Nodame Cantabile - Affettuoso ma non troppo
2 Lição II - Consequência
Kuroki dirigia o carro com uma velocidade moderada. O que era um somatório para o temperamento explosivo de Chiaki ser alimentado, o mesmo tinha vontade de pegar o volante e sair descontrolado pelas ruas.
Enquanto isso, Nodame desacordada com uma expressão suave repousava nos braços de Chiaki que fazia leves caricias em seu rosto. A pianista excêntrica suava frio e seu rosto estava quente, certamente estava com febre.
Ele se sentia culpado, pois sabia da estranha dependência que ela tinha por ele. Tudo que ela havia feito, desde a decisão de levar a música à sério até aquele instante, foi por ele. E o que ele fez? Cobrava mais e mais e ainda alimentava as esperanças dela deixando-a se aproximar e depois a enxotava de lá. E ainda reclamava quando ele não conseguia entrar na “floresta dos esquisitos” que era como ele chamava o mundo fantasioso dela.
Ao chegarem no hospital , Kuroki saiu do carro e foi até a recepção para adiantar os procedimentos , logo em seguida chegaram dois enfermeiros busca-la e leva-la às pressas para a emergência.
Já na sala de espera, Chiaki continuava olhando desconfiado para o oboísta . –Agora, acredito que eu mereça algum tipo de explicação.
– Tudo bem. – respondeu fechando os olhos e deixando os ombros caírem enquanto se sentava.
Todos na festa cochichavam sobre o sumiço repentino do casal de Ouro. E diversas suposições eram feitas. Tanya ajudava a fomentar com comentários ambíguos cheios de perversão junto com Mine. Os dois que eram os mais extrovertidos e caras-de-pau.
– Sempre desconfiei que aquele Chiaki era aquele tipo de pervertido. – falava suficientemente alto para que pudesse ser ouvida.
– Tem razão, Tanya! Aqueles dois devem estar por aí se divertindo! – Concordava, gesticulando exageradamente como de costume.
– E depois quer que acreditemos que eles não mantêm o relacionamento em segredo, até mesmo dos amigos!
Enquanto isso Frank e Kiyora tentavam se livrar da inconveniência de Rui, pois ela havia acompanhado a movimentação suspeita de longe. Frank titubeava um pouco na hora de responder as diversas perguntas de Rui que se aproveitava do laço que tinham, já Kiyora com pensamento rápido e língua afiada colocava a chinesa no seu devido lugar.
– Vocês acham que realmente me enganam? O que está acontecendo? – Pergunta Rui com toda sua petulância.
– Já disse, nada aconteceu, querida. – a violinista rebate como esperado.
– É sério, Rui. Não estamos escondendo nada. Agora vamos parar com isso antes que chamemos indevidamente atenção. – Frank tenta amenizar a tensão.
– Cada vez mais tenho certeza que estão me escondendo algo.
– Ok! E se estivermos!? O que você tem a ver com isso!? – Kiyora havia aumentado mais o tom de voz o que momentaneamente chamou atenção de algumas pessoas para a situação.
Sem respostas Rui encolhe os ombros, olha para baixo – ...
– Foi o que eu pensei... Então vá procurar outra coisa para você fazer. – No mesmo instante a mãe de Rui se aproxima da filha e questiona o que estava acontecendo ali e porque Kiyora estaria gritando com ela. Frank interveio novamente e disse que era nada apenas um mal entendido. – Senhora, estávamos discutindo sobre compositores favoritos e sabe como é... Violinistas e pianistas não costumam se dar muito bem. – disse dando uma risadinha nervosa, fazendo-o parecer tolo. O que não era difícil, sua aparência ajudava.
– É isso mesmo, Rui? – Pergunta desconfiada num tom ríspido olhando para a filha.
Kiyora, Frank e Rui se entreolharam rapidamente. A Chinesa meneou a cabeça afirmativamente confirmando a história de Frank.
Apesar dos pesares o grupo poderia dizer que conseguiu desviar a atenção de todos sobre o desaparecimento repentino do casal e ninguém chegou a questionar sobre o sumiço do oboísta. Kuroki possuía uma fama condizente com sua personalidade introvertida. Ele poderia estar tomando um ar no jardim ou ido embora mais cedo para casa, apesar de ser estranho, para alguns, ter deixado Tanya, sua noiva, sozinha na festa.
Depois de respirar fundo e olhar fundo nos olhos de Chiaki. Ele começa a contar tudo que Nodame havia falado e como isso aconteceu. Na sala de espera havia mais algumas pessoas que esperavam também por notícias de seus significantes.
– Há dois meses encontrei com Nodame por acaso no aeroporto, estávamos indo para o mesmo evento que iria acontecer no Rio de Janeiro. Ela chegou a me dizer que você não poderia comparecer por causa da Turnê pela Ásia que estava fazendo.
Chiaki ouvia atentamente, porém um pouco impaciente.
