Noite de São Valentim
1 Pirulito de coração
Notas iniciais
Miguel não conseguia decidir se era bom ou ruim que a cambadinha tenha se instalado muito bem no Nueva Nueva. Os negócios iam muito bem e ele adicionou mais não alcoólicas no cardápio, afinal, outros adolescentes costumavam frequentar o lugar nos dias que os Cabeças de Teia vinham tocar — e ele não queria problemas com pais, ou pior, com as tias de Pavitr. No entanto, renovar seu público trazia seus desafios. Um deles, ele enfrentava naquele exato instante:
Decorar o bar para o dia de São Valentim.
Lyla, que não tinha chegado até então, jurava que seria uma excelente data para o bar e já tinha preparado o menu especial para a noite, cheio de coquetéis de frutas vermelhas, xaropes e cerejas para decorar. E daquele jeitinho dele, Miles também tinha reforçado que ia tirar boas fotos para ajudar na divulgação antes e depois da noite, enquanto Gwen ao seu lado queria vencer a resistência de Miguel com dúzias de argumentos variados que ele sequer tinha realmente ouvido. Na verdade, sentia que não importava muito se iria permitir ou não; questionava-se, inclusive, se continuava dono daquele bar.
Já tinha espalhado alguns corações vermelhos pelo bar. Enquanto a decoração do palco ficaria a cargo dos teiosos — bom, quando eles chegassem — Miguel seguia o planejamento feito por Lyla, que tomara cuidado com o orçamento e também fizera questão de evitar balões. Além de nada biodegradáveis, você vai ter que comprar todo ano. Melhor escolher ornamentos que durem. Ele seguiu as recomendações. Não se animava com a ideia de fazer aquilo todos os anos, mas não queria dispor muito dinheiro para ficar comprando tudo de novo e de novo; nem parecia de bom tom ferrar com o ambiente só para inspirar alguns clientes a comprar mais um drink vermelho para seus pares na data.
No fundo, se preocupava com o dia de São Valentim. Gabi, sua filha, ainda estava na idade de comemorar a data no seu sentido mais fraternal e fofo, tanto que trocava bilhetinhos com as amigas e jamais esquecia-se do pai e do tio. E é claro, ele respondia e comprava sempre um bolinho red velvet ao buscá-la na escola. Mas e quando não fosse só isso?
Ele próprio tinha sentimentos mistos sobre aquela celebração desde…
— Ay, coño!
O nó tinha escapado de seus dedos. Lá estava ele, de pé sobre uma escada curta, pendurando mais faixas de corações de papel e luzes bonitinhas. Doía admitir que, realmente, parecia mais agradável do lado de dentro, quente e aconchegante com o ar festivo, do que naquele clima de Fevereiro ainda frio em Manhattan. Era uma pena que Jess ou Peter não pudessem vir; já que Jess estava com o neném de colo e Peter já tinha planos com a esposa e a filha.
Ouviu o barulho da porta dos fundos e respirou aliviado, sabendo que enfim Lyla tinha chegado para ajudar com todas aquelas miudezas, provavelmente já com as flores que tinha dito que iria comprar. Eram os toques finais.
— Lyla, não aguento mais ver corações.
— Puxa, eu acho melhor você nem se virar, então.
Mas ele, por pouco, não se desequilibrou da escada ao virar-se: não era a voz de Lyla e, atrás de uma caixa dividida entre flores e mais decorações, estava o rosto travesso de Felícia Hardy.
E de um sorriso, ela passou para uma breve gargalhada.
— Nossa, eu retoquei as raízes, mas eu tô tão branca a ponto de parecer um fantasma?
— Ora, — Ele recuperou a compostura. Ou achava que sim. O frio lá de fora havia preenchido seu tórax. — Você sempre desaparece e surge de repente. Fiquei surpreso.
No entanto, sua cabeça tinha justificado com uma conclusão mais poética e irônica. Pois ele não havia dito que não aguentava mais ver corações? Felícia trouxera o seu de volta assim, de súbito.
Enterrou esses pensamentos. Já fazia muito tempo que não compunha nada meloso para ficar nessas metáforas bobas.
— Lyla disse que precisava de ajuda. Daí a gente comprou algumas coisas e ela me deu a chave do bar enquanto ia pegar mais xarope de groselha e vodka. Nenhum outro bar vai ser melhor do que o Nueva Nueva nesse São Valentim.
— Hm. — Miguel tinha quase certeza de que existiam mais garrafas de vodka nos fundos. E nem sabia que Lyla tinha o número de Felícia, muito menos que teria a audácia de entregar a chave para terceiros. Porém, não se prenderia a detalhes. — Ah, eu carrego isso.
