No som da escuridão
5 Resgatada
Acordei sem abrir os olhos, pois demorei um tempo para voltar a raciocinar direito. Me espreguicei e senti minhas mãos tocarem algo quente e macio, como almofadas. Meu corpo inteiro doía, parecia ter saído de uma sessão demorada na centrífuga.
— Minha cabeça. Como dói... – Sentei e esfreguei os olhos calmamente. Me espreguicei novamente, sentido prazer ao estalar as costas doloridas. Quando abaixei meu braço esquerdo, senti uma dor horrível e levei a mão até ele.
Havia coisas enroladas em meu braço, como faixas ou ataduras. Abri os olhos rapidamente e vi as faixas brancas envolta do braço que doía.
— Não... – Não foi um pesadelo, aconteceu mesmo. Pensei. Olhei a minha volta a procura do meu irmão. Eu estava em um quarto, todo branco e com duas janelas em cada parede. Levantei apressada e corri até uma das janelas para apenas ver nuvens no céu noturno. – Outro avião? – Sussurrei para mim mesma. Corri até a porta do quarto, mas hesitei em abri-la. Eu estava seminua e com ataduras envolta do braço, pernas e uma enrolando um pedaço da minha barriga sarada (só que não).
O que aconteceu comigo?! Estão me transformando em algum projeto de múmia?
Peguei um dos lençóis brancos sobre a cama e me enrolei nele até cobrir quase o corpo inteiro, até mesmo a cabeça. Respirei fundo e abri a porta rápido. Uma sala com sofás de couro cinza e uma grande mesa de vidro no centro se revelou atrás da porta. Haviam pessoas sentadas conversando e todas se viraram para mim no momento em que dei um passo para fora do quarto. A vergonha que eu senti não podia ser expressa em palavras, pois era maior e mais horrível do que eu conseguia explicar. Eu não sabia se alava alguma coisa ou voltava para o quarto e afogava um grito em qualquer travesseiro. Enfiei as unhas nas palmas das mãos, como eu sempre fazia quando estava em uma situação embaraçosa ou constrangedora.
— Eh... – Eu não sabia o que dizer.
Não precisei tentar falar mais nada quando uma mulher levantou do sofá com um sorriso e começou a vir na minha direção. Ela tinha traços asiáticos, aqueles olhinhos puxados, cabelos lisos e pretos, nariz perfeitinho, lábios finos e rosados e pele pálida. Era realmente muito bonita. Mesmo a moça parecendo simpática, ainda recuei quando se aproximou de mim. Não confiava mais em sorrisos.
— Não se preocupe, não vou machucá-la. – Ela falou gesticulando com as mãos para mostrar que não me faria mal. – Está tudo bem, Áquila. – Aos poucos a distância entre nós foi diminuindo. Eu permaneci no mesmo lugar, com os braços envolta do corpo, me preparando para ser arranhada ou espancada novamente.
— Por favor... – Sussurrei. Sem sentir, as lágrimas rolavam calmamente pelo meu rosto. Eu não queria mais ser machucada.
— Prometo não ferir você. – Ela finalmente parou bem á minha frente e estendeu a mão para tocar meu braço, mas parou quando eu recuei. – Vamos entrar no quarto, vou lhe dar roupas para vestir.
Não esperei ela dizer mais nada, voltei para o quarto, seguida por ela. A mulher fechou a porta atrás de nós e pediu que eu me sentasse na cama enquanto ela vasculhava um pequeno armário no fundo do quarto. Ela pegou duas peças de roupas e se sentou na cama, mantendo certa distância entre nós.
— Aqui está. – Ela estendeu as roupas para mim. Ao ver minha hesitação em pegar, ela sorriu docemente. – Por favor, pegue-as.
— Obrigada. – Peguei as roupas rapidamente e recuei as mãos mais rápido ainda.
— Bom, sei que está assustada e que precisa descansar, mas saiba que virei se precisar de mim. – Ela era fofa e ao mesmo tempo firme enquanto falava. Não era como as pessoas que me sequestram e me machucaram, talvez eu pudesse confiar nela. – Pode perguntar qualquer coisa que quiser, ou pedir.
— Você... é da polícia? – Perguntei.
