Noite do Caçador
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Após uma turbulenta tarde de consultas, Anna subiu os andares até seu apartamento pensando somente em tomar um banho bem quente e tomar grandes doses de seus suprimentos ao ponto de ficar cheia o suficiente para estar tonta e ligeiramente dopada, quem sabe assim conseguiria esquecer por algumas horas todo o furacão que estava vindo em sua direção. Ao abrir a porta, deparou-se com uma menina de cabelos azuis sentada em seu sofá assistindo a algum filme aleatório na televisão.
— Charlotte?
A menina se virou e abriu um enorme sorriso.
— Olá! Pensei que chegaria só mais tarde.
— Iria, mas o ultimo paciente não pôde comparecer. O que você fez com seu cabelo?
— Pintei. — respondeu simplesmente — Não aguentava mais pessoas vendo meu fantasma pra lá e pra cá, mudei o estilo e o visual pra ver se assim eu passo despercebida.
A menina levantou-se do sofá e rodou em torno de si para mostrar sua roupa. Trajava um jeans preto com alguns rasgões, coturno e jaquetas vermelhos e uma camisa branca, além de várias pulseiras e cordões de prata.
— E aí? Gostou? — disse com um enorme sorriso no rosto.
— Claro, você está linda! E está bem disfarçada, o que é o principal.
— Ótimo! – declarou a menina, batendo palmas. Anna sorriu.
— Esse novo visual lhe caiu bem, e parece que levantou seu animo também!
— Sim! Ai, nada como um bom banho de loja! Eu peguei um dinheiro que achei em uma caixinha aqui na estante da sala. Por falar nisso, não se preocupe, já consegui um bico na loja de artigos pra cabelo da Quinta Avenida, parece que eles se encantaram com meu conhecimento capilar e estavam precisando de funcionários. — As duas riram. — Além disso nada que um empurrãozinho não ajude. — Disse arqueando as sobrancelhas e dando de ombros.
— Parece que você também é daquelas que não tem restrição quanto ao uso de seus dons – Ana declarou levemente decepcionada, mas não podia fazer nada quanto a isso, quem jurou se reprimir fora ela mesma não os outros a sua volta — Agora se me der licença, eu preciso pôr algumas coisas em ordem. — disse por fim e caminhou o corredor em direção aos seus aposentos.
Após algumas horas, já havia se organizado para o dia seguinte: arrumou a pasta dos pacientes de sexta feira, escreveu os relatórios e diagnósticos pendentes e os colocara em outra pasta em cima da anterior. Além de ter arrumado a bolsa térmica nova com mais suprimentos que o habitual, pois iria sair com Moira e uma amiga mortal dela. Estava separando uns últimos papéis quando escutou batidas na porta do escritório, levantou o olhar e logo em seguida viu Charlotte adentrar o cômodo.
— Só queria te avisar que vou sair para caçar, tem algum problema?
— Nenhum, se já está se sentindo bem o suficiente para caçar então vá, sangue fresco irá ajudar na sua recuperação. – disse com um sorriso educado no rosto.
— Tudo bem então, até logo. – dito isso Charlotte, se retirou fechando a porta atrás de si.
Anna pegou a ficha e o envelope de Cameron juntamente com um bloco e canetas para fazer anotações necessárias e sentou-se na confortável poltrona de seu escritório e largou os papéis em cima da mesa de mogno.
Resolveu primeiro começar pelas fichas da polícia e diagnósticos médicos para ter uma visão mais ampla e geral de com quem estava lidando.
— Cameron Walker, vinte e seis anos, originário de Nova Orleans, acusado por homicídio doloso de seu pai — Dizia em voz baixa para si mesma, enquanto passava um marca texto amarelo nas partes importantes. — Não foi diagnosticado com doença mental através de exames, perfeitamente lúcido e saudável, porém apresenta uma versão fantasiosa para o assassinato de eu pai.
Anna largou de lado os papéis oficiais e pegou o envelope de Cameron retirando as folhas de papel que haviam em seu interior, enquanto gargalhava levemente.
