Chegaram a uma casa afastada da cidade antes que Odete pudesse se dar conta. A noite já estava alta e parecia perigosa, com uma neblina grossa e fria a moldar o ar em torno do seu corpo como vermes se agarrando a um cadáver que acaba de conhecer seu mausoléu. Não havia nenhuma luz além da escassa forma de lua que insistia em brilhar por entre nuvens negras, por isso era quase impossível ver nada além de alguns metros à frente.

O fantasma da garotinha parou três passos à frente da casa e começou a chorar, um lamento triste que poderia rasgar o coração de qualquer pessoa que o escutasse. A menina então entrou e Odete veio logo atrás, sentindo um odor estranho invadir suas narinas.

Algo como sangue.

Sangue e cadáver.

Mesmo com medo do que poderia encontrar a detetive seguiu em frente, adentrando cada cômodo da casa com apreensão. Subiu as escadas cautelosamente, com o escuro a diminuir a cada passo como se os seus olhos estivesse se acostumando com a escuridão. O cheiro ia ficando mais forte e nauseante à medida que ela subia, e ela teve certeza que isso seria um indício horrendo que a chamava para uma triste descoberta. Uma por uma todas as portas foram abertas com um chute, porém ela não encontrou nada além de móveis velhos, ratos, cupins e poeira. Odete quase fez uma prece agradecendo pelo vazio da casa, mas então sua atenção foi desviada para o fim do corredor, no qual havia ainda uma última porta. A mulher caminhou vagarosamente até ela e colocou a mão trêmula na maçaneta, sua respiração ofegante e entrecortada. O clique que a porta fez ao abrir a assustou, e assim que ela deu dois passos para dentro encontrou tudo aquilo que não queria encontrar.

Havia dois corpos esticados em cima de duas macas, os dois em estado de avançada putrefação. Pelas roupas Odete constatou tristemente que o primeiro corpo pertencia a menina desaparecida, Lílian.

— Não... — Odete chorou, com raiva por não poder ter salvo a garotinha. O rosto da menina estava dilacerado, como que se atacado por uma fera selvagem.

Ou um demônio.

Tomou coragem e olhou para o outro cadáver, o de um homem. Calças sociais, camisa amarela de algodão. Uma boina no chão.

O segundo corpo era o do fugitivo George Martins.

Abafando um grito com as mãos Odete tentou correr, mas seu corpo simplesmente não a obedecia, como se pregado ao chão por uma força mítica. E então ela teve certeza que estava louca ao ver, horrorizada, que o homem morto, uma figura grotesca e disforme, se levantou da maca e lhe perguntou através das orbitas vazias:

Eles também pegaram você?

— Socorro! — Odete tentou gritar, mas nada saiu além de um gemido abafado. — Pelo amor de Deus, alguém me tire desse pesadelo! Socorro!

— Isso não é um pesadelo — a voz doce e triste da menina ecoou pelo aposento. — Agora todos nós estamos presos aqui. Todos nós. Os mortos.

— Os mortos? O que você quer dizer com isso? — Odete questionou já sem se importar de estar falando com um fantasma, sem saber se estava vivendo uma realidade ou uma ilusão. — O que você quer dizer com “os mortos”?

A menina apontou para o outro lado do corredor.

Junto à parede descascada havia um homem abaixado e chorando copiosamente. Ele usava roupas amarrotadas e estava muito sujo, se perguntando freneticamente enquanto a batia a própria cabeça na parede:

— Por quê? Por quê? Por quê? Por quê?...

— Parado! — Odete dessa vez conseguiu gritar e pegou a sua arma, mas o homem pareceu não ouvi-la.

— Eu não gosto disso depois que acaba — o homem batia a cabeça na parede com cada vez mais força, chorando cada vez mais alto. — Eu gosto da sensação, mas depois... Não gosto de ver os corpos apodrecerem depois. Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê?...

— Mostre as mãos ou eu atiro em você! — Odete adquiriu um pouco mais de confiança naquele momento e correu até ele. No entanto, vendo que o homem não a obedecia ela tentou atirar.

Contudo, nada aconteceu.

— Eu não gosto disso, mas as vozes me obrigaram a fazer — ele repetiu. — Eu não consigo controlar! Deus, pode um dia me perdoar?

— Deus eu não sei, mas a justiça... — Odete ia terminar de falar, ainda assustada com a falha de sua arma, mas entrou em choque assim que o cara virou o rosto para a pouca luz da lua e ela enfim pôde reconhecê-lo.

Era ninguém mais do que Bernardo Couto.

O filho favorito do governador.

— Eu vou acabar como você, seu viciado filho da puta! — Odete se esqueceu dos fantasmas e do medo e tentou atingir Bernardo com os punhos, contudo suas mãos desvaneceram no ar e passaram direto pelo corpo do homem. Ele então se levantou e andou para frente aos tropeços como um bêbado, e o seu corpo passou pelo de Odete como se ela fosse uma simples fumaça.