— Não, salvamos pessoa também, assim como salvamos você. – A mulher na minha frente parecia estar tentando conquistar minha confiança sendo atenciosa.
— Quem eram aquelas pessoas? – Apertei a roupa com força ao me lembrar do sorriso maligno de Victor. – Onde está meu irmão? Por que estamos em um avião? Para onde vão me levar? – Comecei a fazer perguntas desesperadamente, sem pausa. A mulher precisou tocar no meu braço delicadamente para que eu parasse de falar e a ouvisse.
— Seu irmão está recebendo cuidados médicos, pois ele está muito ferido, mas eu lhe garanto que ele ficará bem. – Ela levantou da cama e parou na minha frente e se ajoelhou. – Querida, aquelas pessoas são psicopatas que ferem pessoas. Estamos em um avião indo para uma fazenda em Ouro Preto.
— Por que estão me levando para lá?
— Eu não posso explicar tudo agora. Você precisa descansar o máximo que conseguir. – Ela levantou com um sorriso leve no rosto. – Prometo que você ficará sabendo de tudo depois que pousarmos. Por hora, vista-se e venha conhecer os outros. – A mulher caminhou elegantemente até a porta e, antes de sair, olhou para mim e acrescentou: — Ah, me chamo Lydia.
Não respondi, apenas fiquei parada observando a porta fechada enquanto assimilava tudo o que Lydia havia dito a mim. Confiar em uma mulher desconhecida era o mínimo de idiotice possível. Eu queria saber o que estava havendo e o motivo de eu estar passando por aquilo. Seria vingança? Talvez.
Me vesti com o suéter cinza e a calça de moletom azul marinho e senti na cama para tentar tomar coragem de sair do quarto. Estava quente dentro do avião, mas imaginei que, como estávamos no inverno, a cidade de Ouro Preto estaria fria, por isso a mulher me dera roupas de frio. Eu não tinha a mínima ideia de como estava minha aparência, mas devia estar tão ruim que talvez fosse melhor eu não me olhar no espelho. Não me sentia bem e estava com medo daquela situação, mas eu precisava encontrar meu irmão e ver se ele estava bem.
Levantei determinada e caminhei até a porta. Minas mãos tremiam e uma lágrima desceu pela minha bochecha.
— Calma, mantenha a calma. – Sussurrei para mim mesma enquanto limpava a lágrima do rosto. – Vai dar tudo certo. – Estiquei o braço e segurei a maçaneta gelada. Suspirei na tentativa de me acalmar e abri a porta.
Ouvi pessoas conversando e rindo antes de ver todos sentado envolta de uma mesa de vidro com várias cartas espalhadas sobre ela. Havia um homem sentado em uma poltrona mais distante, ele estava focado em um notebook a sua frente. Eles não pareceram notar minha presença, ou não quiseram notar. Aquelas pessoas não pareciam com os outros, eles não tinham aquele olhar e sorriso maligno estampado em seus rostos. Mas isso não significava que eu ainda estava segura.
Me aproximei devagar, observando cada um deles e tentando não fazer barulho. Eram cinco pessoas sentadas na mesa central e mais um em outra, seis no total. Lydia estava entre os homens jogando algum jogo de cartas. Ela percebeu minha presença quando parei no batente da entrada do corredor. A mulher sorriu para mim e levantou elegantemente.
— Venha. – Ela estendeu a mão na minha direção. Todos desviaram sua atenção para mim naquele momento. Engoli a seco e hesitei um pouco antes de me aproximar. – Rapazes esta é Áquila. – Eu não sabia o que falar ou fazer então fiquei paralisada esperando alguém fazer alguma coisa.
— Seja bem vinda! – Um rapaz de olhos castanhos e cabelos até os ombros levantou e estendeu a mão para mim. Ele tinha um belo sorriso.
— Obrigada. – Agradeci e apertei sua mão.
Os outros falaram coisas parecidas e sorriram de forma amigável, mas logo voltaram a prestar a atenção em seus jogos. Lydia perguntou se eu estava com fome ou sede, mas nem mesmo esperou minha resposta antes de pedir para um dos homens ir buscar algo para eu comer. O homem de cabelos vermelhos se levantou, perguntou se eu tinha algum pedido e saiu para buscar alguma coisa quando eu balancei a cabeça negativamente.
