Depois de uma hora, Flake acordou, mas não abriu os olhos. Ele não queria acordar para voltar para a sua realidade, para as sessões de estupro. Não era um desejo de morte, na verdade ele gostava de viver, só não gostava de ser estuprado, queria que aquilo acabasse. Mas aí, percebeu que estranhamente estava se sentindo bem, confortável. Alguém tinha colocado-o em sua cama. Dirk não faria isso, ele teria estuprado-o no chão e deixado-o para sangrar, chorando sozinho. Flake se lembra de ter sentido dois braços agarrando-o, ele não lutou e depois perdeu a consciência. Tinha alguma coisa errada naquilo tudo.

Ele abriu os olhos devagar, com medo do que ia ver. Seu coração foi parar no estômago quando ele viu que estava em um quarto que não era seu, deitado em uma cama que não era sua e vestindo uma roupa que não era sua. O quarto era grande e bonito. As paredes eram vermelhas e o chão era de carpete. Um lustre de vidro iluminava o quarto e cama onde ele estava agora sentado era grande e bem mais confortável do que a sua antiga. Ele deu um pulo e correu para a porta, forçando a maçaneta. Trancada.

“Merda...” Flake pensou, enquanto seu coração começava a acelerar “Acho que eu fui seqüestrado por um fetichista.”

Flake foi para o banheiro que tinha dentro do quarto, um banheiro grande a branco, com uma pintura linda de anjos e um céu azul no teto e uma banheira enorme. Ele olhou para a pia, onde viu uma variedade de cremes, shampoos, maquiagens e uma linda tesoura com a qual ele poderia se defender se o suposto fetichista tentasse atacá-lo. Se olhou no espelho com moldura dourada, em cima da pia; estava vestindo uma camisa grande, branca, que não era sua, e nada por baixo. Isso o deixou apreensivo, o fato de estar nu a não ser por uma camisa que vai até a metade das suas coxas.

Ele se virou para deixar o banheiro e deu um grito. Tinha um homem parado à frente dele. Estava vestido com uma longa capa branca, que cobria quase o seu corpo inteiro, mas era possível ver sua calça de couro larga e as suas botas de cano alto. Flake cambaleou para trás e caiu na banheira, batendo a cabeça na borda. Ele gemeu de dor, mas conseguiu rastejar até o canto da banheira e se encolher indefesamente.

–Não chegue perto de mim! – ele disse com a voz trêmula e se amaldiçoou mentalmente. Não queria soar assustado, apesar de o homem à sua frente ser muito mais intimidador do que ele. Mas para sua surpresa, o homem ficou mais parado do que uma estátua. Parecia que uma luz saia de sua pele branca. Na verdade, ele parecia um anjo. Flake coçou sua cabeça dolorida, se perguntando se aquilo não era um sonho, ou se ele não tinha morrido e aquilo seria o paraíso. Ele levantou as sobrancelhas e o homem riu suavemente.

–Doeu? Isso? – ele disse, sorrindo e apontando para a parte de trás de sua cabeça. Flake sentiu seu rosto formigar, de vergonha.

–Não. – ele grunhiu. A dor tinha passado um pouco – Por que eu estou aqui?

–Por nenhum bom motivo. – o homem suspirou, se aproximando lentamente de Flake, que recuou e afundou mais na banheira. Ele tinha um aspecto delicado, mas intimidador ao mesmo tempo, e isso confundia a cabeça dolorida de Flake.

–Você é um anjo? – Flake perguntou envergonhadamente.

–Talvez. – ele riu, estendendo a mão para Flake, mas ele não a pegou – Talvez eu seja o seu anjo, Christian.

Flake piscou várias vezes e parou de respirar para absorver melhor as palavras do homem à sua frente.

–Como você sabe o meu nome? E que história é essa de “anjo”?

–Eu te observo há uns dias, o seu medo chamou a minha atenção. – Flake notou, em meio à fala do homem (anjo, ou o que fosse), que seus caninos eram meio pontiagudos. Ele se perguntou se doeria muito uma mordida dele. – Foi cruel o que o seu pai fez com você.

O coração de Flake foi para no estômago e ele torceu as mãos nervosamente, estalando os dedos.

–Não, ele não é meu pai. É só o namorado da minha mãe, sabe? Mas não é meu pai.

E o anjo viu uma paz estranha tomar conta do rosto do rapaz, e se encheu de compaixão.

–Você não conheceu seu pai? – ele perguntou suavemente, se sentando ao lado de Flake na banheira.

–Não, e nunca vi o rosto dele. – Flake desviou o olhar para a pintura de anjos em cima de sua cabeça. Eles pareciam mortos, mas eram jovens e belos para sempre.

Till sentiu seu coração esquentar como nunca havia esquentado antes. Ele já havia sentido aquilo, quando tinha recebido a notícia da morte de seu pai.

“O receio deixado na cerca... Vou agora cavar todas as noites, para ver o que ainda resta do rosto que já sorriu para mim”