir. Via somente um branco aterrador no horizonte, e o som do vento gelado, quase congelando meu rosto.
Comecei a ouvir sons estranhos. Pareciam animais. Uma forte rajada de vento foi baforada na minha cara, e eu cobri meus olhos. Quando os abri novamente, no horizonte, vi um animal de curvas únicas. Lembro-me de ter estudado ele na escola, em algum livro. Era um cervo. Mas não era um cervo comum. Ele parecia fantasmagórico, e ao redor dele, eu podia ver um fantasmagórico brilho azulado. Ele virou-se para a direção contrária , e começou a andar, e eu, a segui-lo.
Ele parecia estar me guiando para algum lugar. Seria essa minha última salvação? Seria essa uma brincadeira de mal gosto? Não sei dizer, mas minha intuição me diz que devo seguir este animal.
Até onde ele vai? Como consegue enxergar no meio da nevasca? De onde veio? Por que não sente frio? Por que tenta me salvar? Para onde quer me levar?
Eu não queria piscar. Essa cena era surreal demais, mesmo para mim, uma imaginadora de letras garrafais. Um cervo fantasmagórico que guia perdidos em nevascas? Claramente uma poesia de algum escritor medieval aleatório.
Tropecei em algo. Caí de cara no chão. Assim que me levantei, perdi de vista o cervo salvador. Novamente perdida no meio da nevasca de vozes, olhei para baixo. Estava em uma linha de trem. Finalmente, um som conhecido. Baixo, muito baixo, vindo de longe. Uma batida constante e firme. Uma luz finalmente apareceu no horizonte.
Eu já estava em cima da linha de trem. Que diferença faria? No meio de uma nevasca, ninguém me perceberia, assim como em qualquer outro lugar. O cervo salvador me trouxe ao meu destino. Sabia o que iria acontecer logo, e aceitei meu destino.
A nevasca foi se intensificando. O som da locomotiva foi sendo abafado pela neve, e o horizonte foi ficando branco, mais do que nunca. A luz do trem foi se apagando, e o trem se aproximando.
Silêncio.
Tudo.
Nada.
Vazio...
Abri meus olhos. Busquei a nevasca ao meu redor, mas tudo estava escuro. Ouvi o barulho de uma locomotiva se afastando. Estava sentada em um banco, completamente sozinha, e enrolada em uma manta que achei largada por aí. Reconheci o lugar imediatamente: a estação de trem abandonada de minha cidade. Único lugar que eu poderia chamar de casa. Não importa o quanto eu tentasse me afastar, e caminhar para rumos quaisquer que sejam, eu sempre volto para cá, e essa mesma manta, sempre me esquentando. Mas algo estava diferente. Ouvi um barulho e uma luz, ambos familiares .
Havia uma única vela solitária no lugar. Em cima do galpão, ela iluminava pouco. O que iluminava, era uma pequena cesta, com um tecido rosado dentro. Levantei-me calmamente, e fui até lá, imaginando que essa seria mais uma peça de meu cervo salvador, e que eu era sua seguidora cega.
Mas eu estava errada. Mais do que todas as vezes em minha vida, mais do que todas as minhas decisões. Não era uma boneca, e não era uma adolescente fugitiva de casa. Era um bebê enrolado em um pano rosado. Dormia serenamente, sem parecer que havia percebido que tinha sido largada em uma estação abandonada, somente com a companhia de uma vela.
Pobre criatura. Tão diferente de mim. Não teve a oportunidade de viver, não teve a oportunidade de crescer, não teve a oportunidade de sorrir, não teve a oportunidade de sonhar, não teve a oportunidade de ser.
Inocente e limpa de qualquer malícia humana. Nunca mentiu, nunca foi falsa, nunca se esqueceu, porque não tem o que lembrar.
Sua única semelhança comigo: s eu cabelo ruivo. Coincidência do destino? Não me importo. Só sei que ela está aqui, e eu estou aqui. Jurei que as chances disso acontecer seriam mínimas. Em todos meus anos estudando matemática, nunca me ocorreu a menor chance de sequer sonhar com uma situação dessas.
Patrulhei a caverna que chamava de casa em busca de alguém. Uma mãe desesperada, ou um pai preocupado. Ninguém. Solidão era tudo que rondava eu, e a garota recém-descoberta.
Tomei uma decisão. Nevasca ou cervo nenhum iriam me impedir de tomar conta de conta desta garota perdida.
