"No silêncio da madrugada"

1 No silêncio da madrugada


No silêncio da madrugada fria e escura, tento escutar aquela voz.

Ouço seu murmurar e até o seu pranto soprar de leve em meus ouvidos.

Desconfio do sofrimento que deveras sente.

Sufoco meu pesar e resolvo me entregar...

Como posso saber por que estás a chorar?

Resolvo encontrá-lo. Vou até a madrugada escura para resgatá-lo.

– Aqui é frio e triste, como podes viver aqui?

Vejo-te na penumbra...

– Porque você não quer vir? Aqui a noite é muito dura. Venha! (eu chamo)

Cheio de desconfiança ele se aproxima. Ainda não posso ver o seu rosto, a escuridão é quase completa.

Apenas uma pequena luz brilha no caminho de volta.

Quando me viro para lhe dar a mão, aquela pequena luz ilumina de leve e enxergo a ferida em seu peito desnudo.

– O que é isso? (eu pergunto)

– Foi uma ferida muito, muito profunda que não quer curar. Por isso eu vim parar aqui, nessa madrugada fria.

– E você não quer sair? Venha! Eu vim lhe buscar!

Ele me olhou em dúvida, muito desconfiado por não me conhecer bem.

– Não sei, está frio aqui e às vezes isso ajuda a não sentir dor. E a escuridão me permite não enxergar essa ferida.

– Você quer conversar sobre ela? (Indaguei)

– Não sei.

– Talvez lhe faça bem.

– Mas eu nem lhe conheço, como posso confiar em ti? (ele me perguntou)

– Mas você está aqui só, e com essa enorme ferida no peito! Penso que não é muito importante nos conhecermos! O que importa é que vim até aqui disposta a lhe resgatar, pois já estive aqui certa vez.

– Já esteve aqui? (ele me perguntou surpreso)

– Sim, mas essa é outra história, falaremos depois sobre isso. Porque você não me conta quem lhe causou essa ferida?

– Eu não me lembro! Só sei que dói e vim parar aqui. Perdi-me, nem sei mais de que ou de quem...

– Talvez tenha se perdido de você mesmo. E quem lhe causou isso, eu posso imaginar!

O interessante é que nossos diálogos não eram para lábios e ouvidos. Podíamos escutar um a mente do outro.

– Meu peito dói! Dói! Quero chorar, mas não há lágrimas... Isso é enlouquecedor!!!! Mas é como se uma força me prendesse aqui.

– Você precisa lutar contra essa força e vir comigo! Não vê aquela luz ali no fundo? É a saída! É de onde eu vim!

– E porque você veio?

– Ouvi seu pranto seco.

– Mas poderia ter ignorado...

– Não, não poderia! Era como se eu ouvisse um chamado seu.

– Mas você me conhece?

– Não, mas é como se conhecesse. Sinto que te conheço. É estranho, mas sei que posso tirá-lo daqui.

– Está bem! Mas você cuidará da minha ferida?

– Sim, eu prometo! Vou curá-lo e voltarás a ser quem sempre foi. Não prometo fazê-lo esquecer, a cicatriz permanecerá, mas será apenas uma lembrança vaga e a felicidade voltará a brotar no seu coração.

– Então vamos!

– Me dê a sua mão. A passagem será dolorosa, mas será rápida.

E passamos. Voltamos. Estávamos cansados, então nos deitamos.

Quando abri os olhos, não o vi mais ao meu lado.

O procurei por toda casa silenciosa e calma.

Passei pelo grande espelho da sala e vi a cicatriz... em meu peito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!