Ou um fantasma também.

Os mortos estão presos aqui.

...

...

— Ok, ok — Odete começou a recordar o último encontro dela com Júlio, no café. — Você acha então que deram um “fim” nele? — Júlio perguntara e ela o olhara com firmeza. — Não pode ser, Odete, pelo amor de Deus. Quem cometeria esses crimes então?

— Não sei. Mas é isso que precisamos descobrir — ela dissera entusiasmada. — Para começar, precisamos de uma lista com os nomes de todos os vizinhos das vítimas... Pegue os registros dos donos das casas... — a lembrança parecia desbotada e sem cor. — George era a única direção e nós, burros, simplesmente a seguimos ... Há algo de muito errado aí...

— Pode contar comigo — Júlio dissera. — Vamos resolver isso juntos...

Juntos...

— O que você acha disso? — Júlio lhe perguntara preocupado, os dois sentados em um carro em frente a uma praça. — Minha amiga que ajudou a recolher as provas me disse que um anel também fora encontrado no quarto da menina, mas que ele desapareceu. Um dos policiais alegou ser dono do anel, mas ela me garante que o objeto já estava lá antes do suposto dono chegar.

— Outra prova desaparecida então? — ela enfiou os dedos nervosamente nos cabelos. — Sinceramente eu não consigo entender toda essa trama. O que querem esconder afinal?

Afinal?...

— Veja isso — outra lembrança veio como um jorro. — Na vizinhança de Lílian havia um cara novo, que se mudara uns dois meses antes do sumiço da menina. A outra garotinha também tinha um vizinho novo, que se mudara, adivinha: — ele fez um ar de suspense, mas Odete já sabia a resposta.

— Poucos dias antes dela desaparecer?

— Exato — ele respondeu. — E a descrição de ambos bate: um metro e setenta, oitenta talvez, magro, cabelo castanho e com um aspecto sujo. Não gostava de conversar com ninguém e raramente saia, a não ser para comprar cigarros e remédios.

— Mas quem é esse maldito? — ela indagara, furiosa.

— Estamos perto — ele sorriu. — Droga, tenho algo para resolver agora — Júlio se desculpou depois de atender a um bipe do celular. — Deixo você na delegacia?

— Não. Me deixe próxima a casa de Lílian.

O que está acontecendo?

— Aqui, dona, isso é tudo o que eu tenho. Coloquei a câmera dia vinte. Lembro porque foi um dia antes da menina Lílian sumir, por isso só tem um dia de gravação antes da data.

— Você falou isso para a polícia?

— Falei, dona, mas eles não quiseram olhar. Disseram que um dia era pouco...

— Pare a fita aí — a detetive ficou atenta ao ver um cara esquisito entrando na farmácia. — Aproxime!

Ó, meu Deus!

— Senhora, acabei de encontrar um suspeito para o caso Lílian — Odete ligara imediatamente para a sua superiora, não contando nada nem mesmo para Júlio. — Eu o encontrei!

— Quem é ele? — a voz da mulher soava fria e distante do outro lado da linha. — Você o reconheceu?

— Sim — Odete estava triunfante. — Bernardo Couto, o filho do governador.

— Não conte isso para ninguém, Odete, ouviu? Isso é coisa grande, não é para o nosso bico. Não devemos mexer com os poderosos, isso é muito perigoso. Se você fizer as coisas da maneira errada pode correr o risco de virar uma mulher morta. Deixa que eu vou resolver tudo, não diga nada nem mesmo à Júlio, ouviu bem?

— Sim, senhora.

Sim...

— Você está bem? Júlio perguntou assim que estavam na escadaria da delegacia. Parece preocupada demais.

— Estou mesmo — ela franziu as sobrancelhas. — Mas tenho esperança que logo, logo isso tudo irá acabar...

Então veio a sensação de formigamento no peito novamente. Uma dor incessante e fortemente dolorosa, como se alguém estivesse enfiando um metal em brasa em seu peito. O ar não conseguia sair nem entrar, e havia o gosto metálico de sangue em sua boca.

O seu próprio sangue.

Um flash, uma última memória.

Uma moto preta em frente à delegacia. Dois tiros.

— Não devemos mexer com os poderosos, isso é muito perigoso. Se você fizer as coisas da maneira errada pode correr o risco de virar uma mulher morta. Deixa que eu vou resolver tudo — a superiora dissera.

E ela resolvera.

Uma mulher morta

Aquela seria uma alma que jamais teria descanso.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Lembrando que essa fic faz parte do desafio das amigas, no qual tínhamos que escrever a partir de um prompt. O link delas: https://fanfiction.com.br/historia/763015/Morte_no_Espelho/ https://fanfiction.com.br/historia/762925/O_Inferno_e_o_Outro/ Deixe seu review!
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