Noite do Caçador
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Algo estava sendo arrastado, podia escutar mesmo à distância. Apurou os ouvidos, concentrando-se naquele ruído. Conseguiu discernir o barulho de passos e o deslizar de algo úmido sobre o concreto. Aos poucos o som foi ficando mais próximo e mais alto. A inquietação dominou seu corpo, queria descobrir o que era aquilo, queria se ver livre daquele lugar abafado, obter as respostas para suas perguntas com os próprios olhos.
O local a enlouquecia, as paredes estavam descascando e rachadas, sujas de sangue e lodo. Não havia móveis ou uma janela sequer, portanto não sabia dizer ao certo há quanto tempo estava ali, muito menos se era dia ou noite. Não se lembrava de nada, só acordou já trancafiada naquele espaço. Mas, assim como ela, os outros estavam na mesma condição. Sentia a presença deles, ouvia os seus resmungos, por vezes desconexos. Queria gritar, derrubar a parede a socos, arrombar aquela porta e fugir... Qualquer coisa era melhor que a prisão em que se encontrava. Porém quem se rebelava era punido severamente. Tinha escutado a bronca, seguida de tortura, de um dos cativos, duas celas à frente.
— Estão assim para aprenderem a se comportar e a obedecer nossos comandos. — diziam eles, sempre que alguém os confrontava.
Eles os compravam, forneciam sangue caso lhes servissem sem questionamentos. Aceitavam sem pensar duas vezes, pois tomar a vida de alguém era tudo que seus corpos pediam, só em que pensavam. Eram movidos pela doce recompensa. Não passavam de criaturas irracionais, movidos por instintos. Até mesmo sua aparência era inumana. De pele cinzenta e grossa, unhas em formato de garras altamente cortantes, olhos vermelhos como sangue e dentes afiados. Apesar do corpo esguio, eram extremamente fortes. O que os diferenciava eram alguns traços restantes da vida humana: a cor do cabelo e as linhas do rosto e o sexo.
Os passos cessaram a frente da sua porta. Os sons das travas sendo abertas eram como estrondos em seus ouvidos, tudo ali era feito de modo a atordoa-los. O cheiro do sangue invadiu suas narinas assim que seus olhos recaíram sobre a figura desacordada que fora trazida até ali. Sentiu as veias arderem, a visão turvar, o corpo tremer... Estava sedenta, a necessidade de cada gota daquele líquido escarlate provocava um dor excruciante. Suas presas já estavam amostra, se aproximava feito um animal: abaixada, movendo-se com as mãos e os pés, como uma onça que se prepara para dar o bote, o olhar concentrado no homem inerte. Assim que o corpo foi jogado para dentro da cela, não perdeu tempo em abocanhar a carne, bebendo avidamente, quase em desespero, sentindo cada gota quente descer por sua garganta, aliviando aos poucos a ardência da abstinência.
— Para quem não queria ser um monstro, você está bem engajada com a sua nova condição. — a voz do vampiro soou em seus ouvidos, debochada, sedutora e afiada.
Um rugido bestial foi tudo que ela emitiu em resposta, junto a um olhar cheio de fúria. Não sabia ao certo porque, mas não tinha simpatia alguma pela figura a sua frente. Sentia que já o tinha visto antes, mas toda vez que tentava lembrar-se de onde sua cabeça doía. Todas as lembranças humanas estavam turvas e inacessíveis, vez ou outra, flashes passavam por sua mente. Segurava-se a eles, tentando recuperar a sanidade e a memória, mas era tudo em vão. Os sentidos aguçados e a vontade incontrolável de sangue e violência eram mais fortes, arrastavam para o fundo de sua consciência quaisquer pensamentos ou impulsos diferentes, em pouco tempo não conseguia lembrar-se de mais nada.
Estava programada para matar.
— Calma! Não precisa ficar irritada! — ele riu, estava se divertindo com aquela situação. — Se soubesse que era tão feroz assim teria te recrutado há mais tempo, Thalia.
Thalia... Então era assim que se chamava. Parou alguns segundos, tentando guardar a informação repetindo mentalmente o nome, para então retornar a se alimentar. Sentia o coração de sua presa bater cada vez mais lento, enquanto o corpo dela se agitava.
Estremeceu e arfou, o prazer de saciar a sede era o que a controlava no momento, mas ainda queria mais. Guinchou quando o vampiro puxou o corpo de suas mãos, jogando-o porta afora, no meio do corredor, com um baque surdo. Projetou o corpo para frente, movendo-se para buscar de volta seu alimento, mas as mãos de seu carcereiro a seguraram, atirando-a contra a parede.
— Nunca beba depois que o coração parar de bater. A menos que queira ficar fraca. — disse em tom enérgico, a encarando.
Thalia somente fez se encolher contra a parede como um bicho acuado, assentindo. Seu instinto mandava ataca-lo, passar por cima de suas ordens e saciar sua sede por completo, mas sabia que se o desrespeitasse sofreria consequências, provavelmente um jejum como o que estava até alguns minutos antes, ou até mesmo coisa pior. Eles não tinham limites.
— Sabe, quase senti pena de você. Por bem pouco não a deixei partir. Seu coração destroçado quando eu ordenei que desmembrassem sua mãe, foi realmente uma cena muito tocante. Ver seu choro desesperado ao som da carne sendo dilacerada... — um sorriso gentil estava estampado nos lábios dele. Abaixou-se a frente de Thalia, afagando os seus cabelos loiros. — Porém confesso que fiquei mais tocado ainda por sua promessa. “Eu vou me vingar”, foram suas ultimas palavras. Estou ansioso por esse dia. — ele levantou-se caminhando em direção à porta.
