Noite das Abóboras Vivas
3 O Suéter do Fim dos Tempos
Genbu e Kiki corriam pela Grande Escadaria, descendo degraus que pareciam multiplicar a cada passo. O lençol-LED de Kiki piscava em modo “bateria fraca”, e o elmo de isopor de Genbu havia sido abandonado lá na Casa de Áries, provavelmente já sendo usado como ninho por alguma planta carnívora de Shun.
— A gente derrotou duas abóboras! — Genbu ofegava. — Por que a terceira é vovó? Vovós são fofas!
— Essa vovó tá tricotando com cipós! — Kiki retrucou, olhando para trás. — E o suéter tem olhos!
De fato. A Vovó Abóbora não rolava. Ela flutuava, empoleirada numa cadeira de balanço feita de talos secos. Nas “mãos” (que eram duas gavinhas com luvas de crochê), segurava agulhas de tricô do tamanho de lanças. O suéter que crescia entre elas era um pesadelo de lã laranja e preta, com padrões de caveiras que piscavam.
— MEUS NETINHOS... — a voz dela era um sussurro de vento outonal misturado com o estalar de biscoitos queimados. — VENHAM PRO COLO DA VOVÓ.
O suéter se moveu sozinho. Saltou da agulha e começou a rastejar pelo chão como uma centopeia de lã, deixando um rastro de fios pegajosos que grudavam nas armaduras.
Kiki parou de correr.
— Genbu-senpai, lembra quando eu disse que trouxe um “kit de sobrevivência” pra festa?
— Você disse que era só sal grosso e um abridor de garrafas!
— Era mentira. — Kiki abriu a bolsa de ferramentas e tirou... um par de tesouras de poda encantadas, com runas de Áries gravadas nas lâminas. — Mu-sensei me deu pra “casos extremos”. Isso é extremo.
Genbu sorriu, apesar do pânico.
— Meu namorado é um gênio do mal.
— E você é o tanque. Distrai a vovó. Eu corto o suéter.
Genbu assentiu. Respirou fundo, concentrou seu cosmos e...
— EI, VOVÓ ABÓBORA! SUAS TORTAS SÃO SECAS E SEU RECHEIO TEM GOSTO DE TRAIÇÃO!
A Vovó parou. A cadeira rangeu. Os olhos no suéter se arregalaram.
— COMO É QUE É, MENINO?!
O suéter acelerou. Genbu correu na direção oposta, gritando provocações que fariam até Ikki corar. Kiki aproveitou: pulou, tesouras em punho, e CRAC! cortou o suéter ao meio.
Mas o suéter... gritou. E se costurou sozinho. Pior: começou a multiplicar. Em segundos, havia três suéteres rastejantes, depois cinco, depois uma onda de lã demoníaca.
— KIKI, ISSO NÃO TÁ FUNCIONANDO!
— EU PERCEBI! — Kiki gritou, agora correndo ao lado de Genbu. — A VOVÓ É UM BOSS FINAL COM FASES!
Eles chegaram ao Templo de Athena. A estátua da deusa olhava para eles com uma expressão de “vocês me acordaram pra isso?”.
A Vovó Abóbora flutuou até o centro do salão. A cadeira de balanço se transformou em um trono de abóboras esmagadas. Ela ergueu as agulhas.
— AGORA, MEUS NETINHOS... VAMOS FAZER UM SUÉTER PARA TODOS.
O suéter-monstro se ergueu, formando um casulo gigante que começou a envolver o templo inteiro. Os cavaleiros que tentavam ajudar eram pegos e transformados em... bonecos de tricô. Seiya virou um cavaleiro de Pegasus de lã, com olhos de botão. Shiryu virou um dragão de crochê. Até Athena ganhou um xale.
Genbu e Kiki foram os últimos. O casulo os envolveu. Mas, dentro da escuridão de lã, Kiki sussurrou:
— Genbu-senpai... lembra do nosso primeiro encontro?
— Quando você consertou minha armadura e eu fingi que tava quebrada de novo só pra te ver?
— Exato. A gente improvisa juntos.
Kiki usou as tesouras para cortar um buraco no casulo. Eles saíram... dentro do suéter. Era um labirinto de fios, com armadilhas de novelos e alfinetes gigantes.
— Isso é um dungeon de tricô! — Genbu exclamou.
— E a Vovó é a chefe final. — Kiki apontou para o centro: a Vovó Abóbora, agora do tamanho de uma casa, tricotando um suéter do apocalipse.
Mas Kiki tinha um plano.
— Genbu-senpai, me dá sua armadura.
— ...Tá, mas se eu ficar pelado, você me deve um jantar.
Genbu tirou as toneladas. Kiki usou as tesouras encantadas para desmontar a armadura de Libra e transformar as peças em... agulhas de tricô gigantes.
— Você vai contratricotar a Vovó — Genbu entendeu.
Kiki correu, agulhas em punho, e começou a desfazer o suéter do apocalipse, puxando fios com precisão cirúrgica. Genbu, usando apenas a cueca de cavaleiro (preta, com o símbolo de Libra), enfrentou a Vovó:
— LIBRA... TONFA DE TRICÔ!
Ele usou as toneladas como martelos, batendo nos novelos que a Vovó arremessava. Cada golpe desfazia um pedaço do casulo.
A Vovó gritou:
— VOCÊS NÃO PODEM DESFAZER O AMOR DA VOVÓ!
— Amor?! — Kiki gritou de volta, já com metade do suéter desfeito. — Isso é obsessão de avó que tricota suéter apertado pra todo mundo!*
Com um último corte, Kiki puxou o fio principal. O suéter inteiro desmoronou, revelando a Vovó Abóbora... que encolheu. Encolheu. Até virar uma aboborinha fofa, do tamanho de uma bola de tênis.
— Meus netinhos... — ela choramingou. — Só queria abraços quentinhos...
Kiki e Genbu se olharam.
— ...A gente matou a vovó? — Genbu perguntou, meio culpado.
— Não. — Kiki pegou a aboborinha. — A gente adotou a vovó.
Eles colocaram a Vovó Abóbora numa cestinha, com um lacinho. Ela agora tricota cachecóis minúsculos para os pássaros do Santuário.
A festa recomeçou. Seiya ainda era de lã, mas agora dançava como um boneco. Athena ganhou um xale que, surpreendentemente, era quentinho.
Genbu e Kiki sentaram no topo da escadaria, dividindo um copo de smoothie de abóbora (sem demônio dessa vez).
— Amor...
— Fala.
— Ano que vem, a gente pula o Halloween.
— Combinado. Mas só se você usar cueca de Libra no Natal.
E, no canto do templo, a aboborinha da Vovó Abóbora sorriu.
Porque avós sempre voltam.
Fim... até o próximo feriado.
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