Notas iniciais
Enfim escrevi algo depois de sair da bad. Espero que gostem!

Há momentos, não sabemos o porquê, nos quais a natureza resolve se elevar sobre nós através de algo grandioso, marcante e intenso. E a chuva que caia sobre a cidade desde o dia anterior, a maior chuva já vista nos últimos cinquenta anos, era um exemplo do quanto esses eventos que só acontecem de tempos em tempos parecem estar interligados a algum propósito sombrio.

Afinal, se o céu estava chorando de forma tão copiosa deveria ser porque algo magnífico estava prestes a acontecer.

Algo que talvez nem religião ou ciência pudessem explicar.

*

Por causa do barulho das sirenes e buzinas que haviam enlouquecido devido os transtornos causados pela chuva na cidade, Odete acabou acordando mais cedo do que de costume. Dormir uma noite inteira havia se tornado algo raro desde que se tornara detetive, por isso ela amaldiçoou cada um dos pobres trabalhadores que seguiam em seus carros barulhentos. Respirando fundo, saiu da cama usando toda a sua força de vontade e ligou a TV no jornal matinal para saber o que havia acontecido enquanto ela tentava ter um sono decente. Ao entrar no banheiro a voz abafada da apresentadora do telejornal atravessou as paredes e chegou até ela mostrando o que a esperava adiante: sete mortos em um desabamento, inúmeros feridos, diversos pontos de alagamento, bandidos e saqueadores aproveitando o caos para cometer todo tipo de crime. E, claro, políticos se escondendo feito ratos diante do sofrimento de seu povo.

Nada a declarar, disseram.

— Estamos sozinhos nessa outra vez — ela lamentou. — Completamente sozinhos.

Odete molhou o rosto numa tentativa de despertar e afastar o cansaço que a consumia e chegou à conclusão de que se o dia tinha começado daquela forma pesada era porque ele iria piorar ainda mais no decorrer de cada hora. Vendo que estava ficando ansiosa, pegou um cigarro de um dos inúmeros maços que espalhara pela casa e acendeu-o vagarosamente, observando com tristeza a fumaça de sua respiração desvanecer no ar. Devia parar de fumar, ela se censurou, mas continuou absorvendo a nicotina com prazer à medida que ela fazia o seu efeito. Odete não gostava do seu próprio vício, mas nas últimas semanas ele havia se intensificado por conta do que estava acontecendo na delegacia. Ela era uma mulher intensa, vaidosa e sempre alerta, contudo, as coisas não estavam sendo nada fáceis para ela ultimamente por causa de uma investigação que insistia em não sair do lugar. Tantas preocupações, relatórios a preencher. E um foragido.

Chegar até onde chegara não havia sido fácil, ainda mais pelo fato de ser uma mulher, uma mulher com um cérebro capaz de descobrir coisas inimagináveis, algo que causava inveja e desdém de alguns colegas de trabalho. Por conta disso estava sendo cobrada como nunca desde que assumira o caso Lilian, pois não era segredo na delegacia que muitos ali queriam vê-la falhar e voltar para o “seu lugar”. Ainda irritada, encarou a figura no espelho e odiou perceber que além de tudo isso ainda havia uma nova ruga no meio de sua testa. Sabia que havia olheiras também, mas pelo menos podia se consolar fingindo que elas eram culpa do cigarro, do excesso de café e da sua persistente insônia. Entretanto, aquela ruga idiota, vincada e ridiculamente visível feria profundamente a vaidade de alguém acostumada a ter tudo: beleza e inteligência.

Entretanto, apesar de todos os esforços, a sua inteligência não a estava levando para mais perto de uma solução e como resultado a beleza começava a refletir o seu insucesso. Como estava começando a mudar de humor, de irritada para deprimida, Odete afastou os pensamentos negativos, amassou o cigarro que a ajudara a relaxar no cinzeiro já cheio do banheiro e decidiu que trabalhar era a única maneira de esquecer que em breve faria quarenta anos de idade.

— Parabéns para mim — sussurrou. — Se eu viver até lá.

