Noite dos Lobos
3 3/5: Através da porta, sobrenatural.

Era uma pessoa completamente desconhecida que começou a arrastar a garota para fora do banheiro aos puxões bruscos e com urgência. Ela resistia, morrendo de medo, mas, no meio do caminho, teve um pequeno momento de lucidez e aceitação, pegou o pote fluorescente de escovas do chão para iluminar seu caminho e, só então, se deixou levar para o corredor escuro.
O monstro rosnou do sombrio andar de baixo. Os dois humanos ouviram os arranhões no piso e na parede quando o animal se levantava do chão.
A moça, encarando o preto completo na direção das escadas, sentia seu pulso pegajoso, onde o rapaz a segurava com força. Logo foi levada para o quarto de hóspedes no fim do corredor. Quando o rapaz passou rápido pela porta do quarto dela, com a luz vinda da janela do cômodo, ela observou que seu salvador era alto como o monstro do qual fugiam, era forte, tinha cabelos compridos e bagunçados e vestia-se com uma camisa preta regata sobre uma regata clara com manchas frescas e úmidas.
Espantada de não reconhecer, ela conseguiu perguntar:
— Quem é você?!
Entraram no quarto escurecido e ele fechou a porta logo atrás deles.
O estranho parou e olhou-a, balançando a cabeça negativamente, indeciso se era mesmo importante ela saber. Então deu atenção à própria mão, confuso com o líquido que escorria constantemente de cortes no antebraço.
Vendo os pingos caindo entre eles, a garota se preocupou e aproximou a luz do pote de escovas para ajudá-lo a ver o que aconteceu:
— É sangue...? — e ela deu um passo para trás, vendo os cortes rasgados apesar da escuridão.
Ele respondeu com um virar de olhos impaciente, pois era óbvio. Cobriu o ferimento com a mão e pressionou.
De repente, um impacto alto contra a porta tremeu a casa e um rugido enraivecido ecoou. O coração da menina disparou novamente, presa no quarto. Já o rapaz correu para empurrar uma cômoda para frente da passagem, enquanto a criatura começava a bater e arranhar a madeira.
— Nossa, ele realmente quer você! — o desconhecido falou irritado depois de terminar seu plano e encarou a garota que tremia assustada. Em seguida, foi atrás de qualquer tecido nas gavetas, achando uma fronha de travesseiro dobrada que enfaixou o braço ferido. — Qual é o seu nome?
A moça estava nervosa demais com os sons de rosnados e grunhidos da criatura tentando derrubar a porta, mas encarou o olhar do rapaz que esperava a resposta. Apesar de o brilho verde do pote de escovas ser a única luminosidade, ela notou que os olhos dele eram claros, os cabelos escuros, pele levemente morena e era jovem, não tão mais velho que ela. De repente, as sobrancelhas dele franziram-se por causa do longo silêncio dela:
— Você é muda?
— Tália! — ela respondeu, junto ao susto do som das cinco garras finalmente atravessando a madeira com um clack pesado.
— E o outro nome? — ele questionou, ainda sem se importar com o oponente fora do quarto, prestes a invadir o cômodo.
— Outro? — Por um momento, ela não entendeu, mas ele assentiu confiante de que sabia que ela tinha um segundo nome. — Porthia?
— Isso! — Ele sorriu e finalmente saiu da frente dela, indo puxar as cortinas da janela e tentando abri-la.
— Caronte! — a voz grutural e rosnada do canino soou pelos furos da ponta. — Entregue-a a mim!
O rapaz congelou, sua expressão ganhou raiva.
— Venha buscá-la! — ele o atiçou, surpreendendo Tália. Com um gesto, chamou-a para perto dele. — Abra logo isso.
— Seu bastardo covarde! Saia daí e lute como deve ser! És mesmo um medroso fujão! Fedes como tua mãe! Posso sentir o cheiro de seu sangue imundo! És tão indigno até mesmo de ser meio... — e a criatura calou-se, ouvindo o móvel sendo removido pelo rapaz.
— NÃO!
Tália gritou ainda tentando segurar ele, mas o rapaz era muito forte e tinha ficado enlouquecido em poucos segundos. Quando ele tirou a barreira, ela se afastou, correndo para a janela e tentando, uma última vez, soltar as travas que não eram abertas há tanto tempo que estavam emperradas.
O lobo não perdeu tempo, escancarou a porta já fragilizada pelos seus arranhados. Sabia da posição de Caronte logo em sua frente e se esquivou de um soco, depois o golpeou no abdômen, conseguindo lançá-lo contra a parede e gerando um estrondoso barulho.
Vendo seu salvador cair no chão imóvel, a esperança de Tália morreu e o medo voltou para seu corpo, esfriando seu cérebro novamente diante do predador feroz.
Caronte ainda foi observado cuidadosamente pelos olhos amarelos da criatura. Notando que ele deixou de reagir de verdade, ele foi na direção da sua presa.