— Bom, somos todos seus amigos, ninguém aqui vai feri-la. Lhe apresento a todos mais tarde. – Ela pediu licença aos outros rapazes e saiu de perto da mesa, comigo ao seu encalço. – Quer ver seu irmão?
— Sim! — Respondi sem pensar duas vezes. A mulher sorriu e pediu que eu a acompanhasse.
Quando estávamos indo para o final da aeronave, passamos ao lado do homem que estava mexendo em seu notebook. Lydia parou ao lado dele e esperou que ele olhasse para ela, mas quando percebeu que ele estava distraído demais, deu um tapa de leva em sua cabeça. O homem olhou para ela com olhar bravo. Eu nem mesmo estava prestando atenção quando ouvi ela falar meu nome.
— Essa é Áquila. – Lydia segurou meu ombro.
Ele apenas suspirou e voltou a olhar para o notebook.
— Eu já a conheço? – Sua voz era grave e forte, mas era uma daquelas vozes que você sentia prazer em ouvir.
— Tyler, deixe de ser desagradável! – Lydia lhe deu outro tapa na cabeça.
— Ai! – Ele bufou e levantou. – Prazer, Áquila, sou Tyler, o homem quem a salvou.
Meu coração disparou, por algum motivo desconhecido. Eu fiquei sem palavras, não consegui responder quando olhei para seus olhos. Eu não havia conseguido prestar atenção em seu rosto direito quando fora resgatada. Estava exaurida e desmaiei um pouco depois que Tyler se apresentou. Mas naquele momento eu me sentia um pouco tola por acha-lo tão bonito. Seus olhos eram cor de âmbar e tinham um formato muito bonito, sua franja caía sobre os olhos suavemente, seu cabelo era castanho escuro. Ele pareciam ter saído de um daqueles filmes de romance onde o homem é nada menos que perfeito. Aqueles lábios... Eram tão lindos.
Eu devo ter ficado imersa demais em meus pensamentos, pois fui tirada de meus devaneios com leves tapinhas em meu ombro. Quando retomei minha consciência, Lydia e Tyler me encaravam, esperando que eu falasse alguma coisa.
— Eh, prazer. Obrigada por me salvar. – Falei, completamente envergonhada.
— Você já agradeceu. – Ele estava completamente sério. Nem mesmo olhou direito para mim antes de se sentar e voltar a mexer no notebook. – Traga os documentos para mim depois e não se esqueça de pedir as passagens para daqui a três semanas.
— Está tudo feito já. – Lydia fez uma careta para ele e o empurrou. – Não trabalhe demais ou vai perder a cabeça. – Ela se voltou para mim e sorriu. – Vamos até seu irmão.
Entramos em um cômodo que lembrava muito um quarto de hospital luxuoso. Tinha equipamentos, poltronas, cortinas e um frigobar. Meu irmão estava deitado em uma cama no fundo do quarto, sendo examinado por uma senhora. Lydia pediu que eu entrasse e fechou a porta atrás de mim, a senhora sorriu disse que eu podia ficar o tempo que precisasse com meu irmão, mas que eu precisava tomar cuidado para não acordá-lo, pois ele estava descansando. A mulher me lembrava a senhora que trabalhava na biblioteca da faculdade, tinha cabelos grisalhos, olhos verdes e bochechas tentadoras. Quase não podia conter a vontade de apertá-las.
Depois que a médica saiu, sentei ao lado do meu irmão e fiquei acariciando seu rosto cheio de hematomas. Ele estava coberto por manchas roxas e ferido. Aquilo fez meu coração doer tanto que não aguentei segurar as lágrimas. De qualquer forma, eu me culpava. Aquilo não devia ter acontecido com ele, devia ter acontecido comigo. Aqueles homens não pareciam querer alguma coisa com Rick, eles estavam ali por minha causa e usaram meu irmão contra mim.
— Me desculpe. – Depositei um beijo na testa dele enquanto soluçava. Como eu queria estar no lugar dele... Por mais que eu brigasse muito com Rick, ele ainda era meu irmão mais novo e eu o amava.
Fiquei deitada ao lado dele por um bom tempo até acabar cochilando. Um tempo depois fui acordada por Lydia, ela pediu que eu fosse jantar com ela, já que eu não havia comido nada. Por mais que eu não quisesse, estava com fome e minha barriga doía então decidi aceitar e jantar com Lydia.