– Se não tem doença mental alguma, sem dúvidas ele é burro! Seria muito mais fácil ajuda-lo a se livrar de ser preso se os fizessem acreditar que suas alucinações são verdadeiras, alegar histórias fantasiosas não tendo problemas, é certo que vai ser preso. Vejamos o que temos aqui. — Começou a ler o conteúdo o papel atentamente, seu lábio se crispou em um pequeno bico e tamborilava cada vez mais rápido os dedos na madeira da mesa a cada palavra que lia e absorvia. — Meu nome é Cameron Walker, tenho vinte e seis anos e nasci em uma pequena cidade em Nova Orleans...
... Meu pai era dono de uma fazenda, criávamos gado e algumas galinhas as quais vendíamos os ovos. Tínhamos muitas posses: dinheiro para esbanjar, terras, negócios. Fruto de heranças de nossos antepassados.
Um belo dia, enquanto os funcionários escavavam alguns poços para construir um sistema de irrigação, creio eu, para o novo investimento no plantio de tubérculos, foi encontrado petróleo em nosso terreno. Daí por diante nada mais importava. Todas as atividades anteriores foram abandonadas e meu pai dedicou-se somente a este novo e milionário negócio. Ele se tornou cada vez mais uma figura ausente, sua única preocupação era produzir petróleo para gerar montanhas incontáveis de dólares.
Tanto eu quanto minha mãe nos sentíamos cada dia mais abandonados. Eu nunca mais fui levado para passear em nossos vastos campos verdes e minha mãe não se sentia mais esposa, mas sim viúva.
Não sei dizer bem quando, até porque na época eu era uma criança e só vim a descobrir este fato mais tarde, minha mãe conheceu um homem e passou então a ter um caso extraconjugal. Mais ou menos na época em que isso começou, lembro que eu percebia que minha mãe estava mais feliz, alegre e vaidosa... Tinha voltado a ser a bela mulher de antes. Em meio a tanto carinho e sorrisos, passamos a não sentir mais falta de meu pai. Passado um tempo, acredito que uns meses, minha mãe passou a definhar lentamente: emagreceu muito, ficou pálida, fraca... Até o dia em que faleceu.
Também só descobri esse fato anos depois quando, depois de nos mudarmos para um apartamento luxuoso na cidade grande, eu fui perguntar ao meu pai onde ela estava, pois todos os móveis restantes haviam chegado, exceto ela. Fiquei desolado quando ele me disse que ela havia morrido, foi aí quando me senti completamente sozinho e que percebi que só podia contar comigo mesmo, já que meu pai continuava a dar atenção somente aos seus preciosos barris.
Meu pai ficou bravo com a morte de mamãe, tudo que sabia dizer era “Eu vou vinga-la! Eu vou vinga-la, vou matar o desgraçado que queria a transformar em um monstro”. Desde então passei a ver nos olhos do meu pai o que hoje sei que se chama brilho doentio. Eu tinha o perdido não só para o dinheiro, mas também para a loucura. Também passei anos sem saber quem era esse monstro a quem meu pai se referia.
Nas semanas seguintes a que nos mudamos, no meio de uma das noites, percebi uma movimentação no apartamento e o barulho da porta da frente sendo fechada. Levantei de minha cama e fui até a janela. Vi a figura de meu pai caminhar em direção ao lado mais escuro e abandonado da cidade com um pedaço de madeira em mãos. Assim que acordei de manhã, procurei por Soledad para tomar o café e a encontrei esfregando avidamente uma peça de roupa que reconheci como sendo a de meu pai. Haviam manchas de sangue nela.
Depois deste acontecimento tudo voltou ao normal: meu pai voltou a ser o mesmo homem de negócios de antes e eu passei ser criado entre os cuidados Soledad e sob o que me ofereciam as ruas da cidade. Com o passar dos anos aprendi a me virar bem sozinho. A empregada que já era idosa se aposentou e então resolvi que era hora de morar sozinho.