– Chegando no Rio de Janeiro e tudo parecia estar bem. Apesar de já acha-la diferente. O brilho no olhar dela quando perguntei sobre você havia diminuído. Era estranho observar isso de perto. Então, mais tarde no evento. Executamos nossas melhores peças. Ela como sempre estava ótima, porém novamente não pude deixar de notar a ausência do brilho em seu olhar. Algo faltava, aquela chama ao tocar o piano não existia mais. Fui até o camarim dar os parabéns e a encontrei no chão, desacordada.
“Nodame, você está bem?! Nodame, acorde!”
“Chiaki-senpai... é você... ?”
– Depois de muito insistir ela me contou a verdade e pediu para guardar segredo. Ela tem tomado remédios indevidamente que estão afetando todo o organismo dela. Ela não tem comido e nem dormido, então os toma para compensar –suspira e faz uma pausa média– ... Às vezes ela desmaia... A música que uma vez trouxe alegria, amigos e... Amor, principalmente isso. Agora não a satisfaz mais, só a machuca. Ela me disse que essa seria a última vez que tocariam juntos. Ela esperaria as festividades passarem e chamaria toda a mídia para informar sobre sua aposentadoria, voltaria para o Japão e iria insistir naquele papo de ser professora. – suspira. Sabia que Nodame seria um perigo para as crianças. Ela não servia para ser professora, era tão indisciplinada quanto uma criança, apesar de ter amadurecido bastante. – Espero que você não estrague tudo, nem comente sobre o que eu disse à ela, certamente vai achar que você só está com ela por pena. – Faz uma pausa. – Você sabe como foi na última vez que ela fugiu, certo?
Chiaki não conseguia formular uma frase coerente no primeiro momento. Aquilo foi uma surpresa e tanto. Porém ele não a merecia, ele teve diversas chances e havia a feito criar grandes expectativas sobre o relacionamento deles. Principalmente quando ele a deu um anel selando supostamente o amor deles que por causa da rotina pesada e da mídia venenosa que era alimentada ora por Rui e ora por Stresseman. O jovem maestro havia achado melhor dar um tempo no relacionamento e ficar apenas na amizade, apesar da pianista ter aceitado e conhecido outros rapazes assim como ele conheceu outras mulheres, nada ocorreu, pois seus corações pertenciam um ao outro. No entanto, como já foi dito, a mídia não perdoava.
Ele podia ainda sentir o gosto de Nodame em sua boca, o tato e o perfume dela que contrastava com a verdade cruel de Kuroki e a acidez de Stresseman . Enquanto se perdia cada vez mais em seus pensamentos, uma figura vestida de branco se aproximava e avisou que o quadro dela estava estabilizado e que era apenas uma queda de pressão, porém ela precisava ainda de cuidados, pois estava com pneumonia por estar com a imunidade baixa proveniente de sua má alimentação e outros descuidos. Aquilo fez Chiaki queimar de raiva, como alguém poderia se maltratar tanto por causa de alguém? Que falta de amor próprio é esse? Ele foi andando com passo pesados e bufando naquele jeito que todos nós sabemos , falando alto.
– Como alguém pode ser tão descuidado? Ela não tem esse direito de me fazer me preocupar com ela deste jeito, não têm. Ela vai ver só! – disse enquanto era segurado pelo Kuroki e o médico que tentavam acalmá-lo e impedí-lo de entrar no quarto naquele estado.
... O que foi em vão.
– NODAME! – Exclamou ao abrir a porta do quarto abruptamente.
– MUKYA! – Exclamou também naquela interjeição estranha que lhe é peculiar. – Então não era um sonho! Quando iremos nos casar? – disse com brilho no olhar.
– Idiota! Invés de ficar se preocupando com idiotices por que não cuida da sua saúde para não dar trabalho para os outros!
– Des-desculpa, senpai... – disse fazendo biquinho e desviando o olhar.
Ao ouvir senpai, Chiaki mudou de expressão. A raiva que ele sentia desapareceu num passe de mágica, aparentemente tudo voltava ao normal até o trejeito infantil de Nodame estava lá. Ele foi caminhando na direção de Nodame e beijou sua testa, logo depois comentou – Tudo bem. Não se preocupe, cuidarei bem de você.
– Como um marido deve cuidar de sua esposa? Mas não é muito cedo para isso, senpai? – respondeu constrangida.
– Para de insinuar coisas, idiota! Não é disso que estou falando! – exclama se afastando dela.
Kuroki observava a cena na porta com um leve sorriso, enquanto filmava os dois com o celular sem que eles percebessem, logo em seguida enviou o vídeo para sua noiva que mostrou para o resto do grupo. Todos suspiravam aliviados. Megumi Noda ou se preferirem, Nodame, estava bem. Chiaki havia ganhado mais uma chance, provavelmente a última de se aproximar e superar seus medos. Porém, era muito cedo para tirar conclusões... Há muito para acontecer... Afinal o amanhã ao acaso pertence.
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