Desesperada, Tália decidiu tentar fugir do cômodo. Correndo o mais rápido que podia, mirou passar pela lateral dele, parado diante da porta. Ela quase conseguiu, mas bastou que ele esticasse o braço grosso e as garras para pegá-la pela cintura, furando sua pele e a fisgando.
O monstro puxou a garota para si, garantindo a captura. A jovem tentou escapar daquele abraço nojento, com cheiro podre e intenso e o toque dos pelos espessos e gordurosos em sua pele mal vestida com o pijama. Com suas forças máximas, ela buscava livrar-se das garras curvas que afundavam em sua carne e doíam intensamente, segurava os gritos de dor, ainda determinada em fugir de qualquer jeito ou morrer tentando.
O lobo envolveu o pescoço dela com o outro braço, fazendo-a ficar mais frustrada e fraca. Aproveitou-se da sensação de dominância que tinha sobre sua vítima, que era tão frágil e inutilmente usava suas últimas forças para tentar se libertar. Finalmente, a garota soltou um grito angustiado e alto, mas sufocado, quando ele aumentou o aperto sobre o pescoço dela e afundou mais suas garras em seu corpo macio. A jovem humana desistiu de impedir que ele rasgasse sua barriga, lutando apenas para não ser asfixiada.
Diante do prazer do sucesso de sua caçada, o monstro se esqueceu do intrometido desmaiado, pensava apenas no que faria com sua presa: evitaria o coração para que a moça ainda visse o que ele podia fazer com ela e tudo estaria fresco por mais tempo. Estava posicionado e pronto para começar a brincadeira de dilaceração que tanto planejou e sonhou em sua vida de lobisomem. Mas:
— Angus! — Gritando o suposto nome do monstro, Caronte ressurgiu na cena, golpeando o animal por trás com uma das gavetas da cômoda.
A madeira se estilhaçou e voou com a força sobrenatural do jovem e a resistência densa da cabeça canina. O impacto e a surpresa fizeram Angus soltar o pescoço da menina, libertando-a. Tália escapou do abraço, se jogando de qualquer jeito para frente e longe de qualquer membro do monstro.
Em seguida, Caronte usou o pedaço da madeira pontuda que restou em sua mão para fincar nas costas do lobo, bem entre as costelas.
O animal rugiu de dor, mas continuou movendo-se como se a madeira não estivesse alojada em seu corpo. Angus virou-se para Caronte, que mantinha a expressão irritada e sustentou seu olhar pronto para a luta voraz. Novamente, os dois se embrenharam trocando golpes.
O jovem era mais rápido, enquanto se esquivava das garras e dentes, cujo conhecia o poder de destruição, sempre buscava jogar Angus contra alguma coisa do quarto que ajudasse a afundar mais a madeira da gaveta na carne de seu inimigo.
A janela com cortinas abertas trazia a luz azulada da lua para o cômodo escuro naquela madrugada. Graças a isso, Tália conseguia assistir algo da briga. A garota havia encontrado um canto para se arrastar e se encolher. Sua fuga das garras do monstro havia lhe causado talhos profundos no abdômen e seu sangue inundava seu short e blusa de dormir, por mais que ela tentasse conter, tremulamente, o fluxo quente.
Aos poucos, toda aquela cena horrorosa foi se afastando dela. O frio foi tomando seu corpo, pelo medo e pela falta de sangue. Seu agitado coração só ajudava na perda e no descontrole. Logo as batidas ressoavam intensamente em seu cérebro, cada vez mais altas, querendo levar sua consciência embora.
O piso do quarto e as cobertas da cama haviam ganhado listras de pingos de sangue negro, que vinham do grande canino ferido. O monstro finalmente pegou Caronte, levantou-o completamente do chão com sua força imensa e o jogou para o outro lado do cômodo. O rapaz bateu contra o armário e parou debruçado no chão, próximo de Tália. Quase inconsciente, ela observou-o se apoiar nos cotovelos de forma lenta. A respiração dele estava rápida e as mechas da franja escura grudavam no suor e no sangue escuro que escorria de algum corte na cabeça. O fim dos dois parecia estar se aproximando finalmente.
Angus aproveitou-se da distância para retirar a madeira de seu corpo, esticando um braço o máximo que podia três vezes. Tendo dificuldades para alcançar o lugar e puxar o objeto.
Eram poucos segundos de descanso, mas Caronte olhou para Tália, avaliando seu estado. Ela estava encolhida do lado de um criado-mudo, mais pálida e com o líquido cintilante acumulando-se em uma poça ao lado dela. Por um momento, a expressão de completa raiva do rapaz se amenizou e se tornou preocupada. Ele se forçou a ficar de pé, sentindo rapidamente alguns ossos doerem, e foi até ela.
— Levante-se! — segurou-a e puxou para cima. Depois, arrastou para fora do cômodo antes que Angus estivesse pronto para atacá-los novamente. Se ela morresse, o objetivo dele iria falhar vergonhosamente.
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