Não pôde deixar de encarar a tatuagem de aranha na mão dela antes de pegar a caixa de seus braços, levando-a até o balcão do bar. Felícia seguiu ao seu lado enquanto tirava seu casaco preto com pelagem branca para pendurar em um dos ganchos na parede. A bolsa, ela colocou no balcão também. De repente, a garganta de Miguel ficou seca e ele sentiu um calafrio. Estava sendo tão óbvio assim? Ele fingia que examinava o conteúdo da caixa com a intenção de examinar outras coisas mais importantes.
— Então, Felícia... Pensei que estaria ocupada numa data dessas.
— Ah, não.
Nada do tal Matthew ou qualquer porcaria em Boston. Ufa. Ele não queria ainda botar muitas esperanças no peito, mas era inevitável.
— E eu não pensei que você fazia comemorações temáticas no bar. Ainda mais Dia de São Valentim.
— A cambadinha e Lyla combinaram quase tudo pelas minhas costas.
— E você tem as costas grandes, dá para combinar muita coisa.
Miguel lhe ofereceu um sorriso de lado, seu ego afagado. Esforçava-se para se manter saudável, mas não negava certa vaidade nos seus treinos. Um tanto interessante ela notar. Entretanto, nenhuma resposta muito sagaz lhe ocorreu e ele tinha certeza de que, se desviasse o olhar de novo ou para os olhos dela ou para sua boca, aí sim seria óbvio demais. Ele pigarreou, meio sem graça, e disse:
— Eu vou dar um jeito naquela faixa ali que não consegui pendurar.
— Ah, ok. Eu vou montando as coisas enquanto isso. A Lyla deu a ideia de montar kits para os casais com essas flores e lembrancinhas. — Pegou os pirulitos de dentro da caixa. — Ela só esqueceu de pegar um pacote só de pirulitos de coração, esse aqui é misto com o formato normal. Mas acho que as rosas compensam, né?
Ele concordou e observou-a separar as coisas para montar um kit simples, mas bonito. Singelo, coisa de adolescente, o que parecia apropriado à data e ao sopro que ele sentia quando Felicia surgia de repente. Afastou-se. Ao fundo, a playlist que os Cabeças de Teia tinham montando para a data pareceu ficar mais pesada aos ouvidos de Miguel. Se antes era só uma distração para o ambiente enquanto executava suas obrigações chatas de decorador, agora lhe provocava certo constrangimento. Ainda bem que estava de costas para Felícia agora.
E pela breve conversa, isso poderia ser bem positivo.
Continuou trabalhando em alguns aspectos menores do bar depois de, enfim, conseguir amarrar aquela faixa e pendurá-la certinho. Pensou em pegar algo para beber para os dois e reparou que os olhos verdes de Felícia miravam o palco. Duvidava, porém, que ela estivesse apenas enxergando um palco vazio, ali e agora, mas sim algo muito mais distante, quando eles ainda eram muito jovens. E ele não evitou puxar o assunto:
— Você se lembra de quando...
— Não! — Felícia riu, mas abaixou a cabeça no balcão, seus cabelos platinados em contraste com os itens vermelhos sobre a superfície plana. Riu mais um pouco e, ao levantar o rosto de novo, sua pele estava corada. — Estou há uns dez anos tentando esquecer.
— Foi um sucesso.
— Foi a pior ideia da Jess. E eu aceitei.
Miguel admitia que era questionável, de fato. Mas ao menos era um ponto para rir daquele dia terrível, tantos anos atrás. Ele e Dana estavam em outro vai e vêm do namoro em pleno São Valentim e, ao não vê-la na apresentação da banda, teve a sensação de que ela tinha procurado o clima de flerte da data em outro lugar, em outra pessoa. E ele sequer conseguiu se desesperar muito com aquilo: simplesmente as coisas eram assim entre os dois. Mas ainda existia a banda e uma pequena competição entre os músicos de pelo menos três bairros próximos.
E Jess teve a certeza de que alguém tinha vazado a playlist deles. Afinal, outra banda tocara basicamente as mesmas músicas que eles antes e o público não parecia muito mais interessado neles. Foi na pausa da apresentação que ela ralhou com Miguel, com Peter, com o baterista temporário e arrastou aquela sua amiga grã-fina para o palco. A guria era boa, sabia que ela era mais da música erudita, mas tinha bom senso e ajudava o Evento Canônico sempre que Jess pedia.
