No mundo que seguiu adiante
1 Colt e Remington
Colt foi criado como segundo filho. Um secretário, um ajudante, sem herança e sem nada digno de nota. Por mais que às vezes pudesse se rebelar contra a situação secundária que lhe cabia, jamais passaria por sua cabeça rebelar-se contra seu irmão. Remington era o herdeiro, seu senhor e protetor do baronato. Na verdade seria, quando passasse no teste que lhe tornaria um homem digno do direito de sucessão e seu pai morresse.
Apesar da diferença de idade, Remington garantiu que esperaria a idade de Colt e os dois fariam o teste juntos. Muitos entenderam que isso era uma prova da alma generosa de Remington, que adiava seu teste para dar assistência ao irmão mais novo nos treinamentos que antecediram o teste. Mas uma voz contrangedora dizia a Colt que o irmão temia o próprio teste e se sentiria mais seguro tendo o caçula ao seu lado durante os treinos.
Colt era profundamente grato por não lhe caber as funções de protetor. Assistia as aulas, lia alguns livros, treinava um pouco. Havia alguma cobrança, mas nada perto do que Remington passava.
O irmão mais velho não era brilhante e o sabia bem, mas era esforçado, ciente dos seus deveres e que deveria dar o melhor de si. Jamais poderia brilhar mais do que o pai, que inovou a irrigação, criou um sistema para cruzamento de novilhos que quase não gerava mutantes. Mas se Remington mantivesse água, comida e territórios durante a sua gestão, seria o mais agraciado dos homens.
Os anos passam de forma mais rápida a medida que o mundo avança. Os dois anos que separavam os testes de Remington e de Colt transcorreram como se fossem um par de meses. O dia dos testes se aproximava. Colt sentia a pertubação do irmão crescer cada vez mais e conforme a data chegava, mesmo tendo mais dois anos de preparação extra, o irmão herdeiro não conseguia esconder mais seu nervosismo. O teste era bem simples, escolha uma arma e derrube o seu professor de armas. Seria fácil se o velho Cort não fosse a montanha disforme de carne que era. Colt escolheu a lança, arma na qual tinha maior destreza. Remington escolheu o machado de lâmina dupla e pela sua escolha o caçula viu seu desespero: não era a arma que dominava, era a arma que causaria maior dano caso ele acertasse.
Remington olhava o irmão sentado no banco de madeira da casa de armas. Parecia nervoso, mas não estava em pânico. O jovem lanceiro deveria ter um plano, um plano eficaz, ou não estaria tão tranquilo. O irmão mais velho, sabendo da fidelidade de Colt resolve jogar com uma arma que conhece bem: o coração do irmão.
- Colt, irmão, parceiro, meu único aliado é você. Ao entrarmos nessa arena eu serei julgado por uma capacidade que nós dois sabemos que não possuo. Não posso enfrentar Cort, a derrota seria desonra para nosso pai. Mas você é o filho do sangue dele, nas suas veias corre a verdadeira chance de saírmos dessa com dignidade.
Remington explica que pedirá para que os dois entrem juntos. Os dois contra Cort. Aí terão uma chance. Colt irá distrair Cort e Remington dará um golpe que o porá de joelhos e os dois saírão do teste como os irmãos unidos que sempre foram.
Colt amava o irmão, apesar de nunca terem convivido muito. Ele entendia que a pressão sobre o irmão mais velho o impedia de ter muito contato com quem quer que fosse. O apelo de Remington o tocou profundamente e ele concordou. Remington correu dali e chamou o pai. Disse ao pé do ouvido do protetor que Colt dizia que não entraria de forma nenhuma na arena. O filho herdeiro disse que o caçula estava histérico e que não faria o teste sem a presença do irmão na arena. O dinh consultou Cort e explicou a situação: seria possível abrir uma exceção para evitar um desastre? Cort respondeu com uma gargalhada de tamanha potência que foi complicado ouvir ele dizer que ele derrubaria 20 dos franguinhos, quanto mais dois? Assim seria feito, Remington e o irmão entrariam juntos para enfrentar o mestre de armas.
Ao voltar uma mudança visivel havia se operado em Remington. Ele estava tranquilo. Havia uma paz imensa em sua expressão e só de saber que ajudara o irmão, Colt também estava em paz. Quando finalmente entraram na arena, Cort estava ofegante dos outros testes. Sua imensidão de carnes estava reluzente no sol do meio dia. O suor brotava da sua cabeça calva como uma nascente de rio. A etiqueta mandava: sem armaduras. Assim sendo, Cort, Remington e Colt estava com suas calças de montaria e de torso nu. Remington alto e esguio como uma flecha de marfim. Colt era mais baixo, um pouco mais atarracado, mais moreno, mais camponês. Cort ao vê-los diz em tom de zombaria:
- Agora aceitamos de dois em dois, para acabar com essa lenga lenga antes do jantar!
