Noite do Caçador
3 Capítulo 2
Notas iniciais

Madrugada de quinta-feira, 29 de março, 02:15 – Espanha
A loira largou seu turno em um bar de beira de estrada.
O tempo estava congelante e nem o pesado casaco de couro conseguiu aquecê-la. Abraçou seu próprio corpo e acelerou o passo na longa caminhada até sua casa.
Detestava aquela vida: bêbados se atirando para cima dela, o cheiro nauseante de suor, bebidas e cigarro, a roupa nada descente que era obrigada a vestir e o pior de tudo era que a hora que saía do trabalho já não circulavam mais ônibus. Tinha que andar todos os dias mais de três quilômetros a pé.
Aquela noite, em particular, estava mais fria e escura que de costume. O maxilar da mulher tremia por causa da temperatura desconfortavelmente baixa.
Após longos minutos de caminhada ela se encontrava na mais completa escuridão. A sua frente já podia ver ao longe os pequenos pontos luminosos no fim da estrada, atrás de si não era mais visível o bar. Tudo o que tinha para guia-la era a tênue luz da lua.
Cada metro que ficava mais perto da cidade sua mente ficava mais leve. Logo estaria no conforto de sua casa, tomando um longo banho quente, assistindo um filme na TV junto de sua mãe e o dia seguinte de estudos para tentar uma vaga na universidade, até o cair da noite quando teria que voltar para o inferno em que trabalhava.
Perdida em devaneios sobre planos futuros e presentes acabou ficando alheia a tudo a seu redor. Foi puxada bruscamente de volta a realidade ao ouvir o som de galhos sendo quebrados em meio a mata que ladeava a estrada. Sabia que muitos animais habitam aquela área, inclusive alguns perigosos.
Acelerou o ritmo da caminhada evitando ao máximo fazer barulho com os saltos contra o asfalto. Tudo o que queria era distanciar-se dali sem ser notada.
Quando seu coração estava quase batendo completamente aliviado, seu corpo se retesou novamente.
Mais uma vez escutou o barulho de algo se movimentando em meio à mata, dessa vez a sua frente.
Ficou estática, queria tomar alguma atitude, mas não conseguia se mover por causa da incerteza. Seria o mesmo animal à frente ou estaria encurralada entre dois deles?
O pânico começou a se apoderar do corpo da loira, estava completamente vulnerável, não tinha nada que pudesse usar para se defender e sabia com toda certeza que um salto agulha não adiantaria de muita coisa.
Antes que pudesse voltar a raciocinar corretamente, o som baixo de uma risada cortou o ar gélido. Lentamente mais vozes se uniram à primeira, criando um coro de risadas amedrontadoras.
A menina sentiu como se cubos de gelo percorressem sua coluna, sentia-se como uma presa indefesa prestes a ser estraçalhada por tigres famintos. Não conteve as lágrimas, ao perceber que eram vozes humanas, sabia que sua vida chegara ao fim. Eram eles.
– Não há nada a temer minha querida. Todos nós já sabemos o fim do ato. – disse uma voz masculina. O dono da voz lentamente saiu das sombras andando em direção a ela.
– Me deixem em paz! – ela gritou com a voz falhando.
– Thalia – pronunciou o nome dela com certo carinho, apoiou o polegar e o indicador no queixo da mulher e levantou o rosto dela para que pudesse encará-la. A mesma estremeceu ao toque gélido. – Não vou te fazer mal. Venha comigo.
Por alguns segundos ela ficou sem reação alguma. Não era necessário olhar no fundo dos olhos azuis para ser hipnotizada, a visão geral já era de desarmar completamente qualquer pessoa.
Lutou para recuperar os sentidos. Ele só estava jogando com ela e estava vencendo.
– Não. – foi tudo que conseguiu dizer.
O homem a sua frente abriu um sorriso torto, os olhos brilhando. Se a situação fosse outra com a mais absoluta certeza já teria se jogado em seus braços. Entretanto, se fizesse isso estaria selando a própria morte. Ele era um caçador, seu dom era a beleza e a sedução, o que era mais que suficiente para alcançar seu objetivo.
