Noite dos Lobos

1 1/5 - Ela, que deveria acreditar.


Notas iniciais
Uma historia de suspense. Boa leitura.

Ele estava escondido no meio dos humanos fantasiados. Ao mesmo tempo em que era uma criatura real, era irreal, porque era o que aparentava. Quem o via não notava a verdade.

No início daquela noite, começou sua faminta busca por aquele que levaria junto pelo caminho de volta para seu esconderijo. Todos passavam por ele sem preocupação. As crianças fantasiadas, os jovens que aprontavam e os adultos que vagavam e vigiavam seus filhos. Eram muitas opções naquela noite, mas ele seguiu até o fim da cidade pequena, observando cuidadosamente e planejando.

E, nessa mesma noite de Halloween, uma garota não saiu de casa. Ela não via graça na comemoração anual, um tanto pelos pais serem descolados demais e passarem aquela data fora de casa, aproveitando as festas noturnas e comida. A moça tinha idade para ficar sozinha e em paz, fingindo que não existia ninguém na casa de sua família, e até imaginava como reagiria se algum engraçadinho quisesse lhe pregar uma peça. A noite dela passou-se tediosa, com o falatório e músicas na rua do bairro, que estavam enfeitadas com lamparinas bruxuleantes, esqueletos, teias de aranha, monstros e abóboras, muitas abóboras com rostos sinistros, espalhados nos jardins e nos telhados.

Não havia humanos que realmente valesse a pena ser caçado. Seu desejo roncava no seu interior, sob o grosso couro de pelo negro. Ele precisava fazer aquilo naquela noite. Era a sua única chance de matar aquela fome especial. As crianças serviriam bem para seu objetivo, mas era outro nível de presa que um dia ia alcançar para não deixar rastros. Então, no momento, decidiu que escolheria um jovem, um meio termo, mas eles eram instáveis e costumavam estar em bando. Os adolescentes que encontrou, ou que mexiam com ele por sua "fantasia" realista, eram tão indignos de seus planos que ele prosseguia em sua caminhada solitária os ignorando.

À meia-noite, a criatura se viu em uma rua sem saída e pouco movimentada de um bairro afastado do centro. Nem notou que andou tanto, pois seguia um grupo de amigos saudáveis e tinha esperança de seguir apenas um, e este seria o seu alvo, mas os três entraram na mesma casa, acabando com seu plano.

O silêncio estava em toda a sua volta, assim como a noite e a lua cheia. Havia perdido tempo, admitiu para si. Mas, nos poucos segundos que ficou parado abaixo de uma árvore seca da calçada, notou uma casa de costas para um bosque e a presença única que nela havia, vinda pelo sutil cheiro no ar. Uma pessoa sozinha, de sangue novo e sem proteção. Era isso que ele procurava.

A garota havia caído no sono, assistindo a uma série pouco inteligente, pois não suportava a temática daquele dia encrustada nos outros canais. A casa toda estava apagada, afinal tinha que parecer que não havia ninguém. Apenas um aquário na sala, com poucos peixes, iluminava um espaço com sua luz azulada.

Subitamente, um cão começou a latir ferozmente na casa de um vizinho, mas o som era abafado e ela não despertou. Sons de arranhados nas paredes ecoaram e poderiam ser os ratos se não fosse o que era. Se não fosse aquilo que arrumava um meio de entrar na casa.

A TV se calou no meio da madrugada, de repente. A garota, deitada no sofá, despertou devagar e confusa, observando a tela negra e o aquário sem luz, tendo apenas o brilho leve do luar que passava pelas cortinas, clareando a sala. Lá fora, os arbustos do terreno balançavam com um vento que se fortalecia. Era um anúncio da chuva que se aproximava, e também significava que seus pais iriam se trancar onde estivessem e dançariam até o novo dia surgir ou o tempo ficar bom.

Suspirando, a jovem voltou a se questionar sobre os aparelhos desligados. Levantou-se devagar e esfregou os olhos, com vista embaçada pelo cochilo. Ela ainda não estava livre da sensação sonolenta, mas caminhou cambaleando pelo corredor e indo para a cozinha, confiante de que conhecia tudo o que havia e que não tinha nada para temer em sua própria casa.

Nas sombras daquele cômodo, justamente posicionado onde ela não iria, ele a observou tão imóvel quanto os móveis. A respiração era controlada, os batimentos em seu peito eram agitados, mas silenciosos, e seus olhos amarelados seguiram a silhueta da jovem em direção ao painel elétrico na parede. Ela acionou as diversas chaves, sem nada acontecer, e desistiu rapidamente de fazer algo com relação à falta de luz, causada por ele antes de entrar na casa.

