Notas iniciais
Para a querida que deixou o lindo comentário para mim, acho que ela merece saber como continuou a noite.

Não me lembro se tive sonhos ou se simplesmente desmaiei de sono, voltei a ter consciência quando ouvi meu celular vibrando na sala.

Quando você trabalha em qualquer área a qual você precisa estar a disposição 24 horas/ 7 dias por semana, você começa a treinar seus sentidos para situações como esta.

Bernardo estava virado para o outro lado, o lençol cobrindo seu quadril para baixo, ele dormia tranquilamente, com certeza apagado como eu estava. Levantei da cama lentamente, sem querer fazer barulho, a cada movimento meu, olhava para Bernardo verificando se tinha acordado. O celular parou de vibrar quando consegui sair da cama, mas meu lado profissional não me deixou voltar para a mesma, tinha que retornar e saber do que se tratava.

Peguei a camisa de Bernardo no corredor para não ficar nua no meio da casa, mesmo sabendo que ele tinha me visto por inteiro ontem a noite, não queria que ele acordasse comigo nua perambulando pela casa dele. No caminho para a sala meu celular volta a tocar, chego em minha bolsa e vejo que a ligação é da base central de meu trabalho.

— Pois não?

— Doutora Helena, você está sendo requisitada para assumir plantão imediato na base 3. — Engasguei com a minha própria respiração, olhei para Bernardo dormindo na cama com certo desespero, logo hoje?

Quem falava era Ruti, secretária do meu chefe. Meu coração acelerou, milhões de pensamentos explodiam em minha mente. Será que ele me viu? Será que ele sabe de Bernardo? Será…? Respirei fundo.

— Ruti, eu tô de folga. Não posso assumir um plantão de emergência. — Ela nem esperou eu terminar de falar.

— Doutor Alan a requisitou para assumir imediatamente o plantão na base 3. — Rangi os dentes, gemi de raiva. Tinha que ser ele. Saltitei de raiva perto do sofá como uma criança fazendo birra por algo desejado, quando me lembrei de onde estava, parei imediatamente e olhei para Bernardo.

Ele não havia se mexido.

Respirei fundo novamente, eu não ia desistir tão fácil.

— Ruti, mas isso não vai dar problema no banco de horas? Por que eu?

— Doutora, está aqui registrado sua assinatura em um memorando que diz que quando necessário, poderia ser requisitada para plantões extras na falta de outro médico. Não vai dar problema no banco usando esse.

— E se eu não assumir? — Falei com a voz derrotada.

— Advertência grave no registro.

Pulei com os dois pés de raiva, resmungando. Fazia dois anos que tinha assinado aquele memorando, eu era recém chegada, em dois anos nunca fui requisitada. Tinha que ser logo hoje?

Olhei para o teto, desesperada. “Tá de brincadeira comigo? Isso é algum tipo de sinal?” Sussurrei para qualquer divindade que me olhava do céu. Bufei.

— Estou a caminho.

Desliguei o telefone logo depois para não dar a ela uma chance de resposta. Olhei para Bernardo, estava na mesma posição de quando saí da cama.

Por que eu não deixei o telefone tocando?



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Por Bernardo

Não me lembrava a última vez que tinha dormido tão bem em uma noite.

Eu estava feliz, me sentia realizado, completo e tudo por causa dela. Helena, minha Helena.

Virei o corpo para onde ela estava na cama, levantei a mão para acariciá-la, acordá-la com carinho. Queria cozinhar algo para ela, mesmo sendo um desastre na cozinha. Queria agradá-la.

Passei a mão pelos lençóis.

Estiquei o braço, ela pode estar mais longe do que imaginei. Nada, só colchão e lençol.

Abri o olho.

A cama estava vazia.

“Ela fugiu?”, “Será que ela não gostou da noite?”, perguntas e mais perguntas em minha mente, até que meu subconsciente respondeu. “Ora Bernardo, já fez isso com tantas mulheres. Talvez tenha chegado a sua hora.”

Não.

Não era possível.

Com Helena foi diferente, não foi só por prazer, teve sentimento.

Meu coração acelerou quando vi um pedaço de papel no travesseiro que ela usou. Peguei violentamente.