– Eu não vou aceitar um não como resposta. – disse no mesmo tom carinhoso de antes, mas a ameaça em suas palavras era perceptível.
Thalia olhou rapidamente ao redor. Tinha que arrumar um jeito de escapar dali.
Em um ato desesperado pôs-se a correr o máximo que aguentava, os saltos não ajudavam muito, mas se parasse para tirá-los eles a pegariam. Desejou nesse momento ter feito como sempre costumava e estar descalça.
Seus pés latejavam, o ar parecia cada instante mais e mais rarefeito.
Alguns metros atrás o homem ria da patética tentativa da loira.
– Peguem-na. – Ordenou.
No segundo seguinte, Thalia se encontrava desacordada, o rosto contra o asfalto frio. Arrastaram a mulher alguns metros até onde um carro preto esperava por eles. Jogaram o corpo inerte no porta-malas e dirigiram em alta velocidade estrada adentro.
Quase uma hora depois o veículo entrou no terreno de uma fábrica abandonada.
Pegaram Thalia – que estava murmurando coisas incoerentes – e levaram para dentro de um enorme galpão.
– Acorde minha querida. – o homem sussurrava levemente no ouvido dela.
Ainda com a cabeça rodando a mulher foi recuperando a consciência.
– Bem vinda. – Ele lançava um sorriso diabólico e sedutor.
– Me deixem ir pra casa! – Ela tentava gritar e se debater, mas ainda estava desorientada demais para tal coisa.
– Não, temos planos maiores para você. – Ele disse com a voz baixa, roçando levemente o dedão nos lábios carnudos de Thalia. – Tragam-na.
O homem começou a andar a sua frente enquanto dois outros a carregavam logo atrás. Ao fim do corredor, ele abriu uma porta que dava para um espaço amplo que fora visivelmente decorado para se tornar o esconderijo do bando.
– Eveline! – ele disse abrindo os braços numa saudação.
Thalia tentou olhar por cima do ombro dele.
Na outra ponta da enorme tapeçaria vermelho sangue que estava estendida sob seus pés, se encontrava uma enorme poltrona de couro preto, na qual uma jovem aparentemente da idade humana de Thalia estava sentada.
A mulher levantou o olhar assim que ouviu seu nome ser pronunciado e um largo sorriso brotou ao perceber quem se aproximava.
– Luke! Como sempre concluiu seu objeto. – Disse com alegria.
– Não faço mais que a minha obrigação – Respondeu. Ele ajoelhou-se na frente da mulher e beijou sua mão antes de tomar seu posto ao lado esquerdo dela.
– Ora, vejam se não é a famosa Thalia. Ouvi falar muito sobre você. – Disse num tom casual.
A menina estava sem reação, ajoelhada no chão como se pedisse por piedade, não conseguia conter as lágrimas salgadas de escorrerem por seu rosto, não conseguiria escapar, não adiantaria nem tentar. Olhar para Eveline era o mesmo que olhar o resultado de um erro ao jogar vídeo game. Tudo que se via era um grande e chamativo “Fim de jogo”.
– Vamos ao que interessa. – ela disse ajoelhando em frente à figura debilitada de Thalia. – Você vai se juntar a nós.
– Não! – respondeu num fio de voz.
– Você é uma menina esperta. Não quer ter o mesmo destino de seu pai, quer? — Eveline riu ao ver que estava destruindo emocionalmente as barreiras da loira.
O pai de Thalia era caçador. Morreu quando estava dando uma volta com a filha no parque à noite. Foram atacados e para proteger sua pequena e única filha ele deixara que estraçalhassem seu corpo em pedaços exangues.
Até hoje a imagem grotesca fica assombrando a cabeça de Thalia em seus sonhos.
– Vamos, só precisa dizer que sim. Seria uma pena ter que jogá-la aos novatos. – Dizia Eveline, a voz doce e ameaçadora.
– Me deixem ir, por favor. – A menina implorava, soluçando de tanto chorar.