Por um momento, pude jurar que ela era especial. Cada vez que olhava para ela, o mundo parecia mais claro e fazia mais sentido. A nevasca foi diminuindo pouco a pouco, até que eu pudesse dizer que estava com um calor insuportável.
Ao meu redor, a velha estação abandonada nunca antes havia estado tão detalhada. Havia somente uma vela iluminando o lugar, e algumas goteiras no teto formavam uma pequena poça de água no chão. Essa água era fedida, e eu podia jurar que era dela que vinha um cheiro tenebroso. Ao contrário do que eu acreditava até alguns minutos atrás, não moro sozinha nesta catacumba. Vejo ratos andando e chiando por aí , correndo pelo teto, tentando conquistar um canto para si.
Como vivi nessa caverna por tanto tempo? Não sei dizer. Trens não passam mais aqui há anos. O último que chegou, foi sucateado e jogado para o destino.
Não consigo mais me concentrar. Os versos de minhas procrastinações têm ficado menores. O choro desta criança consegue fazer minha mente se dividir como uma... O que era mesmo?
Pouco a pouco, fui percebendo que estava me tornando mais humana. Eu não estava somente ajudando essa pequena garota, ela também estava me ajudando. Sempre que as alucinações e vozes voltavam, sua voz pura e inocente me trazia de volta para a realidade.
Mas não passava de mais uma ilusão. Durante a noite, enquanto eu fazia minha guarda para protegê-la , pensava em como eu não poderia continuar seguindo esse caminho. Cuidar de mim mesma por pouco tempo já era difícil, ainda mais, uma criança recém-nascida. Não tinha remédios, não tinha amigos, não tinha nada, além de amor.
Talvez fosse o mais importante bem que alguém poderia ter. Mas o amor não compra roupas, nem remédios, nem uma vida digna. Eu sabia que da próxima vez que saísse de minha toca, meu dever era levar essa criança para um lugar seguro. Qualquer lugar longe de mim, para ela, é seguro.
Tomei minha decisão. Peguei a garota em meu colo, e abandonei meu posto. Apaguei a vela, e tirei minha bota barulhenta de meus pés. Não queria que ela acordasse, não sem perceber que eu havia sido não mais do que um pesadelo qualquer.
Subi a velha escada da estação abandonada. Estava cheia de pedaços de metal retorcidos, perfeitos para machucar qualquer pessoa, por mais cuidadosa que fosse. Minha sanidade mental não permitiria isso. A escada não parecia mais infinita e tortuosa.
Pouco antes de chegar ao final da escada, pude ver uma mínima fresta de sol. Não era forte, mas era tudo que eu entendia como “esperança”. Uma força única, que é capaz de nos fazer continuar seguindo nosso caminho, sem arrependimentos.
Finalmente cheguei até o final da escada. O cenário não era tão belo quanto eu esperava. Não era tão paradisíaco quanto tudo que Camões escrevia. A rua era suja. Cheia de pessoas falsas, andando em um rumo cinza e sem graça. Todos com maletas e ternos enjoativos e iguais.
Ao longo da rua, tive a sensação de que havia uma nevasca me perseguindo. A cada vez que olhava para trás, ela parecia aumentar, e o frio, novamente, a me assombrar.
Eu não poderia deixar isso acontecer. Tinha que proteger a criança em meus braços, de qualquer jeito. E ela chegaria bem, onde quer que fosse que ela tivesse seu destino traçado.
As linhas vão ficando mais curtas. Minha energia vai se esgotando depois de tanto andar.
Sentei-me na calçada. Parece que a criança em meu colo está acordando.
Não sei aonde cheguei. Não quero virar minha cabeça.
Só vejo pessoas passando na minha frente.
Pessoas cínicas, sempre ignorando.
Para sempre, cegas pelo luxo.
Possuídas pelo cinza.
Descrentes.
...
Um choro?
A garota em meu colo havia finalmente acordado. Quanto tempo se passou mesmo? Olhei para o céu, e fiquei curiosa ao ver uma pequena brecha se abrindo, e uma réstia de sol se mostrando. A nevasca foi ficando mais fraca, até que o frio finalmente passou. Olhei para baixo, e fitei os olhos da garota, agora sorridente e acordada. Tinham um belíssimo tom azulado. O mesmo tom azulado de meu cervo salvador. Sorri por um breve instante. Me senti sendo invadida por um sentimento único. Um que eu nunca tinha sentido, e finalmente entendi o que minha mãe presenciava a cada vez que me pegava no colo. Não conseguia parar de sorrir. Era uma sensação quente, mas que não queimava. Magnífica. Esse momento pareceu durar uma infinidade de anos.
