No som da escuridão
3 O pior
Eu ainda tremia quando cheguei em casa. Meu corpo inteiro estava frio e doía. Implorei para não ser levada para um hospital, mas sim para meu lar, minha casa, onde eu me sentia segura. Meus pais estavam espantados com o que havia acontecido e com raiva. Eles ficaram desesperados quando eu finalmente consegui ligar para o celular do meu pai.
Lhes contei sobre tudo, as meninas, as ameaças, a briga... Menos sobre o fogo. Não queria falar sobre isso antes de saber direito o que havia acontecido. Ainda estava confusa, não conseguiria tentar entender nada naquele momento.
Meu pai, antes mesmo de chegar em casa, ligou para o Dr. Santoro, melhor amigo dele e médico particular da família. Pedi que não metessem a polícia na história até eu poder falar alguma coisa e organizar meus pensamentos. Não conseguia parar de chorar enquanto falava, isso foi um dos motivos deles terem me ouvido e não ido direto para a delegacia dar queixa do acontecimento horrendo.
O doutor me examinou e cuidou dos ferimentos. Eu estava com o braço esquerdo deslocado, hematomas por todo o corpo, cortes e com o olho direito e a boca inchados. Não era algo para se preocupar demais, eu sobreviveria. Depois que o médico se foi e disse que voltaria no dia seguinte para resolver o problema na delegacia com meus pais, minha mãe me enrolou em cobertores na cama e ficou deitada ao meu lado. Ela estava chorando e pedia desculpa por não poder ter me protegido. Eu não sabia o que doía mais, os hematomas e o braço deslocado ou ver meus pais naquela situação por mim. Acho que os dois doíam demais.
— Quer que eu durma aqui com você? – Minha mãe acariciou levemente meu rosto limpando algumas lágrimas que ainda escorriam.
— Não quero incomodar...
— Não diga isso. Sabe que jamais me importaria, filha. – Ela levantou depois de depositar um beijo em minha testa. – Vou falar com seu pai. Ele está bem nervoso.
— Tudo bem. – Tentei sorrir, mas tudo o que consegui fazer foi levantar o cato da boca levemente.
Afundei no colchão macio, me cobrindo com o cobertor de pelinhos azuis até o queixo. O celular estava apitando ao meu lado, mas eu estava cansada demais para ver o que era. Não queria pensar em mais nada naquela noite, apenas dormir e não ter pesadelos. Minutos depois, mamãe apareceu novamente e se deitou ao meu lado. Ela ficou fazendo carinho em mim até que eu caísse no sono, o que aconteceu bem rápido.
Estava escuro, meus pés doíam por causa da caminhada e minha cabeça parecia estar prestes a explodir devido ao esforço. Eu estava perdida, mas parecia ter encontrado um lugar seguro para passar a noite.
— Áquila.— Uma vos suave e melódica sussurrou meu nome. Me arrepiei como um gato assustado.
— Quem está aí?! – Gritei. Não havia armas para que eu pudesse me defender. Apenas as mãos e o corpo cansado.
— Áquila, corra. — A voz era feminina. Eu não conseguia distinguir a direção de onde ela vinha, parecia estar dentro da minha cabeça.
— Por quê? Quem é você? – Olhei para todos os lados, mas só via portas e corredores escuros. O labirinto podia estar me pregando peças.
De repente uma mão sombria e pálida agarrou meu pulso. Ela surgira de dentro de uma das paredes e me puxava para dentro da pedra sólida que se abrira para revelar um caldeirão de fogo. Me desesperei e comecei a tentar me soltar.
— Não! O que está havendo? – Eu tentava desprender meu braço, mas a mão era mais forte que eu.
Minhas veias começaram a brilhar e meu corpo queimava, irradiando luz para todos os lados. Em alguns segundos, a mão que segurava meu pulso se tornara cinzas e minhas mãos estavam segurando o fogo do caldeirão como se fosse concreto. Eu me sentia bem, mas aquilo parecia ter sugado um pouco mais da energia que me restara.
— Áquila, corra. A escuridão está vindo até você.
Sem esperar mais, dei ouvidos a voz misteriosa lancei-me em uma corrida desesperada pelo labirinto do vazio.
Acordei suando frio. Havia tido mais um sonho bizarro e sem sentido. Minha mãe não estava mais ao meu lado, em seu lugar estava um pequeno bilhete escrito com suas letras perfeitas.