A visão da jovem tinha pouca luz para compreender algo do caminho e piorou quando entrou no corredor completamente sem iluminação. Nem adiantava pensar no celular, carregando no quarto, ele ainda nem devia ter alguma bateria. Teve que usar o tato, tocando as paredes ásperas, e não deu importância para o véu negro que enxergava, pois isso era tudo, como se estivesse caminhando cega e lentamente pela casa em que vivia há mais de três anos. Nesse momento, ainda acreditava que estava segura, trancada dentro da casa e confiando no mantra que meditava quando o medo lhe soprava um ar frio na nuca: "não há o que temer. Você não é mais uma criança".

Seus passos foram seguidos um por um, ritmicamente. Ele se aproximava mais rápido por ser maior, por ter passos mais abertos, e não tirava os olhos dela.

Ela não olhou para trás quando o sopro frio tentou a avisar novamente. Mas estacionou no meio do corredor, tentando conter os pensamentos e sensações de algo atrás de si. Por um momento, a garota mergulhou nas próprias ideias: acreditou nas lendas e criaturas e refletiu sobre a existência de assombrações e maldições. E, nesse momento, lutou para esquecer o que ela devia acreditar e venceu; abafando aqueles pensamentos que queriam lhe avisar.

A moça se achava forte e cética demais para ficar assustada com coisas que não existiam, até mesmo quando assistia aos filmes de terror, acreditava na falsidade, se apegava ao fato de serem atores e ser um vídeo de simulações. Mas ela devia ao menos se questionar de onde vinham as inspirações para tanto terror exibido nas telonas.

Chegou aos pés das escadas e subiu os degraus rapidamente, como se inconscientemente fugisse do que ainda não tinha percebido.

A chuva começou a cair barulhenta e chiando. Os ventos uivavam e os enfeites que seus pais puseram na fachada da casa batiam nas diversas partes onde estavam. A temperatura caía gradativamente. O silêncio dentro da casa se tornou mais denso.

Ele a observou chegar ao segundo andar. Estava convencido de que seria ela. Entretanto, quando subiu os degraus, as garras dos pés arranhavam a madeira, o impedindo de uma subida rápida e silenciosa. Contudo, ele também não tinha pressa, queria aproveitar cada minuto. Podia ouvir os passos da garota muito bem, sabia onde ela estava apenas pelos sons que chegavam em suas orelhas pontudas e erguidas.

Ela entrou em um dos quartos, escancarando a cortina da janela para ter a ajuda da luz da lua para enxergar as roupas de dentro do armário, se preparando para trocar-se e ir dormir.

Após estar vestida com roupas limpas e perfumadas pelo amaciante, a moça percebeu que o cheiro úmido e térreo não vinha da roupa com a qual se vestia o dia todo. Ela estranhou e resolveu investigar de onde vinha o aroma incômodo. Mas, antes que atravessasse a porta, ouviu um som no piso do corredor e parou de imediato. Seu coração disparou, pois tinha certeza de que não foi ela, e um calafrio subiu da coluna. Permaneceu encarando a escuridão profunda que levava às escadas.

Após alguns minutos de completo silêncio, ela conseguiu pensar que imaginou o som e se xingou, apegando-se à certeza de que havia apenas ela na casa e não tinha por que ter o medo infantil. Reuniu coragem e atravessou o corredor, entrando no banheiro para a higiene rotineira do final do dia.

No silêncio do pequeno cômodo escuro, apenas o pote com as escovas sobre a pia e o estranho assento de privada brilhava fluorescente — seu pai tinha um gosto por coisas assim, eram as peculiaridades dele. Graças à claridade fraca, ela conseguiu enxergar as coisas e escovar os dentes. Não demorou muito, ela ouviu mais que os dentes sendo limpos. Parou no mesmo segundo, com uma pontada aterrorizada no coração. O som do suspiro forte não era dela e estava próximo, do outro lado da porta do banheiro. Porém, sumiu, tornando-se uma provável ilusão da mente cansada dela.

Notas finais
Favorite e acompanhe! Comentem para a continuação dessa short historia de suspense e terror inspirada no halloween. Obs.: estou reescrevendo essa minha original escrita em 2015 - chocada que essa história tem dez anos.