Fui requisitada no trabalho, tive que sair correndo, não queria te acordar.

Me liga.

Helena.

P.S. Peguei uma peça de roupas suas porque não iria trabalhar com um vestido rasgado.

Um sorriso se formou no meu rosto.

Ela não fugiu.

Ela gostou também.

Mandei meu subconsciente para o quinto dos infernos quase pulando de felicidade. Entendo completamente Helena, nossos trabalhos são 24 horas a disposição, e se recusarmos, nós que somos os ruins na história. Respirei aliviado, eu não sabia onde era sua base, mas poderia descobrir.

Iria surpreendê-la.

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Liguei para Nathália e consegui a informação da base de Helena. Passei no shopping e comprei um vestido novo — graças a Deus todas as informações estavam na etiqueta do rasgado. -. Se eu conseguir terminar tudo a tempo, conseguiria roubar Helena alguns minutos para o lanche da tarde. Ela poderia me explicar o que aconteceu e nós poderíamos ficar juntos mais um pouco.

Estava dentro do carro, indo para a base, quando meu celular toca, é Lúcio.

— Fala parceiro.

— O-oi Be-be-bernado . — Freei bruscamente na pista e encostei o carro. Lúcio nervoso? Algo de muito sério tinha acontecido.

— Você pode falar direito ou vai ser pelo nosso código? — Ele diria “Aram” se fosse só pelo nosso código. Quando você é designado para ficar com um parceiro na polícia, você querendo ou não, cria uma amizade, uma ligação, um dever de que devemos sempre nos proteger.

— Po-po-posso falar. — Lúcio tentava se acalmar, conseguia ouvir isso pela sua voz.

— Você pode me encontrar? — Ele falou pela primeira vez sem gaguejar. Olhei para o relógio, tinha 20 minutos para chegar no intervalo de Helena, pensei nas relações que tinha com ambos, qual era mais importante naquele momento.

Qualquer coisa, eu conseguiria pegar Helena no horário do jantar.

Encontrei Lúcio em uma padaria, bem movimentada. Isso não era bom, ele queria estar em um local público. Ele estava sentado em uma cadeira apoiado na mesa, sentei na outra cadeira, sem anunciar e falei:

— Desembucha. — Ele respirou fundo.

— Sabe o Rosa Branca?

— VOCÊ ACHOU ELE? — Não gritei, por um milésimo de segundo que pensei, mas sussurrei extremamente alto.

— Não, mas um dos capangas dele me achou?

— Quê? — Fiquei assustado.

— Acabei de voltar de uma “reunião” com o que parece ser, o assistente do Rosa Branca. — Lúcio fez com a mão gestos de aspas na palavra reunião. — Eles estão com a lista de todos os policiais que participaram do tiroteio no Pôr do Sol.

Meu corpo inteiro congelou, meu coração tentava esquentá-lo com as batidas, mas suas batidas eram tão rápidas que o sangue não chegava. Lúcio não me deu a chance de falar.

— Eles querem corromper todos, querem que fiquemos do lado Dele. — A ênfase na última palavra indicada que ele estava falando de Rosa Branca.

— Suborno? — Perguntei com a voz falha.

— Sim

— O que você disse? — Falei nervoso, a situação toda parecia ter caído no meu colo. Mesmo com todos os anos de amizade, eu não sei se conseguiria ser amigo de um policial sujo.

— Eu recusei. — Lúcio pareceu ler minha mente, me repreendendo com o olhar por eu ter pensando na possibilidade.

— E agora? — Falei preocupado.– Surpreendentemente eles não me ameaçaram, mas já liguei para minha mulher e vou me mudar. Eles só disseram que na hora certa, vou me arrepender.

— A é? — Fiquei confuso, não era assim que funcionava os subornos normalmente, os caras ameaçam você dos pés a cabeça. Precisa mudar de endereço, de cidade e até de base dependendo do perigo

.– Sim, mas Bernardo, te chamei aqui porque você estava lá também. Você ficou ferido, eles sabem quem você é. — Lúcio falou preocupado.

— Não se preocupe, quando eles vierem também recusarei. — “Mas e Helena?” Meu subconsciente perguntou. Era verdade, antes eu não tinha preocupações, eu poderia mudar de cidade sem me preocupar com o que deixava para trás. Agora eu eu tinha ela.

