“Prefiro ser temido do que amado, porque quem é amado é traído e quem é temido é amado por medo”...

–Nicolau Maquiavel

Ele estava sentado numa sala ampla, a atrás de uma escrivaninha vazia. A cadeira como um trono. Usava um chapéu negro e surrado de aba larga como se fosse uma coroa. A jaqueta era como um manto, segurava o um Rei de Xadrez, feito de cristal, como um tesouro. A sua frente um tabuleiro e um telefone.

Estava jogado e cansado, os cotovelos apoiados na escrivaninha e a as mãos fechadas apoiando a testa.

O que eu fiz errado? Ele se perguntava. Por quê? O que mudou?

Mais cedo ela havia mandado aquele homem...

-Vou fazer-lhe uma proposta que não poderá recusar... – Ele havia falado.

Isso não devia estar acontecendo. Nossas forças são iguais... Por que, de repente, ela consegue exterminar todos os meus homens? Daqui a pouco ela estaria aqui...

-Eu perdi – Falou em voz alta. – Eu perdi...

Ouviu o barulho de um carro, então se levantou e foi ate a janela, estava no segundo piso, afastou a persiana com a mão e olho a cena.

Três carros negros lustrosos pararam na frente da casa. De cada um dos dois primeiros saíram quatro homens, que facilmente mataram os guardas a tiros. Foram entrando, ele não pode ver, mas os tiros podiam ser ouvidos.

Ouviu gente atrás da porta. Estava sorrindo.

Do terceiro carro, saiu uma mulher envolta em um grosso casaco de pele. Ela entrou e um tempo depois esta passando pela porta daquele aposento.

-Ola... – Ela falou secamente.

Ela estava acompanhada de quatro homens.

-Não precisa dos seus pistoleiros, todos os que trabalhavam pra mim já estão mortos.

-Já fazem dois anos, em? – Ela falou se aproximando

Ele se levantou e deu a volta na escrivaninha, então indicou que ela se sentasse. Ela se sentou e ele puxou uma banqueta. Pós o rei no tabuleiro, que também era de cristal. E ela tirou do bolso uma rainha de cristal e pós no tabuleiro. Enquanto o cristal de que o rei era translúcido a rainha era fosca.

Encararam-se por um tempo então ele derrubou o rei.

-Então, como foram esses anos... Maninha? – Ele perguntou, com um sorriso irônico

-Muito bem, muito bem... E você? – Ela perguntou educadamente

-Haha, de mal a pior minha cara, de mal a pior – Ele respondeu

-Serio?Pois não me parece assim – Ela riu

-Sua pequena bastarda, como se a culpa não fosse sua – Ele respondeu rindo também

-Como eu seria bastarda, se somos gêmeos? – Ela perguntou

Ele deu os ombros — Tanto faz.

-Bom eu ganhei – Ela falou calmamente

-Sim, de fato, você ganhou o nosso joguinho de gato e rato. Foi divertido enquanto durou. – Ele estava tranqüilo

-Que diabos, não fique tranqüilo quando eu posso te matar ao meu bel-prazer.

-Me matar? – Ele perguntou rindo – É tão engraçado te ouvir falando isso... Ainda me lembro daquela vez, você dizendo que me amava, era tão doce...

-As coisas podem voltar a ser como eram antes, você sabe disso. Tudo o que tem de fazer é se ajoelhar, e concordar em ser meu para todo o sempre. – Ela falou como se aquilo fosse obvio

-Me desculpe... Serio, eu adoraria – Ele respondeu

-Mas...?

-Mas não, eu nasci para ser rei, não posso ficar por baixo, entende? – Ele perguntou

-Entendo... Mas, e o meu premio?

-O de sempre... A minha área... Ou seja, o sul dessa bela cidade – Ele falou e então tirou o chapéu e o atirou para ela – Pense nisso como a minha coroa

Ela pegou o chapéu e distraidamente o acariciou – Você guardou?

-Sim, eu não disse? Ele foi a minha coroa... Mas acho que isso não é premio suficiente, certo? – Ele perguntou se debruçando sobre a escrivaninha – Que tal... – Ele então deu um beijo nela — Foi o suficiente? – Ele perguntou se afastando lentamente

Ela não respondeu

-Eu me vou – Ele falou andando em direção a porta, como se fosse um verdadeiro rei conquistador então parou na frente de um dos homens dela e tirou um cigarro do bolso – Tem fogo?

O homem o olhou surpreso

-Fogo, homem, fogo – Ele falou e ao ver que o homem estava catatônico disse – Um isqueiro, tem?

O homem desajeitadamente tirou um isqueiro do bolso e acendeu o cigarro dele.

-Obrigado, meu caro – Ele agradeceu e então saiu tranquilamente como se nada tivesse acontecido.

Um tempo depois ela começou a rir – Maldito, maldito, maldito. Porque eu não te mato?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!