Após o banho, as roupas já separadas no dia anterior foram colocadas sobre o corpo com total alinho: um terninho simples, preto e de excelente corte e que combinava graciosamente com a sua pele negra. Sapatos sociais igualmente pretos, sem salto, pois Odete não necessitava parecer maior que os seus um metro e setenta e cinco. Os cabelos cacheados foram presos firmemente com grampos de modo a não deixar escapar um único fio e o rosto foi retocado apenas para esconder o ar cansado. Somente após outro cigarro, um banho frio, roupas limpas e uma xícara de chá fumegante que ela finalmente pareceu mais animada a enfrentar um dia de trabalho que prometia ser esmagador, pois até se permitiu um sorrisinho ao ver o próprio reflexo no espelho.

— Isso não é para ele — Odete disse alto para si mesma quando percebeu o porquê de querer parecer bonita.

Fazia alguns meses que ela estava mantendo um “caso” com um colega de trabalho, por isso o sigilo era mais do que necessário. Porém, o que começara depois de um drinque vagabundo num bar de quinta estava agora se tornando mais do que ela previra. Júlio era o único ali que parecia respeitar seu intelecto e vê-la antes da aparência, e talvez por isso ela permitiu que ele a levasse para casa e subisse para um último gole. Um pouco de sexo não faz mal a ninguém, ainda mais depois de um dia de trabalho exaustivo, foi a desculpa que deu a si mesma ao convidá-lo uma segunda vez.

E uma terceira, uma quarta e uma quinta. Até perder as contas.

Contudo, apesar da atração sexual e de haver muito mais sentimentos envolvidos nas entrelinhas, era difícil para ela se imaginar tendo um relacionamento fixo com Júlio. Ele era dez anos mais novo, bonito, tinha olhos castanhos, cabelos pretos e um corpo lapidado pelas inúmeras artes marciais que ele gostava de praticar. Uma delícia de se ver e de se ter em uma cama, entretanto, estar sozinha era mais fácil e ela adorava suas coisas, sua solidão e principalmente sua liberdade. Analisou brevemente os prós e contras de ter Júlio permanentemente em sua vida e decidiu que assim que as coisas ficassem calmas ela poria um fim nessa brincadeira de criança. Era melhor acabar com isso antes mesmo que começasse.

O pouco de humor que ela adquirira ao pensar em Júlio se foi no momento em que chegou à rua. Havia uma profusão de gente correndo para lá e para cá por debaixo da chuva, carros buzinando, todos atrasados. Checou o celular mais uma vez e nada de Júlio atender o seu chamado. Ansiava pela resposta dele apenas porque precisava de ajuda com o caso e também de uma carona, e o policial agora era mais necessário do que o amante. Seu desleixo em não a responder irritou apenas o seu lado detetive. Vendo que ele não atendia ela resolveu então caminhar até um ponto de táxi.

— Carona? — alguém parou um carro ao seu lado quando ela já havia andado quatro quarteirões debaixo de um guarda-chuva precário. Os sapatos estavam ensopados, o cabelo desalinhado. Percebeu que era Júlio a lhe importunar e isso só aumentou ainda mais a sua irritação.

— Enfiou o celular no rabo? — ela abriu a porta do carro com raiva e a fechou com mais raiva ainda. — A delegacia vai precisar de cada alma viva disposta a ajudar, não podíamos nos atrasar desse jeito! — gritou. Odete odiava estar atrasada, mas odiava muito mais ter que pegar carona. Culpa do seu velho carro, que engasgara para nunca mais ligar, a deixando preocupada novamente sobre como conseguiria um novo.

— Calma, gata! — Júlio usou aquele linguajar ridículo que lhe era peculiar e sorriu daquele jeito que faria qualquer um se derreter. Com esse sorriso ele já havia conseguido tantas coisas que todos diziam que sua arma estava na cara e não na cintura. Se bem que na cintura havia uma outra arma... Odete quase perdeu o rumo ao lembrar de algumas coisas e isso só a deixou ainda mais irritada. Enfim, Júlio exalava charme e isso funcionava com todo mundo, mas hoje não com ela, apesar do que tinham feito há dois dias no sofá da casa dele. Odete então optou por ignorá-lo e pegou mais um cigarro de dentro da sua pasta.