– Não, ou aceita ou sua vida vai ser destruída aqui. – retrucou rudemente, a paciência quase se esgotando.
– Então me matem! Não vou me tornar uma criatura suja! – Thalia gritou desesperada.
Eveline limitou-se a gargalhar.
– Eu não estava falando em matar você, minha querida.
A mulher fez sinal com a mão e poucos segundos depois os mesmos homens que carregaram Thalia até ali entraram na sala carregando uma senhora em seus braços.
– Mãe!
– Se torne uma de nós ou sua querida mãezinha vai sentir a mesma dor que seu pai.
A morena encarava Thalia, seus olhos de um tom castanho escuro foram para um tom vermelho intenso.
– Eu aceito.
– Ótimo! – Eveline disse batendo palmas. – Podem amarrá-la. E Luke, transforme-a, sim?
Dito isso a mulher foi andando em direção à outra porta lateral e pouco depois desapareceu de vista.
Thalia a essa altura já estava completamente atada a uma cadeira de frente para sua mãe.
– Prometo que vou fazer isso ser rápido. – A voz macia de Luke surgiu sussurrada em seus ouvidos. – Matem a mulher! – ele ordenou.
A loira gritou em agonia. Sua mãe fora totalmente desmembrada em segundos, o chão sob o corpo esquartejado ensopado de sangue, os membros do bando famintos, disputavam os pedaços do corpo por um pouco de sangue.
Sentiu os lábios macios de Luke em seu pescoço, logo após os dentes afiados cravando em sua pele.
E tudo ficou escuro.
***
Manhã de quinta-feira, 29 de março — Nova Iorque
Charlotte acordou quando estava amanhecendo. Seu corpo ainda doía muito, mas sentiu uma melhora considerável.
Ao abrir os olhos estranhou estar em uma cama king size com os mais macios travesseiros e lençóis a sua volta.
Ao passo que foi recuperando as lembranças e associando informações, Anna entrou em seu quarto carregando uma bandeja com uma grande quantidade de bolsas de sangue e remédios humanos para machucados.
– Bom dia. Sente-se melhor? – Perguntou a mulher enquanto apoiava a bandeja no criado mudo ao lado de Charlotte.
– Acho que sim, só o corpo que ainda dói.
– Você está muito ferida, é normal. – Disse enquanto enchia o copo gigante com o conteúdo das sacolinhas plásticas e o entregava para a menina.
Anna limpou os ferimentos com delicadeza e habilidade, como tratava de todos os machucados e cicatrizes de seus pacientes quando era necessário.
– Esses remédios normalmente não fariam muito efeito em nós, mas devido ao seu estado, toda tentativa é válida... Mas me diga: como veio parar aqui? – Lançou a pergunta que a atormentava desde que pusera os olhos naquela figura a sua frente.
– Fazendo o inverso do que Drácula fazia para sair de seu castelo. – Respondeu com um tom engraçado, os lábios rachados levemente arqueados em um mínimo sorriso.
– Interessante. Mas não quero saber como fez para chegar aqui em cima, quero que me diga o motivo da visita. – Disse esboçando certa indiferença enquanto terminava de recolher algodões e gazes usadas e as embrulhava dentro de um saco apropriado para material hospitalar.
– Meu pai. – Respondeu olhando fixamente para mulher que cuidava dela.
– E quem seria seu pai? – Perguntou achando graça da resposta, já estava pegando as coisas e virando as costas para sair do quarto quando recebeu uma resposta.
– Liev.
Anna arregalou os olhos, ficou completamente estática.
Agora se lembrava de onde reconhecia a menina. Era filha de Liev, ele lhe enviara fotos de quando a menina tinha somente dez anos de idade. Lembra-se da carta que veio junto, a felicidade do amigo de estar construindo uma família era enorme.
Mas sua felicidade logo foi engolida pelo medo. Se Charlotte se encontrava naquele estado, o que será que teria acontecido com Liev?
Com um enorme peso no peito se virou para a menina em sua cama.
– O que aconteceu? – Perguntou com a voz falhada.
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