Enquanto viam Cort escolher sua arma Remington fala em tom mais baixo para o irmão:
- Você é meu general, meu comandante, meu parceiro, a partir desse momento.
Ao lembrar as palavras do irmão, seis meses depois, Colt ainda poderia sentir uma imensa revolta dentro de si. A cenas entrecortadas sempre acompanhariam a memória de Colt. Mesmo que tenha 200 anos, como os homens antigos, mesmo que tenham rodado mil rodas, mesmo que ele pudesse parar o tempo. Ele sempre se lembraria do dia do teste e de Remington.
Os movimentos inciais do combate deram esperança a Colt, eles poderia realmente ganhar e derrubar Cort se seguissem o plano de Remington. Mas para Remington a luta já estava perdida antes de entrarem na arena. Havia uma única saída para que não houvesse uma derrota humilhante para ele, mas essa saída não seria para Colt. Afinal, Colt era um segundo filho, sem herança e sem responsabilidades. O caçula levou o primeiro golpe a tirar sangue, na panturrilha. A lança que Cort pegou para defender a sua própria lança era rápida. Vendo que o jovem aprendiz continuava a não manter a guarda das pernas (como sempre) Cort resolve que ali ele daria seu golpe final, nada mortal, claro, mas o rapaz não estaria capacitado a nada se continuasse assim. Talvez enrolasse mais, para que os hedeiros não fizesem tão feio na arena. Remington pouco fazia além de defender-se dos golpes de Cort. Parecia procurar um ponto que o pudesse atacar precisamente. Colt, ao menos, achou que era isso.
Mas o caçula não imaginava que o irmão mais velho aguardava o momento oportuno bem distante do plano combinado. Quando Colt recebeu o segundo golpe na perna ensanguentada Remington levantou guarda lado a lado do irmão.
O machado erguido, uma expressão valente. Colt conseguiu admirar o seu dinh por meio da dor crescente na perna. E então o mundo congela. O tempo começa a pregar uma peça cruel nos olhos de Colt. O mestre de armas está girando a lança por cima da cabeça, Remington está do seu lado, há a dor. Colt lembra de Remington nos jogos da colheita, Mãos Rápidas era como o chamavam. Moedas e pedrinhas que ele fazia sumir e aparecer. Não era magia, era a rapidez. Chame atenção para uma coisa grande e as pequenas passarão desapercebidas. Remington não esqueceu suas habilidades. Decerto que não. A coisa grande era Cort, exibindo sua maestria na lança. A coisa pequena era Remington, assegurando seu futuro posto de dinh. Mas nesse mundo congelado Colt vê o irmão agindo como se dançasse. Com os olhos fixos em Cort, Remington pega a mão esquerda do irmão e a encosta no seu ombro. Então Remington pula e daí então está em frente a Colt, com as costas nuas expostas para a lâmina de Cort que descia. Aí havia apenas a mão de Colt segurando o ombro nu do irmão.
O que as pessoas viram foi Colt puxar o irmão como escudo humano contra mais uma investida de Cort. O que Colt viu dificilmente será explicado em palavras.
Seu dinh, seu parceiro, seu irmão, extendido ensanguentado no chão de pó da arena. Seu pai passa correndo, o derruba no chão. O mestre de armas já carregando Remington para longe. O tutor de história gritava e chutava Colt paralisado no chão, ainda com a lança em punho.
O que acontece depois disso? O que aconteceu nos dias seguintes? Essas perguntas não precisavam ser respondidas. A principal pergunta foi respondida ainda na arena ensanguentada. Alguém que trapaceia no teste está banido do baronato e perde qualquer direito que tenha e o filho único de um dihn não precisa ganhar no teste, só precisa fazer.
Duas semanas depois, Colt sai na madrugada da sua nova vida. Um garoto, ainda sem idade para o teste entrega a ele um papel com a letra de Remington. "Quando eu for dihn você poderá retornar."
A fidelidade de Colt calou qualquer revolta até sua saída do baronato. O segundo filho da linhagem de Eld era agora segurança numa caravana de exploração. Um eufemismo para uma morte certa.
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