— Não no meu carro! — Odete não pôde fazer nada enquanto Júlio arrancava o cigarro de seus lábios e o arremessava pela janela. — Você não devia...

— Cala a boca — ela devolveu, sabendo que era mal sinal ele já está lhe dizendo o que fazer. Como Júlio sentiu a dureza no tom de voz dela acabou por obedecer, e andaram em silêncio por quase todo o caminho.

Ficaram parados em um sinal vermelho, e o silêncio se tornou tão incomodo que ela sentiu que precisava falar alguma coisa. Pensou em pedir desculpas, mas sabia que isso só iria tornar o clima mais constrangedor.

— Desculpe, eu não queria... — Júlio foi quem se desculpou e ela ficou surpresa — Você sabe. Só estou preocupado com você.

— Tudo bem, eu também sinto. Mas é que eu estou tão sobrecarregada — ela parou um pouco para respirar, não querendo colocar tanta emoção no que dizia. — A culpa é minha, Júlio, e todos sabem disso. Se eu não tivesse sido tão...

— Como assim? Do que você está falando?

— A outra garota, a que veio depois de Lílian. Eu poderia, você sabe. Eu poderia tê-la salvo se tivesse feito o meu trabalho corretamente.

— A culpa não foi sua, Odete — Júlio tentou apaziguar os sentimentos dela. — Foi o sistema que falhou, não você.

— O sistema? — ela murmurou diante da raiva contida, olhando para Júlio com tristeza. — Você viu o que a mãe dela disse para mim. Isso é algo que nunca vou esquecer.

A dor pelo que havia ocorrido ainda a atormentava durante todas as horas do dia. Há cerca de dois meses Odete fora responsável por investigar um caso envolvendo um homem chamado George Martins, caso esse que ainda não havia tido uma conclusão. Em uma manhã de sábado, uma criança de apenas dez anos, vizinha do homem e chamada Lilian, sumira misteriosamente e ele se tornou o principal suspeito, apesar de não haver nada, nenhuma pista sequer que o incriminasse. A única coisa que eles tinham contra ele era que o homem era solitário, calado e sem nenhum parente próximo, e que gostava de presentear Lílian com doces e brinquedos sem que a mãe da menina soubesse. A mãe então implorou para que Odete o prendesse, mas ela nada poderia fazer sem nenhuma prova concreta. Uma semana depois, uma garotinha foi estuprada e jogada de um carro em movimento. Seu tipo físico parecia muito com o de Lilian e a pobre criança contou que o estranho que a levara lhe entregou doces e depois a convidou para ir até o seu carro buscar um brinquedo especial. George costumava passear no mesmo parque que a garota gostava de brincar e isso foi o suficiente para ser atribuído a ele esse novo crime, embora a criança não o tivesse reconhecido pelas fotos oferecidas pela polícia.

Entretanto, os policiais que vigiavam a casa do homem afirmaram categoricamente que ele não havia saído de casa naquele dia e um entregador de pizza confirmou estar com George no momento do novo crime. Odete então acho que isso seria suficiente para que o homem não fosse acusado. Mas então ele fugiu no dia seguinte sem deixar nenhum rastro do seu paradeiro e com isso ela foi vista como a maior culpada por George ainda estar solto.

E, para piorar tudo, Lilian jamais fora encontrada.

— Ele vai fazer de novo, vai machucar outra menina. — Odete fitou os pingos de chuva que escorriam lentamente do lado de fora da janela do carro. — Eu devia ter atirado na cabeça dele quando tive chance.

Júlio não disse absolutamente nada, pois sabia que Odete preferia esconder suas dores a compartilha-las com alguém. Ele pensou se deveria segurar a mão dela, mas decidiu não se mover ao lembrar sobre o acordo de não se tratarem como namorados. Seguiram então o resto do caminho mergulhados novamente em silêncio, cada um preso em suas próprias divagações.

Demorou uma eternidade até chegarem a delegacia, que estava apinhada de gente reclamando sobre alguma coisa ou pessoa desaparecida. Muitos aproveitaram a chuva e a falta de energia para cometer assaltos e isso deixou o sistema sobrecarregado. Havia até uma velhinha reclamando do sumiço de seu pequeno cão, mas sua voz se perdia ao lado do choro de uma mulher.