“Estarei de volta ás 3h. Vamos até a delegacia, esteja pronta. Mila já tem todas as instruções e irá ajudá-la no que precisar. Te amo, querida”
Não me dei o trabalho de tirar o bilhete do lugar, apenas o li e levante delicadamente da cama, tentando não fazer esforço com o braço que estava enfaixado. Minha cabeça doía muito e meus olhos estavam inchados. Eu parecia ter saído de um filme de apocalipse zumbi. A melhor parte era que eu não estava mais em estado de choque. Só sentia vontade de poder voltar no tempo e ter levado uma gangue comigo para ter espancado aquelas vadias, mas isso não era possível.
Peguei meu celular sobre a minha mesa de estudo e me deparei com doze ligações de Clara mais vinte e três mensagens. Antes de sentar na varanda para ligar para minha amiga, fui ao banheiro escovar os dentes e me enrolei no meu roupão azul. Ela atendeu no segundo toque.
— Áquila! Meu Deus, eu estava desesperada! Por favor, diga que está bem e que aquelas galinhas não arrancaram nenhuma parte do seu corpo. — Ela disparou, sem nenhum intervalo. – Eu fiquei preocupada quando você não voltou, falei com seu pai, mas disse que você não havia ligado e o jogo já estava prestes a começar. Só soube o que aconteceu quando o jogo terminou. Implorei para meus pais me levarem até a sua casa, mas eles disseram que era melhor deixar você descansar e que sua mãe dissera que você estava em estado de choque. – Clara finalmente parou para respirar. – Eu fiquei tão nervosa...— Minha amiga começou a soluçar no telefone.
— Clara, por favor, não chore. Eu estou bem... Viva, pelo menos. Já passou e eu quero muito ver você, mas vou á delegacia mais tarde então só vamos poder nos ver á noite.
— Está bem. Eu vou levar seu sorvete favorito e um pote gigante de açaí.
— Se é para receber esses mimos todos, vou ser espancada todo final de semana. – Brinquei, mas Clara não pareceu gostar muito da brincadeira.
— Não diga isso! Sua situação é séria, Áquila. Não brinque com uma coisa dessas.
— Desculpe, só estou tentando não ficar triste por ter sido espancada por um bando de vacas.
— Tudo bem, acho que só estou nervosa por você está ferida. — Ouvi alguém falando no fundo da ligação, mas não entendi bem o que a pessoa disse. – Meus pais mandaram melhoras pra você e disseram que irão visitá-la assim que puderem. — Uma breve pausa. – Ah, e disseram que a amam.
— Agradeça e diga que eu os amo também.
— Eu direi depois. Agora tenho que ir. Ainda não levei a Marina para se exercitar hoje. — Marina era a fêmea de pastor belga que Clara tinha. – Não faça esforço! Nos vemos mais tarde.
— Pode deixar “mamãe”. – Eu ri. – Te amo. – Sussurrei, tentando não deixar transparecer minha dor.
— Também te amo, irmã. Até.
— Até.
Deixei o celular jogado sobre a minha mesa de estudos e fui direto para o andar de baixo. Assim que apareci na entrada da cozinha, Mila veio correndo para ver se eu estava bem. Ela começou a chorar ao ver meu estado disse que faria de tudo para que eu melhorasse logo. Agradeci a ela e disse que eu tinha sorte por tê-la na família. Além de uma empregada maravilhosa, Mila era uma amiga e segunda mãe para mim.
Terminei o café da manhã quando o relógio bateu dez horas. Tomei os remédios receitados pelo médico e fui me sentar na sala para ver televisão ou dormir no sofá, mas parei na metade do caminho quando vi meu irmão descendo as escadas com cara de sono. Ele parou de descer assim que me viu e Fe sua famosa cara de arrependido. Desta vez, não havia uma segunda intenção, ele realmente parecia estar arrependido e triste. O ignorei e continuei minha caminhada torturante até o sofá.
— Áquila! – Ele correu até mim e se jogou no tapete se joelhos. – Por favor, me desculpe. Eu não sabia que ela havia pegado meu celular e...
— Não precisa se explicar. Se você não se metesse em tanta confusão, eu não teria acreditado na mensagem e estaria bem agora. Mas ainda sim, a culpa não é sua. Não tinha como evitar.
— Eu sinto muito... – Ele se sentou ao meu lado.
— Não sinta. – O empurrei com meu braço (relativamente) bom. – Vamos assistir The Walking Dead e afogar minhas dores em um copo de chocolate com baunilha.