Ela o encarou, finalmente reconhecendo-o. A fúria tomou conta de seu corpo. As imagens e sons daquele dia ecoando em sua cabeça. Cerrou os punhos e trincou os dentes.
— Luke... — ela sussurrou, o fio de voz carregado de nojo.
Investiu contra ele, o punho preparado para desferir um soco contra o rosto dissimulado do vampiro, porém tudo que sua mão encontrou foi o metal frio da porta fechada. Ele fora mais rápido que ela, recolocando a barreira que os separava. Podia escutar a risada dele do outro lado, o que só a irritou ainda mais. Gritou e esmurrou a porta por longos minutos, porém já estava sozinha novamente. Trancafiada na pequena cela junto com as imagens horrendas de seus últimos minutos de vida sendo projetados em infinita repetição nas paredes.
***
Exibia um sorriso divertido no rosto. Estava se divertindo com os resmungos de dor e os profundos e extensos machucados da pessoa ao chão. Desferia um, dois, três chutes contra o rosto e barriga. Porém a brincadeira tinha a muito perdido a graça, quando sua vítima tornou-se incapaz de gritar ou disparar insultos. Agora descontava somente a raiva que sentia por cada palavra direcionada a ela.
— Calma, Eve. Não quer matar minha pequena fonte de diversão, quer?
— Já está morta de qualquer jeito. — respondeu, dando um ultimo chute no queixo da mulher ao chão. Pode se escutar um sonoro estalo de algo se partindo, e então a cabeça pendeu em um ângulo inumano, olhar dela ficou vago. O pescoço tinha se quebrado. — E você é cheio de pequenas distrações, essa aqui não lhe fará falta, Luke.
— Ah, mas essa era a minha favorita... O seu sangue era doce e ela sabia me satisfazer de todas as formas. — aproximou-se de Eveline com um sorriso largo no rosto, passando o braço à volta da cintura fina e a puxando mais para perto. — Porém compreendo que nossa querida regente não iria deixar por menos as ofensas de uma mera humana. — sussurrou no seu tom mais educado e encantador, segurando a mão da vampira e levando-a aos lábios, dando um leve beijo.
—Oh, por favor! Qualquer uma que tenha um rostinho bonito e algo para oferecer entre as pernas o satisfaz. — se afastou bruscamente dos braços de Luke, bufando irritada. Ela odiava ser lembrada de que era apenas uma substituta e ele adorava lembra-la disso a cada segundo, sempre que era possível referindo-se a ela por seu título. — Ela só ganhou o que estava pedindo desde o início.
— Sempre tão generosa, dando ao povo o que eles clamam. A coroa lhe cai bem, pena que seja algo temporário. — ele sentou-se em uma cadeira de madeira escura. A encarava com o olhar cerrado e o esboço de um sorriso debochado nos lábios.
— É aí que se engana, meu querido. Ninguém fica em meu caminho, muito menos uma vampira covarde. — disparou entredentes, fuzilando-o com o olhar.
— Me engano? Se o Mestre descobrir seus planos para dar fim a Rainha dele, a próxima a ter o pescoço quebrado será você. — apontou com um gesto de cabeça para o corpo inerte no chão. Ela já estava perdendo a calma, era tão fácil irrita-la. E isso o divertia imensamente. — Bem, talvez quem sabe o inferno não esteja precisando de uma Rainha Regente, não é mesmo? — ele ria, observando-a se aproximar.
— Você é...
— Com sua licença, o Mestre requisita a presença de vocês imediatamente. — disse um vampiro que adentrou o local, interrompendo Eveline. Ela olhou irritada para o homem de pele escura, e dele para Luke. Saiu bufando com passos pesados em direção ao grande salão, com os outros dois logo atrás.
Adentraram um grande galpão, que fora decorado com móveis e tecidos caros. Ao fundo um tablado era encimado por um cadeirão de madeira escura e assento de veludo negro. Nele encontrava-se sentado Vladimir.
O serviçal marchou até uma perfeita fila composta de outros vampiros que, assim como ele, trajavam longas capas negras com capuzes a esconder seus rostos nas sombras, colocando-se em seu lugar com uma postura perfeita. As criaturas da noite ladeavam um extenso tapete de cor carmesim que se estendia desde a entrada do galpão até o local onde estava o soberano.
Assim que seu líder fez menção em se levantar, os vampiros joelharam-se sobre a perna direita e baixaram a cabeça em perfeita sincronia e silêncio. Eveline e Luke curvaram-se levemente em reverencia.
— Aproximem-se. — a voz de Vladimir ecoou pelo local, grossa e sonora como um trovão.
Só então que os dois vampiros voltaram a manter a postura elegante e caminharam ritmadamente sobre o tapete até chegarem próximos ao trono.
— Mestre. — disseram em uníssono, novamente prestando uma reverencia.
– — Espero que tenham aproveitado a estadia neste país. — disse com um sorriso no rosto que logo se desmanchou, dando lugar a um semblante sério e imponente e então ordenou: — Organizem a movimentação para Portugal, de lá irão partir imediatamente para os Estados Unidos. Encontrarei com vocês lá.
— Mas, não irá conosco? — a surpresa estava estampada no rosto de Eveline, não conseguia esconder o desgosto em ser deixada para trás.
— Não. Pensei que minhas palavras tivessem sido claras. Tenho assuntos a tratar, sem mais perguntas.
Antes que a morena pudesse rebater, ele desceu do tablado e pôs-se a caminhar de volta por onde antes os outros tinham entrado, logo desaparecendo porta afora. Os vampiros por fim levantaram e retiraram-se em fila dupla por uma porta lateral, em uma lenta procissão de mantos escuros, deixando para trás Luke e Eveline que trocavam olhares confusos e irritados.
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