Eu a protegeria.

Lúcio me analisou e sorriu.

— Onde o senhor arrumado estava indo? — Ele riu em deboche, eu ri e dei um soco em seu braço, me levantando.

— Não é da sua conta.

— Pensei que o nome fosse Helena. — Lúcio gritou enquanto saia da padaria. Eu balancei a cabeça em negação, não dava pra ter privacidade com esse cara.

A caminho da base de Helena, pensei em várias maneiras de fugir com ela caso necessário. Ela poderia pedir transferência para a mesma cidade que a minha, mas não é todas as cidades que tem serviço de emergência. Ela poderia trabalhar em um hospital, mas será que ela gosta de hospital? No jantar ela falou tanto de como ama seu trabalho na ambulância. Bufei nervoso.

Calma Bernardo, vai ver não vai precisar nem fugir.

A base foi difícil de achar, se não tivesse as instruções de Nathália, eu tinha desistido da surpresa e ligado para Helena para ela me ensinar. Estacionei e tive sorte de ser ela que veio verificar quem era.

— Já estava considerando ir atrás de você depois do plantão. — Ela sorriu, um sorriso grande. Me abraçou entrelaçando seus braços em meu pescoço e me beijou rapidamente, gostei dessa recepção.

— Desculpa, quis vir mais cedo, mas tive um imprevisto. — Falei enquanto ela me abraçava. Ela olhou para a porta da base rapidamente e pegou na minha mão, sorriu quando viu a caixa e me puxou para atrás de meu carro.

— Vem aqui. — Encostamos na traseira do meu carro e ela me olhou preocupada. — Tá tudo bem? Você tá meio pálido. — Esqueci de verificar se minha cor tinha voltado ao normal.

— Está. — Balancei o ombro, tentando mostrar despreocupação. — A palidez é falta de vitamina D. — Ela soltou uma risada que me fez me apaixonar mais e então olhou pra caixa.

— Presente? — Tinha esquecido que segurava a caixa todo esse tempo.

— Sim e não. — Eu ri. — É presente, mas algo que eu estava devendo. — Ela riu, entendendo e me abraçou de novo.

— Por que estamos escondidos? — Sussurrei em seu ouvido. Ela ficou na ponta dos dedos para responder no meu.

— Porque existem pessoas fofoqueiras aqui. — Sorri em resposta e a beijei. Eu sei que ela poderia ter problemas, mas esse imã que puxava a gente falava mais alto. Ela retribuiu, mas logo me empurrou.

— Desculpa, não posso abusar. — Suas bochechas estavam rosadas e olhava repetidamente para a porta da base.

— Que horas você sai?

— Amanhã de manhã. — Ela falou bufando. — Eu juro que um dia eu vou matar meu chefe.

— Não acho que esse é o tipo de coisa pra se falar abraçada com um policial. — Falei rindo, ela riu.

— Quando o policial não está trabalhando pode falar sim.

— O que aconteceu?

— Ele pediu pra eu assumir o plantão aqui porque não tinha médico, mas eu descobri que tinha outro médico requisitado, ele que dispensou. — Fiquei espantado.

— Sabe por que ele faria isso?

— Porque ele é um idiota…? — Ela respondeu com raiva, respirou fundo e continuou. — Não sei, eu desconfio de muitas coisas, mas não posso alegar nada porque não tenho provas.

— Chefe abusivo esse seu. — Comentei

— E ele nem entrar numa ambulância já entrou, não sei como ele chegou nesse cargo. Me indigna isso. — Olhei para ela, estava com raiva e triste.

— Desculpa sair sem avisar, eu não queria acordar você e eu estava com tanta raiva que poderia acabar descontando. — Eu ri.

— Se você descontasse sua raiva em mim eu não iria te deixar sair da cama. — Eu a beijei, nós rimos juntos entre o beijo, quando um grito fez ela se afastar.

— Helena! Ocorrência! — Ela deu um pulo se afastando de mim.

— Droga.

— Eu te busco amanhã, pode ser?

— Sim, saio as 7. — Ela me beijou se despedindo e saiu correndo para a ambulância que já estava de saída.

É, acho que tenho uma namorada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.