Meu irmão sorriu e ajeitou a almofada para eu me deitar e jogar as pernas sobre ele, como eu sempre faia quando assistíamos algo juntos.
— Não. Você vai fazer meu chocolate com baunilha. – Sorri.
— Mas...
— Considere isso como um pedido de desculpa e vá. – o empurrei mais uma vez e então ele levantou emburrado em direção à cozinha.
Comecei a passar os canais para ver se havia algo de interessante na TV, mas não encontrei nada que me interessasse então fechei os olhos para cochilar enquanto aguardava meu chocolate, mas uma dor chatinha começou a me incomodar. Primeiro começou apenas como umas pinicadas no peito, eu ignorei, mas a dor foi aumentando até se tornar pontadas fortes no coração. Me joguei no chão, gritando de dor e com falta de ar. Rick e Mila vieram correndo da cozinha e tentaram me levantar, mas toda vez que eles me tocavam a dor aumentava.
Mila pegou o telefone correndo e ligou para a emergência, Rick ficou ao meu lado sem saber o que fazer. Parecia que meu coração estava sendo rasgado ao meio. Meus pulmões queimavam e eu não conseguia repirar direito. Que dor horrível. Eu nunca sentira algo tão forte antes.
— Calma, querida, a ajuda está vindo. Vai ficar tudo bem. – Mila tremia de desespero, mas não tocava em mim e tentava manter a calma. – Rick, ligue para seus pais agora! – Ela entregou o telefone nas mãos do meu irmão.
— O remédio... – Gemi. – A caixinha azul. – Tossi e voltei a chorar de dor.
— Onde? No seu quarto?
Assenti com a cabeça. Mila levantou e subiu a escada correndo enquanto Rick tentava se comunicar com meus pais.
— O telefone está mudo e o meu celular, sem sinal. – Meu irmão jogou o telefone no sofá e se ajoelhou ao meu lado novamente. – Aguenta firme.
De repente a dor parou. Simplesmente desapareceu. Voltei a respirar, mas continuei soluçando. Rick não se moveu, só perguntou se estava tudo bem. Fiquei um pouco tonta assim que me sentei, mas estava bem melhor.
— A dor parou. Sumiu.
— Tem certeza? – Ele segurou meu ombro com olhar preocupado. – Sabe que ainda vamos levá-la para o hospital, não é?
De repente ouvimos um estrondo vindo do andar de cima. Não pensei duas vezes antes de levantar e sair correndo para ver se estava tudo bem. Rick subiu na frente e pediu que eu ficasse atrás dele. Quando chegamos na porta do meu quarto nos deparamos com Mila jogada no cão, desacordada, e um homem de jaqueta preta abaixado ao lado dela. O sujeito virou o rosto para nós e sorriu. A íris de seus olhos eram vermelhas. Segurei o pulso do meu irmão e o puxei para trás.
— O que você fez com ela?! – Gritei.
Ele sorriu. Um sorriso sinistro que arrepiou até a alma. Tinha quase certeza de que Rick já tinha se borrado àquela altura.
— O mesmo que farei com vocês. – O homem estendeu uma das mãos para cima. Não tive tempo de fazer nada. Em questão de segundos, perdi a consciência.
Ouvi vozes, pessoas rindo, conversando e o barulho de motor de carro. Minha garganta queimava, eu não conseguia falar. Quando abri os olhos, a luz também queimou meus olhos e eu tive que fecha-los novamente até conseguir me ajustar a claridade.
— Parece que a menininha está acordando. – Disse alguém ao meu lado.
Finalmente consegui abrir os olhos de novo e me vi em uma vã, cercada de pessoas desconhecida e com rostos nada simpáticos. Rick estava inconsciente na outra extremidade do veículo, havia um homem ruivo ao seu lado brincando com uma faca. Ele só deve estar querendo me assustar mais, pensei. O homem que estava ao meu lado voltou a falar comigo, desviando minha atenção para ele. Seus olhos azuis eram como duas adagas impiedosas que se cravavam em mim, seus cabelos loiros estavam amarrados para trás em um coque e seu sorriso maligno, estampado em seu rosto pálido.
— Quem são vocês? – Me arrependi de ter falado, pois parecia que um líquido fervente havia descido garganta abaixo.
O homem soltou uma risada seca e acariciou meu rosto de forma rude.
— Quem somos, querida? – Ele sacou uma faca do cinto e a erguei na minha direção. – Você logo irá descobrir.
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