Mas fui traída pelos meus sentimentos. Pela primeira vez, vi alguém percebendo que nós existíamos. Não entendi o motivo, mas a cada segundo que se passava, mais pessoas iam se aproximando de nós. Pareciam curiosas, buscando algo. Preocupadas? Com um sorriso em minha face, pude perceber que não eram tão clichês quanto pareciam. Cada um era diferente do outro. Haviam cores coloridas e vivas. Pude perceber que a calçada não era tão cinzenta e quebrada como antes. Haviam flores ao meu redor. Flores de um belo tom púrpura, que eu nunca antes tinha visto, nem mesmo em aulas de biologia.
Uma única pessoa se aproximou de mim, e tomou de mim minha nova razão. Por algum motivo, não consegui mover meu corpo para impedir que tomassem a garota de mim. Ela começou a chorar, e tudo que eu pude ouvir naquele momento, foi seu pedido de ajuda agoniado. Mas eu não podia fazer nada. Finalmente, consegui entender a expressão que estava estampada no rosto de todas as pessoas no local. Horror. Nojo.
Finalmente entendi o que havia acontecido. O motivo de eu não conseguir mover meu corpo. O motivo da minha nova razão ser tomada de mim. O motivo de meu cervo salvador aparecer novamente em minha frente, dessa vez, não para me levar a algum lugar. Eu não sairia daquele lugar, não mais.
Mas não deixei de sorrir, em momento algum. Minha missão havia sido cumprida, mesmo que meu coração estivesse em pedaços. Sabia que essa garota, minha filha, minha razão, minha salvação estava em mãos bondosas e cuidadosas, pelo menos, mais do que as minhas.
Olhei para o meu corpo. Por um momento, parecia que eu havia voltado no tempo. Meus pés estavam limpos, e delicados. Estava com um vestido de cetim, e meu cabelo havia voltado a ter seu tom ruivo e encaracolado magnífico do passado.
À minha frente, estava ela. Reconheci meu pecado imediatamente. Novamente, ela me estendeu a mão. Mas dessa vez, eu estava no chão, e ela tentando me salvar. Finalmente entendi o que ela queria comigo aquele dia. Estava tentando me salvar, e eu recusei a chance única. Seu sorriso era lindo. Sua pele negra era um contraste para as pessoas ao seu redor, e ninguém parecia vê-la.
Não poderia desperdiçar essa nova chance de me redimir. Dessa vez, aceitei a oferta. E tudo se tornou escuro como a noite. Esse era o fim de minha jornada. O fim do conto da solitária mãe das ruas. A jornada de uma esquecida. Redimida pelas palavras.
Deixei para trás algo curioso. Um pequeno pedaço de papel, que significava todo o meu ser, meu pecado, e minha salvação.
As palavras foram escapando de minha mente. Esqueci algumas delas... Parecia que havia algo mais me... Impedindo?
...
Havia um corpo no chão, rodeado de pessoas preocupadas. Em vez de estarem seguindo suas vidas normalmente, estavam observando uma adolescente moradora de rua, largada em uma sarjeta aleatória.
Seus olhos estavam vazios, e ela não parecia mais estar viva. Mas o rumor espalhou-se rapidamente entre as pessoas e jornais da região: u ma jovem mendiga havia encontrado e cuidado de uma criança perdida. A criança estava viva e bem, sorrindo inocentemente.
Um homem aproximou-se do corpo. Deu uma fungada no ar, e pela expressão de seu rosto, o cheiro não estava agradável.
— Parece que ela está aqui há um tempo... Tão jovem, e largada na rua desse jeito. Que horror...
— É realmente uma pena... A criança está bem, e será encaminhada para um orfanato, e em breve, vai ganhar uma nova família — Disse uma outra mulher, se aproximando.
E os dois se levantaram, prontos para retirar o corpo daquele lugar, e terminar essa história. Mas antes que isso pudesse ocorrer, um pequeno pedaço de papel caiu do buraco da velha camisa rasgada. O homem o pegou, percebeu que a letra era magnificamente redonda e caprichada, sendo possível ler neste:
“Annie”
— Ei, quer dar um nome para essa aqui? – Perguntou a mulher, com a criança no colo.
— Annie. Deixe que ela herde alguma coisa dessa pessoa magnífica que a salvou.
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