Um dia, muitos anos depois, quando estava visitando meu pai, achei uma caixa de papelão velha onde mamãe costumava guardar suas lembranças mais valiosas. Passei horas imerso suas lembranças. Achei então uma outra caixa parecida com a primeira, porém eram coisas de meu pai que encontrei ali dentro. Entre elas estava um pequeno caderno, que ao abrir descobrir ser um diário. Sei que era errado, porém devorei cada página, descobrindo assim quem era o monstro com quem minha mãe se envolveu, porque ele saiu naquele dia no meio da noite e a consequência que aquele fato trouxe e o pior era que ali havia a confissão de que fora meu próprio pai quem tinha matado minha mãe. Qualquer sentimento que ainda nutria por aquele homem que um dia fora meu pai foram destruídos ao ler as ultimas palavras daquelas páginas.
Quando liguei os pontos, não fiquei de todo surpreso com o que meu ai era: já estava acostumado com a ausência dele, então não liguei quando passei a vê-lo ainda menos, de qualquer jeito vivia mais nas ruas e na casa de amigos que em minha própria. Mas por nunca ter acreditado em tais criaturas, nunca me passou pela cabeça que eu estava convivendo com uma aquele tempo todo. Pior ainda era saber que ele havia destruído a vida de minha mãe por odiar o que ela viria se tornar e ele acabou por ser.
Ele privou a vida de uma pessoa por puro ódio, rancor e um ego ferido. Porém ao tornar-se o que abominava, amou os benefícios que tal condição trazia.
Fiquei tão cego de ódio que pelo mesmo motivo de meu pai, por nutrir o mesmo rancor antigo por tais criaturas que me arrancaram, por duas vezes, pessoas importantes em minha vida. Por não aceitar que meu pai pôde continuar aproveitando a vida eu a tirei dele... Se é que se podia chamar isso de vida...
Anna largou os papéis em cima da mesa, boquiaberta. Agora entendia porque Cameron não admitia que sua história fantasiosa fosse uma farsa. Negar tal fato seria como se ela mesma negasse sua própria existência. Ele estava falando a verdade, porém nenhum ser humano acreditaria em suas palavras. Os que não haviam se tornado nessas criaturas das sombras, estavam mortos.
Sentiu sua garganta se fechando e uma sensação extremamente desconfortável invadir seu corpo.
“Ele odeia as criaturas como eu, se ele descobrir quem sou é possível que me cace como fez com o próprio pai” pensou Anna, pesarosa.
Levantou-se em um rompante e foi até a geladeira onde pegou um de seus suprimentos. Os primeiros goles aplacaram a urgente ardência e aliviaram o aperto na garganta, porém não sentia o efeito entorpecente desejado, ainda sentia a gengiva formigando e o corpo tenso. Com raiva, arremessou o saquinho que, ao bater contra a parede, espirrou seu conteúdo em jatos para variadas direções, pintando a cozinha branca em tons escarlate.
— Já não basta Vladimir vindo para cá, agora tenho que analisar um louco que odeia vampiros. — riu de tão incrédula que estava. Passou os dedos entre o cabelo e apoiou-se na bancada respirando fundo. — Parece que esse poço em que mergulhei setecentos anos atrás não tem fundo, sempre tem um jeito de ficar cada vez pior.
Fechou os olhos e tentou esvaziar a mente, precisava pensar em um problema de cada vez e iria começar pelo menor deles e menos trabalhoso. Concentrou-se no que iria fazer quanto a Cameron. Uma linha de expressão marcou sua testa franzida, enquanto pensava em todas as palavras e ações que usaria para livrar-se da presença do homem em seu caminho.
Seu corpo então se retesou repentinamente. Prendeu a respiração e sentiu o incomodo em sua gengiva intensificar-se novamente. Abriu os olhos e ergueu o corpo enquanto olhava ao redor.
Ela não estava sozinha. Havia mais alguém em seu apartamento...
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