Noite do Caçador
1 Prólogo
Notas iniciais

1280
A visão era como a do próprio purgatório em terra. Não havia uma casa sequer sem a desoladora visão de chamas as consumindo até não restar nada mais que cinzas.
Pessoas morreram. Vidas tiradas sem o mínimo pudor.
Enquanto o comboio avançava pela pequena vila, a menina se derramava em lágrimas. Olhava em volta e seu coração apertava cada vez mais, a cada batida mais descompassado. Era o seu fim. Ela tinha certeza, não havia como adiar aquilo. Pessoas estavam sendo mortas por sua culpa, em uma tentativa patética de livrar-se do destino que lhe fora imposto, não podia deixar que outros morressem em seu lugar, não era certa aquela atitude.
Escondeu-se atrás do poço enquanto o pequeno exército de seguidores e seu chefe passavam deixando um rastro fúria palpável.
Respirou fundo e organizou seus pensamentos. Tantas coisas passaram por sua cabeça.
Uma vida inteira pela frente que não teria. O desejo de se tornar médica curandeira mesmo que isso fosse inaceitável, quase um crime, para uma mulher. A paixão secreta, a qual agora sabia que nunca vivenciaria, pois, não tivera a oportunidade de insinuar-se sutilmente. O desejo de construir uma família que nem a sua: um casal que se amava acima de qualquer coisa e dois filhos.
Mas ela precisava se sacrificar. Era prioridade salvar a vida de todos que amava, de seus pais e de seu irmão que acabara de completar um ano. Salvar a vida de todos aqueles que agora choravam em agonia a perda de seus bens ou entes queridos, que não mereciam sofrer nas mãos de criaturas cruéis.
Cerrou os punhos e com um ultimo suspiro andou lentamente pelo chão de terra batido, seu longo e puído vestido de veludo azul arrastando pelo chão levantando uma leve nuvem de poeira atrás de si.
Parou no meio da estrada principal e encarou com o olhar gélido a carruagem negra a sua frente.
– Vladimir! – Exclamou a menina.
No mesmo instante em que sua voz ecoou a impressão que teve foi a de que o tempo congelou.
Os homens pararam de destruir tudo a sua frente, os cavalos interromperam sua lenta marcha, a imponente carruagem ficou estática, quase totalmente escondida nas sombras, visível apenas pelas formas alaranjadas do fogo refletidas pelo impecável brilho lustroso da madeira.
Os choros cessaram, os gritos abafados. Todos só tinham olhar para aquela cena, uns por curiosidade e outros na esperança de que aquele fosse o desfecho de todo aquele sofrimento infernal, e as criaturas atentas para qualquer ordem de seu mestre.
Um silêncio sepulcral se instalou interrompido somente pelo estalo da madeira ardendo nas chamas.
A menina olhava fixamente para a carruagem. Quando colocasse os pés dentro daquele veículo sua vida chegaria ao fim.
Seu corpo estremeceu, uma sensação gélida percorreu sua espinha.
Não podia enxergá-lo, mas tinha completa certeza de que carregava um leve sorriso em seu rosto.
O cocheiro desceu de seu assento e abriu a porta do imenso caixote preto.
O olhar da menina se estreitou e emitiu toda fúria contida dentro de seu corpo.
Exibicionista, Vladimir olhou a sua volta sorrindo, em um imenso deleite com a paisagem a sua volta. Após um longo minuto voltou o olhar para seu objeto de desejo. O sorriso em seu rosto alargou. Abriu os braços em um gesto como quem espera receber um abraço. Ao notar que não teria recepção alguma, andou lentamente em direção à menina, mantendo sua pose até estar a poucos passos dela.
– Annya, minha querida. – Disse num tom de voz alegre, seu hálito pesado disfarçado com ervas bateu no rosto da menina que ainda não esboçava reação alguma.
Vladimir baixou os braços e soltou uma curta risada.
– Seu comportamento não é apropriado para a futura Rainha. – Ele a rodeava como um abutre.
Annya olhou de esguelha para o lado oposto a Vladimir. Entre alguns dos servos encontravam-se seus pais, ajoelhados no chão, assistindo com lágrimas pesadas deslizando pelo rosto o destino de sua filha ser selado. Seu pequeno irmão estava no colo de uma mulher loira que nunca tinha visto, ela olhava sorridente para o pequeno bebê. Seu corpo enrijeceu ao perceber o olhar brilhante e faminto que ela dirigia ao menor e as presas, já amostra.
Deixou uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto, ela não iria deixar sua família morrer.
– Vamos acabar logo com isso, por favor – Disse num tom de voz baixo e firme. – Irei com você, serei sua, como desejar. Mas eu lhe imploro, não machuque minha família, não machuque a mais ninguém, você já causou destruição demais.
– Como desejar.
O homem estendeu o braço a frente convidando a menina a se dirigir para a carruagem. Seguiu o trajeto a passos firmes com Vladimir logo atrás. Tentava conter boa parte das lágrimas, que em parte eram de tristeza e em parte de alívio, pois sabia que a partir do momento em que aceitara submeter-se àquele homem, salvara a todos que amava.
Subiu no veículo e deixou o corpo afundar no assento de veludo vermelho-sangue. Vladimir sentou-se ao seu lado.
– Agora você será só minha. – Disse deslizando a ponta de seus dedos gélidos pela bochecha e lábios de Annya que continuou estática. Ele passou os braços em volta do corpo dela, o sorriso vitorioso estampado no rosto.
Em pouco tempo estavam em movimento em meio à estrada para longe dali.
– Matem todos. – Vladimir pronunciou como um sussurro, mas não precisava gritar as ordens para que seus servos o escutassem, sabia que ainda estava perto o suficiente para que fosse escutado.
Annya se derramou em lágrimas.
Ao longe escutou o grito agudo de sua mãe e o choro rouco de seu irmão, em seguida tudo caiu em silêncio novamente.
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