Nocturna
1 Nocturna
as sinuosas curvas do teu corpo
abrigam segredos sobre antigas lendas
que ficaram por detrás de tantas montanhas
protegidas pelas mãos negras de nossos antepassados
escondidas em conchas feitas da espuma do mar.
guardo teu rosto num miúdo relicário de velha prata
cuido-te como se tivesse entre meus dedos frágeis asas de mariposa
e amo-te erroneamente como amam todos os homens
sem saber ser bom, sem saber ser sábio.
tormentos de paixão são sempre ridículos, chorar é sempre ridículo
o amor é uma outra forma que encontrei para te odiar.
os traços fugídios das curvas de seu corpo
me convencem de que está mesmo longe a lua
– não diria feminilidade, é como esta força que trazes na carne.
você é parte de tudo que espontaneiamente vive
e também de toda súbita pequena morte.
quantas palavras a tua língua pode ressucitar?
quantas vozes podem ocupar as tuas orações?
eu pensei, meu bem, mas não quis te dizer
porque amo-te como amam todos os homens e tenho medo.
caminho pelos bares da zona e faço as putas se persignarem
dizendo-lhes sem tristeza alguma em meus olhos úmidos
que o céu da tua boca foi o meu inferno.
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