Nobre Sangue
4 Capítulo 4
–Esqueci de me apresentar. Eu sou Till. – o homem disse, assim que ele e Flake se sentaram à mesa. Era uma mesa grande, retangular, feita para vinte pessoas ou mais. Parecia antiga, assim como as cadeiras com estofado de veludo vermelho.
–Prazer, Till. – Flake disse educadamente, sentando-se na cadeira que Till havia puxado para ele – Você já sabe o meu nome...
Till riu, se sentando na cadeira ao lado de Flake.
–O que você quer para comer?
–Não sei... – ele disse em voz baixa, meio envergonhado.
–Você não precisa ficar com medo. – Till pousou sua mão no ombro dele.
–Eu não estou. – Flake respondeu rapidamente, empurrando uma mecha de seu cabelo para trás da orelha – Eu acho...
–Não vou fazer nada que você não queira. Eu não sou como...
–Acho bom. Eu não gosto que fiquem me tocando.
Till tirou a mão do ombro de Flake, sorrindo. Flake sentiu seu rosto esquentar novamente. Ele não queria soar frio, só estava cansado e confuso ainda. Não sabia o que aquele estranho queria, ou porquê ele tinha pegado-o. Talvez Till o tivesse salvado, mas talvez ele fosse mau como Dirk. Mesmo assim, só a presença do homem já fazia o corpo de Flake esquentar.
Percebendo que Flake não gostava muito de falar, Till mandou seus empregados prepararem um banquete, como se fosse para as 20 pessoas que se sentariam naquela mesa. Toda essa comida só para Flake. Aí Till notou o quanto ele era magro. Era uma magreza estranha, daquela que aparece os ossos. Na verdade, Flake parecia desnutrido.
–Me desculpe a pergunta... Mas você não come? – Till disse, levantando os olhos.
Flake cruzou os braços com elegância e balançou a cabeça negativamente.
–Eu como, mas só às vezes. Só quando o Dirk me deixa comer.
–Parece doloroso para você falar...
–Não é. – Flake lambeu os lábios – É normal, eu acho.
–Por que ele não te deixa comer?
–Ah, eu faço a comida para ele, aí eu saio, ele come, e quando ele acaba de comer é que eu posso comer. Mas ele tem que decidir, ou então eu fico sem almoço e dou um jeito de comer escondido no jantar.
–Por que ele fazia isso?
–Porque ele gosta de ter um escravo para tudo. E ele quer alguém para chamar de “minha puta”, já que a minha mãe morreu. Antes que você pergunte, a minha mãe era uma prostituta, e das boas na minha opinião. – Flake suspirou, meio irritado. Não gostava de lembrar-se das coisas que Dirk havia feito com ele, e a morte da mãe também havia sido difícil.
–Eu sinto muito, Christian. – Till correu sua mão pelas costas de Flake.
–Não tem problema. – Flake sorriu timidamente e Till se encantou por aquele sorriso. Ele afagou a bochecha dele, que corou.
–Você é diferente.
–Diferente como? – Flake riu baixinho, não se incomodando com o carinho que estava recebendo.
–Ah, eu já cuidei de outros meninos, e todos eles eram tão iguais. Raciocínio mais lento, fúteis. Mas você é inteligente, pelo que eu posso ver, e... Eu não sei, tem algo em você que me fascina.
–Till... – Flake sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, mas não deixou nenhuma sair. Era a primeira vez em anos que ele recebia algum tipo de elogio.
O homem sorriu e passou seu braço em volta dos ombros dele. Logo, os empregados vieram trazendo uma variedade infinita de pratos. E Flake por um minuto notou que eles eram estranhamente pálidos, como se estivessem muito doentes. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
–Oh meu Deus... – Flake sussurrou, voltando sua atenção para os pratos sendo postos na mesa.
–Deixe as formalidades de lado, coma a seu modo. – soou a voz grave de Till. Flake sorriu timidamente, agarrando um prato vazio e se servindo de todas as comidas que tinham lá. Tinha de tudo, desde carnes, até legumes, e sopas, e massas...
Flake enfiava a comida com tudo na sua boca, como se ele não comesse há meses. E não comia mesmo. Na verdade, ele nunca tinha comido direito a ponto de sentir que ia explodir.
–Está gostando? – Till perguntou, sorrindo de satisfação. Ele não tinha comido nada.
–Está ótimo, obrigado. – Flake disse, sem parar de enfiar mais e mais comida em sua boca. E aí ele se lembrou da história de João e Maria, quando a bruxa fica dando comida para engordar o João e assim ela pode comê-lo.
–Alguma coisa errada? – Till perguntou, notando que Flake havia paralisado.
–Nada, só estava pensando. – Flake disse, e um novo pensamento surgiu a sua mente: a comida podia estar envenenada.
–No que? – a mão de Till se enrolou no cabelo loiro e comprido de Flake.
–Ah, não é que eu não confie em você... Quer dizer, eu acabei de te conhecer, então por que eu confiaria? – ele começou a respirar pesadamente, com o medo crescendo dentro dele.
Till soltou uma risada sonora e sua mão foi para o ombro de Flake.
–Christian, meu anjo, se eu quisesse te matar eu já o teria feito desde o segundo em que eu botei as mãos em você.
Flake sentiu um frio estranho tomar conta de seu corpo.
–Se lembra? – Till continuou – O apagão na sua casa...
–As mãos... – Flake engasgou – Ah, por favor, se você for me matar, pode fazer isso de um jeito rápido e indolor? – ele estava desesperado.
–Eu não acho que eu teria algum motivo para te matar, querido. Se acalme, dê espaço e tempo e você vai entender.
–Entender o que? – Flake olhou com o canto do olho para a faca de cortar carnes ao seu lado e pousou discretamente a mão sobre ela.
–Só acho que você não está preparado ainda. Vá dormir, você está cansado.
Flake se levantou junto com Till e se virou para que ele não notasse que suas bochechas tinham corado. Ele foi dar o primeiro passo em direção ao corredor, quando sentiu um beijo atrás de sua cabeça.
–Boa noite, Christian.
Flake se virou, mas Till não estava mais lá. Ele sorriu e tomou caminho para seu quarto. Começou a pensar; talvez a vida com esse tal de Till fosse melhor, sem estupro ou dor. Talvez ele tivesse sido salvo por um anjo mesmo.
Fale com o autor