Miguel ficava curioso. Achava que a tal Felícia estava no lugar errado. Sempre muito arrumada e, de algum modo, frequentava o mesmo colégio caído que eles. Ele sequer pensava que ela poderia ser simpática com aquele ar aristocrata, mas sempre que a via interagindo com Jess ou com Peter, ela variava entre a educação e humor ladino. Além de curioso, ficava intrigado. Eventualmente, se conheceriam melhor. Ela tinha se mudado há poucos meses, não? Em breve, ele poderia entender mais sobre aquela desconhecida linda demais para estar ali e o porquê ela parecia encará-lo com mútua curiosidade de tempos em tempos.
Mas, naquela noite, além dela improvisar nas próximas músicas com um teclado emprestado, ela topou uma ideia diferente de Jess. Começaram a tocar Rocket Queen, do Guns N' Roses. Miguel não sabia que efeito mirabolante com o teclado ela poderia causar, mas ela não tocou nada naquela música.
Ela gemeu.
Gemeu igual à história não-muito-obscura de Axl Rose pedir para gravar os gemidos de uma ex-namorada do baterista, Steven Adler — que havia negado o relacionamento dos dois antes. E Miguel não exagerava ao dizer agora que havia sido um sucesso. As pessoas definitivamente prestaram atenção na banda durante a noite e eles, embora não tenham ganhado a competição, ganharam o público: a agenda nos bares ficou cheia pelo próximo mês.
E aquela noite havia instalado uma dúvida que ainda assombrava Miguel. De curioso à intrigado, talvez tivesse ficado interessado. Por que aquela garota discreta tinha concordado com aquilo? Não que ele se permitisse pensar muito sobre isso na época, porém. A vida era um buraco e não só por causa de Dana — mas foi especialmente mais fundo depois das drogas, depois do acidente. Se Felícia não parecia fazer parte da vizinhança, parecia muito menos fazer parte da vida dele. E no fim, ela se mudou.
— Foi constrangedor. Duro que eu acho que faria de novo.
— Pensei que você fosse vomitar de nervoso depois.
Os dois riram.
— Foi quando a gente começou a se falar mais, né? Aposto que foi por pena de mim. Ainda bem que não filmavam aquele tipo de evento ainda. Não suportaria assistir.
O ar nostálgico aflorava bem no rosto dela. Era diferente ver sua persona no perfil da internet, uma desconhecida muito competente e articulada na indústria musical, e então encarar sua expressão quase constrangida, ainda jovial. O tempo de repente não tinha passado, nem ela se mudado para além do Atlântico.
— É estranho voltar à Manhattan?
— Parece que… — Felícia suspirou. — Tanta coisa mudou e ao mesmo tempo muito parece igual.
— Nem me diga. "Melhor bar neste São Valentim". — Ele fez referência ao que ela tinha dito mais cedo, em um gracejo. — Você continua competitiva.
Felícia não respondeu de imediato. Miguel quis que sim. Quis que fosse alguma resposta ácida e inteligente, alguma ameaça bem humorada, qualquer coisa que não aquele olhar que recebeu, sereno e que durou um instante apenas. Era um olhar que o coração de Miguel queria entender como “eu ainda continuo apaixonada por você”, mas que sua razão não o permitia acreditar. Se desejava? Sim. Mas era duro. Duro porque Miguel tinha que lidar com muitas questões antes de achar que merecia realmente aquele sentimento.
— Cheguei, pombinhos!
Lyla adentrou fazendo barulho, mesmo que tivesse apenas duas garrafas em mãos. Miguel teve a certeza que, de fato, não existia necessidade de repor o estoque. Estava com aquele seus óculos cor de rosa e no formato de coração, um sorriso cobrindo a outra metade de seu rosto. Ela parecia ter expectativas ao encarar Felícia e Miguel.
E ao vê-los distantes, pareceu murchar.
Não demorou muito para que os Cabeças de Teia chegasse para preparar o palco e melhorar a iluminação. Seria melhor para as fotos que Miles tiraria. Miguel foi chamado de chefia, de patrão e de camarada pelos adolescentes, sem cerimônias. Enquanto isso, Gwen arregalou os olhos para Felícia; comentou baixinho com Pavitr sobre a beleza dos cabelos dela. Tornou-se tímida, mas muito solícita: ajudou Felícia a montar uma cesta com os kits, ao lado de um pote de vidro com o valor de cada. Era só pegar e pagar, sem que Lyla precisasse sair do bar ou mais alguém viesse pegar o dinheiro.
A noite ainda seria longa e movimentada. Miguel ainda tinha que pegar Gabi na escola e comprar o bolinho red velvet, indispensável para a data. Mas, voltaria para o Nueva Nueva depois — embora, talvez, Felícia não estivesse mais lá quando chegasse.
Discretamente, Miguel pegou um dos pirulitos no formato de coração e enfiou na bolsa dela, assim como teve vontade de fazer dez anos atrás, numa noite de São Valentim.
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