Entramos em uma cabine menor do que a principal, mas bem aconchegante. Era uma sala de jantar com uma mesa de vidro no centro com lugar para quatro pessoas, uma grande janela ao lado da mesa, um belo aquário artificial na parede dos fundos. A mesa estava lotada de comidas diferentes, entre elas havia bobó de camarão, peixe empanado, salada verde e sopa de legumes. O cheiro daquelas coisas deliciosas me atingiu como uma faca assim que entrei na cabine.
— Que cheiro ótimo... – Respirei fundo e me deliciei com o aroma maravilhoso.
— Sim, o cheiro está maravilhoso. – Ela ligou o rádio prateado que ficava embutido na parede. Uma melodia suave e calma começou a ecoar pela sala. – Pode se servir o quanto quiser. Eu já volto. – Ela saiu depois de me entregar um envelope preto.
Não posso esperar para comer! Esse cheiro está me matando... Pensei. Me sentei ao lado da janela, coloquei o envelope sobre a mesa e comecei a encher meu prato com todas as comidas deliciosas que eu gostava. Meu estômago não pararia de reclamar até e ter devorado três pratos cheios. Quando finalmente provei a comida, soltei um longo “hmmmmm”. Estava incrivelmente saborosa. Era como se tivesse sido feita pelo melhor cozinheiro do mundo.
Minutos depois Lydia voltou acompanhada de Tyler, ambos sentaram nas cadeiras supermacias e começaram a se servir em silêncio. Ignorei a situação um pouco estranha e continuei a matar quem me matava, a fome. Quando eu já estava no segundo prato, Tyler começou um diálogo comigo. Pelo menos ele estava olhando para mim agora.
— Então, Áquila, você deve estar procurando repostas para todos os acontecimentos e, provavelmente, não as está encontrando, certo? – Ele tomou um gole de suco enquanto me observava.
— Sim. – Respondi enquanto comia. Não era educado falar de boca cheia, mas, àquela altura, meus bons estavam cansados demais para virem à tona.
— Bom, vou responder suas perguntas e explicar o que está realmente acontecendo, então preste muita atenção em tudo o que vou dizer. Vamos começar por uma pequena história. – Uma breve pausa para ver minha reação e então ele continuou. – Há muito tempo atrás, quando os humanos nem mesmo existiam, havia deuses ou, como alguns chamam anjos encarregados de cuidar do universo. Tudo era apenas constelações, planetas e nuvens de poeira, por isso não existiam muitos problemas. Mas um dia, quando o Deus Supremo, Meralin, decidiu criar outros seres inteligentes, as coisas mudaram.
“Os deuses eram criaturas feitas de luz, eles iluminavam a escuridão com seus poderes infinitos e destruíam a escuridão que existiu desde sempre no universo. Quando Meralin criou a nova raça, os humanos, os deuses foram encarregados de manter a ordem entre todas as criaturas inferiores a eles. Não havia separação entre a terra e a Cidade Sagrada de Meralin, pois todos eram irmãos e se amavam. Mas, com o passar do tempo, algo aconteceu. A escuridão encontrou uma brecha e entrou na terra. Um mundo cheio de alegria, vida e paz, se tornou um cenário de guerra e caos. Meralin mandou seus anjos para destruir toda alma impura e curar aqueles que ainda tinham um pouco de luz dentro de sua alma. Apesar de tudo ter dado certo e a humanidade ter voltado ser pura, o Deus Supremo não tinha certeza de que a escuridão realmente havia saído da terra.”
— O que a escuridão fez com os humanos e por que Meralin não destruiu a todos? – Perguntei.
— Ela corrói sua essência, destrói toda sua memória e personalidade, apaga sua luz... A escuridão torna você um monstro devorador alma, um sedento por força vital e essência de luz. Meralin não destruiu os humanos, pois os amava.
— Tá, mas então é só isso? Os deuses vivem separados dos humanos e fim?