— Meu cão! — a pobre mulher gritava. — Eu vi, foi levado. Eu vi! Eu vi! Façam alguma coisa, inúteis!

Vendo que era ignorada, a mulher então começou a distribuir pancadas usando o cabo do seu guarda-chuva como arma. Os policiais, mais ocupados com boletins de ocorrência do que com a vida de um cachorro, resolveram não se preocupar em prendê-la por desacato a autoridade e apenas a enxotaram dali. A cena toda era muito cômica e muitos riam ao ver a pobre mulher esperneado. Todos menos Odete, pois desde cedo ela aprendera a ter compaixão dos outros e o que via ali só lhe causou pena.

A detetive mal chegou e foi logo chamada por alguém que a designou para os trabalhos do dia. Fazendo uma careta, ela recebeu os comandos de sua superiora, chateada por ter que ficar na frente de um computador ao invés de ir a campo. Olhou para o lado e Júlio já estava sorrindo para uma secretária, que devolvia o galanteio cruzando as pernas vagarosamente. Imaginou como seria se fosse ela a distribuir sorrisos para todos os homens da delegacia: biscate, vadia, interesseira. Porém, para os outros, o que Júlio fazia era nada mais do que apenas charme.

Sem humor para assistir àquilo, Odete se dirigiu até a sua mesa e começou a trabalhar. Havia tantas pilhas de papéis a serem lidos que ela levou mais de duas horas somente analisando um único caso. Já com dor de cabeça, pensou em sair para fumar um cigarro, mas foi interrompida antes que tivesse a chance de se levantar.

— Temos uma pista sobre o caso Lílian — Júlio sentou-se na mesa dela enquanto lhe estendia uma pesada pasta de papel. Ele parecia desconfiado e incomodado, como se estivesse com medo de ser pego fazendo alguma coisa errada. Odete abriu a pasta com desconfiança, mas ao ler o conteúdo dos papéis seus olhos se comprimiram, transparecendo uma expressão de espanto.

— Como você conseguiu isso? Esses documentos estão acima da nossa jurisdição!

— Isso eu não posso contar, minha cara Odete Mattos — Júlio, mesmo preocupado, não perdeu a oportunidade de lhe oferecer aquele já conhecido sorriso. — Mas veja bem isso aqui — ele apontou para o relatório nas mãos dela, o sorriso se desvanecendo e se tornando raiva. — Agora você sabe que a culpa não foi sua.

A culpa não foi minha.

A detetive sentiu tanto ódio ao entender o que havia naqueles papéis que se levantou bruscamente. Júlio, já conhecedor do temperamento dela, sabia exatamente o que ela pretendia fazer com esse gesto e por isso a segurou firmemente pelo pulso.

— Não, Odete. Não! Se você levar isso a público eles vão te usar como bode expiatório e vão culpar você ainda mais do que já estão fazendo. E você sabe que essa é a oportunidade que eles estão esperando há muito tempo para te derrubar. Não estrague tudo antes de saber cada detalhe, de saber por que fizeram isso com você.

— Júlio, eu sei que muita gente quer me ferrar, mas eu não consigo encontrar alguém que chegaria a esse nível somente para me atacar. Isso é mais do que uma disputa, mais do que alguém que simplesmente não gosta de me ver fazer o melhor trabalho aqui dessa delegacia — ela baixou a voz, como se tudo ali dentro, até o ar, tivesse se transformado em um inimigo. — Isso é pior do que qualquer coisa.

— Então é melhor conversamos fora daqui, não sabemos o que vai sair de toda essa merda se continuarmos parados.

Sabiam que não podiam se ausentar para resolver questões pessoais naquele momento, por isso Júlio inventou uma desculpa qualquer para os que vieram lhes questionar sobre a saída. Mesmo a contragosto Odete o seguiu para fora da delegacia, mas a vontade dela era contatar sua superiora imediatamente e dizer tudo o que haviam descoberto.

Contudo, o inimigo poderia ser qualquer um.

Notas finais
Bye!