— Ainda não terminei, garota. – Ele olhou sério para mim e então voltou a falar. – A guerra entre os deuses e a escuridão durou cinquenta anos. Depois que a barreira entre os mundos foi criada, apenas alguns deuses receberam a permissão de ir até a terra, eles tinham como dever, manter a ordem. Tudo parecia estar indo perfeitamente bem, mas algo estranho começou a acontecer. Os deuses eram seres que amavam a todos igualmente, mas esse amor não era como o amor humano. Com o passar do tempo e a constante convivência entre os humanos, alguns deuses aprenderam outro tipo de amor, o amor causado pela atração.
“Isso foi algo completamente errado. Não havia mistura entre as raças, mas era possível ter relação entre a mesma raça. Era o que Meralin não esperava, que os deuses se apaixonassem e desse início a uma nova raça de seres. Um ser gerado pela junção da essência de dois deuses era completamente diferente de diferente de qualquer outro e muito mais poderoso. A nova raça foi chamada de Haclers. Eles tinham duas vezes mais poder que um deus e eram capazes de assumir a forma que quisessem, controlar o tempo e as matérias humanas com facilidade.”
— Eles eram algum risco para Meralin?
— A princípio não, mas a história vai piorar daqui em diante. – Ele encheu a taça de suco novamente. – Um dos deuses que lutara na batalha contra a escuridão havia permanecido na terra. Ninguém descobriu até ele se manifestar. Era uma deusa, Hiran, a deusa serpente. Ela era um das principais deuses de Meralin e havia sido dada como morta... Na verdade, como se diz mesmo, Lydia?
— Um deus não morre, ou sua essência volta ou é sugada pela escuridão. Disseram que ela havia sido aprisionada com alguns outros deuses. – A mulher comia elegantemente e tão devagar que chegava a me irritar.
— Sim, obrigada. Continuando, a deusa voltou e todos os outros deuses celebraram sua volta, mas houve um deus que suspeitou da situação. Depois de cem anos Hiran voltou e parecia estar pura e limpa de qualquer rastro de maldade, porém não era bem essa a verdade. A deusa que suspeitou de Hiran tinha a capacidade de ver além, ela podia enxergar o ponto mais profundo da alma de luz de outros deuses e viu a escuridão dentro de Hiran. A deusa contou a Meralin o que viu assim que pode. No meio da celebração de seu retorno, Hiran foi acorrentada e presa dentro do abismo mais profundo da Cidade Sagrada. A deusa não fez absolutamente nada, deixou que a prendessem e permaneceu no mesmo estado por um mês.
“Quando os deuses iam vê-la, Hiran não os encarava, continuava olhando para baixo e eles tinham a sensação de que ela sorria para eles. Depois de algum tempo parada, quando eles estavam prestes a voltar para a superfície, ela sussurrava coisas que eles não entendiam, mas, quando a deusa que aprisionou Hiran no abismo foi visitá-la para fazer perguntas Hiran a encarou com os olhos escuros e sussurrou: Meralin irá cair e eu tomarei seu trono.”
Ouvimos alguém bater na porta e um homem entrou logo em seguida. Ele era alto, tinha a pele bem morena, olhos castanhos e a cabeça raspada. Ele nos cumprimentou com um “Boa noite” e se voltou para Tyler.
— Precisamos de você lá fora. – Disse o homem.
— Já estou indo. – Tyler fez um gesto com a cabeça, que eu não entendi, mas que fez o homem sorrir para nós e sair.
— Bom, não vou poder contar tudo agora então vou resumir. – Ele pigarreou. – Hiran jogou uma maldição na Cidade Sagrada e aprisionou todos os deuses no abismo. Antes de ser aprisionada, a deusa protetora do portal entre os mundos enganou Hiran e a atingiu com a própria maldição. A deusa maligna queria usar os Haclers para destruir Meralin por isso eles foram mandados para a terra.
— Dizem que Hiran foi aprisionada junto aos deuses, mas ninguém tem certeza do que realmente aconteceu. – Completou Lydia.
— Ótima história, mas eu ainda não estou entendi como isso vai responder minhas perguntas. – Falei.
Tyler suspirou e encarou um ponto inexistente na mesa por um momento antes de dizer:
— Áquila, você é uma de nós.
— O que? Do que você está falando? – Perguntei confusa. Ele estava falando coisas sem sentido.
— Você é uma Hacler.
Cada palavra saiu como um tiro e atingiu meus ouvidos dolorosamente. Não tinha como acreditar naquela história louca. Realmente... Não tinha.
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